No Fim da Cidade

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romulo fróes · São Paulo, SP
31/12/2009 · 26 · 2
 

No Fim da Cidade
por Romulo Fróes

Artigo sobre o disco São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe, de Rodrigo Campos


São Mateus, na periferia de São Paulo, não é muito diferente de tantos outros bairros afastados do centro das grandes cidades brasileiras. O bairro e seus moradores são a inspiração para o disco de estréia de Rodrigo Campos, São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe
.

Em suas canções, Rodrigo apresenta sua “quebrada”, nomeando pessoas e lugares: Nenê, Lúcia, Isac, Fabrício, bar da estação, Perus, Vila Sônia, rua Três. Tira-os do anonimato sem lançá-los ao picadeiro, busca no ordinário a saída para o estereótipo. O motorista do lotação, a professora da Vila Prudente, o funcionário do Santander, a estudante de nutrição, pessoas comuns com suas vidas comuns, de onde Rodrigo extrai versos tão belos quanto originais. Digo original pensando em Noel Rosa, mestre no uso da linguagem coloquial na letra da canção brasileira, porém, em sua maioria, as canções de Noel tem cenários e enredo bem definidos, protagonizados por tipos humanos reconhecidos, o garçom, o malandro, o policial, o gago. As estórias que Rodrigo conta não têm a mesma nitidez, é difícil saber sobre o que se está falando. Muito de sua graça está em dizer não mais que o necessário.

“Compro um pistola do vapor, visto o jaco Califórnia azul, faço uma mandinga pro terror e vou”, essa poesia feita de gírias, ao mesmo tempo que dificulta seu entendimento, a livra de uma certa monotonia. De acontecimentos absolutamente banais seus personagens ganham cara, autonomia, “salve, Fabrício! chegou na cautela e dona Marina como é que tá ela? ó seu Fabrício, não sei da novela, pergunta do Miro, no bar da favela”. Observando seus habitantes, Rodrigo constrói a história de São Mateus. Quando deixa de ser apenas testemunha, quando busca na alegoria uma representação, parece levar seu olhar pra fora da cena, suas palavras endurecem, perdem veracidade.

Rodrigo se vale muito da fala aprendida na rua. Por isso e pelo caráter documental de suas canções, nos faz pensar em uma aproximação com o Rap. Também em relação à este me parece original, pois passa longe da amargura, da linguagem direta, crua e por vezes violenta, característica do gênero. À dura realidade, Rodrigo contrapõe pequenas estórias felizes, lança um “olhar gentil” ao seu redor, usa de delicadeza pra tratar de assuntos nem sempre leves. Delicadeza que reverbera no seu canto contido, circunspecto. A projeção de sua voz é pequena, não ultrapassa o sussurro, toma muito cuidado ao pronunciar cada verso. Parece medir a importância de suas palavras, como se acreditasse em seu poder transformador. Em sua música, mais vale o exemplo que a denúncia, a simples presença familiar e seu proceder são mais importantes que seus conselhos, “Isac trabalha no Santander, tocava trompete em dó, vai às quartas na Universal, ou será que é na Cristã do Brasil, em alguma sei que ele vai”. Na rotina se ancora, mantém a retidão, “muita coisa mudou, Isac não”.

Há uma correção, uma sobriedade, que governa todo seu trabalho. Temperamento que pode ser o de Rodrigo e que ele transfere para o momento da criação, como se a integridade na vida valesse também para seu trabalho. Neste comportamento está muito da beleza de São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe.

É preciso dizer que São Mateus
é um disco de samba, mas ele é construído de uma maneira que não facilita esta conclusão. Em arranjos pouco convencionais, muitas vezes os instrumentos adquirem outras vozes, a guitarra tentando soar como o cavaquinho, o repique de mão contaminado pela bateria funky, o surdo fazendo a linha de baixo. E assim como acontece com as letras, suas belas melodias não se desenvolvem mais do que o preciso. Elas logo se resolvem e às vezes Rodrigo se dá por satisfeito em uma única parte. Rodrigo compõe seus sambas, orientado menos pela face mais assimilada do gênero que é a da alegria, do prazer, do extravazamento e portanto mais natural em um projeto que pretende a redenção de um lugar. Ele cumpre seu propósito da maneira menos esperada, se aproximando do ritmo por seu lado menos luminoso, com menos ginga, ou melhor, com outra ginga. A mesma de Cartola, Nelson Cavaquinho, Batatinha e Paulinho da Viola.

Rodrigo Campos, dando fisionomia às pessoas e lugares esquecidos da cidade, acabou encontrando novos caminhos para o samba de São Paulo. De tão paulista, às vezes nem parece samba. Vem lá do fim da cidade, a grande novidade da música brasileira.



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Hermano Vianna
 

este disco é mesmo uma maravilha - já tinha dito isso aqui mesmo no Overmundo - link - que venham mais discos como o do Rodrigo e os do Romulo em 2010!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 31/12/2009 16:20
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Monica Ramalho
 

Discaço ; )

Monica Ramalho · Rio de Janeiro, RJ 5/4/2010 12:25
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