A fumaça densa que escapa de cigarros e charutos invade todo o Veloso, bar do Leblon, Rio de Janeiro. Ar típico de botequim carioca cheirando a cevada derramada. ''Garçom, um chope!'', diz o músico Tom Jobim, incisivo, para depois encerrar com um alegre ''Garçom, um beijo!''. As ''quantidades industriais'' de cerveja, como diz o maestro, são tomadas em companhia da cantora e amiga Miúcha, com quem Tom gravou dois discos nos anos 70, sem nenhum planejamento. ''Nossas gravações foram feitas entre o Veloso e as nossas casas, da forma mais descontraída'', lembra Miúcha. Tempo áureo da bossa nova, os jovens saem do bar inspirados, vendo anjos em cor de chope, para se reunir na casa dos Buarque de Hollanda e tocar até, quem sabe, o esquivar da luz do dia. O violão ''Vinícius'', sob a posse de Miúcha, embala os saraus e noites musicais.
''Bebia-se muito no Veloso, hoje conhecido como Garota de Ipanema. E Tom dizia: 'Miuchinha, a gente nunca vai fazer parte dos Alcoólicos Anônimos. Nós somos os Alcoólicos Notórios''', diverte-se a intérprete. ''O clima de brincadeira se estendia às músicas que a gente queria gravar''. Em um desses encontros, a música ''Vai Levando'', de Caetano Veloso e Chico Buarque, recebe novos versos. Tom e Miúcha, embalados pelos colarinhos altos da cerveja, levam a canção adaptada ao estúdio, onde gravavam Miúcha & Antônio Carlos Jobim. Ao repertório, adicionam um ''Vai Levando'' que troca o ''mesmo com toda lama'', por ''toda picanha''. Os devaneios, esquisitos e espirituosos, são as fontes de inspiração dos parceiros de vida, bebidas, quitutes e cantorias.
Não há piano no Veloso. Tom dedilha na mesa, inventando bossas e combinando palavras como se fossem peças de quebra cabeça. ''O Tom adorava inventar histórias, brincar com as palavras'', conta Miúcha. ''Uma de suas composições que mostra isso muito bem se chama 'Chansong', que é uma mistura de chanson, canção em francês, com song, canção em inglês. Situações inesperadas também fazem parte do repertório do Maestro. ''Muitos americanos pensavam que seu nome era Joe Bim. Num tratamento mais formal, no aeroporto, chegando em Nova York, ele era Mr. Bim. Para os mais íntimos, apenas Joe''.
Com um caderno sem pauta e lápis na mão, Tom começa a esboçar a música ''Boto'', que demoraria dois anos para ser finalizada. Miúcha, com olhar atento, lapida os versos, sugere outros. ''Na falta do caderno, servia o lado em branco daquele papel de embrulhar pacote de cigarro. Tenho algumas letras rabiscadas assim'', completa a cantora. A composição, considerada complexa, é cedida à voz delicada de Miúcha. ''Nunca pensei em 'Boto' como uma música fácil ou difícil, talvez por ter tanta intimidade com ela. Durante quase dois anos eu vi o Tom burilando essa sua letra tão cinematográfica'', revela.
Duas pessoas cantando a mesma música em tempos e tons distintos. ''Gostávamos de experimentar diferentes vocais. Muitas vezes a gente saia do bar e ia ou para o meu apartamento, na mesma rua , ou para a casa do Tom, ali perto, para experimentar no piano as vozes que criávamos espontaneamente. Era muito gostoso, parecia uma brincadeira que não ia acabar nunca''. Os encontros em apartamentos da Zona Sul rendiam muitas composições que nunca foram prensadas em disco. Ainda estão guardadas em fitas caseiras.
O convívio, íntimo e afetuoso, traz histórias além de mesas de bar. ''Tom e eu costumávamos gravar juntos, um olhando os olhos do outro, prestando atenção na respiração, na divisão das palavras'', lembra. ''Nunca encontrei uma pessoa tão delicada, tão elegante, compartilhando a música. Ele mesmo dizia que adorava acompanhar cantoras. O que não é muito comum. Mas ele esperava o final da respiração, jogava com os silêncios, rolava uma verdadeira telepatia e, é claro, uma grande emoção, um enorme prazer, que acredito estar registrado em cada canção''. Para se despedir, Miúcha entoa versos de ''Matita Perê'', música que não chegou a ser cantada junto ao Tom, desejando planar nos céus como os urubus que ele tanto admirava.
Ystatille Gondim
Matéria publicada no O Povo
Ystatille Gondim · Rio de Janeiro, RJ 30/6/2007 12:10Gostei muito! Uma viagem pelo tempo e a intimidade dessas feras...Parabéns!
Roberta Tum · Palmas, TO 3/7/2007 09:23
Viva a Era digital!!! (ouço Elis cantando 'Boto' no 'Transversal do Tempo' na radiouol poucos segundos depois de ler seu - DELICIOSO qual chopp da Poyesis - texto!)
Viva a bolinha de gude, peão, pipa e Urubus!!!
Viva os tons do Jobim!!!
Abraço-te com essas letras por me fazeres viajar no tempo. Igual ao Ruy Castro nos seus 'Chega de Saudade' e 'A onda que se ergueu do mar'. Lindas histórias deles dois e de muitos outros que costuraram a história da Bossa Nova à história do Brasil!
Muito obrigado pelo sabor de nostalgia!!!
GRANDE abraço!!!
p.s. - 19 discos do GM Tomzinho disponíveis para ouvir, GRÁTIS, no link:
http://musica.busca.uol.com.br/radio/index.php?busca=Jobim¶m1=homebusca&check=artista
Texto de uma simplicidade... excelente recorte. A fotografia é um caso a parte, sintetiza muito bem tudo isso. Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 4/7/2007 09:16
Que bela matéria, que resgate precioso daquele tempo, que devia ser tão bom...Um incentivo para todos resgatarem nossa Cultura Musical!
Parabéns!
Cris
Belo texto. A bossa nos faz viajar num tempo em que tudo era tranquilidade, onde se falava em amor, mar, sol, sorriso....
Velha Bossa Nova...quantas saudades..
Parabéns Tille, que viagem boa a Miúcha, não? E que foto é essa, uau!!!!
André Dib · Recife, PE 4/7/2007 18:06
Que matéria deliciosa de ler! Que foto feliz!!
Adorei!!
Será que ela é bossa nova?
Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 4/7/2007 22:30puxa vida, não tinha lido esse..... foderoso hehehehe =)
Thais Simonassi · Vila Velha, ES 16/3/2008 21:49Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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