O 6° Festeje (Festival de Teatro do Vale do Jequitinhonha), realizado em Pedra Azul (MG), teve seu início adiado por um dia já que uma micareta (carnaval fora de época) se realizaria na data de abertura do encontro. No fim, sem intenção, os dois eventos acabaram virando exemplos explícitos da diferença entre promover divertimento e fomentar cultura.
Na micareta de Pedra Azul, duas bandas - uma baiana e outra mineira, mas não do Vale do Jequitinhonha – se apresentaram sábado (17/01) e domingo (18/01) em cima de potentes caminhões de som, percorrendo ruas da pequena cidade pela madrugada afora, seguidos por um grupo de cerca de 500 pessoas, que pagaram pela privatização do espaço público comprando abadás, protegida por cordas e seguranças. Os descamisados do bloco observavam tudo à distância.
Já no Festeje, 200 jovens e adolescentes de cidades de uma das regiões mais pobres do país (conhecida inadequadamente como “Vale da miséria”), durante quase uma semana (de 19/01 a 24/01), participaram de oficinas de capacitação e aprimoramento; apresentaram seus trabalhos desenvolvidos em suas respectivas escolas de teatro; trocaram idéias entre eles no alojamento onde todos estavam hospedados; e se encontraram à noite em shows musicais típicos do Vale do Jequitinhonha.
As oficinas são mais importantes do que a mostra
O Festeje, organizado pela Agrutevaje (Associação dos Grupos de Teatro do Vale do Jequitinhonha), reuniu grupos teatrais de cidades da região, incluindo Medina, Joaína, Jequitinhonha, Capelinha, Governador Valadares, Rio Pardo de Minas e também Pedra Azul.
Porém, o único trabalho apresentado na mostra que, integralmente, tinha concepção teatral foi a peça “O Diário de Sônia”, baseada no texto “Valsa n°6”, de Nelson Rodrigues. A encenação foi feita por um grupo da cidade de Medina. Também chamou a atenção o trabalho de dança "Samba Canção", de Governador Valadares, em uma ousada - e bem realizada - interpretação de dois atores que se deparam com o amor inesperado. O restante dos grupos apresentou espetáculos circenses, além de show de humor e esquetes de colóquio televisivo, que pouco exprimiam a arte de representar em palco, essência do teatro.
Para o pesquisador da cultura do Vale do Jequitinhonha, Luciano Silveira, 28 anos, “o teatro da região tem carência de se reunir e de trocar experiência. É tudo muito precário”. Para ele, somente dois grupos na região realizam um trabalho efetivamente teatral: Vozes e Ícaros de Araçuaí, ambos de Araçuaí, principal pólo cultural do Vale do Jequitinhonha. Luciano, porém, acredita que em dois anos o festival já poderá apresentar resultado.
“Pedra Azul, por exemplo, é famosa pelo patrimônio histórico. Mas o teatro ainda não é destaque. A cidade não vive a cultura do Vale do Jequitinhonha”, avalia.
Durante o Festeje, Luciano Silveira, que desde os 12 anos é envolvido com o estudo da cultura do Vale do Jequitinhonha, deu uma oficina sobre manifestações da região. “As oficinas são o destaque. Espero que os grupos coloquem em prática o que aprenderam”, resume.
Pelo que se viu nas apresentações conclusivas das oficinas, de fato, elas são de extrema importância. Referidas apresentações geradas a partir das aulas de expressão corporal, técnica vocal, arte circense, cultura popular e teatro do oprimido, oferecidas aos jovens e adolescentes todos os dias do evento, pela manhã e a tarde, foram mais expressivas do que as peças em cartaz encenadas durante o 6º Festeje pelos grupos teatrais presentes.
Entretanto, isso não tira o papel sócio-cultural do encontro. “Aos 16 anos, não queria nada com nada. O teatro mudou minha vida”, afirma Fabio Arruda, um dos mais antigos integrantes do grupo de Pedra Azul. Com 23 anos, ele atua no Gruteapa há 3. Na peça que apresentou no festival, a sua família se fez presente, incluindo sua mãe e seus irmãos. Agora que terminou o ensino básico, ele quer estudar artes cênicas para se aperfeiçoar.
O Gruteapa tem uma curiosidade: mesmo com mais de uma década de existência em Pedra Azul, o grupo de teatro ensaia atualmente no bar de um de seus integrantes.
Pedra Azul reflete bem o Brasil isolado
Pedra Azul, com 25 mil habitantes, é o principal local de exploração de grafite (usado em lápis e em várias peças industriais) no País. O seu isolamento dos grandes centros – a cidade média mais próxima é Vitória da Conquista (BA), a cerca de 100 quilômetros; Belo Horizonte, capital do estado a qual pertence, está a 720 quilômetros de distância - a transforma em uma cidade pacata e sossegada, porém descolada do Brasil com mais oportunidades.
Com apenas 86 anos de existência, o município possui um impressivo conjunto de casarios do início do século passado – cerca de 70 deles estão tombados. Naquela época, o local teve um surto de crescimento em função da descoberta de jazidas. Maciços de pedra de granito cercam a cidade.
Seu Valdívio, 68 anos, nasceu em Pedra Azul. Dono de uma pequena birosca, ele tem dez filhos, sendo que oito deles hoje vivem em São Paulo e apenas dois estão ainda morando com ele. “Quando vou a São Paulo não aguento ficar lá mais de 15 dias. Não troco aqui por nada”, exprime.
Ônibus e caminhões trafegam pouco por Pedra Azul, a não ser aqueles que vão para realizar serviço no lugar. É que a BR 116, principal rodovia que liga as regiões Sul e Sudeste ao Nordeste do País, passa a 15 quilômetros da cidade.
Mas a distância dos grandes centros tem seus contratempos. Há mais de uma década, Gil Baiano tenta manter em Pedra Azul, as duras penas, uma escolinha de futebol. Nascido em Ilhéus, ele chegou a cidade mineira aos 17. Hoje, com 43, ensina futebol para cerca de 30 garotos de 13 a 18 anos.
É em um esburacado campo do estádio da prefeitura que Gil Baiano treina futebol a meninos da cidade. Por meio de esforço pessoal, conseguiu material (coletes, camisas, shorts, meias e bolas) para a equipe.
O clube profissional mais próximo de Pedra Azul não é mineiro, mas sim de Vitória da Conquista (BA). “Ficamos muito isolados”, lamenta.
Apesar das dificuldades, o trabalho de Gil Baiano já teve resultado. Alguns garotos já foram pinçados em seu campo de treinamento por clubes que mantém equipes profissionais. Entretanto, ele reclama de nunca ter recebido nada em troca.
Marina Pereira, 16 anos, nascida em Pedra Azul, há um ano e quatro meses faz teatro. “Muitas pessoas daqui não dão valor (ao teatro)”, revela. Entretanto, se diz satisfeita com o resultado pessoal de ter se envolvido com a arte. “Minha mãe diz que quando entrei para o teatro, melhorei bastante nos estudos e no comportamento”, argumenta.
Para Pedra Azul, na semana de 17 a 24 de janeiro de 2009, o resultado da micareta e o significado do festival de teatro para o lugar ficaram visíveis.
O Festeje é itinerante e anualmente acontece em alguma cidade diferente do Vale do Jequitinhonha.
Magnífico amigo. E vamos por aí fomentando nossa Arte!
Luz ePaz. jbconrado.
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