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Nos braços do Saci Pererê

Roberto Maxwell
Toshio Ono
1
Roberto Maxwell · Japão , WW
22/3/2008 · 149 · 4
 

Toshio Ono trouxe para o Japão a semente do samba

Para os simples mortais, ele é somente o pai de Lisa Ono, talvez a mais bem sucedida artista a transitar entre os universos brasileiro e japonês. Quem entende, porém, um pouco que seja da história do samba no Japão sabe a importância que Toshio Ono, um falante senhor de 83 anos de idade tem. “Aqui é o berço do samba”, diz o percussionista Francis Silva, presidente da Cruzeiro do Sul, a única escola do carnaval de Asakusa criada por um brasileiro. (Leia sobre o carnaval de Asakusa aqui e aqui.) O “aqui” a que ele se refere é a Saci Pererê, fundada por Ono e considerada por muitos a primeira casa de música brasileira da capital japonesa. Antes, porém, de abrir o seu próprio terreiro em terras nipônicas, o pioneiro foi para o Brasil conhecer de perto a música que o encantou.

O ano era 1958. Toshio Ono era um dos muitos imigrantes que ainda deixava o então empobrecido Japão em busca de oportunidades no Brasil. Naquela época, o governo brasileiro aceitava imigrantes japoneses apenas com uma finalidade: o trabalho na agricultura. “O Japão era muito pobre e as pessoas não tinham como ir para fora do país”, relembra ele num português carregado de sotaque, absorvido no trabalho na noite. Para atravessar o oceano, o migrante tinha que contar com um empreiteiro que se responsabilizava pela passagem e pelo emprego em terras brasileiras. Ono sabia que, pelo menos em tese, deveria se dedicar ao trabalho na lavoura. Porém, seu objetivo já era muito claro. “Eu não sou batateiro, sou negociante”, explica ele, que já tinha em mente um plano: abrir uma casa de shows no Brasil.

A história de Ono com a música brasileira passa por Cuba. Ou melhor, pelo maestro cubano-catalão Xavier Cugat. Conhecido como o homem que popularizou a música latina nos Estados Unidos, a música de Cugat chegou até o Japão. Numa época em que a América Latina era uma ilustre desconhecida, ritmos como o samba, a rumba, a salsa eram tratados como se fossem a mesma coisa. Sem nenhum representante brasileiro do estilo a fazer sucesso fora dos limites do país, Cugat acabou sendo, voluntariamente ou não, uma espécie de cartão de visitas do samba no Japão, pelo menos para Ono. “Aquilo não era samba, claro, mas o brasileiro não sabe vender seus produtos diretamente no exterior”, critica ele.

Já no ano que aportou no Brasil, Ono abriu uma casa na Avenida Ceci, zona sul de São Paulo. “Queria fazer algo diferente da forma tradicional japonesa, com mulheres atendendo, tipo gueixas”, conta ele que optou por ter como atração a música. O carro-chefe era o jazz. “Eu botei um cartaz na entrada dizendo ‘quem não gosta de improvisação, por favor não entre’”, relembra Ono. Rapidamente, a casa se transformou num sucesso, o que fez o empresário mudar para um local mais amplo, desta vez na Álvaro de Carvalho, no centro da cidade, onde dois conjuntos se apresentavam abençoados por um enorme pôster de Miles Davis. Apesar do jazz ter sido o principal estilo, Ono lembra que o samba também tinha espaço.

A fase brasileira acabou em 1972 quando o empresário recebeu instruções do patriarca da Perfect Liberty — uma instituição religiosa a qual Ono seria vinculado — para retornar ao Japão. Inquieto para apresentar aos japoneses tudo o que aprendeu sobre música brasileira, o empresário abriu o Saci Pererê dois anos depois. “Me diziam que eu ia perder dinheiro com uma casa brasileira”, recorda ele. Realmente, naquela época, o Brasil estava na moda apenas em um assunto: o futebol. Porém, era o momento do milagre econômico na pátria auriverde e o próprio Japão já estava se tornando uma potência industrial. As trocas entre os dois países criaram uma geração de profissionais japoneses que passavam grandes temporadas no Brasil em busca de oportunidades de negócios para suas companhias. Foi esse o público que, saudoso de sua temporada abaixo do Equador, adotou o Saci Pererê como ponto-de-encontro. E, claro, além da comida, a música e o futebol estavam presentes na programação da casa. Foi nessa época que uma grande leva de músicos e dançarinas começou a aportar em massa no país, sob a bênção de Toshio Ono. Ele estima ter trazido mais de 350 músicos durante os mais de 30 anos da casa. “A imigração me conhece. Sempre fiz tudo direitinho”, frisa ele. Além dos eventos musicais, Ono organizou partidas de futebol, uma delas contou com a presença do Santos de Pelé que enfrentou uma seleção de jogadores do Japão.

Com tanto know-how, foi a ele que o prefeito de Taito — um dos 23 distritos especiais do distrito federal de Tóquio — recorreu para dar forma ao carnaval de Asakusa, atualmente o maior do gênero fora do território brasileiro. Ono conta ter feito parte do grupo que foi ao Rio de Janeiro para estudar o desfile das escolas de samba e erguer o primeiro carnaval no antigo distrito boêmio da capital japonesa. “Foi bem pequeno”, diz, mas impressionou. “Ninguém tinha visto nada daquele tipo”, lembra ele que destaca a evolução atual dos músicos e dançarinos japoneses.

Apesar de tudo o que realizou, Ono ainda tem um sonho: unir as músicas tradicionais brasileira e a japonesa, que ele acredita terem muito em comum. “Você ouve certas músicas brasileiras e elas são lamentos, como a enka”, conta ele entusiasmado com o que ele chama de samba-enka ou bossa-enka. “Queria ter feito essa mistura, que é diferente do que a Lisa faz”, explica ele, referindo-se à filha que, segundo ele, faz música brasileira. “Ela é brasileira, nasceu lá”, frisa o empresário.

Se, de fato, Ono não conseguiu, ainda, a fusão com que sonha, a música e a cultura brasileira no Japão deve muitos favores a ele. “O Saci Pererê fez uma revolução com a cultura afro-brasileira no Japão”, conta Francis Silva que pontua a importância do resgate da história do samba no país. “Porque nesses cem anos de relação entre Brasil e Japão, são 27 anos só de carnaval de Asakusa”, conclui ele, com a anuência de Toshio Ono, o homem que plantou a semente do samba na terra das cerejeiras.

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clara arruda
 

Votar não seria o suficiente.Uma bela narrativa que nos enche de orgulho.parabéns.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 22/3/2008 15:22
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Roberto Maxwell
 

Que frase bonita, Clara. Fiquei muito feliz de le-la logo pela manhã. Um abraço e muito obrigado.

Roberto Maxwell · Japão , WW 22/3/2008 22:32
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Helena Aragão
 

Muito interessante, Maxwell. Fico pasma com essa relação dos japoneses com a música brasileira - já ouvi dizer que não é exclusividade da nossa música, que eles ouvem tudo que é música boa do mundo, é verdade? Fiquei muito curiosa para entender essa relação que ele enxerga entre a música brasileira e o "enka", imagino que seja para além do lamento, porque afinal de contas imagino que todo país tenha sua música de lamento...
Valeu por apresentar melhor esta figura por aqui. E um último comentário bobo: também fico pasma de ver como o saci-pererê tem uma popularidade eterna. :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 24/3/2008 15:42
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Roberto Maxwell
 

Oi, Helena, tudo bem? Os japoneses realmente curtem muito a música brasileira. Essa semana eu fechei uma pauta sobre Bossa Nova e fui conversar com outra interessante figura: o Jin Nakahara. Ele contou um pouco da relação dos japoneses com a bossa nova. Mas, uma das coisas mais legais que ele falou é que os japoneses não curtem apenas a bossa nova. Eles curtem música do Brasil. No momento, para minha surpresa, a bola da vez é a Ivete Sangalo. Claro que o gostar da bossa nova não é coisa de todo japonês. Mas, ele contou que esse interesse pela música brasileira não é coisa de velho. Estudantes também curtem música brasileira. Eu atribuo isso a uma coisa que falta em nossas escolas: educação musical. Nas universidades, os clubes de coral, de jazz, rock e outros estilos musicais estão sempre cheios. Semestralmente, esses clubes se apresentam na própria faculdade. Também se apresentam nas ruas. (http://blip.tv/file/533948/) Quando o Coisa Mais Linda foi exibido aqui na minha cidade, havia showzinho de bossa nova depois da sessão; o 2 Filhos de Francisco voltou para Hamamatsu (cidade de maior população brasileira do Japão) a pedido dos japoneses. O Caminho das Nuvens teve sua divulgação toda baseada em cima das músicas do Roberto Carlos. Ou seja, a música é o produto brasileiro que mais atrai os japoneses. A ela tudo o mais que vem do Brasil é vinculado.
Sobre a relação do Ono-san com a enka e o samba, acho que é uma percepção muito pessoal dele, da paixão que ele tem pelo samba. Se ele fosse apaixonado pelo fado, essa relação seria com o estilo, com certeza.

Roberto Maxwell · Japão , WW 24/3/2008 22:40
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