Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Nós da Educação Escolar no Brasil

1
Donizete Soares · São Paulo, SP
9/9/2008 · 52 · 4
 

São muitos os nós da educação escolar em nosso país. São tantos e tão mal feitos que, seguramente, não sabemos quanto tempo será necessário para desfazê-los e/ou refazê-los.

O mais importante deles, o eixo sobre o qual se movimenta essa máquina chamada escola e, portanto, a educação escolar é, sem dúvida, o profissional de educação – o professor e a professora. É esse sujeito, com seu envolvimento, interesse e comprometimento, principalmente com seus alunos, quem faz a escola ser assim ou assado. Efetivamente, é ele quem dá o tom da educação escolar.

Quando esse indivíduo é mal formado ou mal intencionado, aí, então, as coisas se complicam. Se for do segundo tipo (trabalha na Educação, mas não agüenta mais a escola; diz que é professor ou professora, mas simplesmente não suporta aluno; como profissional, retira mensalmente seu salário por um trabalho que efetivamente não realiza; numa palavra, vive à custa dos mais jovens...), não há o que fazer - a não ser esperar que morra...

Sim, porque quando qualquer profissional chega ao ponto de dizer coisas parecidas com essas sobre a atividade escolhida e/ou aceita por ele é sinal de que se esgotaram todas as possibilidades de alteração do seu modo de ver e tratar o que lhe garante o sustento. Quando esse profissional é o professor, a professora, e ele ou ela chegou ao ponto de não ver a hora de chegar o fim de semana ou o feriado – não porque é realmente um trabalho cansativo, mas porque não suporta mais o que diz que faz – nada mais resta a dizer senão que esse professor ou essa professora somente ocupa espaço. Pior: impede que outros façam o que deve ser feito.

Se, ao contrário, for mal formado, então, a conversa é outra. O resultado de seu trabalho deixa a desejar, não porque ele é desonesto consigo mesmo, com o seu aluno e com a sociedade, mas porque lhe falta formação, conteúdo. Não raro, falta-lhe o essencial em termos de conhecimentos formais. Quantos professores e professoras tiveram ou têm formação teórica minimamente decente no Brasil?

Teoricamente, são os Institutos de Ensino Superior os principais responsáveis por essa formação. São as centenas e centenas de Faculdades espalhadas pelo país, muitas delas faturando muito dinheiro, inclusive com projetos bancados pelo dinheiro público administrado por governos dos três níveis, as instituições que devem responder pela qualidade de formação dos profissionais de educação.

Ocorre, todavia, que muitas dessas Instituições estão longe de oferecer o mínimo que seja. Tão ocupadas com o negócio educação, em geral, não gastam nem mesmo tempo com os formadores dos profissionais de educação. Não investem em suas equipes de professores. Há instituições que se recusam – veja se tem cabimento! – a pagar reuniões dos professores para que eles discutam os conteúdos trabalhados em aulas, as atividades a serem realizadas com os alunos, enfim, o que há e o que deveria haver de pedagógico em suas ações.

Mais: muitos professores que atuam no Ensino Superior, na realidade, não são professores. Quer dizer: não têm formação de professores. Podem entender dos seus respectivos assuntos, podem ser grandes pesquisadores – e muitos, certamente, o são –, mas professores mesmo, gente suficientemente competente para transmitir um determinado saber, seguramente, são poucos. Pouquíssimos, na verdade. Uma coisa é entender (e pesquisar) ciência e outra, divulgar (ensinar) ciência.

É evidente que uma não é mais ou menos importante do que a outra. Ou melhor, é evidente para alguns e, claro, nada evidente para muitos desses pesquisadores. Tanto é assim que não dão a menor bola para o aluno. Costumam dizer “dou minha aula; quem entendeu, entendeu e quem não entendeu, bem, que se vire”.

Quando, por sua vez, esse aluno assume uma sala de aula para lecionar, por exemplo, matemática, ciências, história, língua portuguesa, filosofia, física etc. a tendência é ele repetir o que aprendeu do jeito que aprendeu. A probabilidade de tratar o seu aluno do mesmo modo que foi tratado pelo seu professor é muito grande. Mesmo cursando alguns semestres da tal “licenciatura”, ou mesmo a “complementação pedagógica”, não é simples transformar-se em professor ou professora um aluno ou aluna que tenha passado 4 ou mais anos tendo “aulas” com “professores” nada envolvidos com seus alunos.

Claro, essa relação não é direta e nem definitiva. Há casos em que o novo professor esforça-se para atuar junto aos seus alunos de uma forma que é exatamente oposta àquela dos seus antigos professores. E conseguem. E se dão bem como profissionais, sendo reconhecidos e queridos pelos seus alunos.

Isso mostra, mais uma vez, o quanto é importante e sério o papel desse profissional. Tão sério que, por toda a vida, serve de referência pro seu aluno. Será lembrado como “ótimo professor”, “excelente professora” ou como alguém cujo perfil é exatamente o contrário do que ele quer para si mesmo, aquele de quem se tem “péssimas lembranças”.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Ilhandarilha
 

Oi Donizete, reflexão mais que pertinente, embora eu não concorde exatamente com seu foco nos educadores e na formação deles. Acho que a questão é mais ampla e os nós são mais apertados e emaranhados do que o da formação.
A questão da educação - ou da má educação, que é seu assunto aqui - passa também por políticas públicas equivocadas, currículos que não se adequam à realidade, corrupção administrativa, baixos salários, carga horária pesada, equipamentos inadequados, questões sócio-econômicas etc... e, no fim das contas, tudo isso tem a ver com a desvalorização da profissão de educador.

Ilhandarilha · Vitória, ES 7/9/2008 23:17
sua opinião: subir
Vanessa Anacleto
 

Caramba, Donizete. Você em São Paulo observa as mesmas coisas que eu já vi no interior do Rio quando lecionei. E certamente esta triste realidade assim é por todo o país. Importantíssima reflexão a sua. Estou votando e torcendo para publicar.

abraço

Vanessa Anacleto · Rio de Janeiro, RJ 10/9/2008 06:43
sua opinião: subir
leandroDiniz
 

Donizete,

É mais claro que dia com céu azul que essa realidade é presente, e até inquestionável. Em muitos de meus textos sempre disse, e sempre vou dizer enquanto não ver melhoras, que primeiro devemos educar a elite do país, para depois educar o povo.

Hoje em dia a grande maioria das pessoas que "ensinam" não são minimamente capazes como pessoas mesmo de aprender nada, e repassar discurso tarimbado é a coisa mais ignominiosa possível. Em reportagem da Veja há algumas semanas está estampada a constatação de que mais da metade dos professores são marxistas, e pregam nas escolas. Caso recente com meu primo aconteceu de que ele foi proibido pela professora de dar sua opinião sobre o Governo dentro da sala, ele ouviu algo como: "não pode achar o Governo ruim, o Governo é bom". E assim por diante.

Primeiro temos que criar uma classe de pessoas que sejam minimamente qualificadas para depois essa classe poder passar algo de útil aos nossos alunos. Sem que isso aconteça nada vai resolver. Educação não é jogar informação e privilegiar a memória do aluno, mas simplesmente criar uma pessoa, um ser humano, qualificado minimamente a lidar com as situações do dia de forma criativa, inovadora e pessoal. Não passar os moldes quadradões que hoje temos e doutrinar as crianças e adultos dentro das salas de aula. Hoje falta muita coisa no ensino, mas o que mais falta dentre todas as coisas é o ensino mesmo.

Creio que seu texto é pertinente e deve ser lido com calma e atenção, pois é muito mais difícil olhar para as próprias feridas que apontar as causas das mazelas, a culpa é do Governo, da corrupção, da sociedade, enfim, a culpa é sempre de todo mundo menos do inoperante professor que trabalhar como um operário chaleschaplianesco.

Votado!

Aproveite e passe em http://www.overmundo.com.br/overblog/defensores-do-indefensavel-pedofilia-em-questao que está em votação também.

leandroDiniz · Niterói, RJ 10/9/2008 15:30
sua opinião: subir
Renata Silva
 

Nós da Educação Escolar no Brasil
será necessário para desfazê-los e/ou refazê-los.
Culpados ... quem são?????
A educação necessita de outras reflexões, muitas reflexões e ações





Renata Silva · Aracaju, SE 10/9/2008 20:55
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados