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Nós somos o Vietnam

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O cara em ação
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SILVASSA · Salvador, BA
19/1/2007 · 28 · 5
 

Não me levem a mal, eu gosto dele. Sério mesmo, gosto do estilo da escrita, do jeitão despojado de tratar as coisas, das referências. Afinal de contas, ele conhece o Hunter S. Thompson, deve ter dado uma lidinha no Kerouac e também assistiu Apocalipse Now.

Eu realmente gosto disso tudo.

O problema é que eu sou latino. Sabe, aquele cara do terceiro mundo que ele retrata tão bem em seu livro Cozinha Confidencial.

Bem, estou falando de Anthony Bourdain, chef americano e escritor.

Depois de ter lido dois dos quatro livros dele publicados por aqui, me veio um inesperado incômodo. Mesmo relaxadão e divertido, ele nos mostra um outro mundo: o deles.

Um mundo onde o cara dos molhos vai à peep shows, antes de pegar no batente; onde o seu melhor patissier é um drogado de carteirinha, conseguindo ser, apesar de tudo, um ótimo padeiro – é o termo que ando escutando por aqui, no meu mundo. Um universo onde americanos vão ao Vietnam tomar whisky falsificado e sonham com cervejas jamaicanas e feijoadas. E acham o máximo – fora o quesito whisky, o resto deve ter lá seu encanto.

Eu sei que estou há pouquíssimo tempo na coisa. Sou um novato, o estagiário que ele também retrata de forma divertida. Ainda sou o cara que fica no cantinho da cozinha, olhando os outros trabalharem, enquanto corta algumas batatas e confere a torta no forno. Mas já posso dizer para vocês que a coisa é diferente do que o Bourdain retrata – aliás, já sabia disso antes de me inscrever no curso, motivado por outros sonhos, sendo o livro uma conseqüência.

A começar pelos profissionais. São pobres que buscam ascensão financeira e reconhecimento. Muitos deles não tiveram uma outra escolha, assim como tive. São batalhadores, gente de trabalho braçal mesmo. Têm filhos demais, fumam, falam errado na maioria dos casos, tal e qual muitos dos latinos - que ele trata com respeito, é bom frisar - retratados pelo escritor.

Eles não têm o que nós, metidinhos, chamamos de classe e estilo. Não há rock and roll perto dos fogões daqui. O que há são pessoas geralmente esforçadas, que está fazendo algum molho classudo enquanto sonham com uma carninha do sol com pirão de água.

O que vi até agora são caras e mulheres que, nas folgas, lavam suas roupas, cuidam de cachorros, namoram no parque da cidade devorando apaixonadamente maçãs do amor, fumam cigarros da marca Derby – outra coisa relacionada com falta de opção e de grana – e assobiam o último hit carnavalesco, ou alguma antiga do Fábio Junior para as namoradas enquanto esperam o pernoitão.

Não há o glamour - aquele glamour que a gente tanto gosta, afinal - de gente maldita. De loucos, pirados e coisas do tipo. Gente simples, muito simples mesmo, junto com um outro bocado de adeptos da Universal do Reino de Deus.

Dizer que não sinto falta de alguém que conheça uma bandinha de rock, é mentira. Mas não posso nem quero chegar no meio deles como um estranho. Não é o meu estilo e seria a minha ruína tentar enxergar neles seres pirados.

A cozinha aqui não é movida a cocaína. Nem a rock and roll. O ritmo é outro, bem mais comum.

Não que eu não tenha gostado dos livros. Valeu cada centavo. Li, reli e achei do caralho. Era o que eu esperava. Mas não pautaria, nunca, minha vida e comportamento por ele. Não desejo imprimir algum estilo há minha incipiente carreira. Quero aprender do jeito deles para, depois, ver se consigo criar algum molhinho from hell.

Ver um cara como o Anthony citar personagens tão comuns ao meu imaginário, e inseri-los numa realidade também minha é bom. Muito bom.

A questão é que tanto os sul-americanos que, como ele mesmo diz, fogem da pobreza, quanto os asseclas do coronel Kurtz, do filme de Coppola, também citado por ele no seu outro livro, Em Busca do Prato Perfeito, são muito, mas muito mais parecidos comigo e com a gente que convivo agora.

Eu também achei muito legal a antológica cena em que helicópteros avançam Vietnam adentro e despejam napalms. O problema é que, nessa infundada luta de classes e pátrias, certamente eu estaria sendo um dos queimados na contagem dos corpos.


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Luiz Carlos Garrocho
 

Gustavo, muito bom esse modo de você escrever sobre esse mundo - nosso, banal, boçal e, no entanto, nosso mundo mesmo.

Luiz Carlos

Luiz Carlos Garrocho · Belo Horizonte, MG 17/1/2007 23:08
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Egeu Laus
 

Gustavo, gostei do teu estilo.
Fiz aqui no Rio um curso básico de Alta Gastronomia (com chefes franceses, italianos, cearenses, fogões industriais e tudo que tivemos direito). Larguei quando ia passar para o Intermediário, afinal não era a minha profissão mas deu para sentir o clima e concordo com tua visão. Aliás, aqui no Rio os cearenses dominam as cozinhas. Na Bahia também?
Deixei o livro de Bourdain pelo início, retomo qualquer hora.
Aliás gostaria de ler mais suas impressões "ao pé do fogão".
Um abraço!
P.S.: Sem querer ser mau, aquele "mau" lá do começo será que nao é "mal"?

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 18/1/2007 01:00
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SILVASSA
 

Luiz é por aí!

abçs

Egeu o livro é bom. Vá até o fim.

Abçs

SILVASSA · Salvador, BA 18/1/2007 10:51
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SILVASSA
 

Ah! na Bahia os cearenses não dominam não. Mas temo uns dois ou três que são bons, senã donos de restaurantes.

SILVASSA · Salvador, BA 18/1/2007 10:52
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SILVASSA
 

Ah! na Bahia os cearenses não dominam não. Mas temo uns dois ou três que são bons, senão donos de restaurantes.

SILVASSA · Salvador, BA 18/1/2007 10:52
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