São quase 150 anos de história e histórias. Mas num vai-e-vem tão rotineiro, que poucos prestam atenção. Um mundo onde circulam cerca de 200 mil pessoas por dia. Num percurso máximo de 61,8km. E que atravessa seis cidades. Em 79 minutos, nem sempre tão exatos. Uma viagem de personagens e artistas anônimos, protagonistas absolutos, num mesmo palco: os trens do Central-Japeri, o maior e mais antigo ramal ferroviário do Rio de Janeiro.
Há anos, acompanho esse mundo de longe, com um olhar um tanto desatento e passageiro, mas sem bilhete de embarque. Moro quase às margens de um trecho cortado pelo ramal, mas nunca me aventurei a percorrê-lo por completo. Nas minhas raras viagens de trem, nunca fora além da estação no Centro de Nova Iguaçu – até Japeri são mais cinco. Mas dia desses resolvi me aventurar por aqueles trilhos.
Embarquei na Central, no Centro do Rio, estação de partida para Japeri e outros ramais de passageiros, administrados pela concessionária SuperVia. A mesma Central do Brasil imortalizada no filme homônimo de Walter Salles. Se não foi cenário de grandes produções cinematográficas, Japeri e seu ramal ganharam destaque na música. Já inspiraram Ed Motta, que junto com o guitarrista Luiz Fernando formou a banda Conexão Japeri e esteve em versos cantados por Djavan (Tem boi na linha) e Zeca Pagodinho (Shopping móvel).
O trem partiu às 10h55 de uma quinta-feira. Quase vazio. Não quis enfrentar um vagão cheio, em pleno rush. Nesses, é quase impossível observar qualquer coisa. Mal dá pra apoiar os dois pés no chão! Também optei por uma composição das antigas, sem ar condicionado. Nos bancos estreitos, compridos, instalados sob as janelas e de frente uns para os outros, poucas pessoas, de diferentes idades. E de observadora passei a observada. Tudo porque para fotografar sem problemas, precisei pedir autorização à SuperVia e, obrigatoriamente, fui “escoltada” em toda a viagem. Por uma assessora de imprensa, a Melina (em sua primeira ida a Japeri também e um amor de pessoa), e quatro seguranças – até a Melina se assustou com tamanha escolta! Segundo ela, em filmagens pra tevê, geralmente só um segurança acompanha a equipe. Devem ter levantado a minha ficha e detectado que sou de alta periculosidade!
Diretamente, eles não interferiram em nada. Mas indiretamente sim. Os tradicionais ambulantes, que vendem de tudo o que você possa imaginar nos vagões e um pouco mais, não puderam circular por ali. O comércio ambulante é proibido nos trens, com exceção dos funcionários cadastrados para a venda de um jornal popular e, se não me engano, de produtos da Nestlé – graças a parcerias das empresas com a SuperVia.
Mas voltemos aos trilhos. O Ramal Japeri é uma linha semi-expressa, por assim dizer. Isso porque a Central-Deodoro é paradora – do tipo pinga-pinga, parando em todas as estações - e atende os passageiros de diferentes bairros do subúrbio carioca. Pesquisando sobre a história dos trens do Rio, descobri o depoimento de Raimundo Albuquerque Macedo, que falava sobre a irritação dos usuários dos “trens diretos” quando passageiros de estações próximas embarcavam neles para chegar mais rápido ao seu destino e lotavam mais ainda essas composições:
“Eles, simplesmente, se espremiam para impedir a saída do incauto passageiro na estação pretendida. Eu mesmo fui vítima desse “castigo”. Lembro-me que, aos 17 anos de idade, na pressa ao voltar para casa, peguei o “direto” 31, de Queimados, na estação D. Pedro II (Central). O trem estava superlotado e, ao chegar a Deodoro e tentar saltar, fui impedido pelos passageiros que diziam: “Vai chupar laranja conosco em Nilópolis!” Os laranjais, nessa época, predominavam naquelas áreas. Realmente, só consegui saltar em Nilópolis, quarta estação depois de Deodoro. Eram tempos difíceis, porém saudosos!”
Cotonetes, isqueiros, chocolates e muito mais
Nesse primeiro trecho da viagem, o Japeri só pára em cinco das 18 estações: São Cristóvão, Engenho de Dentro, Cascadura, Madureira e Deodoro. A paisagem é típica do subúrbio – casas, lojas e pequenos prédios - e passa correndo pela janela. Mas o passageiro mais atento pode ver, mesmo que só de relance, dois cartões-postais esportivos do Rio: o Maracanã e o Engenhão (estádio construído para os Jogos Pan-americanos, que fica no Engenho de Dentro, vizinho à estação de trem daquele bairro).
Os passageiros de todo dia nem prestam atenção à paisagem. Alguns lêem, outros ouvem seus walkman ou MP3. Uns poucos conversam, enquanto outros cochilam e até dormem a sono profundo. Sem os ambulantes, a viagem é quase silenciosa. Nada de “isqueiro eletrônico a R$ 1”, “120 cotonetes só R$1” e tantas outras ofertas “imperdíveis”. A música Shopping móvel, de Luizinho e Claudinho do Cavaco, traça bem esse perfil:
“Tem sempre tudo no trem que sai lá da Central
baralho, sorvete de coco, corda pro seu varal
tem canivete, benjamim
tem cotonete, amendoim
Sonho de Valsa e biscoito integral
tem sempre tudo no trem que sai lá da Central
chiclete, picolé do China, guaraná natural
tem agulheiro, paliteiro
desodorante, brigadeiro
e um bom calmante quando a gente passa mal
e quem quiser pode comprar
o shopping móvel é isso aí
é promoção desde a Central a Japeri.”
Depois de Deodoro, são mais 13 estações e paradas: Ricardo de Albuquerque, Anchieta, Olinda, Nilópolis, Edson Passos, Mesquita, Juscelino, Nova Iguaçu, Comendador Soares (ou Morro Agudo), Austin, Queimados, Engenheiro Pedreira e Japeri. Só esse trecho é considerado o Ramal Japeri.
Cidadania fora dos trilhos
Entre uma parada e outra, fui conversar com meus companheiros de viagem. E descobrir suas histórias.
Brasileiros como D. Maria de Lourdes Souza, de 59 anos, que duas vezes por semana pega dois trens para chegar à casa do pai, em Austin, e garantir um prato de comida e uns trocados pra passagem de volta e um ou outro alimento básico. Merendeira, prestes a ser despejada por falta de pagamento do aluguel, ela luta pela aposentadoria e pra receber na Justiça o salário devido pela última empresa que a contratou. “Olha aqui, minha filha, os papéis do processo no INSS. O médico pediu um exame, mas não tenho dinheiro pra fazer”, contou. O drama de Dora, personagem de Fernanda Montenegro em Central do Brasil, é "café pequeno" perto da história de d. Maria. A cidadania parece estar fora dos trilhos no nosso país.
O trem sacoleja um pouco. O cheiro dos freios invade o vagão. E vou até um rapaz que lê “O Monge e o Executivo”, de James C. Hunter. Ao mesmo tempo, ouve uma música num walkman. Wladimir Miguel tem 29 anos, mora em Japeri e estuda História, em Padre Miguel (Zona Oeste do Rio) - faz baldeação (troca de trem) em Deodoro para chegar à universidade. Pergunto a ele curiosidades das viagens no trem. “Hoje em dia o pessoal lê muito, principalmente os jornais populares... Os ambulantes ainda existem. Só incomodam quando o trem tá muito cheio, mas há uma tolerância dos passageiros, porque afinal eles estão trabalhando... Há tem o vagão dos crentes e o da sueca (jogo de baralho) também.”
Crentes e chupetas
Vagão dos crentes? Que história é essa? Melina diz que não é algo oficial e pouco acrescenta à informação. Há pessoas que embarcam num vagão e pregam o Evangelho, e só. Mas isso não é novidade. Lembro de já ter visto pastores circulando nos trens em minhas viagens de outrora. Mas nunca haviam delimitado um vagão como território fixo!
São 12h15 e o trem chega a Japeri – estação inaugurada em 1858. Eu, que já decidira retornar de trem, por minha conta e risco, pra observar os ambulantes, também quis investir mais na história dos tais “vagões especiais”.
Na estação final, antes de me despedir de Milena e da minha escolta – que fora trocada no meio do caminho -, não resisti a entrar numa composição mais antiga que seguiria para Paracambi – três estações adiante - e fotografar as "chupetas"! As chupetas eram tradicionais nos trens do Rio. Atualmente, estão em extinção. Pra quem não é íntimo, são aquelas alças, em forma de pingentes, que servem para os passageiros se segurarem durante a viagem. Elas vão e vêm ao sabor do balanço do trem. E nos horários do rush, ficam submersas sob um sem-número de mãos, disputando cada centímetro seu. Coitado de quem ficar por baixo!
No meio da tarde, depois de andar pela cidade, o que rendeu três notas na seção Guia – Centro Cultural de Japeri, Estação de trem de Japeri e Internet na praça -, além de uma no Banco de Cultura - A árvore e o muro -, embarquei num trem em Engenheiro Pedreira, que pertence ao município, em direção a Nova Iguaçu. Pude então observar a ação dos ambulantes.
Por causa da repressão, eles não circulam mais como nos velhos tempos: com a mercadoria à mostra o tempo todo. Hoje eles formam um exército de mochileiros. A mercadoria fica escondida em bolsas e mochilas, enquanto mudam de vagão, nas diferentes estações. Só é exposta e anunciada aos consumidores entre uma estação e outra. É um jogo de gato e rato com os seguranças da SuperVia, como registra esse vídeo postado no YouTube. Nem dá tempo de conversar, eles têm um olho no freguês e o outro no segurança mais próximo.
Jesus e a "chapadona"
Desci umas quatro estações depois de Nova Iguaçu, para embarcar de volta num trem mais cheio e, com sorte, no vagão dos crentes... Em Nilópolis, entrei num Japeri mais pra lotado, mas nada. Ainda perguntei a um ambulante se ele vira algum grupo de jogadores de sueca ou crentes naquela composição. Desci em Mesquita.
Anoitecia e eu pagando meus pecados, já acreditando que não havia salvação pra mim. Outro trem, mas cujo destino final era Nova Iguaçu – e mais pra vazio. Sentei desanimada... até ouvir o primeiro “Aleluia, irmão!”. Câmera na mão, saí à cata do pastor. E, meio por acaso, sentei ao lado de Josilene Barbosa de Moura.
Aos 35 anos, essa copeira se converteu à Assembléia de Deus há dois anos, num vagão dos crentes. “Eu aceitei Jesus aqui. Tava chapadona (bêbada) no dia. Mas quando o pastor perguntou quem queria ser salvo por Jesus, eu levantei a mão e comecei a chorar”, contou. Josilene me explicou o funcionamento dos vagões especiais.
“Tem vagão dos crentes, dos jogadores de sueca e dos pagodeiros. Todo mundo sabe quais são. O dos crentes é o quarto. Na hora do rush, tanto de manhã como à noite, vem sempre um pastor pregando, acompanhado por outro irmão.” Pelo que falou, há quase uma escala de horários e pastores para os trens. De manhã, eles pregam no sentido Japeri-Central, desde a madrugada (o primeiro trem sai de Japeri às 3h55), e à tarde, no sentido inverso. Josilene foi minha salvação!
(Poucos dias após minha viagem, dois trens do ramal Japeri colidiram nas proximidades da estação de Austin. Oito pessoas morreram e dezenas ficaram feridas. Em respeito às vítimas, decidi segurar por um tempo esse texto, que pretende mostrar mais os bastidores de um espetáculo cotidiano sobre os trilhos.)
Maravilha, Tetê!
Outro dia fui até Mesquita via metrô e super-via e cheguei! Não tinha a menor idéia de onde era mas quem tem boca vai à Roma e cheguei lá direitinho....
Bjs
Cris
Oi, Cris, quer dizer que anda pela Baixada? Legal! Mesquita é aqui pertinho de casa... Imagino que deva ter sido uma experiência e tanto essa integração/baldeação procê!
Beijos.
Tetê, que maravilha de texto... Só li agora, atrasada por conta do feriado. Sempre me assusto (não necessariamente no mau sentido) com o tamanho do Grande Rio. Seu texto é uma viagem por ele. Essa coisa dos vagões temáticos é muito interessante, uma regra informal entre os que pegam aquele transporte todo dia. Faz da viagem uma viagem - no sentido figurado...
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 17/10/2007 18:58
Muito legal Tetê!
Os trens são portadores fiéis da mais expontânea e original cultura brasileira, em vários aspectos.
Faltava alguém se ligar nisso e produzir sobre o tema. Você sabe que tem um ótimo roteiro nas mãos?
Por favor me convide para conhecer seus trabalhos
Grande abraço
Helena e Marcos, obrigada.
Imagine, Helena essa viagem em horário de rush... Aí é que devem rolar causos e experiências realmente representativas da realidade dessa imensa parcela da população.
Marcos, certamente dá um documentário - tantos e tão interessantes são os protagonistas dessas aventuras.
Abraços.
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