Nossa cara, nossa voz, nosso Fórum

Daniel Valentim
Transparência! Queremos ver as tripas
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daniel valentim · Juiz de Fora, MG
22/11/2006 · 241 · 9
 

De onde viemos? Para onde vamos? As duas maiores questões com que o homem impregnou o universo até então alheio a vontades foram exatamente as pendengas que motivaram um grupo de artistas, produtores e jornalistas a olhar de maneira crítica a situação de descaso e de politicagem que envolve a produção cultural do Amazonas... duas perguntas que se fundem numa: “Como estamos?”.

Bem, temos um festival de ópera que já dura dez anos moderno-montando Wagner pra turista americano achincalhar; e um festival internacional de cinema que, na terceira edição, quase não foi visto, pois as sessões no Teatro Amazonas estavam bem vazias e os telões armados em terminais de ônibus – em prol da famosa “popularização” da cultura –, exibindo os filmes do Um Amazonas (festival de filmes de um minuto produzidos por aqui), não conseguiam conquistar a atenção do povo na difícil disputa com a novela da hora do rush “À Espera do 213”.

Temos o Centro Cultural Cláudio Santoro (CCCS), onde nossos jovens aprendem violino tocando o instrumento 15 minutos por semana, durante seis meses no ano, para daqui a 326 anos, quem sabe – faz figuinha, faz figuinha! –, poder fazer parte da prestigiosa Amazonas Filarmônica; e uma Fundação Villa-Lobos em crise – “Ser ou não ser Secretaria Municipal de Cultura, eis a questão” –, que enquanto não se decide, também não sabe o que faz com os antigos projetos.

Temos uma infinidade de espaços culturais – e nesse caso não entrarei no mérito das programações – bem espalhados pelo... Centro da cidade; temos mostras de dança cheias de espetáculos de dança de salão; e mostras de teatro em que regionalismo significa trocar lobo-mau por onça-pintada-malina. Do interior, temos conhecimento das festas de bicho, como o Boi de Parintins e o Peixe Ornamental de Barcelos; e das de frutas, como a do cupuaçu em Presidente Figueiredo; da melancia em Manicoré; do açaí em Codajás e do guaraná em Maués, num Estado que não possui auto-suficiência nem em cheiro-verde, como constatou o professor de história Maurício Pardo, mais conhecido como Jabá, vocal dOs Tucumanus.

Temos Ordem dos Músicos.

Temos cadernos de cultura especializados em grades de tevê; fundo para a Cultura com conta vazia; artesanato que às vezes – às vezes – se esquece dos recursos que a Amazônia oferece e se rende ao barbante. Temos um reconhecido amadorismo em formatar projetos culturais, o que dificulta ainda mais a difícil arte de se utilizar leis de incentivo à cultura numa região de isenção fiscal para a Indústria; e grupos artísticos de resistência mesmo, trabalhando na periferia geográfica e midiática, como o Movimento Hip Hop Manaus, o Clube dos Quadrinheiros, e a revista Sirrose, sempre esbarrando na falta de recursos para seus projetos, sem desistir de tocá-los pra frente. Nestes dois últimos tópicos está embutido um outro problema que já deu muito pano pra manga aqui no Overmundo: infelizmente sofremos de uma castrante dependência do poder público, que gere recursos de maneira centralizada.

Em poucas palavras, possuímos políticas culturais voltadas para espetáculos e números de um lado, e de outro, artistas e grupos que se apóiam nesse esquema formando panelas pra tirar um troco sem muito trabalho. Desconhecemos não só as manifestações que vêm do interior do Estado, como as da própria periferia da capital, e talvez por isso mesmo, soframos o sério risco de ficarmos estagnados. Assumo a responsabilidade pelos juízos de valor enunciados no texto, pois como escreveu Manoel de Barros, “não pode haver ausência de boca nas palavras”. Também foi a insatisfação com o cenário cultural do Estado, entretanto, que motivou o grupo formado pela jornalista Dulce Gusmão, a escritora Regina Melo, o teatrólogo Nonato Tavares, a produtora Lídia Lúcia e as atrizes Koia Refkalefski e Débora Medeiros a realizar o seminário “Cultura e Cidadania – Caminhos para uma mudança”, entre os dias 17 e 19, no Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas (Caua).

“Nós descobrimos que não somos um grupo de doidos, ensandecidos”, brinca Dulce, referindo-se ao sucesso do evento, que contou com a participação de gente de diversas searas artísticas e até mesmo de cientistas do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) na platéia dos debates.

O seminário foi todo realizado na base da camaradagem; ou, melhor dizendo, na base da inquietação geral, pois todos os palestrantes aceitaram participar de graça, expondo idéias a partir de temas como “História, Raiz e Diversidade Cultural”, “Percepção Cultural e Cidadania”, “Políticas Públicas e o Fazer Cultural”, “Ética, Comunicação e Cultura” e “Cultura e Descentralização”. Para citar alguns nomes, ministraram palestras o professor Renan Freitas Pinto, da Editora da Universidade Federal do Amazonas (Edua); o escritor Márcio Souza; o artista plástico Otoni Mesquita; os antropólogos Sérgio Ivan e Selda Vale da Costa; a jornalista Ivânia Vieira; a secretária de Ciências e Tecnologias, Marilene Correa; DJ Tubarão, do Movimento Hip Hop Manaus; o luthier Paulo Mamulengo e o ator Fidélis Baniwa.

Depois dos três dias do evento, temos que o bojo dessa macaíba é a necessidade:
- de transparência na ocupação dos espaços culturais públicos e da gestão dos recursos para a cultura;
- de dar mais atenção ao interior e à periferia manauara e
- de criar mecanismos para que isso tudo seja cobrado.
De acordo com Dulce, a partir desses pontos, foi um consenso a criação de um Fórum Permanente de Cultura. A ordem agora é se unir para fazer pressão, ocupar os espaços com a “nossa cara, nossa voz”, resume, tocando num ponto muito delicado da cultura amazonense: o respeito aos conhecimentos indígena e popular. O Memorial dos Povos da Amazônia criado recentemente pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC), por exemplo, é um imenso vazio na Bola da Suframa, um “elefante branco”, nas palavras da jornalista, e poderia ser um local estratégico para se fazer uma ponte entre cultura e ciência da região, um dos principais pontos levantados pela secretária Marilene Correa.

A criação do Fórum é uma certeza; só há dúvidas quanto à sua formatação (subdivisão – ou não – em câmaras setoriais, etc.), e no dia 23 de novembro será divulgado o documento que resultou dos debates, que será devidamente publicado no banco de cultura do Overmundo. É provável que você só o encontre por aqui, pois apesar de ter sido divulgada a realização do seminário na imprensa, forças ocultas impediram a publicação de matérias sobre a criação do Fórum e a insatisfação de tanta gente com a Cultura de cê maiúsculo.

É...

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Ilhandarilha
 

Daniel, tem certeza que está falando do Amazonas? Aqui no ES é igualzinho. Só não conseguimos ainda formar um fórum para tentar acabar com essa cultura (com c minúsculo!) de gerenciar mal a Cultura.

Ilhandarilha · Vitória, ES 24/11/2006 17:24
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Yusseff Abrahim
 

Para somar com as observações do Daniel, tenho que dizer que durante o Festival Internacional de Cinema, realizado ainda este mês, fui barrado na sessão que exibiria o filme em competição Jouney from the fall (Tailândia/EUA). A razão? Estava de bermuda.
Bem, o problema é que muitos jurados entravam de bermuda e até sandálias devido o calor que faz nessa cidade. Bem, depois de argumentar e enlouquecer com o argumento em tom didático-repressivo daqueles que peneiravam locais com indumentária disconforme "... MAS ELES SÃO CONVIDADOS DO ESTADO!!!", percebi que uma amiga que faz parte da organização informava àquele filtro falante quem eu era (não que eu me julgue grande coisa, apenas que eu era um jornalista e para onde costumava escrever).
Já tinha dado as costas, mas como nada me faria perder o filme, consegui uma calsa emprestada com um garçon do Bar do Armando e entrei.
Lá dentro fiz questão de contar: 99 cadeiras vazias na platéia e mais 135 distribuídos nas 27 frisas vazias. Fantástico! Gastar milhões em um festival e restringir o acesso.
Mas é assim mesmo, para o povo: Telão nos terminais para ver filmes de piada pronta, para chegar ao nível de entrar no teatro e assisir à programação acadêmica... tem que merecer.

As oficinas e palestras de "acesso aberto ao público", a exemplo do ao passado, não tiveram o período de inscrições divulgados e foram preenchidas segundo os critérios de amizade da panela do audiovisual local, a qual obviamente me recuso a fazer parte. Ótimo para quem faz... boa parte estava hospedada no Tropical Hotel em contato com as celebridades convidadas (espero que tenham pago do próprio bolso... mas duvido).

Daniel, é muito juízo de valor para assumir se a gente for analisar a cultura pela atuação do poder imperial, digo: público, no Amazonas... se precisar de ajuda, terá um ombro amigo. Longa vida ao nosso Fórum!!!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 24/11/2006 20:34
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Yusseff Abrahim
 

NOSSA! eu escrevi calça com "s"!!!! E craseei um àquele com palavra masculina em seguida!!!! Quem ler, vai desculpando!

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 24/11/2006 20:38
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Yusseff Abrahim
 

Quase ia esquecendo... enquanto faz uma divulgação massiva para o exterior confundindo o Festival com plataforma turística, mais uma vez fica evidente os frutos do investimentos na produção local: NENHUM LONGA AMAZONENSE.
Prometo que paro por aqui.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 24/11/2006 20:48
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daniel valentim
 

yussef,
valeu pela colaboração e pela força.

Só pra atualizar: o documento resultante dos debates sairá no dia 5 de dezembro, e será postado no banco de cultura.
abraços

daniel valentim · Juiz de Fora, MG 25/11/2006 20:53
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Rosângela Argôlo
 

Pois é caro meu ... fazer cultura sem construir com o povo só dá nisso. Sala vazia etc e tal ... Cultura é a expressão de um povo, é a sua própria identidade. Cultura também é "beber" em outras fontes - em outras cultura. Mas, se os setores responsáveis pela visibilidade dessa identidade e desse "beber" não materializa isso, o que o povo vai fazer por ex. num evento que não lhe toca, que não lhe diz respeito? Aí a "thurma" sai com a expressão " - O povo não gosta de cultura." Não acredito nisso.

Rosângela Argôlo · Aracaju, SE 25/11/2006 21:01
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Alê Barreto
 

Uma alternativa é trabalhar com um pacote de possibilidades para a cultura, que envolvam articulação com poder público, iniciativa privada e cultura popular. Eu percebo sintomas que você falou aqui em Porto Alegre. E tenho trabalhado no sentido de construir uma autonomia, que permita trabalhar a cultura em rede, de forma interdependente e sustentável.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 26/11/2006 14:54
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Zezito de Oliveira
 

O AMAZONAS É AQUI!!!

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 26/11/2006 20:15
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Calu Baroncelli
 

Meu Deus! Vi São Paulo nesse texto.

Calu Baroncelli · São Paulo, SP 29/5/2008 18:05
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