NOSSA SALVAÇÃO: O IMPROVISO

André Carrasco
RÁSIMO
1
Tehrence Veras · Porto Alegre, RS
7/9/2007 · 110 · 5
 


Um trio em forma de contos de fada

Tudo começou um dia antes, na quinta, quando fui assistir ao primeiro show do trio Rásimo no bar Ocidente. Só de saber de antemão a formação e a proposta do grupo já me lambi os beiços. O projeto é encabeçado pelo baterista e percursionista Diego Silveira (nova promessa da composição moderna brasileira, que também toca no Conjunto do Arthur e é um dos fundadores das bandas Faskner e Relógios de Frederico), atacando tachos de cobre e alumínio, tambor africano, tambor paraense, djembe, pandeiro, lixeira e outros utensílios de plástico. No interesse de pesquisar timbres novos e achar sons diferentes, Diego juntou suas idéias e baquetas com seu colega de Relógios de Frederico, o soprista Rodrigo Siervo - sax barítono, sax de bambu, pífanos e ocarinas (ouçam o Siervo também na Camerata Brasileira) – e o meeeeeeestre e cada-vez-mais-multi-instrumentista Ângelo Primon (hors concours das cordas em Portinho. Confiram o disco dele Mosaico) – viola caipira, sitar, viola de cocho e berimbau – pra unicamente improvisar.

É inexplicável definir o que acontece numa apresentação dessas. Até porque nem mesmo os próprios músicos sabem e prevêem. O que se pode dizer é que há uma interação muito forte entre instrumentistas e instrumentos a favor de um único movimento: fazer música. Só essa atitude já seria louvável. Porém, o que deu pra perceber no trio Rásimo foi um frescor musical e uma vontade de tocar que há muito eu não via por aí.

O pouquíssimo público presente no Ocidente (explicado pela concorrência do circo da china e de um show da Ultramen no mesmo dia) propiciou um clima ainda mais intimista. Pra quem pensa que três caras improvisando sabe-se lá por quanto tempo em seus instrumentos inusitados é chato, recomendo dar uma ouvida com cuidado no Rásimo. A musicalidade que se faz sentir é de causar verdadeira comoção.

Já de início, salta uma linha descoladíssima de sax barítono e nada mais. Só pra criar um clima. A partir daí, um mar de idéias musicais começa a tomar conta do ambiente, enquanto Ângelo e Diego vão indo atrás do motivo que o Siervo lançou. Os timbres que resultam daquela simbiose de sons aparentemente diferentes aos ouvintes mais desatentos são quase palpáveis. A certa altura juro que tentei agarrar com as duas mãos um solo de sitar do Ângelo, mas logo em seguida me dei conta de que era fisicamente impossível.

Em meio aos climas que vão surgindo – cada um melhor que o outro -, os instrumentos também vão sendo alternados, mas sem perder em nenhum momento a uniformidade do som que ali está estabelecido.

Outro fator que fica claro durante esse desfile de bom gosto musical é a brasilidade dos músicos da Rásimo. Não sei se ouvi bem, mas até baião eu saquei num dos momentos da apresentação e tenho certeza de que rolou uma citação de “Cidade Maravilhosa” em um dos solos de berimbau com slide do Primon! As melodias tiradas pelo Siervo dos seus brinquedinhos de assoprar são de se refestelar e, pasmem, as que Diego concebe nas suas bacias de cobre também são deslumbrantes – poucos percursionistas conseguem usar suas armas rítmicas melodicamente tão bem.

Creio que o que aconteceu naquela noite no Ocidente foi mais do que um espetáculo musical. Foi uma bela e emocionante fábula, com início meio e fim, conduzida por três instrumentistas que têm muita história nova pra nos contar. Confiram aqui uma amostra.

Música pra ouvir sentado

Aí veio sexta. E em troca de um quilo de alimento fui ver o novo repertório instrumental do Arthur de Faria & Seu Conjunto na livraria Cultura. Crianças e idosos saiam da sala. O Arthur tá compondo cada vez melhor e criando umas peças beeeem dodóis. O entrosamento da banda é visível. Mas o mais bacana é que o Art faz uma música inegavelmente de vanguarda, bem-humorada e sem ser chato, além de misturar ritmos latinos (tem bolero, habanera, tango, milonga etc) com um viés jazzístico-mas-nem-tanto que geram umas nuances agradabilíssimas aos ouvidos.

A formação do Seu Conjunto (Baixo, guitarra, bateria, piano, sax alto, fagote e trombone) torna a exposição dos temais ainda mais interessante, em função da combinação dos timbres e da execução dos músicos - todos cobras que eu nem vou citar, porque senão vira babação de ovo.
O show é completamente instrumental e com muito espaço pra improviso de todo mundo, inclusive do dono da banda – que assumidamente não é um improvisador! E os guris estavam endiabrados naquele fim de tarde. Até porque os temas dão margem a isso.

Os pontos mais altos foram Osvaldo y Astor en Vênus - tango doente que o Art fez em homenagem a dois papas do ritmo porteño Osvaldo Pugliese e Astor Piazzola -, Fables of Faubus – do grandessíssimo e, ainda bem, louco de atar Charles Mingus-, 25 de Março – um rápido free jazz valseado que é uma verdadeira loucura – e o melhor do show: Prenda Minha. Só que na versão do Artur. O clássico do cancioneiro gaúcho ganhou um arranjo polifônico que fez dois casais (já de cabelos bem branquinhos) que estavam sentados ao meu lado saírem correndo da pequena sala de audição. Uma maravilha! Mais em: www.seuconjunto.com.br

Térence Veras

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Felipe Obrer
 

Térence, gostei de ver já uma colaboração tua por aqui... Fiquei curioso pra saber mais sobre os grupos e lugares que citas, que tal colocar uns links aqui num comentário?

Abração,
Felipe

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 6/9/2007 14:24
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Felipe Obrer
 

Aliás, acabei de constatar que o que está ao final do texto é do Arthur de Faria. Mas do Rásimo (de onde vem o nome?) tem link?

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 6/9/2007 14:26
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Tehrence Veras
 

Boa idéia Felipe. Na correria, esqueço de certas coisas.
Site pra ouvir e ler mais sobre o trio Rásimo: www.myspace.com/rsimo *(assim mesmo, sem a letra A no meio)

Tehrence Veras · Porto Alegre, RS 6/9/2007 14:36
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Felipe Obrer
 

Muito bom o som do Rásimo. Vontade de ir até Porto Alegre ver ao vivo e de perto!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 6/9/2007 14:45
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Labes, Marcelo
 

Térence, cheguei aqui por intermédio do Obrer. Ele tinha dito que o texto era bom e que eu deveria gostar, mas não tinha falado nada a respeito de se tratar de um texto apaixonante como este. Obrigado por trazer à tona a marginália porto-alegrense. Quanto mais há por aí que desconhecemos por aqui? Nos mostre, por favor.

Grande abraço.

Labes.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 10/9/2007 11:14
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