"Nosso racismo é um crime perfeito"

Revista Forum
Prof. Kabengele Munanga
1
Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ
22/8/2009 · 12 · 13
 

Entrevista com o prof zairense Kabengele Munanga por Camila Souza Ramos e Glauco Faria que pode ser encontrada na íntegra na edição impressa da revista 'Fórum' de agosto de 2009).

Fórum - O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?

Kabengele - Essas coisas n√£o s√£o t√£o abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. N√£o se depara com o preconceito √† primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas v√™m pouco a pouco, quando se come√ßa a descobrir que voc√™ entra em alguns lugares e percebe que √© √ļnico, que te olham e j√° sabem que n√£o √© daqui, que n√£o √© como ‚Äúnossos negros‚ÄĚ, √© diferente. Poderia dizer que esse estranhamento √© por ser estrangeiro, mas essa compara√ß√£o na verdade √© feita em rela√ß√£o aos negros da terra, que n√£o entram em alguns lugares ou n√£o entram de cabe√ßa erguida.

Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na quest√£o racial.

Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.

A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não.

Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?

Meus filhos estudaram em escola particular, Col√©gio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu n√£o ia busc√°-los na escola, e quando sa√≠am para tomar √īnibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os √ļnicos a ser revistados. No entanto, a condi√ß√£o social era a mesma e estudavam no mesmo col√©gio. Por que s√≥ eles podiam ser suspeitos e revistados pela pol√≠cia? Essa situa√ß√£o eu n√£o posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje √© ator, quando comprou o primeiro carro dele, n√£o sei quantas vezes ele foi parado pela pol√≠cia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instru√≠do para n√£o discutir e dizer que os documentos est√£o no porta-luvas, sen√£o podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladr√£o do pr√≥prio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos at√© hoje n√£o saem de casa para atravessar a rua sem documento.

São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso.
Ent√£o, essa coisa de pensar que a diferen√ßa √© simplesmente social, √© claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui tamb√©m vai junto com o social, n√£o tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo √† quest√£o, por meio da viv√™ncia, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da popula√ß√£o negra, e entendi que a democracia racial √© um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na √Āfrica do Sul durante o regime do apartheid, diferente tamb√©m do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo √©, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele √© velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso n√£o quer dizer que fa√ßa menos v√≠timas do que aquele que √© aberto. Faz v√≠timas de qualquer maneira.

Revista Fórum - Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo...

Kabengele - Claro, √© mais dif√≠cil. Porque voc√™ n√£o identifica seu opressor. Nos EUA era mais f√°cil porque come√ßava pelas leis. A primeira reivindica√ß√£o: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar pol√≠ticas p√ļblicas que busquem a promo√ß√£o da igualdade racial. Aqui √© mais dif√≠cil, porque n√£o tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger est√£o na nova Constitui√ß√£o que diz que o racismo √© um crime inafian√ß√°vel. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a pr√°tica do racismo n√£o era um crime, era uma contraven√ß√£o. A popula√ß√£o negra e ind√≠gena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum - Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial?

Kabengele - Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.

Em compara√ß√£o com outros pa√≠ses do mundo, o Brasil √© um pa√≠s que tem um √≠ndice de mesti√ßamento muito mais alto. Mas isso n√£o pode impedir uma pol√≠tica, porque basta a autodeclara√ß√£o. Basta um candidato declarar sua afro-descend√™ncia. Se tiver alguma d√ļvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indiv√≠duo se autodeclara afrodescendente. √Äs vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mesti√ßos, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mesti√ßo, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso s√£o erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, n√£o seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas n√£o √© isso que vai impedir uma pol√≠tica p√ļblica que possa beneficiar uma grande parte da popula√ß√£o brasileira.

Al√©m do mais, o crit√©rio de cota no Brasil √© diferente dos EUA. Nos EUA, come√ßaram com um crit√©rio fixo e nato. Basta voc√™ nascer negro. No Brasil n√£o. Se a gente analisar a hist√≥ria, com exce√ß√£o da UnB, que tem suas raz√Ķes, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo crit√©rio das cotas, usaram o crit√©rio √©tnico-racial combinado com o crit√©rio econ√īmico. O ponto de partida √© a escola p√ļblica. Nos EUA n√£o foi isso. S√≥ que a imprensa n√£o quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota √© simplesmente racial.

N√£o √©. Isso √© mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. √Č necess√°rio fazer um certo controle, sen√£o n√£o adianta aplicar as cotas. No entanto, se mant√©m a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos √≠ndices do Pnud, mostram que o abismo em mat√©ria de educa√ß√£o entre negros e brancos √© muito grande. Se a gente considerar isso ent√£o tem que ter uma pol√≠tica de mudan√ßa. √Č nesse sentido que se defende uma pol√≠tica de cotas.

O racismo √© cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que est√£o contra cotas pensam como se o racismo n√£o tivesse existido na sociedade, n√£o estivesse criando v√≠timas. Se algu√©m comprovar que n√£o tem mais racismo no Brasil, n√£o devemos mais falar em cotas para negros. Dever√≠amos falar s√≥ de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, ent√£o n√£o h√° como voc√™ tratar igualmente as pessoas que s√£o v√≠timas de racismo e da quest√£o econ√īmica em rela√ß√£o √†quelas que n√£o sofrem esse tipo de preconceito. A pr√≥pria pesquisa do IPEA mostra que se n√£o mudar esse quadro, os negros v√£o levar muitos e muitos anos para chegar aonde est√£o os brancos em mat√©ria de educa√ß√£o. Os que s√£o contra cotas ainda d√£o o argumento de que qualquer pol√≠tica de diferen√ßa por parte do governo no Brasil seria uma pol√≠tica de reconhecimento das ra√ßas e isso seria um retrocesso, que ter√≠amos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.

Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli.

Kabengele - Isso √© muito falso, porque j√° temos a experi√™ncia, alguns falam de mais de 70 universidades p√ļblicas, outros falam em 80. J√° ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? N√£o existe. √Č claro que houve manifesta√ß√Ķes numa universidade ou outra, umas picha√ß√Ķes, "negro, volta pra senzala".

Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.

Fórum - Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?

Kabengele ‚Äď Tenho a impress√£o que as posi√ß√Ķes ideol√≥gicas n√£o s√£o expl√≠citas, s√£o impl√≠citas. A quest√£o das cotas √© uma quest√£o pol√≠tica. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que n√£o h√° racismo no pa√≠s. E o argumento desse deputado do DEM √© esse, de que n√£o h√° racismo no Brasil, que a quest√£o √© simplesmente socioecon√īmica. √Č um ponto de vista refut√°vel, porque n√≥s temos provas de que h√° racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, n√£o h√° problema com ele, que o problema √© s√≥ com os pobres, que n√£o podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discrimina√ß√£o contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres tamb√©m s√£o beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.

F√≥rum ‚Äď Mas isso n√£o √© um cinismo de parte desses atores pol√≠ticos, j√° que eles s√£o contra o sistema de cotas, mas tamb√©m s√£o contra o Bolsa-Fam√≠lia ou qualquer tipo de pol√≠tica compensat√≥ria no campo socioecon√īmico?

Kabengele - √Č interessante, porque um pa√≠s que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudan√ßa, de transforma√ß√£o da sociedade. Cada vez que se toca nas pol√≠ticas concretas de mudan√ßa, vem um discurso. Mas voc√™ n√£o resolve os problemas sociais somente com a ret√≥rica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola p√ļblica? Estou aqui no Brasil h√° 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola p√ļblica mudou em algum lugar? N√£o, mas o discurso continua. "Ah, √© s√≥ mudar a escola p√ļblica."

Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola p√ļblica √© ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola p√ļblica e lutar pelas leis, bom sal√°rio para os educadores, laborat√≥rios, seguran√ßa. Mas a coisa s√≥ fica no n√≠vel da ret√≥rica.

E tem esse argumento legalista, "porque a cota √© uma inconstitucionalidade, porque n√£o h√° racismo no Brasil". H√° juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constitui√ß√£o √© uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. √Č essa igualdade material que √© visada pelas pol√≠ticas de a√ß√£o afirmativa. N√£o basta dizer que somos todos iguais. Isso √© importante, mas voc√™ tem que dar os meios e isso se faz com as pol√≠ticas p√ļblicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excel√™ncia universit√°ria. Est√° comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Ent√£o a excel√™ncia n√£o foi prejudicada. Ali√°s, √© curioso falar de m√©rito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de m√©rito. M√©rito significa simplesmente que voc√™ coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo n√≠vel. Quando as pessoas n√£o s√£o iguais, n√£o se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. √Č como voc√™ pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola p√ļblica, da periferia, de p√©ssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, √© claro que os que v√™m de uma boa escola v√£o ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele n√£o vai decepcionar.

Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros.

Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.

A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum - O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito...
Kabengele - O racismo √© uma ideologia. A ideologia s√≥ pode ser reproduzida se as pr√≥prias v√≠timas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Al√©m das pr√≥prias v√≠timas, outros cidad√£os tamb√©m, que discriminam e acham que s√£o superiores aos outros, que t√™m direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se n√£o reunir essas duas condi√ß√Ķes, o racismo n√£o pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educa√ß√£o que n√≥s recebemos √© para poder reproduzi-la.

H√° negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que s√£o mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como tamb√©m tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que s√£o superiores por natureza. Mas para voc√™ lutar contra essa ideia n√£o bastam as leis, que s√£o repressivas, s√≥ v√£o punir. Tem que educar tamb√©m. A educa√ß√£o √© um instrumento muito importante de mudan√ßa de mentalidade e o brasileiro foi educado para n√£o assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros √© o ‚Äúpreconceito de ter preconceito de ter preconceito‚ÄĚ. O brasileiro nunca vai aceitar que √© preconceituoso. Foi educado para n√£o aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado n√£o se fala de corda.

Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: "Não vou alugar minha casa para um negro". No Brasil, vai dizer: "Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar". Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.

Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não.

Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum - O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.

Kebengele - Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.

Essas jovens brancas, loiras, tamb√©m pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda s√≥ arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas n√£o querem que os negros casem com suas filhas. √Č uma forma de racismo. Est√£o praticando um preconceito que n√£o respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor √© algo sem fronteiras, e n√£o teria tantos mesti√ßos nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustra√ß√£o disso, ou √© uma provoca√ß√£o ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.

F√≥rum - √Č que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simpl√≥rio: "por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco", como se fosse a mesma coisa.

Kabengele - √Č interessante isso, porque tenho a impress√£o de que √© um cara que n√£o conhece a hist√≥ria e o orgulho negro tem uma hist√≥ria. S√£o seres humanos que, pelo pr√≥prio processo de coloniza√ß√£o, de escravid√£o, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. √Č isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a hist√≥ria do orgulho negro. O branco n√£o tem motivo para ter orgulho branco porque ele √© vitorioso, est√° l√° em cima. O outro que est√° l√° em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.

F√≥rum - O senhor tocou no caso do Grafite com o Des√°bato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Gr√™mio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas ‚Äď jornalistas que comentaram, a diretoria gremista ‚Äď argumentavam que no campo de futebol voc√™ pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, n√£o teria como ter jogo de futebol. Como voc√™ v√™ esse tipo de situa√ß√£o?

Kabengele - Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro... Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco?

(Segue)

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Andre Pessego
 

Muito importante. Muito mesmo. Boa iniciativa a transcrição
abraço
andré

Andre Pessego · S√£o Paulo, SP 22/8/2009 13:54
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Spírito Santo
 

√Č isto a√≠, meu v√©io.

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 22/8/2009 19:09
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Ilhandarilha
 

Não li a entrevista todas, mas vou ler. Acho que cabe aqui linkar a polêmica entre Demétrio Magnoli e Kabengele sobre a questão racial.

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 23/8/2009 12:05
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Ilhandarilha
 

O Demétrio, aliás, é autor de um livro chamado "Gotas de Sangue - a história do pensamento racial", o qual tb não li, mas que tenho curiosidade de ler.

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 23/8/2009 12:09
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Spírito Santo
 

INfelizmente n√£o tenho muito √Ęnimo de ler caras como o Dem√©trio e o Ali Kamel. Achei umas coisas deles fora deste eixo 'anti-racialista' que os associa muito de perto com certa direita do Partido Republicano norte americano. Me deu urtic√°ria.

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/8/2009 14:10
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Ilhandarilha
 

Porisso a polêmica!

Ilhandarilha · Vit√≥ria, ES 23/8/2009 17:49
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Spírito Santo
 

Vou ler a parte da polêmica com o Kabengele, mas já conheço a fragilidade dos argumentos desta turma.
O que me preocupa mais agora são as entrelinhas do discurso deles que, vão muito além deste ramerrão pretensamente anti-racialista. Chamo eles de 'neo-racistas' por conta deste viés direitista que detectei e que está bem enrustido nos seus textos.
Vivi lá na Austria um processo muito semelhante com a ascenção de um partido da direita (neo-nazista) que desenvolvia o mesmo escorregadio discurso com relação aos emigrantes. Tenho o pé bem atrás com esta gente, de cadeira. Podes crer.

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/8/2009 21:11
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Spírito Santo
 

Cotas para negros #01
(Perdão, gente se jogo pesado, mas é que 'demetrio-kamelistas' adoram estatísticas, então lá vai:)

No per√≠odo de um ano (2006/2007) foram mortos assassinados POR HORA no Brasil 3,5 negros (1,7 brancos). Ou seja, em n√ļmeros absolutos quase 70% dos mortos eram negros (67,9%). Foram 52.059 negros a menos no pa√≠s e (igual a capacidade do Gmail) os n√ļmeros est√£o aumentando todo segundo.
Os dados são do Relatório Anual de Desigualdades Raciais no Brasil coordenado pelo Marcelo Paixão da UFRJ.
Dona Morte veste branco e ceifa cotistas com grande desenvoltura. Concordo com os kamelistas: "N√£o somos racistas" (somos genocidas mesmo)

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/8/2009 23:17
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Spírito Santo
 

ILha,

Pronto. J√° li o 'debate' entre o Magnoli e o Kabengele. Acho este tipo de baixaria intelectual perpetrada por esta gente uma coisa que enoja. √Č bem t√≠pico da natureza da ideologia que parecem professar e a qual eu me referi l√° em cima, mesmo antes de ler o tal ge√≥grafo da PUC.
Arghhh!

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/8/2009 23:29
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Andre Pessego
 

Pois é, este é o viés torto por onde as Forças Armadas Brasileiras,
a segunda pior desgraça do negro, depois do Cristianismo, se esguia, se isenta de uma responsabilidade delas: A questão da divisão (para baixo) entre as raças da população do Brasil é responsabilidade das Forças Armadas. Enquanto não houver uma quota no Exercito, outra na Marinha, outra na Aeronáutica
vamos tateando, de olhos vendados e ainda no escuro.
No Brasil h√° a medida de dois term√īmetros sociais

a) a posse da terra.
b) as patentes das Forças Armadas do Brasil.


a.1)Enquanto o negro, como o indígena, (e quando falo no indígena me refiro ao "MAMELUCO", o outro gargalo dentro do gargalo), não puderem ter a posse da TERRA, salve-se quem puder;
b.1) Enquanto não tivermos, nas Forças Armadas, 40% 50% de oficiais generais negros, continuam eles (aqueles que tem o monopolio do poder e da bala), matando e contado seus 13 mortos por dia, somente no Rio de Janeiro.
Quem morre? Dentro do principio adotado pelas Forças Armadas:
"Não há negro rico, não existe soldado rico e em favela só moram pobres. Logo, UM NEGRO VAI MORRER"

REPETINDO: Matraca terrível. Nada escapa da responsabilidade
das Forças Armadas Brasileiras.
abraço
André .


Andre Pessego · S√£o Paulo, SP 24/8/2009 06:27
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Higor Assis
 

O que eu fico mais indignado é quando as pessoas - sem conhecer nada, mas nada mesmo - criticam as coisas, digo coisas para não ficar aqui escrevendo tudo, pois é muita coisa.

Até mesmo minha própria esposa (que é negra) faz isso, uma pena... ela ainda eu consigo e tento explicar o pouco que aprendo e que sei...

Um abraço amigo

Higor Assis · S√£o Paulo, SP 25/8/2009 16:43
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Nat√°lia Amorim
 

Voltando ao Overblog Spírito. A questão me toca, sou de família inter-racial. Como arte-educadora uma das temáticas que mais exploro é a cultura Africana e Afro-Brasileira, assim como a Indígena. Anos de colonização nos tornaram inconscientes de nossa mestiçagem, de nossas descendências. Vejo isso em sala de aula. Morei no norte do País, e em uma população que em boa parte descende de indígenas, é impressionante o preconceito que se tem ainda hoje.
Arte, M√ļsica e o Amor a meu ver s√£o os caminhos a serem trilhados.
H√° outro?

Grande Abraço

Nat√°lia Amorim · Rio de Janeiro, RJ 25/8/2009 20:08
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Spírito Santo
 

Natalia,

Muito pertinente você tocar neste ponto da população indígena. A gente as vezes nem se toca, mas rigorosamente toda a população dita 'nordestina' ou 'nortista' é de ascendencia indígena e renega completamente esta condição.

Grande abraço

Sp√≠rito Santo · Rio de Janeiro, RJ 25/8/2009 22:21
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