Música para confundir

Divulgação
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Vladimir Cunha · Belém, PA
12/5/2006 · 142 · 3
 

Difícil explicar o Cravo Carbono. De som tão multifacetado quanto o gosto musical dos seus integrantes, ele se situa em uma espécie de zona do crepúsculo da música paraense. Rock demais para o pessoal da MPB e talvez MPB demais para quem acha que o rock se faz apenas com guitarradas distorcidas e letras de pura ingenuidade juvenil.

Um mal comum nos dias que correm, onde rapazes tatuados cantam letras de amor enquanto dão piruetas em seus skates e posam para o vídeo da semana na MTV. Mas entre o rock conformado a ser produto de massas e a fábrica incessante de ídolos pop, existe uma música brasileira subterrânea, subdesenvolvida por natureza e paradoxalmente sofisticada e pós-moderna, que busca entender a si própria a partir das contradições do lugar de onde surge. Como o Cravo Carbono, que cogita unir o poeta Max Martins aos catadores de siri dos rios paraenses e mistura experimentações kraut-rock com guitarradas e poesia concreta com festa de aparelhagem.

“Embora tenhamos uma formação baixo-guitarra-voz-e-bateria e realmente bebamos do rock, entre diversas outras fontes, radicalmente não acho que o Cravo seja só uma banda ‘do’ rock, feita para executar seus programas neste sistema operacional”, vai explicando o vocalista e principal letrista da banda Lázaro Magalhães, “Isso seria ferir nossas possibilidades de mobilidade. Esse tipo de visão tem que implodir, porque não explica como os Mestres das Guitarradas podem andar no mesmo bando do Cravo Carbono e do Tecnoshow, nem as ligações do Mestre Laurentino com o Coletivo Rádio Cipó, por exemplo”.

Lázaro não deixa de ter razão, já que essa confusão e essa interseção de estilos e maneiras de fazer música estão presentes não só na cena musical paraense, mas também na própria formação do Cravo Carbono, que de 1995 para cá contou com músicos das mais variadas procedências, do hardcore ao pós-punk, do rock progressivo à MPB. Tanta gente junta, tocando tanta música diferente, só podia dar nisso. E, segundo Lázaro, contribuir para uma tentativa de criar uma música pop amazônica. “Sabemos que no Norte existe uma maneira de tocar guitarra que é genuinamente brasileira, responsabilidade do Vieira de Barcarena, inventor das guitarradas. Mais ainda: no som do Cravo, que tem uma formação até limitada, queremos mesmo é colocar em pé de igualdade o zouk com o blues, o carimbó com o rock, com o merengue, com o samba, com o tecnobrega, com as guitarradas, a música eletrônica e o que mais for audível no planeta”, afirma ele.

Some-se a isso reminiscências de sua infância quase nômade nos anos 70 e 80, que explica o emaranhado de referências visuais e literárias retratado nas letras da banda. Filho de pai militar, Lázaro cresceu entre Belém, Manaus e Rio de Janeiro, com direito a breves estadas no nordeste e em Corumbá, na fronteira do Brasil com a Bolívia. “Eu tinha amigos filhos de paraguaios que escutavam rasqueado, polca paraguaia, Milionário e José Rico, Abba... E ainda havia aquela história de começar a ouvir música em trilha de novela. Nesse meio tempo descobri a poesia. Gosto do Drummond, do Pessoa, do Quintana, gosto da crueza dos punks. Nas letras, a Belém que eu tenho na cabeça é um lugar que sempre vi muito ligado ao resto do Brasil: uma metrópole de concreto maluca, maravilhosa, perversa e única, que cerca o bosque Rodrigues Alves e ignora curiosamente a floresta e a baía que sempre a cercaram, e cheia de personagens e histórias comuns a qualquer outro lugar do planeta”, diz.

Ao lado do baixista Bruno Rabêlo, ex-guitarrista da banda de heavy-metal experimental Mohamed; do ex-rock progressivo e agora homem da guitarrada Pio Lobato e do baterista Vovô, também baterista do projeto Cuba S.A., da banda Homem Sem Pecado e dos Mestres da Guitarrada, Lázaro acha que finalmente o Cravo Carbono encontrou um som para chamar de seu. O estágio final de um processo que se iniciou de fato com o disco Peixe Vivo, de 1999, que apontava os caminhos que banda iria seguir dali para frente: a poesia concreta, as letras declamadas, o rock experimental e a aproximação com os ritmos amazônicos e caribenhos. Principalmente as guitarradas, uma obsessão de Pio Lobato.

O resultado mais imediato desse processo é Córtex, o novo disco da banda. Ao contrário de Peixe Vivo, gravado ao vivo em apenas uma tarde, é um álbum mais lapidado, menos “nervoso” e menos limitado musicalmente, nas próprias palavras do vocalista. Talvez pelo fato de ter sido gravado ao longo dos últimos três anos em estúdios improvisados na casa dos integrantes da banda, sem as pressões de um estúdio convencional. Daí saiu um disco mais diversificado, liricamente mais interessante e apontando para novos caminhos sonoros. O Cravo Carbono mudou para continuar o mesmo. E segue confundindo a cabeça de quem separa a música em rótulos e prateleiras.

Para ver um webclip do Cravo Carbono no Overmundo clique aqui.

Para ouvir música também sem sair do Overmundo: A Marcha, Café BR, Supernada.

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ana banana
 

a diversidade e a criatividade fazem o grupo ter o que pode ser chamado de som próprio.
mais do que nunca, nada se perde, tudo se transforma.

ana banana · Belém, PA 13/5/2006 01:26
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DiogoFC
 

Esse não é 'música pra classe média fingir q é inteligente'? Mmm

DiogoFC · Criciúma, SC 7/12/2006 12:38
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Lázaro Magalhães
 

Não. Não é mesmo.
Pára de fingir então e vai ler mais, cara! Hehehe
http://www.overmundo.com.br/overblog/para-planetario

Lázaro Magalhães · Belém, PA 6/7/2007 18:04
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