Tião na Praia de João

Zema Ribeiro
Em momento de folga, Tião Carvalho conversou com o Overmundo
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Zema Ribeiro · São Luís, MA
23/9/2006 · 85 · 5
 

Tião Carvalho acaba de lançar o inspirado álbum Tião (Carvalho) canta João (do Vale) [Por do Som/Atração, 2006], onde revê, com a propriedade típica de quem, mais que conhecer, vivencia o trabalho que faz, com prazer. Nascido em Cururupu, cidade cravada no litoral ocidental do Maranhão, Tião mudou-se aos oito anos para a capital do Estado e em 1979 partiu para São Paulo, onde mora. Esta é apenas uma das diversas semelhanças que guarda com o também maranhense João do Vale, que deixou sua Pedreiras natal para brilhar nos forrós do sul maravilha e amargar o apagar das luzes quase no esquecimento. Tião desenvolve, no Morro do Querosene, atividades culturais e sociais. Por essas e outras, em 2004, recebeu da Câmara Municipal de São Paulo, o título de cidadão paulistano.

Com patrocínio da Petrobras, através do Ministério da Cultura, “Tião canta João” não é o resultado fácil de um artista que pega um apanhado de canções de um compositor e monta um caça-níquel em forma de disco. É o mergulho profundo e sincero de Tião Carvalho na obra de João do Vale. Tanto é que não se limita a regravar “clássicos” do autor de “Pisa na fulô” (música que não entrou no disco), mas recriá-los e pesquisar músicas quase desconhecidas do vastíssimo legado deixado por João. Estão lá “Carcará” (que virou uma toada de bumba-meu-boi), "Sanharó", "Os óio de Ana Bela (Olhar de Ana Bela)”, “Baião de viola” e “Eu chego lá”.

As participações especiais de Zeca Baleiro (em “De Teresina a São Luís” e no coro de “Forró do Beliscão”), Divina Batucada (grupo de maranhenses radicado em São Paulo, no samba “A voz do povo”) e Trio Virgulino (em “Os óio de Ana Bela”) mostram uma reunião de amigos celebrando a música de João do Vale, que com um discurso social extremamente forte e atual, soa, antes de tudo, alegre.

Semana passada, o compositor de “Nós” (gravada por Cássia Eller e Ná Ozzetti) esteve em São Luís para o lançamento de “Tião canta João” (Teatro Arthur Azevedo, 14/9). No show, repertório exclusivo do autor de “Na asa do vento”, mas sem se limitar ao que está no disco. À vontade no palco, esbanjava alegria: cantou, dançou e contou histórias, numa apresentação impecável. Daqui, volta para São Paulo e roda, ainda este ano, Brasília, Rio de Janeiro e Salvador, entre outras. “Trabalhar com músicos locais, essa troca, me enriquece muito e a eles também. Gosto muito”, disse. A idéia para 2007 é uma turnê pela Europa.

Antes, aproveitando um momento de folga, conversou com o Overmundo. Era domingo, e Tião havia chegado atrasado para a pelada que inclui tradicionalmente na agenda, sempre que vem ao destino da viagem de trem cantada por João. Entre o barulho dos pagodes emanados das barracas da Avenida Litorânea e o dos carros de som com propaganda política que passavam constantemente, e sendo várias vezes interrompido por vendedores de toda ordem – amendoins, ostras, picolés – concedeu a entrevista que se lê a seguir.

Zema Ribeiro – Gostaria que você começasse falando de sua infância, das experiências em Cururupu, se ainda vais lá de vez em quando.
Tião Carvalho – Minha infância em Cururupu foi uma infância de brincadeiras, de boi de cofo, infância de água, fruta, festa, família. Vou lá em média uma vez por ano. Minha mãe mora lá. Eu tenho duas mães, que na realidade são irmãs, a que me teve e a que me criou. São irmãs e as duas estão agora em São Luís. Ontem [16/9] foi aniversário da Didi, e a minha mãe veio pra cá pro aniversário dela, pro show e pra me ver. Quando eu venho a São Luís, às vezes correndo, não dá tempo de ir até Cururupu, então a minha mãe vem aqui me ver. Às vezes vou lá ver mamãe, os parentes, beber água, tomar banho de rio, fazer alguns rituais necessários para ter alimento pra batalha lá fora.

Tu estás há mais de 25 anos em São Paulo. Tu sentes muita diferença entre o Maranhão de tua infância e o de hoje? A São Luís de tua adolescência, a Cururupu de tua infância e a de hoje? Dá pra dizer se é melhor ou pior?
Estou em São Paulo há 26 anos, 27 anos. São Luís tá muito diferente, Cururupu nem tanto. A diferença [entre o passado e o presente] de São Luís é maior. Lá [em Cururupu] também tem televisão, já há essa entrada da mídia, que transforma muito as coisas, mas as diferenças são menores. A estrutura, a geografia, os costumes permanecem. A televisão, a mídia, o capitalismo, fazem com que estas coisas se transformem. Em São Luís essa diferença é mais berrante que em Cururupu. Dizer se é melhor ou pior, é um pouco difícil porque não se trata só de São Luís, necessariamente, e tal. O mundo, me parece que ele perde um pouco com o capitalismo, que faz com que a gente perca coisas muito profundas. Aquela coisa que o poeta fala [cita Caetano Veloso] “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”, então, eu não diria se é pior ou melhor, me parece ainda um pouco cedo pra dizer isso, pra colocar esse sentimento. O capitalismo, principalmente quando se trata da relação da música, da arte, ele sai destruindo com muita força, com muita arrogância, é isso que eu sinto, quando tratamos do lado musical, social, cultural. É algo pesado. Por exemplo: é muito comum, esse ano eu não sei, mas eu já observei muitas vezes, por exemplo, em Cururupu, um [grupo de bumba-meu-]boi tradicional fazendo a festa dele, e ao lado, uma “radiola” de reggae com o som altíssimo. E o pessoal do boi cantando, fazendo um som sem microfone e a “vitrola” ali do lado. E as pessoas já não têm mais sensibilidade de pensar “ah!, hoje é dia de São Pedro, dia de São João, dia de São Marçal, dia de Santo Antonio...”, uma festa religiosa que as pessoas têm ali. Se não quisermos entrar no contexto religioso, poderíamos pensar que ainda assim, há ali uma manifestação cultural que deve ser respeitada.

Em tua apresentação, o teatro estava, infelizmente, vazio. As pessoas acabam não sabendo e não vão. Rádios, tevês e jornais não têm interesse em divulgar. Por outro lado, outubro está bem aí, e o Marafolia vai encher essa avenida aqui [a Litorânea] de gente, mesmo que os abadás sejam infinitamente mais caros que os ingressos para teu show. É um bom exemplo da forma como a mídia interfere nisso, não?
O que eu vejo é que parece que, por eu trabalhar com coisas simples, profundas, com arquétipos, com nossas histórias e tal, isso não dá status pra eles [os jovens que vão ao Marafolia], como dá chegar na escola, na faculdade, com os amigos e “ah!, tou vindo do Marafolia, eu fui, eu já comprei meu abadá”. Não é o mesmo que dizer “ah!, eu fui ao Teatro ouvir João do Vale cantado por Tião Carvalho, que é cantor, é dançarino, é conterrâneo nosso” [Tião saúda alguém que se despede, na mesa ao lado]. Há uma questão de status aí, são valores que precisamos trabalhar muito, suar muito, pra ter essa cultura viva. Não tenho nada contra províncias, mas suspeito de atitudes provincianas. Isso é uma atitude provinciana e deixa a gente triste, isso da gente sempre querer comprar o importado, o que vem de fora é sempre melhor que a gente, é sempre mais bonito que a gente.

Agora tu chegas ao Tributo a João do Vale, o “Tião canta João”, mas João do vale já influencia teu trabalho há muito tempo. No disco do Mafuá [“Mafuá”, CPC-UMES/Eldorado, 1998] tem música de João do Vale [“Estrela Miúda”], no teu primeiro disco-solo [“Quando dorme Alcântara”, Por do Som, 2002] tem música de João do Vale [“Passarinho”] e tu não buscas imitá-lo, mas há uma ligação muito forte entre teu trabalho e o de João. Eu queria que tu falasses um pouco desse teu novo trabalho.
Conheci João pessoalmente, graças a Deus, mas não diria que chegamos a ficar amigos. Até gostaria, mas não tivemos esse tempo [João do Vale faleceu em 6 de dezembro de 1996]. Conheci João e ele teve também a oportunidade de ver o Tião Carvalho cantando e interpretando João do Vale. Não só ele, mas a família dele. Eu não chamo meu trabalho de um tributo a João. É algo diferente, não sei o quê, exatamente. Quando ele ainda estava vivo, há uns onze, doze anos, fizeram uma festa pra ele, João do Vale em vida, onde vários cantores maranhenses interpretavam músicas dele. Eu tava chegando aqui e soube, e era Chico Maranhão quem fazia a direção musical desse trabalho; aí eu fui falar com Chico: “Pô, Chico, tou chegando, quero cantar também”. E ele: “Não, agora não dá mais”. “Não, eu quero, tem tudo a ver, pesquiso o trabalho dele, já o interpreto, não vou precisar aprender música, já ia assisti-lo no Forró Forrado [casa onde João do Vale se apresentou diversas vezes, no bairro do Catete] no Rio de Janeiro, somos próximos, tem toda uma história e eu não vou cantar?”. Ele falou “tudo bem, mas não tem mais grana”. E eu “não tem problema, não interessa a grana, eu quero cantar e quero mostrar pra ele que eu tou cantando a música dele, eu quero ir, eu tenho que ir”. Foi interessante por ele ter visto. "Oricurí" não tava no repertório e eu falei, “bom, 'Oricurí'”, e cantei a música. João já tava na cadeira de rodas, eu cantei, dancei, brinquei. A tia Tereza, prima dele, tava lá do lado, era quem cuidava dele. E ela dizia: “Esse cara é escritinho João! João, esse moleque é teu filho!”. João era assim em cena. Do time que cantou, o que mais tinha afinidade com João era eu, que já o via sempre, já tinha essa preocupação social, política, [com a questão] racial.

É uma das características da música de João do Vale, não é? Essa coisa da denúncia social com alegria. São temas tristes em músicas alegres.
Cantar João do Vale já é uma denúncia social. É uma coisa muito comum do brasileiro e do nordestino que tende a se perder também com a globalização. O pai Francisco, ele é isso aí, o quê que é o pai Francisco? É uma tragédia, né? É o cara que pega toda essa coisa trágica e traz alegria, brinca com a perda do filho, trapaceia daqui, trapaceia dali e faz a gente rir, mas no fundo o cara tá perdendo um filho.

Na tua fala, tu disseste que não considera o “Tião canta João”, um tributo, certamente por tua cumplicidade com o repertório. Não foi só “pescar” catorze músicas de João e encher um disco pra ganhar dinheiro, tanto é que não estão aí só os “clássicos” de João do Vale. Eu queria que tu falasses um pouco desse processo, de tua ida à Pedreiras pesquisar, de ter conhecido o seu Zezinho, personagem de “Minha história”, que nem entrou no disco.
Seu Zezinho perguntou, “ué, cê não vai botar “Minha história”?”. É, é meio delicado, queria fazer um disco alegre, um João para as pessoas dançarem. Por exemplo, [dia 24/8, no SESC-Pompéia, no show de lançamento do disco] em São Paulo eu não cantei [“Minha história”]. Aqui tinha mais a ver, eu cantei. Eu queria ter o aval da editora, do direito autoral, eu queria isso, “ah, bom, burocraticamente tá liberado, Tião pode gravar”. Mas eu queria que a família ouvisse e dissesse, “pô, que legal, pode gravar, cê tem o nosso aval”, eu queria isso, e consegui, graças a Deus. Com a D. Tereza, o Riva do Vale, a neta de João que foi assistir ao show em Brasília, uma nora dele, as pessoas da família, os amigos dele, Seu Zezinho, os amigos de Pedreiras, amigos de João do Vale que trabalham pela Prefeitura, amigos do Sindicato que jogavam baralho com ele, Seu Jacaré da Rua da Golada [rua citada em “Pisa na fulô”], com essas pessoas aí. Eu queria que eles me conhecessem e soubessem que eu estava fazendo algo sério e gostassem do que eu estava fazendo. Foi fundamental isso. Outra coisa foi colocar uma roupagem nova dentro das próprias raízes, trabalhar com bumba-meu-boi no Carcará, o tambor de crioula no Sanharó.

Tu tens um reconhecido trabalho social lá no Morro do Querosene, pelo que a Câmara Municipal de São Paulo te outorgou o título de cidadão paulistano, sobre o que eu queria que tu falasses, tanto da honraria quanto desse teu trabalho.
Quando vem esse título, eu não resumiria apenas ao trabalho social no Morro do Querosene. Há outras coisas. Eu nunca abri mão de trabalhar com minhas raízes, a africana, a brasileira. A primeira banda [“banda, banda!”, frisa] a tocar forró por ali, para uma classe média, universitária, não sei o quê, em São Paulo, no início dos anos oitenta, foi a minha banda, a Mexe Com Tudo. De lá pra cá surgiram várias bandas de forró. Levamos o bumba-meu-boi pra São Paulo. A experiência fora do Brasil também, levar o Brasil lá. Não só aquela coisa que o Brasil é a terra do futebol e do samba, graças a Deus que é também. Mas há outras coisas: há cientistas, e até me considero cientista, já que a música é ciência e eu estudo música e dança. Há uns quatro anos eu trabalhei com quarenta escolas no País de Gales, trabalhei com filhos de refugiados de guerra, tudo isso é trabalho social. Fundei vários grupos de dança, de danças brasileiras, em Londrina no Paraná, em Campinas. Em São Paulo influenciei a fundação de vários grupos de dança e pesquisa, fundei grupo em Brasília. Tudo isso são valores que se juntam ao que é o Tião Carvalho. Eu cheguei à São Paulo com uma bagagem. Cheguei lá para trocar. Não cheguei só para pedir. É uma relação de reconhecimento. E, claro, o trabalho social e cultural no Morro do Querosene, que há um tempo era muito violento e através da arte, conseguimos uma certa suavidade. Mas, claro, São Paulo é violenta, o Brasil é violento, o planeta é violento. Mas a gente conseguiu algo no bairro e queremos levar essa coisa pro estado, pro país e pro mundo, isso de botar instrumentos musicais nas mãos das crianças [Tião agradece mais um vendedor de amendoins], afastando-as das armas. Você coloca um cavaquinho, um tamborim, na mão de uma criança, e brinca com ela, é mais fácil ela se afastar das armas, das drogas. É mais fácil você olhar no olho dela, até para colocar limites. Olhar a criança enfeitada e perguntar “você sabe cantar?, ah, legal”, e a criança não vai querer saber de roubar, de usar drogas. [apresenta Elias Filho, um “grande amigo, irmão, amigo de infância”, e convida-o a sentar-se conosco]

Podemos dizer, então, que o PCC é falta de arte? Como é que tu vês esse fenômeno em São Paulo?
É triste, mas não me sinto apto a apontar o dedo pra tipo de crime nenhum. Muitas vezes as pessoas te chamam para um trabalho social, por exemplo, para tirar as crianças da rua. E o órgão não te paga, então você tira crianças da rua e as suas crianças vão pra rua. Não conheço o PCC, mas a imprensa é medíocre, a televisão é racista, ela julga. Vêem pela tua cara se você deve ou não trabalhar, te lêem no rosto as habilidades, o caráter. Isso é crime! Então, para falar de um crime, você teria que falar de tudo, para poder falar de uma facção. Eu moro do lado do Rio Pinheiros, do Tietê. O rio é apodrecido pelos poderosos que abrem fábricas e fazem toda a sujeira e jogam no rio. O adolescente vê aquele rio daquele jeito, fica injuriado, e cai nas drogas. Erros existem por aí, todos nós erramos, mas eu não posso falar de tudo. Eu sei falar de meu trabalho. Eu prefiro procurar fazer o meu trabalho, perseverar, puxar as pessoas pra arte, levá-las a fugir da violência, do crime, das drogas, e droga é muito relativo, né?, o que não é droga, o que é?, qual o motivo de esta ser proibida e aquela não?, é muito delicado. Acredito nas coisas, em pegar meu cavaquinho, cantar, ir pra escola, eu trabalho com escola. Recentemente ganhamos uma casa, tivemos um projeto aprovado pela Petrobrás [Projeto Treme Terra, onde são desenvolvidas aulas de inglês, capoeira, danças e computação, entre outras atividades], para recebermos crianças da comunidade, de todas as classes sociais, misturar mesmo. A gente sempre fala de forma muito separatista. Quando falamos de índios, por exemplo, parece que o índio nem é humano, que não existe.

E não só o índio, não é? Mas a mulher, o negro, o homossexual, o “drogado”.
Tá tudo num contexto só; nós ainda discriminamos muito as coisas, então temos que fazer um trabalho, percorrer um trajeto, para chegar a essas pessoas. [Elias dá o exemplo da ausência de negros na televisão, da ausência de crianças negras no programa da Xuxa]. Até nas escolas, você vê poucas crianças negras, quase nenhum professor negro. Na televisão, o negro nunca aparece beijando, fazendo sexo. Sexo é coisa de branco. Aí, quando o cara é revoltado, ninguém é revoltado por acaso. Fala Paulinho da Viola, [declama trecho de “Chico Brito”, de Afonso Teixeira e Wilson Batista] “o homem nasceu bom, e bom não se conservou, culpa da sociedade, que o transformou”. Então vai saber o que essa pessoa passou para fazer o que tá fazendo. Será que ela nasceu em berço de ouro e teve a oportunidade de estudar, de ir pra universidade, ou foi discriminado como João do Vale foi? Como várias outras crianças foram? Eu, graças a Deus, sempre fui negro, fui forte, esse aqui sabe [aponta para Elias], eu sempre fui brigador, não escutava muito, mas uma coisinha que fazia errado era suficiente para ser suspenso, expulso [da escola].

Tu acabaste de citar Paulinho da Viola, que num tributo a João [o disco “João Batista do Vale”, BMG, 1994], cantou “A voz do povo” [registrada por Tião no novo disco]. O disco é fruto de projeto de Chico Buarque, que foi quem também produziu o “João do Vale convida”, na década de 80. Chico já ouviu este teu trabalho?
Ainda não. Chico tá fazendo show em São Paulo, meu amigo Marcelo Bernardes toca com ele. A gente tava fazendo show simultaneamente e eu ainda não consegui ver o show dele. Já conheci Chico pessoalmente...

Ele que era um entusiasta da obra de João.
... e não deixa de ser uma fonte de inspiração pra mim, Chico ver João e dizer, “pô, que legal”. Conheci Chico em São Paulo, fui apresentado a ele pela Marisa Orth, que foi minha aluna de dança, no Teatro Vento Forte. No Rio de Janeiro, fomos jogar com o time dele, mas ele não jogou. Mas a turma dele perdeu para nós de 3x2, de virada. Se eles quiserem uma revanche, a gente marca. Tenho muito respeito pelo Chico, quando chegar em São Paulo vou levar o cd até ele.

A gente sabe que o futebol é uma das paixões de Chico. Bob Marley jogou bola com Chico Buarque [Tião comenta um “eu não sabia”]. Eu queria tua opinião sobre isso de São Luís ser a Jamaica brasileira, a apropriação do reggae pelo povo maranhense, algo que hoje já é até menor com a chegada do forró eletrônico.
Isso aconteceu de forma natural. A história conta que a gente quando era criança, na época do rádio de pilha, com aquela antena, se escutavam reggaes vindos do Caribe. Os rádios já tocavam. São Luís é um pouco propícia também, o fato de ser uma ilha, a métrica do reggae e do boi são muito parecidas, o boi de orquestra é super-parecido com o reggae, e isso faz com que ele [o reggae] chegue com mais facilidade aqui. Essa força, esse poder, essa grana, ela é duvidosa. Justamente quando se coloca em competição com o bumba-meu-boi, com a religião, os dias de festa de santo. Se disserem “hoje é dia de festa de reggae”, beleza, aqui há espaço pra tudo. O que não pode acontecer é isso de dizer que o que não é da gente é do diabo, como quando o índio começa a tocar o maracá dele e a gente diz que isso é do diabo [refere-se à catequização]. Nos ensinam nas escolas que o índio é preguiçoso. E isso aconteceu também com o pessoal do reggae. Eles sofreram com isso. Bob Marley, Peter Tosh, iam pra rádio e lhes diziam que a música deles não seria tocada. E eles diziam: “vocês estão com a rádio aqui na nossa terra, então vão tocar sim, se não a gente vem aqui em grupo e não vai sobrar pedra sobre pedra”. Tudo bem, o cara tá falando de amor, mas ao mesmo tempo tinha peito de ir à rádio e dizer isso. Claro que o fato de eles falarem e cantarem em inglês favoreceu, pois eles conseguiram chegar a todos os lugares do mundo, não só no Maranhão. Que bom que o reggae está aqui. Tenho medo das relações de poder, como tenho medo disso em tudo, onde as coisas vão discriminando as outras e passando por cima e destruindo culturas locais muito fortes. Eu só não componho reggae por que não sei, mas gosto.

Voltando ao disco, além do Trio Virgulino, o Divina Batucada [formado por maranhenses que moram em São Paulo] e Zeca Baleiro participam do “Tião canta João”. Como é reencontrar essa turma lá fora?
Nem chega a ser um reencontro, a gente é amigo. O pessoal do Divina Batucada toca comigo, sou padrinho do grupo. Eu e [Nana de] Nazaré [percussionista, membro do grupo] temos um grupo chamado Forró-Chão. César Peixinho, Catatau [membros] é meu afilhado de casamento. Somos todos amigos. Quando eu conheci Zeca, eu já morava em São Paulo. A gente admira muito o trabalho um do outro e eu quis trazê-lo para essa homenagem e ele deu essa força, a gente fez essa troca.

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Zema Ribeiro
 

a quem interessar possa, em http://zemaribeiro.blogspot.com há um "bonus track" dessa entrevista, com os trechos não publicados aqui. abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 25/9/2006 15:36
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Fernando Abreu
 

Bela entrevista, Zema, reveladora e fundamentada. Parabéns e boa sorte a você ao Tião.

Fernando Abreu · São Luís, MA 26/9/2006 11:19
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Zema Ribeiro
 

gracias, fabreu. abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 26/9/2006 11:22
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Natacha Maranhão
 

coisa mais linda essa entrevista!
Ô saudade de ouvir meu povo maranhense falando tudo tão explicadinho e certinho! Tu estás, tu vais, tu disseste! Adoro, adoro!
Parabens pela entrevista com o Tão, bacana demais!
beijo, Zema

Natacha Maranhão · Teresina, PI 26/9/2006 16:49
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Zema Ribeiro
 

obrigado, natacha. foi o que eu disse no "bonus track", lá no blogue: ele tava tão espontâneo, que dá vontade de não cortar nada. abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 26/9/2006 22:37
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