A partir do que me acontece com a música vou falar um pouco de coisas gerais, do mundo, da vida. Da arte contemporânea e das referências antropofágicas e autodidatas, talvez.
Quem sabe possa falar também sobre processo criativo, lúdico e espontâneo. Talvez passe por ingênuo.
Em todo caso, o ponto é: toco piano. Coloco as mãos sobre as teclas, os pés nos pedais e aqueço o sangue nas veias.
A partir daÃ, fica fácil descobrir que não vou falar apenas de mim, já que sangue é o que corre nas veias de todos. É estranho teorizar sobre o que não se vive. Só se pode dizer algo relevante ao conhecer por dentro. A linha de corte é um caldo subjetivo enriquecido. E desamedrontamento interno.
Muitas coisas não são feitas porque o descrédito condiciona a ver como miragem qualquer ato que não passe pelos caminhos ortodoxos. Isso me dá no saco. E um pouco de asco também. É como se um mascarado incógnito proibisse dança leve porque teme dar a cara a tapa e amolecer o quadril.
Não sei, não sei...
Um fluxo de consciência às vezes é melhor que a arquitetura sóbria de casarões antigos. Papéis de parede floridos ficam ainda aquém do jardim ali fora. Ou dentro do estômago. Gosto do jogo: âmago mago.
Amassar o pão. O primeiro nunca sai ideal. Cru por dentro e cascudo por fora, sem sal, muito salgado, adocicado, duro de roer. Depois de algumas fornadas, tudo melhora. Se encontra a medida certa sem tanto esforço. Sem nenhum esforço, até. E é mais ou menos essa a evolução auto-didata possÃvel em qualquer âmbito da vida.
Toicinho Batera (o baterista Lourival Galiani), ao falar sobre o documentário no qual é retratado, Sistema de Animação, disse: "Acho que o pessoal vai gostar do filme, porque a gente tá no tempo do 'qualquer coisa', então qualquer coisa serve". Talvez seja o jeito dele de definir a pós-modernidade. Em matéria de música, o Toicinho é mais comportado e estudou muita teoria, sabe o que faz conscientemente quando toca jazz com músicos que lêem partitura. É um contraponto interessante à minha vivência sonora.
Sem dúvida tudo o que já ouvi me fez a cabeça - e passei cinco anos dedicando a maior parte dos meus dias a ouvir música- (Hermeto Pascoal, Tom Zé, achados imperdÃveis no Overmundo, grupos novos no myspace, last.fm etc., Keith Jarret, Orquestra Popular de Câmara, Itiberê Orquestra FamÃlia, Erik Satie, Bach, Naná Vasconcelos, Phillip Glass, Ravi Shankar, batucadas, sambas, choros, coros, Beatles, Stones, Pink Floyd, Syd Barret, John Coltrane, Moacir Santos, Tom Jobim, Chico, Nação Zumbi, cocos, maracatus, jongos, mambos, Novos Baianos, fulanos e sicranos, além dos beltranos). Tudo isso formatou minha percepção musical. A citação desses nomes todos não é, nem de longe, atribuindo reflexos sonoros das influências no som que faço. Todos eles são peixes grandes, e eu alevino miúdo nadando contra a corrente (ou numa corrente atÃpica).
Pelo que ouvi até agora, minha música se parece em alguma medida ao dodecafonismo e à música serial, sucessora do primeiro. O engraçado é que nunca tinha ouvido essas coisas antes de alguém apontar semelhança. Além do que os caras chegavam a algum ponto sempre tendo em mente a representação gráfica do que faziam sonoramente. Ou vice-versa. A música erudita em geral é muito apegada aos cânones formais. Ao registro em pauta. Isso rende obras lindas, ninguém duvida, mas ao mesmo tempo engessa possibilidades do som. Já me falaram também de John Cage, e dos quase cinco minutos de silêncio que geraram fama. Mas ele também não é nenhuma referência pra mim.
Gosto do Uakti, por exemplo, e do cara que estava antes deles lá, o Smetak. Mas ainda neles também não me reconheço.
O Hermeto é foda (disse num show ao qual assisti: "Todo mundo é músico", além de ter um disco chamado Só Não Toca Quem Não Quer). Foi uma paixão visceral ao longo de alguns anos. Já vi chama de vela dançar em ambiente sem vento com a música dele. Tem aliás um disco muito bonito chamado Piano Solo - Por diferentes caminhos. Lançado pela extinta Som da Gente.
Montanha-russa...
Loop.
Rebobinar a fita.
Toco piano.
Toquei piano algumas vezes.
A primeira não faz mais que dois meses.
É uma viagem ao centro de si mesmo o processo de deixar sair a mistura que viraram as coisas que entraram por um ouvido, fizeram a volta no cérebro, liberaram neurotransmissores, passearam até as extremidades, deixaram impressão nas células e saÃram pelo outro.
Sem se cobrar perfeição é possÃvel fazer uma gravação amadora, tocar sem juÃzo mesmo e ver no que dá.
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Comecei com Piano livre
e fui...
PianObrer
e
Depois da faxina.
Posto nesta colaboração a última criação sonora que fiz, ainda antes da viagem ao Rio, motivado por coisas que aconteceram à minha volta: um amigo que se envolveu num acidente e uma amiga que teve um problema de saúde. Relativizei meus problemas complicados e caiu a ficha de que a vida é uma coisa séria (no sentido de real).
O tÃtulo que dei à música é A complexidade da vida (parte 1 e parte 2), mas poderia ser também com crase, uma ode, à complexidade da vida. À diversidade de caminhos e à descoberta da capacidade de fazer arte no meio de algum ponto periférico da confusão que o mundo é.
Tocar piano? sublime. Sonho meu. duvido realizar um dia. Interessante suas colocações. Não me soa ingênuo. E sim um convite pra conversa sobre coisas que vc anda pensando e pra uma apreciação do que já fez.
Tb gosto do Uakti, Smmetak, Surkoski e vc conhece o Joe Brazuca aqui do Over? Bom!
enfim ,muitos deles saÃram da fertilidade do pensamento do grande mestre (na literalidade do termo) Koellreutter, que tive o enorme prazer de conhecer e assistir suas conferências.
Ainda não acessei os links que vc indica. Depois, falamos.;)
Agora, isto não é um spam, mas o convite sincero para que vc conheça este trabalho. Acho que vc trocam
http://www.overmundo.com.br/perfis/fribeiro
Sobre Koellreutter, encontrei um bom texto aqui no Overmundo, que não tinha lido ainda. E tem este outro que ainda não li. Além de citações espalhadas por aÃ.
Tenho que pesquisar mais quem foi esse cara.
Muito bom, e aliás é isto mesmo - escrever é falar....
abraço
andre.
Cara, eu nao entendo bulhufas de música, mas gosto dela pra caramba. Mas o teu texo é bom. Valew
Nic NIlson · Campinas, SP 16/7/2008 16:17
mas... mas... porém... quiçá
ouve o som também e me conta o que achou
Solidão a dentro me entreguei...
Nessa oportunidade de ouvir a verdadeira complexidade...
Obra rara, de brilho intensio...
Muito bom...
intenso*
Dyego Lisboa.. ânsia de choro.. 7_7 · Teresina, PI 17/7/2008 16:44
Um aviso: a interrupção abrupta no fim da primeira parte se deve ao meu amadorismo como editor de áudio. Quando toquei, foi tudo uma coisa só. A necessidade de separar se deveu a limitação de espaço (arquivo maior que 10MB).
Eu não sei se vc toca ou não. Se isso é música ou não. Mas gosto de ouvir. baixei aqui. A sua reflexão, no entanto, é muito tocante - com ela vc coloca os dedos na alma e faz a gente escutá-la.
bjos
Felipe. Que coragem escrever sobre uma experiência pessoal. Me senti lendo um Querido Diário e me desculpa se essa não era sua intenção nem de longe.
Sabe, eu trabalho com música e é essa minha graduação. Ainda não é meu ganha-pão, mas quebra um galho. Não necessariamente um galho financeiro, mas o galho-mor sem o qual nada seria possÃvel. É a melhor coisa que existe no mundo. Sem exagero.
Passo a vida inteira tentando decifrar a simplicidade maravilhosa do Dorival Caymmi, ou o lúdico lisérgico do Syd Barrett, ou a inocência da música folclórica, ou a explosão de cores e harmônicos do Ravi Shankar. Mas estranho que quanto mais eu estudo música, mais intransigente eu fico com a minha criação. As influências sonoras acabam comigo. Vou comprar uma câmara à prova de som, como aquela do John Cage.
Já pensei: vou fazer música serial pra não precisar mais me preocupar com subjetividade. Mero engano.
Já pensei: vou brincar com os timbres e esquecer a melodia. Meu carrasco falou mais alto.
E pensei: todo ser humano é musical (ave, Hermeto!). Mas encontrar a própria musicalidade é tão difÃcil quanto encontrar a pedra filosofal, quanto transformar chumbo em ouro.
Não pense você que esses conflitos me desanimam. Conflito é pra quem gosta de conflitos e eu gosto de pensar que no final da toca tem o Mundo de Alice.
Mas, enfim. Tudo isso pra te parabenizar pela empreitada de fazer a própria música. É muito boa.
Abraço.
Clara, que retorno legal!.
Obrigado pelo comentário.
Interessante isso de "querido diário". Como sou bastante preocupado com a linha editorial do Overmundo, tento usar o espaço pra divulgar coisas de fato relevantes (quase sempre feitas por outras pessoas). Desta vez, no entanto, senti necessidade de falar desse meu processo de descoberta. E foi o que fiz. Mas admito que a certa altura, relendo o post, quase apertei eu mesmo o botão de alerta, cheio de dúvidas sobre a adequação à linha editorial do Overmundo. Acabei desistindo por apego à criação. E não me arrependo, agora, de ter mantido, ao ler um comentário como o teu.
Grande abraço.
Felipe,
ouvi tua música lendo o teu texto, depois li e ouvi separadamente, em ambos os casos, gostei muito. Relendo o trecho "Além do que os caras chegavam a algum ponto sempre tendo em mente a representação gráfica do que faziam sonoramente. ", fui remetida a alguém que faz o oposto "cria representações gráficas a partir do que outros fizeram sonoramente e achei que podia te interessar o trabalho do Norman Perryman (http://www.normanperryman.com). Bj,
Josalba, dei uma olhada no site e achei o trabalho dele bem interessante.
Obrigado pela dica.
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