Nova Iorque/Santo Anastácio/Tókio/Maceió

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wado · Maceió, AL
2/6/2006 · 112 · 11
 

Jorge Schutze Artista Plástico da Dança

Sertão Alagoano. Jorge Schutze vinha na carroceria de umas dessas caminhonetes que ainda resistem transportando gente irregularmente entre pequenas cidades do interior do Brasil. Ia de Água Branca pra Piranhas. Carregava um sentimento de pena, compaixão por essas pessoas sofridas, mas não sentia ainda que fazia parte disso tudo.
No caminho sobe no transporte um sujeito que o intriga. Jorge não consegue sequer supor que idade ele tem. É um corpo muito forte de trabalhador rural e um rosto que parece uma piçarra “sabe quando tem uma água no barro e esta água seca e fica aquilo tudo quebrado? Ele era isso. O corpo todo”. E se questiona: “Quantos anos têm? Que tipo de vida leva?”
Schutze tenta em vão conversar com o sujeito que só responde com barulhos e grunhidos.“Não sei se não falava ou se não queria falar” pondera. Quando o sujeito chega a seu destino a caminhonete dá uma desacelerada e o homem salta sem que o carro precise parar. “É um salto maravilhoso que ele já emenda numa corrida”.
Naquele momento começa a pensar nas aptidões que aquele estilo de vida permite e se lembra dos ensinamentos em Tókio de Min Tanaka que diz que a única vanguarda possível hoje é uma volta e que a vanguarda tende a ser primitiva. “E volto a ler Vidas Secas com este novo dado e faço uma dança prece sobre isso”.
Schutze se encanta com a maneira como Graciliano Ramos consegue reproduzir a sensibilidade daqueles personagens humanos que são ao mesmo tempo tão desprovidos, animais de certa maneira. “Eu tenho vizinhos aqui em Maceió que ainda hoje são assim, são sensíveis, mas não têm o talher da fala. Usam palavras com sentidos completamente diversos de seu significado."
Jorge Schutze, paulista de Marília, trabalha com dança experimental e vive há cinco anos em Maceió. Este episódio descrito acima foi resultado de uma de suas muitas pesquisas pra desenvolver Estado de Graça, espetáculo que ele define como um trabalho de artes plásticas na dança. O título faz referência à origem do escritor alagoano Graciliano Ramos.
Maceió entra na vida Jorge através de Telma César estudiosa do assunto em Alagoas, que além de seu trabalho na dança, é conhecida por fazer parte da primeira fase do grupo Comadre Fulozinha.
Jorge havia recém chegado do Japão e recebe convite para vir a Maceió por ocasião das comemorações dos noventa anos do Teatro Deodoro. Telma vendo ali grande fonte de troca de informação convida Jorge Schutze para realizar workshop e trabalhar com ela no espetáculo de dança que seria montando para o evento. Desde então Jorge reside e desenvolve projetos com vários grupos de teatro e dança de Alagoas como a Companhia dos Pés e a Companhia Limitada.
Neste momento finaliza um novo espetáculo em Maceió chamado Sociedade Anônima onde usa na dança conhecimentos adquiridos no teatro de marionetes. Tratando do anonimato do ser social, das similaridades das solidões dos indivíduos. É baseado na obra de Clarice Lispector. “Neste trabalho Decupamos movimentos simples, o processo esmiúça os movimentos como Clarice faz com pequenos atos”. No elenco a venezuelana Coco Consuelo Maldonado e o alagoano Magnum Ângelo.


Wado - Explica esse conceito de artista plástico da dança que você usa.
Jorge - Na verdade eu sou um artista plástico eu comecei desenhando, pintando mexendo com massa. Eu morava numa cidade muito pequena do interior de São Paulo que se chama Santo Anastácio, Eu nasci em Marília, mas infância, educação e adolescência aconteceram ali em Santo Anastácio. Essa formação veio pra mim antes do teatro e da dança.

W - Você não tendo uma formação acadêmica conta um pouco de sua experiência no Brasil?

J - Aos 18 anos parto definitivamente para São Paulo almejando estudar Artes Plásticas. Passo no vestibular pra Belas Artes, mas decido não cursar, pois já estou envolvido com um grupo performático de novos amigos e começando a fazer teatro. Depois de dois anos em SP conheço Klaus e Rainner Vianna que trabalham com o corpo. Klaus Vianna é uma figura importante da dança em São Paulo.
Klaus era um bailarino frustrado por ter uma perna maior que a outra e por causa disso começa estudar a anatomia pra buscar uma abordagem diferente e pesquisar o corpo.
Começo a estudar com eles paralelamente as minhas aulas de teatro. Daí surgem trabalhos indicados por eles. Passado algum tempo participo de um espetáculo com o grupo Contadores de História, de Paraty, que trabalha com marionetes e queria neste momento desenvolver uma peça com bailarinos. Após dois anos recebemos um convite pra uma residência de três meses na Filadélfia com o intuito de montar um espetáculo e entrar em contato com outros grupos.


W - Com essa oportunidade vocês partem para os EUA?

J - Neste momento decido que quero ficar nos Estados Unidos. Assim que termino a residência vou pra Nova Iorque e era este o momento do Contato e Improvisação, quero dizer, ele surge nos anos sessenta e nos oitenta a coisa já tem um vulto com revistas especializadas e uma série de conceitos confirmados.

W - Como foi a convivência com essa cena?

J - Neste boom estamos no meio da confusão eu e Wanda Motta, bailarina de formação clássica que parte para a dança experimental. Passamos dois anos e meio vivendo nessa cena de Nova Iorque.
Estávamos os dois juntos meio que amantes, meio que namorados. O contato tinha a ver com nossa relação, vivíamos ensaiando e fazendo improvisação, dançávamos em tudo quanto era lugar.

W - Vocês fizeram cursos? Assistiram a palestras?

J – Eram muitos workshops. Acabava virando uma galera, era o povo dos dançarinos de Contato, tinha uma relação. Havia também um pequeno teatro chamado PS 122. Toda terça tinha uma jam, que era muita troca de informação, às vezes iam músicos, mas no geral era basicamente dançar, era bem imprevisível tinha dia que aparecia lá o Steve Paxton, fundador da coisa toda.

Você trabalha muito com esse conceito de Contato e Improvisação. Dá uma situada pra gente:

Isso começa em Nova Iorque com Steve Paxton tentando tirar a dança de sua formalidade e antes de buscar o que é dança ele busca o que é movimento e começa uma pesquisa física a partir do contato, da gravidade, do chão, ponto de apoio, peso do corpo como atua a gravidade, bem material e físico mesmo.
Eles começam a formular isso a partir de conceitos de física, com o desenvolvimento surgem outras questões como, por exemplo, a relação com outro indivíduo. Quando você vai dançar o contato você tem de estar pronto pra que o outro maneje o seu corpo, mas na sua confiança, não pode depender da capacidade do outro de te carregar .
Por exemplo, se o outro te tira do chão você tem de saber que se ele falhar você vai sobreviver, você vai dar um jeito.O treinamento parte do pressuposto que você tenha sua confiança, mas que ao mesmo tempo possa se entregar pra que outro brinque, que tenha uma relação com amor.

W - Como o Contato e Improvisação lida com o ambiente?

J - Como tem essa coisa do peso e o peso impulsiona o movimento, você se mantém na sua estabilidade quando seu peso está centrado, dali você não vai pra lugar nenhum. O equilíbrio é estático. No momento em que você sai do equilíbrio tem de começar a improvisar. Então este são os dados materiais, físicos. Você brinca sozinho se você quiser. È só você ir preparando seu corpo.

W - Ele necessariamente requer música como trilha?

J - No início ele não era realizado com trilha sonora. Só a partir dos anos oitenta eles começam a coreografar, montar coreografias de contato e é a partir daí que se trabalha a idéia de que a música pode ser um contato, neste conceito de que um pode estar empurrando o outro para o movimento. Ou eu te apoio, te dou suporte ou te empurro e a música também é isso claramente.


W – E como surge a oportunidade de ir dançar e trabalhar no Japão?

J - Em Nova York eu tinha visto um livro japonês sobre Butô que tinha me impressionado muito. Assisti a uma performance de Min Tanaka num edifício. Ele andava na mureta do último andar do prédio segurando uma vara que o equilibrava pra dentro, Todo pintado de branco, a vara enorme e ele pendendo o corpo pra fora do Edifício fazendo contrapeso. Aquilo me impressionou muito. Daí participo de um workshop com ele. Era tudo muito novo, não se falava de movimento, físico, nada disso, ele buscava coisas que não eram mais do físico da dança,.
De volta ao Brasil leio no jornal que ele esta selecionando gente pra um espetáculo que será montado em São Paulo, vou fazer o teste e sou selecionado.
Min Tanaka se interessa pela cultura popular, índios, terreiros e eu mostro muitas coisas pra ele. Depois, ele monta A Conquista comigo no elenco.

W – Isso ainda no Brasil?

É. Depois Recebo convite para ir ao Japão e passo dois anos lá trabalhando nos grupos Body Weather Farm,Dance Ressouscers on Earth e Tokason.

W - Conta mais dessa experiência

J - Esse grupo Dance Ressouscers on Earth tem um arquivo não só de dança como se entende é um arquivo de pessoas, de corpos. Por exemplo, lá tinham vídeos do Garrincha e de tribos indígenas brasileiras. Tinha também imagens de um senhor que fazia cestos no Rio Grande do Norte que era uma coisa impressionante, uma espécie de transe.

W – Fala um pouco do trabalho em Maceió. Você consegue sobreviver da sua arte aqui?

J – As pessoas costumam dizer “eu sobrevivo da minha arte” mas elas sobrevivem da arte delas dando aula. Eu acho que a arte só pode ser subversiva, então gosto de ter uma isenção, sobrevivo dando aulas, que considero mais uma troca de conhecimento que propriamente passar uma informação. Estou em Alagoas porque acho que este lugar é a síntese da condição de um país.


dança experimental alagoas butô contato improvisação

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Erika Morais
 

Oi Wado, beleza?
Gostei muito do texto. Alguns comentários: O texto inicial está delicioso, a narrativa, que deveria ser inerente (e óbvia) ao jornalismo e está se perdendo, foi muito bem feita. Narrar as memórias do "personagem" enriquece muito e o trato literário dado foi bastante feliz. Acho que você poderia ter explorado mais a pesquisa para o desenvolvimento do Estado de Graça. Não sei, me parece que existe uma quebra entre a narrativa e a entrevista, que parece não tocar mais no assunto.
Divagações minhas, talvez nada disso que eu falei faça muito sentido.

No geral, gostei muito e se me permite, como na maioria das vezes permite: me surpreendeu!
grande abraço!

Erika Morais · São Paulo, SP 31/5/2006 17:47
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
wado
 

Tudo bom érika!
Obrigado
Vou checar nas fitinhas da minha entrevista se tenho algo mais sobre isso, tem a ver sim!
Valeu o toque!

wado · Maceió, AL 1/6/2006 09:30
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Fernando Coelho
 

Ô mo fio...sem espanto com o bom resultado, afinal tu já vinha mostrando talento em "aprisionar a palavra no papel". Parabens para ti - na nova missao - e para o Jorge.
Na torcida.

Fernando Coelho · , 2/6/2006 15:27
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wado
 

Obrigado coelho!
O conteúdo é do Jorge
massa!

wado · Maceió, AL 2/6/2006 18:14
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Jorge
 

ficou supermasssa obrigado wado

Jorge · Canapi, AL 4/6/2006 00:20
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Ana Murta
 

Que boa surpresa esse seu texto aqui. Imagens em palavras, diálogos contando casos e uma bela foto que traduz tudo. Massa! Seja bemvindo.

Ana Murta · Vitória, ES 4/6/2006 18:01
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wado
 

Bom que tá repercutindo

wado · Maceió, AL 5/6/2006 07:25
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Tati Magalhães
 

Impossível não ler o texto depois da abertura. A foto tb está massa.
Parabéns, Wado. Bom me deparar já com um texto teu aqui...

Tati Magalhães · Maceió, AL 5/6/2006 13:27
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Tati Magalhães
 

Só uma coisa: a foto da sem crédito... fiquei curiosa para saber se era da Maíra!

Tati Magalhães · Maceió, AL 5/6/2006 18:46
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wado
 

Obrigado Tati!
A foto é de divulgação do Jorge
E chegou pra mim sem o autor
Vou ver se descubro
Beijão

wado · Maceió, AL 6/6/2006 08:12
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Jorge
 

OI Tati Magalhâes, a foto é da Charlene Barros.
Desculpa Wado, vacilei.

Jorge · Canapi, AL 10/6/2006 22:20
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