Num artigo entitulado “Novos ricos da música†o filósofo, cantor e compositor Henry Burnett avalia o surgimento de novas divas da MPB e o papel que estas ocupariam no panorama atual da música popular. Para tanto, procurar fazer ponderações acerca da estratégia de condução da carreira dessas intérpretes. Tomando dois exemplos, constrói uma espécie de espectro, entre as que se prendem a um canone clichê de fácil assimilação (Mônica Salmaso, cantando Chico Buarque em seu Noites de Gala, Samba da Rua (Biscoito Fino, 2007)) e outras que apostam numa veia mais autoral, flertando com um pop sofisticado, sem atingir a qualidade da tradição na qual parece querer se vincular (seria o caso da cantora Céu).
Burnett cria o conceito de ouvinte de elite, um público consumidor de MPB, que a mantém como um nicho aristocrático, produto refinado que marca status social (este novo ouvinte talvez pudesse ser confundido com a idéia de “novo ricoâ€). A MPB não fala hoje para todo mundo como na década de 60, tornou-se um segmento de mercado, acomodado a um modelo bem comportado, sem potencial transgressor, que se prende a repetir certo canône. O autor como pressuposto a idéia de que hoje o potencial de transformação social estaria confinado ao rap. Burnett ataca a sofisticação do trabalho de Salmaso e do grupo Pau Brasil por dar "ao seu público novas razões para achar rap coisa de pobre". Para ele, ouvir Chico Buarque pela interpretação de Salmaso seria uma forma de renovar nossa incapacidade para o reconhecimento do novo. Por outro lado, critica Céu por sucumbir também aos anseios de um mercado hierarquizado.
Para Burnett as novas divas poderiam continuar a “linha evolutiva†da MPB (“o movimento natural da música popular com seus novos ritmos e artistas, frutos do seu tempoâ€) na tentativa de “refletir seu tempo em cançãoâ€. Como fazer isso? O autor não oferece uma resposta, mas cita “Brasileirinho†de Maria Bethania como uma aula acerca da essência perdida do paÃs. (É interessante lembrar que esse trabalho de Bethânia foi utilizado, com sucesso, pela professora de filosofia Vânia Correa Pinto em uma escola estadual do Rio de Janeiro para promover uma investigação sobre a identidade cultural do paÃs). O importante para ele é que o conceito de “qualidade musical não seja considerado um bem de eliteâ€: seria preciso devolver a MPB ao povo.
Burnett, de passagem, ataca os bem intencionados programas da rede Globo de antropologia musical, que serviriam para manter as coisas como estão (e desconsidera a contribuição positiva de programas como Som Brasil e Por toda a minha vida...)... Ataque rápido, que serve para construir seu "quadro negativo", mas que não se fundamenta nem aponta para qualquer caminho reformador.
O artigo de Burnett demonstra certa urgência - que já aparecia nos textos do Coletivo MPB alguns anos atrás, A morte e a morte da canção e Chega de Saudade)- em promover uma cruzada para resgatar as virtudes mÃsticas da canção: seria uma necessidade reconhecer o lugar e a qualidade da MPB dentro de um quadro maior da cultura, assim como, resgatar o potencial transformador de nossa música popular.
Confesso que não deixo de enxergar aà certa nostalgia platônica, como a presente na tentativa do poeta Paulo Martins, protagonista de Terra em Transe de Glauber Rocha, de unir Beleza e Justiça, em seu gesto suÃcida e patético de sozinho tentar resisitir ao golpe conservador de PorfÃrio Diaz. Sua sede de absoluto oculta uma inconfessa ânsia por privilégio e poder, que faz parte do autoritarismo de uma perspectiva filosófica que acredita ser capaz de determinar teleologicamente a direção da História. Os pressupostos da arte engajada e voltada para um populismo iluminado foram questionados de modo radical neste filme de Glauber.
Provavelmente esse tipo de excesso de expectativa faz parte mesmo do lugar importante que a MPB ocupa no imaginário nacional: mesmo os tropicalistas ao denunciarem o Complexo de épico de nossa canção popular não deixaram de traduzir este mesmo complexo. Isso também faz parte da filosofia que em seu movimento de questionar o saber de forma radical não pode se furtar ao impuso de ocupar um lugar privilegiado para além do saber. É dificil resistir ao impulso de ser também Paulo Martins, e este desafio continua importante quando se pergunta sobre o lugar da arte, especialmente da música, em nossa cultura.
A MPB possui mesmo uma perspectiva republicana, de preservar certo bem comum, já que, para funcionar, prescinde de algum tipo de concepção sobre o “ser do Brasilâ€. A possibilidade de algum conceito desse tipo é hoje cada vez mais infundada. Se a MPB é hoje um segmento de mercado e não mais reflete esperanças utópicas de transformação épica provavelmente isso se deve a possibilidade de acesso a meios mais prosaicos de fazer polÃtica. Como a democracia caminha na direção do desejo popular, a diversidade de gostos e etiquetas para a música que se produz no paÃs deveria ser percebida como um sinal positivo.
O que, para alguns que conhecem profundamente a MPB, pode, a primeira vista, surgir como redundante, pode servir para que novas gerações entrem em contato com uma tradição que é rica e precisa ser constantemente reiventada e reafirmada. O lugar mÃtico da MPB em nossa cultura depende disso. Estas novas leituras podem também trazer um potencial polÃtico insuspeito. Na década de 70, para diblar a censura, Chico Buarque se lançou como intérprete cantando canções de outros compositores no dico Sinal Fechado. Cantar uma composição da década de 30 como Filosofia de Noel Rosa no contexto polÃtico da Ditadura trazia naquele contexto um sentido novo para a antiga canção. Pode ser mesmo um ato polÃtico retomar o repertório de tempos menos prosaicos quando existia maior esperaça utópica e a distância entre público e privado era menor. Olhando para o passado podemos aprender também a ter esperanças em um futuro diferente. Caetano Veloso cantando hoje, com sua banda de rock, Desde que o samba é samba, aponta para a mesma direção que o Skank com seu iê-ie-iê em Uma canção é pra isso...
As esperanças no rap como forma redentora que poderia resgatar o potencial crÃtico e de transformação social da música popular me parece um exagero que não tem grandes razões de ser. É verdade que hoje a tendência é falar do paÃs de forma prosaica quando se trata de polÃtica e que, para isso, a formula que consegue ser mais direta é o rap, contudo, não faz sentido resgatar os ideais puristas da canção engajada e tentar iluminar o rapper com as mais novas teorias produzidas nos guetos intelectuais franceses ou em suas sucursais brasileiras... Tomar a força do rap como um a priori inquestionável é problemático e simplificador: a complexidade deve ser sempre caminho para questionamentos mais amplos e dar menos espaço para racionalizações reificantes.
A qualidade musical não pode ser considerada um bem de elite, contudo, se a música pretende ter um amplo potencial transformador, não pode se confinar aos que possuem ouvido músical. Os que esperam redenção por meio da música não compreendem aqueles que não vêem o mÃnimo sentido nessa espera, ou que, utilizam a canção para se divertir de modo descomprometido. Da mesma forma os fundamentalistas se comportam diante da religião ou da filosofia. Hoje existem muito mais pessoas dispostas a ser mais tolerantes e dar de ombros diante desse tipo de pretensão essencialista.
No começo de seu artigo, o professor Burnett cita uma fala de Arthur Nestrovski, que avalia que o cancioneiro de Tom Jobim deveria ser colocado lado-a-lado das obras de Clarice Lispector e Guimarães Rosa nas nossas bibliotecas. Não é possivel discordar da fala de Nestrovski, o problema é como promover essa valorização. A briga para que determinada forma de cultura ocupe “certo lugar†privilegiado, aponta para uma disputa territorial que é pouco construtiva e não faz muito sentido numa sociedade que se quer democrática e conversacional. Burnett poderia dar uma contribuição mais interessante se ao invés de prescrever algo que deveria ser, tentasse descrever a importancia da música popular para se pensar o paÃs utilizando-a para este fim. Acredito que seria mais rico exaltar exemplos do que ele considera ser formas bem sucedidas de canção e porque as considera assim: acho que nesse aspecto conversacional a filosofia no ensino médio pode forçar a academia a olhar em volta e dialogar também. A perspectiva de Burnett poderia então parecer mais simpática e construtiva se tomasse uma forma positiva, de encomio justificado a importância da MPB. Neste caso, suas canções são seus melhores argumentos na tentativa de aproximar desejo popular e bem comum, fazer rimar Democracia e República.
Marcos,
Vou voltar a ler. Achei muito boa a exposição assim como o volume de informações, ao menos para quem é desligado do conhecimento musical. ótimo
abraços,
Obrigado Andre por ter essa paciência. Realmente o texto ficou cheio demais, barroco até... não consegui fazê-lo de outro modo, mas aà tem vários links pra gente conversar mais... que é o mais importante.
Marcos Carvalho Lopes · JataÃ, GO 13/2/2008 00:57
Salve!
Devo dizer que gostei do teu texto e gostaria de entrar mais em contato com você e com o referido Burnet, pois este é um assunto que está pipocando aqui em mim, tanto quanto músico como estudante de ciências sociais. Gostei do texto, parabéns!
Abraço!
Entendi sua necessidade de fazer um contraponto à visão desencantada do Henry. Também não concordo com muita coisa que ele diz lá, mas compreendo o ponto fundamental do texto dele: o destino das tantas cantoras que pintam por aÃ. Também fico intrigada com isso, mas acho que sou menos pessimista que ele. Vejo que muitas vão atrás dos modismos e só... São poucas as compositoras (que cantam) e mesmo as intérpretes que fazem diferença (há intérpretes que têm o dom de transformar a música, considero algumas quase tão importantes quanto os autores). Tudo isso é normal, mas me incomoda ver que a maioria não está muito preocupada com seu papel na música brasileira, apenas com o sucesso. Um pouco de reflexão não faz mal a ninguém, como vocês dois mostram nos seus textos. :) Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 13/2/2008 16:58Oi CÃcero e Helena, obrigado pelos comentários, por comntinuar o diálogo e me ensinar coisas sobre o texto que fiz que eu mesmo não sabia. Acho que o tetxo do Burnett é muito instigante, o assunto é muito interessante e senti o comichão que faz a gente se coçar. Mas tenho muito mais dúvidas do que certezas... O que acho super legal é saber que existe o texto do Burnett, que existe uma aluna da USP de filosofia que defendeu mestrado e faz doutorado estudando a obra de Paulinho da Viola.... fico imaginando caminhos...
Marcos Carvalho Lopes · JataÃ, GO 13/2/2008 19:04
Oi, Marcos,
Acho que podemos traçar um paralelo entre o trabalho da Monica Salmaso com uma certa tradição existente na cena jazzÃstica norte-americana. Todo ano, dezenas de CDs com versões de standards são lançados - e ninguém escapa disso, do mais "refinado" instrumentista à mais "pop" cantora de jazz. De Herbie Hancock a Diana Krall, o mercado fonográfico está sempre aberto para novas interpretações de músicas que marcaram a "mpb de lá".
Se as cantoras dessa nova leva "refletem sobre seu tempo em canção"... difÃcil dizer, mas podemos dizer que elas são reflexo de seu contexto sociocultural. É uma música que se revela feminina, urbana, global, de classe média/média-alta, ainda que tentando estabelecer vÃnculos com uma "brasilidade" à moda antiga - e aà eu acho que Céu, Mariana Aydar etc. ainda não acertaram o ponto, as referências ao popular tradicional feitas dentro dessa sonoridade cool soam descontextualizadas e um pouco artificiais. Como se houvesse uma "necessidade" de se prestar tributo a referências consagradas e antigas que possam referendar essa música como uma continuidade evolutiva da MPB. Não sei se a intenção delas é essa, mas a mim me soa dessa forma - e, se não for essa intenção, então temos um ruÃdo entre quem produz e quem escuta. Sem falar que é sempre bom lembrar o quão vago é o conceito de MPB - à s vezes me parece mais um conceito formado para realizar uma distinção intelectual do que propriamente uma sonoridade caracterÃstica.
Sobre o discurso "essencialista" da arte que se afirma superior/fundamental (que transparece na fala do Burnett e de muita gente) versus a democratização cultural, acabei de ler Cenas da vida pós-moderna, da Beatriz Sarlo, e achei ótima a abordagem dela.
Gostei do seu texto!
abs
O que a Beatriz Sarlo diz? Fiquei curioso... (vi entrevista dela no Roda vivo e fiquei instigado... mas nunca li nada dela...)
Marcos Carvalho Lopes · JataÃ, GO 14/2/2008 00:13
Caro Marcos, fiquei muito lisonjeado de ver um texto tão bom e articulado (o seu) nascer de outro tão instintivo (o meu). Como é de praxe, me sinto obrigado a uma "tréplica" amigável. Acho que você toca no ponto principal do meu comentário, mas também acho que existem algumas injustiças na sua crÃtica.
Por exemplo: em que momento do meu texto eu deixo transparecer que a obra de Chico é um "cânone clichê de fácil assimilação"? Veja o que diz meu texto: "O disco de Mônica Salmaso cai como uma luva no gosto desse público [o que eu chamei de 'ouvinte de elite'], pois os ilude com sua sofisticação, e fornece a eles novas razões para achar rap coisa de pobre". Eu estou repetindo, de modo bem mais pobre, um verso lindo da canção "Reconvexo" (Caetano): meu som te cega careta/ quem é você?, e não discriminando a Mônica Salmaso, absolutamente! E então arremato a idéia afirmando: "Grandeza estética dela e do grupo Pau-Brasil, que a acompanha e responde por alguns dos arranjos mais criativos já feitos para as canções de Chico; incompreensão e incapacidade de quem acha que boa música é produto de quem tem grana. Assim, o Brasil segue, perigosamente dividido". Onde você identificou no meu texto uma indicação de que o repertório da Salmaso é de fácil assimilação?
Como você aponta, não acho que o "potencial de transformação social estaria confinado ao rap", mas acho sim que o rap é o movimento mais intenso e mais importante de um ponto de vista polÃtico-cultural, justamente porque nele não existem sublimações estéticas, mas uma música seca que comunica um estado de desespero social, que não é assimilado pelos tais "ouvistes de elite" porque os fere e agride descaradamente. Isso, sem entrar no tema das virtudes cancionais do rap! para isso, só lendo Luiz Tatit.
Você percebe que defendemos a mesma coisa?
Não se trata de nostalgia ("como na década de 60"), mas de uma referência a uma época onde a boa música popular era apreciada por todos aqueles que assistiam TV; não era incrÃvel que tanto um estivador quanto um jornalista soubessem cantar "Vai passar" do Chico com a mesma gana de liberdade e pletora de beleza?
O que eu acho mais grave no seu texto é a seguinte afirmação: "Burnett ataca a sofisticação do trabalho de Salmaso e do grupo Pau Brasil"; é o contrário Marcos, eu os louvo.
Em outro ponto você diz: "Para Burnett as novas divas poderiam continuar a 'linha evolutiva' da MPB ('o movimento natural da música popular com seus novos ritmos e artistas, frutos do seu tempo'). Eu não falei em nenhum momento em "linha evolutiva". Pelo contrário, eu pergunto certa altura: "Nosso futuro estaria no passado? (ou seja, na continuação da tal linha)" e respondo em cima: "Não. Isso seria uma injustiça ao movimento natural da música popular com seus novos ritmos e artistas, frutos do seu tempo –o rap e seus afins menos densos. Eles refletem a sociedade na qual se desenvolvem; são sua representação mais rigorosa. Não se pode normatizar a criação. Uma lição básica".
Não há nenhuma nostalgia passadista ou nacionalista. Lendo seu texto assim sem a nuance necessária, parece que eu sou um ressentido, e isso é grave... desculpe.
Ora, o show "Brasileirinho" está na mesma direção que o disco de Salmaso cantado Chico! Não é uma "resposta" a nada. Agora você está certo quando afirma que "o importante para ele [eu] é que o conceito de 'qualidade musical não seja considerado um bem de elite': seria preciso devolver a MPB ao povo". Isso significa que eu gostaria muito que o show da Mônica Salmaso pudesse ser ouvido e apreciado por quem só tem a banca Calypso como referência. Claro que não existe a necessidade de se comparar o Chico ao Chimbinha, de modo algum. É preciso apenas saber que eles se prestam a recepções diferentes. Que eu posso estudar a banda Calypso de um ponto de vista musical, social etc., mas não posso estudá-la de um ponto de vista literário; isso é elitista? eu não posso sustentar um discurso elitista se estou escrevendo contra isso... eu cresci ouvindo brega na minha terra e ainda assim faço canções metidas a besta, isso por causa da vivência e do modo como eu senti essas informações todas. Não me culpo por ser um cancionista e não um guitarrista virtuoso como o Chimbinha. Mas gosto da palavra cantada, ou seja, da poesia musicada da qual somos os maiores produtores.
(continua)
Você diz mais adiante: "O artigo de Burnett demonstra certa urgência - que já aparecia nos textos do Coletivo MPB alguns anos atrás, A morte e a morte da canção e Chega de Saudade)- em promover uma cruzada para resgatar as virtudes mÃsticas da canção".
Cruzada pela canção??? olha eu digo no meu texto sobre os outros autores jovens que a Salmaso gravou: "Novos compositores que Salmaso já gravou em outros projetos também não encontram sua platéia entre jovens que gostam de rap, hip-hop e música pop, e que acham canção meio sacal – com alguma razão, pois quantidade nem sempre resulta em qualidade e porque a canção se renova de modo delicado e e quase imperceptÃvel"; que cruzada é essa??
Acho que a idéia de que não nascem mais compositores como Chico e Caetano até plausÃvel; embora eu sofra com isso, porque a única que eu sei fazer na vida com algum mérito é... escrever canções... (obrigado pela audição). Eu acho que a música é viva Marcos, se transforma, metamorfoseia, nasce e renasce, como dissemos lá nos textos do Coletivo MPB.
Você diz: "As esperanças no rap como forma redentora que poderia resgatar o potencial crÃtico e de transformação social da música popular me parece um exagero que não tem grandes razões de ser". Se não forem eles, de onde você imagina que pode vir algum impulso transformador? Não fui eu, foi o Chico que disse que o rap poderia ser a música do século 21, em substituição a uma música que representava outra época histórica, o século XX...
Ainda você: "A qualidade musical não pode ser considerada um bem de elite, contudo, se a música pretende ter um amplo potencial transformador, não pode se confinar aos que possuem ouvido musical". Agora não entendi bem. De onde você acha que pode brotar algo transformador alheio à recepção do tal "ouvido musical"? Quer dizer que realmente quem não tem ouvido musical deve se contentar em não entender Chico hoje em dia? Se for isso, talvez tenhamos chegado no limite das nossas intenções.
Existe uma coisa que pode soar nacionalista, mas quando você diz que "os que esperam redenção por meio da música não compreendem aqueles que não vêem o mÃnimo sentido nessa espera, ou que, utilizam a canção para se divertir de modo descomprometido" acho que está desconsiderando um dado bem nosso: a música popular é uma via de interpretação do paÃs, e não apenas "diversão", por isso a referência aos "filisteus da cultura", tomado de Nietzsche.
Se jogamos essa especificidade no lixo, aà talvez seja impossÃvel pensar no Brasil de modo otimista...
Obrigado pelo debate.
Obrigado Henry por esclarecer pontos em que não fiz uma boa leitura de seu texto. Na verdade, acho que sua resposta é muito rica e generosa. Percebi por outros comentários que meu texto havia "racionalizado" de forma pobre seus raciocÃnios vivos e pulsantes: a distinção essencialista que o André Albert apontou é uma dessas simplificações problemáticas. Outra é a idéia de "espectro" e você apontou mais alguns desses “desviosâ€... Tenho que pedir desculpa por esse tipo de simplificação e dizer que o seu texto é que é culpado de instigar em mim essa vontade de escrever também (mesmo me considerando tecnicamente inapto). Espero que os links no texto sirvam para que os interessados procurem os textos originais e possam ir diretamente na fonte.
(Por exemplo, quando usei o conceito de “linha evolutiva†fiz referência a um texto do filósofo Antônio CÃcero em que ele reavalia o que poderia significar esta idéia, apontando numa direção de elucidação conceitual que acho que você concordaria... misturei muitas vozes e muito do que disse acabou turvo. Que os que gostam de pescar em águas turvas desmontem suas promessas vazias: os comentários estão fazendo isso!).
Vendo o professor Arthur Nestrovski palestrar sobre a forma canção e sua riqueza na obra de Tom Jobim percebi o quão difÃcil é “falar sobre†esse tema sem simplifica-lo. Por outro lado, me senti fascinado. Compartinho contigo a valorização da canção e acho que na maioria das coisas estamos de acordo e tentando caminhar na mesma direção. Acho que a diferença maior este nas concessões que faço a dimensão antropológica da canção popular, buscando desvendar nela aspectos transformadores: talvez a música sertaneja possa ser lida como refletindo a decadência de certa visão machista? talvez aponte para o desconcerto ante o papel da mulher na sociedade atual (em seu complexo de épico revivido)? talvez tragam o mesmo produto “amor romântico†que está nas canções do emocore e que reaparece em diferentes formatos?, talvez minhas analogias estejam indo longe demais... mas, o mais importante é tentar pensar esses temas, pensar nossa cultura. A canção é um bom caminho. Quanto mais leio textos como o de Burnett, mais me convenço dessa importância e aprendo com a pertinência de seus argumentos.
Provavelmente o meu desencanto com a dimensão prosaica da cultura atual seja muito mais profundo do que possa parecer em um olhar rápido: minhas dúvidas sobre o potencial de transformação social atraves da estética estão ligadas a uma interrogação maior sobre as possibilidades de educação moral. E aqui fico no paradoxo que move minha inquietação.
Novamente agradeço a generossidade dos esclarecimentos feitos pelo professor Henry. abs
Muito obrigado pela generosidade também, e não pense que eu fiquei aborrecido, ao contrário, como disse fiquei lisonjeado de fomentar um texto bom como o seu.
Espero que possamos continuar discutindo essa música que tanto nos inflama e apaixona.
Abraço
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