Novela diária - paixão brasileira!

arquivo TV Excelsior/todos os direitos reservados
Glória e Tarcísio em 2-5499 Ocupado, primeira novela diária do Brasil
1
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
6/6/2007 · 208 · 6
 

- ‘Alô’.
- ‘2-5499, bom dia’.
- ‘Perdoa-me, foi engano’.

Este foi o diálogo inicial da novela que iria se transformar na primeira produção do gênero a ser mostrada diariamente no Brasil. O par romântico – que se conhece devido a uma ligação errada – era interpretado por Tarcísio Meira e Glória Menezes na novela ‘2-5499 Ocupado’, que a TV Excelsior começou a colocar no ar em julho de 1963.

Quando estreou, a produção era exibida em São Paulo às segundas, quartas e sextas e a emissora enviava os videoteipes de ‘2-5499 Ocupado’ para as outras Capitais. A Excelsior do Rio de Janeiro, em setembro de 1963, percebendo que poderia atrair mais publicidade e habituar o espectador a acompanhar a trama, resolveu exibir a novela diariamente. Com isso, acabou abrindo caminho para o gênero ganhar mais público.

‘Tinha antipatia por novelas e aceitei fazer porque achei que fossem assistir. Mas a novela repercutiu entre pessoas que não gostavam de teatro. Desde então, aprendi que novela é imprevisível’, afirma Tarcísio Meira.

Mas a primeira novela diária a fazer sucesso no país foi ‘O Direito de Nascer’, em 1964, na TV Tupi, que tornou populares os personagens Mamãe Dolores, Albertinho Limonta e Maria Helena. Quem imperava no Brasil naquela época era mesmo Glória Magadan. A exilada cubana ficou conhecida por escrever dramalhões ambientados em países distantes do Brasil. Sua primeira novela na Globo foi ‘O Skeik de Agadir’, em 1966, com o ‘sheik’ vivido por Henrique Martins e a mocinha interpretada por Yoná Magalhães.

A autora cubana era capaz de desatinos. Como matar o personagem de Sebastião Vasconcelos, só porque ele usava barba e bigode e ficava parecido com Fidel Castro. ‘A Glória não destacava os costumes e as belezas do país. Isso foi mudando aos poucos’, lembra Marieta Severo. A atriz estreou na novela aos 19 anos, como uma vilã, a princesa árabe Éden de Bassora. A personagem de Marieta, na verdade, era o misterioso Rato, que durante toda a novela só mostrava as mãos enluvadas e cometia diversos assassinatos.

Foi com ‘Beto Rockfeller’ que o brasileiro começou a se reconhecer nas tramas das novelas. A produção, exibida na TV Tupi em 1968, modificava o conteúdo habitual das novelas ao apostar em situações e personagens bem brasileiros. Vivido por Luiz Gustavo, o protagonista se infiltra na alta sociedade paulistana para tentar subir na vida.

No rastro de ‘Beto’, a Globo aposentou o estilo ‘Magadan’ e passou a produzir tramas calcadas nos costumes brasileiros, sob a batuta de Janete Clair. A autora estreou na emissora em ‘Véu de Noiva’, em 1969, arrebatou o público com ‘Irmãos Coragem’, em 1970, e transformou a Globo em líder de audiência. Além de ambientar a trama de ‘Irmãos Coragem’ em um garimpo de Goiás, Janete criou personagens bem populares para os irmãos vividos por Tarcísio Meira, Cláudio Cavalcante e Cláudio Marzzo. ‘O incrível é que ‘Irmãos Coragem’ falava de disputa de terras em plena repressão militar. Foi um avanço’, pondera Milton Gonçalves, que dirigiu ‘Irmãos Coragem’ e é atualmente o ator com contrato mais antigo na Globo.

Já ‘O Bem-Amado’, em 1973, foi a primeira novela exibida em cores no Brasil. A trama de Dias Gomes enfocava o prefeito baiano Odorico Paraguaçu, papel de Paulo Gracindo, e a inauguração do cemitério de Sucupira. Foi a primeira novela brasileira a ser vendida para o exterior, começando pelo México e chegando à América Latina. ‘O Bem-Amado despertou a consciência política no brasileiro. Foi importante as pessoas terem recebido bem esta novela’, acredita Lima Duarte, que fez o inesquecível Zeca Diabo.

Três anos depois, a Globo exibiu ‘Escrava Isaura’, adaptação de Gilberto Braga para romance de Bernardo Guimarães. Com a estreante Lucélia Santos como a escrava branca do título, a produção foi vendida para mais de 100 países. ‘Até os monges do Himalaia já me reconheceram. Ninguém esperava que uma novela brasileira chegasse tão longe’, ressalta Lucélia.

...

De capítulo em capítulo, a novela diária se transformou no produto mais importante da televisão brasileira, ganhou projeção internacional e se tornou um símbolo de brasilidade em todo o mundo. Mas o auge do gênero aconteceu com ‘Roque Santeiro’, em 1985. A novela de Dias Gomes e Aguinaldo Silva fez o Brasil parar para acompanhar a história de Viúva Porcina e Sinhozinho Malta. Os dois últimos capítulos da trama tiveram inimagináveis 100% dos televisores do país sintonizados em ‘Roque Santeiro’, feito até então alcançado apenas por ‘Selva de Pedra’, em 1972. ‘Sucesso como o de Roque Santeiro não tem explicação e dificilmente acontece duas vezes’, avalia Aguinaldo.

Em 1988, a Globo colocava no ar ‘Vale Tudo’, de Gilberto Braga, uma das mais ferozes críticas sociais ao Brasil e que levou o país a indagar ‘quem matou Odete Roithman?’, papel de Beatriz Seggal. O vilão vivido por Reginaldo Faria não é punido no final da trama e a novela acaba com ele fazendo o gesto de 'dar uma banana' para todos. ‘Vale Tudo questionava até que ponto valia ser honesto no Brasil’, relembra Gilberto.

A extinta Manchete, com ‘Pantanal’, provocou a terceira modificação importante no gênero. A novela de Benedito Ruy Barbosa contava a saga da família Leôncio, uma das grandes criadoras de gado da região pantaneira sul-mato-grossense, e havia ficado oito anos na gaveta da Globo. ‘Antes, as novelas só tinham 10% de externas. 'Pantanal' inverteu esta ordem e mudou a maneira de produzir novela no Brasil’, valoriza Benedito.

Em 1997, a mesma Manchete transformou Taís Araújo na primeira protagonista negra de uma novela brasileira com ‘Xica da Silva’ e no mesmo ano o SBT assustou a concorrência com a infantil ‘Chiquititas’, adaptada do original argentino. ‘Conquistamos um público que queria histórias mais tradicionais’, avalia a protagonista Flávia Monteiro.

Mas apenas a Globo chegou aos final da década de 90 com o ‘know-how’ e saúde financeira para realizar superproduções diárias. ‘Terra Nostra’, em 1999, virou uma espécie de continuação de Benedito Ruy Barbosa para a novela ‘Os Imigrantes’, exibida na Band em 1981, só que tratando apenas da imigração italiana. Na direção, Jayme Monjardim, o mesmo que em 2001 iria dar tratamento épico para ‘O Clone’, de Glória Perez, com gravações em Marrocos e uma trama inusitada que misturava clonagem, cultura árabe e a irreverência do subúrbio carioca.

...

# A novela mais antiga do mundo é a americana ‘The Guiding Light’, do canal CBS. Ela foi criada no rádio em 1937 e permanece na TV desde 1952.

# A primeira história contada na TV Brasileira foi ‘A Vida Por Um Fio’, em novembro de 1950, dois meses após a inauguração da pioneira TV Tupi de São Paulo. Era uma adaptação de Cassiano Gabus Mendes para o filme americano ‘Sorry, Wrong Number’.

# A novela ‘A Deusa Vencida’, exibida pela TV Excelcior em 1965, é considerada a primeira superprodução do gênero. A trama era de Ivani Ribeiro e marcou a estréia de Regina Duarte.

# A primeira novela com texto totalmente brasileiro para a TV foi ‘Ambição’, de Ivani Ribeiro. Exibida em 1964, na TV Excelcior, a trama focalizava uma moça pobre que desejava ascender socialmente.

# As primeiras novelas da Globo foram ‘Ilusões Perdidas’, de Ênia Petri, e ‘Rosinha do Sobrado’, de Moysés Weltman, ambas exibidas em 1965.

# Dias Gomes estreou na Globo ao assumir ‘A Ponte dos Suspiros’, em 1969, com o pseudônimo de Stela Calderón. Foi a última novela supervisionada por Gloria Magadan na Globo. A cubana foi dispensada da emissora e encerrou a sua carreira de autora no Brasil com o fracasso ‘E Nós Aonde Vamos?’, na TV Tupi, em 1970.

# ‘Redenção’, do autor Raimundo Lopes, teve 596 capítulos. Produzida pela TV Excelsior de São Paulo e apresentada às 19h, a novela foi exibida entre 16 de maio de 1966 e 2 de maio de 1968. Francisco Cuoco interpretava o médico-protagonista que chegava à cidade de Redenção e despertava a paixão em três mulheres vividas por Miriam Mehler, Lourdes Rocha e Márcia Real.

# ‘O Machão’, de Sérgio Jockyman, foi a segunda maior novela, com 371 capítulos. Produzida pela TV Tupi, entre 5 de fevereiro de 1974 e 15 de abril de 1975 no horário das 20h30, a novela era protagonizada por Antônio Fagundes. O ator se desentendeu com a emissora e se transferiu para a Globo antes do desfecho final. A novela era uma adaptação da novela ‘A Indomável’, que Ivani Ribeiro escreveu para a TV Excelcior em 1965 já inspirada em William Shakespeare.

# ‘Os Imigrantes’, de Benedito Ruy Barbosa, teve 333 capítulos e é considerada a terceira maior novela diária exibida no Brasil. A produção da TV Bandeirantes ficou no ar no horário das 18h30 entre 27 de abril de 1981 e 4 de junho de 1982. A trama contava a história dos imigrantes que ajudaram a construir o Brasil do Século XX. A novela ainda rendeu uma continuação, ‘Os Imigrantes – Terceira Geração’, de 7 de junho a 29 de outubro de 1982 também na TV Bandeirantes, mão conseguiu cativar o espectador.

# ‘O Bofe’, de 1972, e ‘O Rebu’, de 1974, ambas escritas por Bráulio Pedroso, estão entre as novelas mais inovadoras da tevê brasileira. Na primeira, os personagens eram bem esquisitos, com direito a travesti alcoólatra vivido por Ziembinski. Na segunda, a própria trama era avançada pra época. A novela toda se passava na noite em que acontece um assasinato em uma festa.

.............................................

* Matéria publicada pela agência TV Press em 6/7/2003.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Maria Lúcia Medeiros Teixeira
 

Rodrigo , linda a tua matéria. Uma aula sobre a história da novela no Brasil. Um trabalho realmente digno de publicação. Beijão.

Maria Lúcia Medeiros Teixeira · Campo Grande, MS 3/6/2007 23:09
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Glês Nascimento
 

Bacana, informativo e popular. A TV merece destaque... e você mesclou bem a história da Tv e a informação.

Glês Nascimento · Palmas, TO 5/6/2007 19:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Labes, Marcelo
 

Apesar de ter meus poréns com a televisão brasileira, achei ótima a matéria explicatica, sem ser crítica ou o quê, a respeito da história do novelismo brasileiro. Texto grande, mas enxuto. Como disse Maria Lúcia, digno de publicação.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 8/6/2007 13:55
sua opinião: subir
Rodrigo Teixeira
 

Valeu Maria Lúcia, Glês e Labes. Os comentários foram poucos, mas sinceros (rs)! Grande abraço!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 8/6/2007 14:24
sua opinião: subir
Fábio Fernandes
 

Rodrigo, novela também é cultura. Adorei a matéria, me remeteu aos saudosos tempos de Janete Clair e Dias Gomes. A maneira como a TV brasileira pegou o formato meio hisoânico/meio norte-americano e o traduziu para uma linguagem mais acessível aos códigos brasileiros é algo que mexe e incomoda com os intelectuais desde os tempos da ditadura, em que a turma da esquerda ficava assistindo novelas e o Chacrinha para tentar entender o porquê de tanto fascínio do povo por essas formas de cultura. Isso ainda merece análises mais profundas.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 11/6/2007 02:39
sua opinião: subir
Rodrigo Teixeira
 

É isso mesmo Fábio. Os latinos gostam mais de novelas do que a maioria mesmo. Uns dizem que é falta de cultura. Mas que produzimos a melhor novela do mundo não tem como negar. grande abraço

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 11/6/2007 12:50
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Lima Duarte e Paulo Gracindo em O Bem Amado, a primeira colorida do país zoom
Lima Duarte e Paulo Gracindo em O Bem Amado, a primeira colorida do país
Henrique Martins e Yoná Magalhães em O Sheik de Agadir, estilo Glória Magadan zoom
Henrique Martins e Yoná Magalhães em O Sheik de Agadir, estilo Glória Magadan
Rubens de Falco e Lucélia Santos em Escrava Isaura, vista em mais de 100 países zoom
Rubens de Falco e Lucélia Santos em Escrava Isaura, vista em mais de 100 países
Pantanal tirou novelas dos estúdios/Gabriela adaptação certeira de Jorge Amado zoom
Pantanal tirou novelas dos estúdios/Gabriela adaptação certeira de Jorge Amado

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados