Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo ¹...

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Cury · Salvador, BA
1/8/2008 · 116 · 4
 

...ou United Colors of Roots, Rock Reggae².


No ano de 2000, estagiei por quatro meses no Senac e uma tarefa que eu tinha diariamente era a de ler os jornais Correio da Bahia, A TARDE e Tribuna da Bahia. Tudo. Tinha de ler o jornal todo. Economia, política, rural, revista da TV, informática, classificados, coluna de July... só pra ver se havia algo falando do Senac. Se eu avistasse o nome SENAC escrito, tinha de copiar a matéria, imprimir, marcar com um hidrocor o nome SENAC, dizer em que jornal foi, de que dia, ano e mês e entregar na diretoria. No começo era divertido, mas depois de um feriadão... O feriado foi de quinta até domingo. Cheguei na segunda e tava lá, na minha mesa, o A TARDE de quinta, o A TARDE de sexta, o A TARDE de sábado, o A TARDE de domingo, o A TARDE de segunda, o Correio da Bahia de quinta, o Correio da Bahia de sexta, o Correio da Bahia de sábado, o Correio da Bahia de domingo, o Correio da Bahia de segunda, a Tribuna da Bahia de quinta, a Tribuna da Bahia de sexta, a Tribuna da Bahia de sábado e a Tribuna da Bahia de segunda (domingo não tinha Tri). Pedi demissão na hora.

As campanhas da Benetton, nos anos 90, feitas pelo fotógrafo Oliviero Toscani, foram duramente criticadas pelos donos de agências e publicitários espalhados pelo mundo. Toscani mostrava uma mãe olhando o corpo do filho morto, com uma poça de sangue ao redor. Uma foto real. Em outra, cruzes alinhadas em um cemitério militar. Em outra, a roupa de um soldado morto em Sarajevo, com o furo da bala na camisa e o sangue espalhado. Esses anúncios ficavam em cartazes gigantescos espalhados pelas principais cidades do mundo, com a marca United Colors of Benetton no cantinho, no terceiro quadrante.
Com o tempo, os jornais, pressionados pelo dinheiro dos anunciantes das grandes agências de publicidade, passaram a boicotar os anúncios da Benneton. Alegavam que a verdade não podia ser mostrada. Não em publicidade. O mundo jovem, bonito, feliz, com um carro do ano, numa praia paradisíaca, não podia ter seu encanto quebrado. O mundo precisa consumir.
Toscani se defendia de forma coerente, dizendo que o que ele fazia era jornalismo. Dizia que não havia diferença entre o que ele fazia e o jornalismo convencional, com anúncios de tudo entre as noticias trágicas do mundo.
Depois dos comerciais de Insinuante, Coca-Cola, Skol e Itaú, o Fantástico mostrou, segundo Zeca Camargo, “com exclusividade”, o desenho animado, em cores, de como foi o assassinato de Isabela Nardoni.

Em 1994, eu tocava em minha primeira banda. Uma banda de reggae chamada Filhos de Jah. Não durei muito, queria ser do rock, mas como os únicos músicos que eu conhecia eram eles, fiquei na banda até onde deu.
– Man, semana que vem tem ensaio, e a gente tá querendo tocar Filho da Terra³, você tem que ouvir ela – me disseram.
Ouvi a música sem parar. Até hoje sei ela de cor, cada virada, cada batida no prato, mas mesmo assim, não garanti o emprego. Um outro baterista, que já tinha sido previamente convocado pro ensaio, apareceu no estúdio e tocou pra caralho. Foi a última música que toquei com a banda. É a música de Edson Gomes de que mais gosto. Cito ela no meu livro.

Um ano depois, no carnaval, minha casa ficou cheia de gente. Amigos meus e de minhas irmãs. Minha bateria ficou montada na sala, onde eu tentava, insistentemente, tocar em cima de Jokerman⁴;;;, música de Bob Dylan, na versão de Caetano Veloso.
Segundo o próprio Caetano, Bob Dylan mandou uma carta pra ele, elogiando muito a tal versão, que está no disco Circuladô Vivo.

Meu aniversário de 19 anos, em 1997, comemorei no Mercado do Peixe. Ganhei de Rogério Big Brother um CD de uma banda de nome Baia & Rockboys.
Mauricio Baia, cantor e principal compositor da banda, é baiano, mas mora no Rio de Janeiro desde pequeno, onde montou sua banda. Na primeira audição, aquele disco me ganhou. Ouço muito até hoje. As melodias, as guitarras, as letras...
Sim, acho que não, nessa overdose de lucidez, eu entro em contradição”, canta Baia em Overdose de Lucidez⁵;;;, uma de suas crônicas musicadas, que são tão interessantes quanto as de Bob Dylan e Raul Seixas.

Uma vez, na casa de uma amiga, vi um livro de cartuns. Comecei a folhear e ficar bastante envolvido com os desenhos. Eram crônicas baianas em cartuns coloridos.
As cores usadas, as mesmas de um estojo de 12 cores, e a forma de pintura, um traço perfeitamente simples, usados com inteligência e humor sobre o dia-a-dia da Bahia. Procurei o nome do autor e achei “Nildão”.
Já conhecia o trabalho dele, sempre vejo seus livros por aí, nas casas de amigos, em bares, livrarias, e os seus textos e desenhos sempre me chamaram a atenção. Mas este, eu nunca tinha visto. O nome é Bahia: Odara ou Desce.
Mandei um e-mail:
– Nildão, me chamo Ricardo, lancei um livro (release em anexo) e gostaria de te enviar um exemplar e blá, blá, blá...
Ele respondeu:
– Cury, meu velho, acompanho o seu blog, agradeço a sua atenção, meu endereço é...
Mas eu demorei pra aparecer e três dias depois ele me mandou um outro e-mail:
– E aí, Cury, cadê meu livro? Sou como criança: se me prometem, acredito.

Fui na casa de Nildão entregar o livro. Foram três horas de conversa. Formou-se em jornalismo, mas preferiu sair de perto quando começou a trabalhar em um jornal e ver a máquina se movendo. Segundo o próprio, desistiu assim que ele percebeu quem eram os verdadeiros donos dos jornais e entendeu o porquê da ausência de liberdade que sentia naquele meio. Foi ser cartunista por conta própria, fazendo o seu próprio jornalismo. Mostrando o que via em desenhos. Seu primeiro livro se chama Me segura qu’eu vou dar um traço.
Me deu conselhos:
– Jorge Amado disse ao escritor Milton Hatoum que, para se angariar público, o escritor precisa publicar cinco, dez livros... – me alertando sobre o fato de eu ficar muito tempo sem atualizar o blog.
Acho que nesse ponto Dorival discordaria de Jorge. Dorival diria:
– Oxe, Jorge, pra que tanto?
Nos anos 70, Nildão passou a fazer dos muros da cidade de Salvador o seu jornalismo. Diante do jornalismo oficial, a única forma de dizer o indizível era nas paredes, de madrugada, com as latas de spray na mão.
Ironicamente, as coisas que Nildão dizia nos muros passaram a chamar tanto a atenção que começaram a sair nos próprios jornais, inclusive na Folha de São Paulo. Ele percebeu com isso que o poder da liberdade era maior e mais saudável do que o poder preso da redação de um periódico. Criou com um amigo a UPI – United Press Imãos Metralhas –, feita, exclusivamente, para divulgar falsas notícias pelos muros da cidade.
“Irmã Dulce tem conta na Suíça”, dizia uma delas.
“Pintanguy desengana João Durval”, dizia outra.
O livro Bahia: Odara ou Desce, 11 anos depois de lançado, se transformou numa campanha publicitária da Bahiatursa. O jornalismo livre de Nildão, em cartazes espalhados pela cidade e na televisão, onde os desenhos ganharam animação e prêmios.
Conversamos sobre meu avô. Sobre suas poesias e a vontade dele de lançar um livro independente aos 90 anos.
Entreguei o meu Para Colorir pra ele e ele perguntou, dos diversos livros que ele já publicou, qual eu iria querer levar.
– O colorido da Bahia – respondi.

Em 1998, Baia & Rockboys era um dos nomes escalados para o evento baiano Garage Rock. Duas semanas antes do show, recebi um telefonema:
– Alô, Ricardo?
– Sim.
– Aqui é Ritinha, amiga da sua irmã. Estive em sua casa três anos atrás, num carnaval, lembra de mim?
– Acho que não...
Era muita gente lá em casa.
– Enfim, lembro que você tocava bateria, Bob Dylan e tal. Você ainda toca?
– Sim.
– Então, eu tô produzindo uma banda daqui do Rio, não sei se você conhece, Baia & Rockboys...
– Conheço...
– Conhece?!
– Conheço, ganhei o CD de presente no meu último aniversário.
– Perfeito – disse ela.
A banda viria tocar em Salvador, no Garage, mas o baterista Pedrinho também tocava em uma outra banda, uma de reggae chamada Dread Lion, e não poderia vir, pois a Dread Lion teria um show, no mesmo dia, em uma outra cidade.
– Estamos sem baterista e não conhecemos ninguém daí, então me lembrei de você, que ficava tocando na sala e tal... Você tocaria bateria com a gente nesse show?
– Claro – respondi na hora.
Passei a ouvir o disco sem parar, tentando decorar cada nuance, ansioso pelo primeiro ensaio, que seria um dia antes do show. Mas, dois dias antes do show, perdi o emprego. De última hora, o baterista pôde vir. Fiquei pirado. O show foi incrível. Tonho Gebara, guitarrista da banda, assinou em meu CD “em breve vamos fazer um som juntos”. E 10 anos depois, enfim, tive a chance. Mês passado, Waltinho, um amigo do colégio, hoje produtor cultural, me ligou:
– Você ainda toca bateria?
– Não.
– E se for pra tocar com Baia?
– Acho que sim.
Claro que sim. Gosto muito do trabalho dele. Com o tempero de 10 anos depois.
Baia acabou de lançar seu primeiro disco solo, sem os Rockboys. Infelizmente, não seria mais possível fazer o som com o sensacional guitarrista Tonho Gebara, que foi “...dar uma volta do outro lado pra ver como é que tá” ⁶;;;, em 2005, depois de um infarto fulminante. Ele estava tocando com a banda de reggae Natiruts.

Seriam dois shows. Um em Salvador e outro em Feira de Santana.
Seriam 20 músicas. Dezenove que variavam pelos seus quatro discos, e uma de Bob Dylan, Hurricane⁷;;;. Tinha três semanas para aprender todas as 20. Algumas muitas desconhecidas. Fiquei ouvindo as 20 sem parar. Onde eu fosse, eu ouvia. Até embaixo d’água. “Será que dessa vez vai?”, me perguntava o tempo todo.

Uma semana antes do show, houve o primeiro ensaio. Waltinho cantando.
A banda toda foi formada aqui. Kiko na guitarra e Marquinhos no baixo.
Kiko está sem banda e hoje trabalha como roadie da Timbalada. Marquinhos toca guitarra em uma banda de reggae chamada Mosiah. Entrou há pouco tempo. Conheci os dois no primeiro ensaio, que também não se conheciam.

Ensaiamos com Waltinho sendo o cantor, até que Baia, finalmente, chegou.
No primeiro ensaio oficial, todos estavam um pouco tensos, preocupados com a execução, mas aos poucos as coisas foram entrando no ritmo.
Ser contratado pra tocar com um artista que se admira é uma benção. Com certeza é algo raro para qualquer músico.
Numa parada para o descanso, cheguei atrasado na salinha onde todos conversavam. Peguei a conversa pelo meio:
– ...isso foi quando eu tocava com Edson Gomes... – dizia Marquinhos.
– Você tocou com Edson Gomes? – perguntei surpreso.
Ele não só tocou, como gravou o baixo de muitas músicas do maior reggaeman da Bahia, como baixista da banda dele, a Cão de Raça.
– Você gravou o baixo de Adultério⁸;;;? – perguntei entusiasmado.
Adultério é uma outra música de Edson Gomes que a Filhos de Jah tocava, e que a linha de baixo era muito discutida por todos.
– Não... essa não fui eu...
Eu ia perguntar se ele gravou Filho da Terra, mas me deu um branco e não lembrei o nome da música:
– Você gravou aquela... éééé... porra, me esqueci o nome, adoro aquela música, ééé...
– Eu gravei Filho da Terra, conhece?

O show em Salvador foi muito bom. Casa cheia e público empolgado. O segundo show, em Feira, quase não teve. Kiko teria que viajar com a Timbalada e não daria tempo de arrumar um outro guitarrista. Baia faria o show só com voz e violão, o que ele faz muito bem, mas que não queria fazer dessa vez, pois dividira a noite com outras bandas, daí queria chegar também com banda. A solução era ir como power-trio. Baia voz e violão, mais eu e Marquinhos.

A banda se concentrou na casa em que Baia estava hospedado, local marcado com a van que faria o transporte até a cidade de Feira de Santana. Fui o último a chegar. Marquinhos estava no sofá da sala, com o violão na mão, tocando e cantando de forma sublime a música Trem das Cores⁹;;;, do disco Cores, nomes, de Caetano Veloso.
E aqui, trem das cores, sábios projetos: Tocar na Central.E o céu de um azul-celeste, celestial”, cantava Marquinhos.
Quando ele acabou de tocar a de Caê, dessa vez não esqueci:
– Porra, Marquinhos, por favor, toque Filho da Terra – disse eu, suplicando.
Ele não hesitou e começou sozinho: “Naturalmente, eu transo a mente, o corpo o espírito...”, sendo seguido por todos da sala, que faziam os vocais da música.
No fim da música, a letra fica repetindo “oh, children, não existe cor, só você sabe que não existe cor, não existe cor...”. Ficamos todos repetindo esse mantra “não existe cor, só você sabe que não existe cor”, até que Baia apareceu na sala, e na mesma melodia, perguntou:
“E amarelo é o quê?”.





___________
(1) Aquarela, de Toquinho e Vinicius de Moraes.
(2) Roots, Rock Reggae, de Bob Marley.
(3) Filho da Terra, de Edson Gomes.
(4) Jokerman, de Bob Dylan.
(5) Overdose de Lucidez, de Mauricio Baia e Tonho Gebara.
(6) Lado Oposto, de Tonho Gebara.
(7) Hurricane, de Bob Dylan.
(8) Adultério, de Edson Gomes.
(9) Trem das Cores, de Caetano Veloso.





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Atilon
 

pos é garoto, mais uma vez meus parabens!! n se esqueça q sabado AGORA vai rolar umas bandas de rock na boomerangue... abrç velho!!

Atilon · Salvador, BA 1/8/2008 00:50
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Cintia Thome
 

Parabens Cury. Texto muito rico e muito gostoso.

Cintia Thome · São Paulo, SP 1/8/2008 11:33
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Abel Sidney
 

Cury,

Comecei a ler, senti que era uma dessas colagens-mosaicos de experiências cotidianas, uma crônica emendada na outra e fui gostando, gostando e lendo até o final!

Legal, filhão!

Se você, garoto ainda, já manda bem nas letras, fica a imaginar o que fará na maturidade que, queiramos ou não, a carga pesada dos anos no lombo nos traz...

E espero, sinceramente, que esta leveza do teu texto não se perca em nome de qualquer coisa! Precisamos disso. É um bom alimento.

Abraços

Abel Sidney · Porto Velho, RO 2/8/2008 00:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Elismar Pinto
 

Olá sou estudante de jornalismo e estou escrevendo um livro reportagem perfil como trabalho de conclusão de curso. O tema é Ícones do cartum na Bahia. E para isso selecionei dois dos grandes mestres do Cartum baiano um deles é Flávio Luiz e o outro é o Nildão ambos dispensam apresentações. Neste trabalho pretendo tornar evidente (ainda mais) os seus respectivos trabalhos, estilo, inspiração, perfil e suscitar uma discursão sobre o humor gráfico na Bahia e o seu poder ideológico.
Gostaria de saber se posso usar vc como fonte utilizando o seu relato acima como citação direta em meu livro? Se a resposta for positiva, por favor me responda o mais breve possível. Desde já agradeço.
elismarpinto@yahoo.com.br
88364564

Elismar Pinto · Salvador, BA 30/10/2008 00:45
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