O Absurdo no Sistema Educacional II

Foto: Egberto Nogueira (da revista VEJA)
Indisciplina em pose para revista
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Tãnia Barros · Rio de Janeiro, RJ
9/4/2008 · 49 · 4
 



O absurdo no Sistema Educacional II



Vivemos o caos na educação. Você não ouviu bem... não entendeu ainda que caos é este, afinal? Eu explico, aos poucos, mas explico: não existe hoje em dia nas grandes cidades, principalmente no eixo Rio-São Paulo, condições reais de um professor dar aula para o ensino médio e fundamental diante da indisciplina crescente, e em turmas lotadas. Numa turma há sempre, claro, aqueles que se dedicam, contribuem para o bom andamento das aulas, mas com o agravamento da indisciplina em quantidade e teor, aquele famoso " tô nem aí", fica deveras ineficaz a tentativa de levar a cabo um planejamento calmo, agradável e atualizado de uma aula, por parte do profissional formado, e que ainda se mantém em formação contínua, diga-se, para estancar essa baboseira de que os professores não são bem preparados. A história é outra, e só que lida dia-a-dia na sala de aula o sabe. Ninguém está preparado é para o absurdo que se vem instalando, isTo, sim. O mais antigo e experiente professor atuante em sala de aula ainda poderá confirmar tais palavras.

Turmas lotadas, entre 30 e 40 alunos (esta é minha experiência como a de vários colegas), com o agravante do tumulto-barulho que "corre solto", assim como a violência e a falta de respeito pelo mestre: xingamentos, ameaças, combinações entre grupinhos para estressar e acusar o professor de algo que não foi dito ou feito, são apenas os reflexos do sistema como um todo que aí está.

LEIS QUE PROTEGEM OU APENAS ESCONDEM UM PROBLEMA SOCIAL

Se por um lado temos leis que de fato tentam proteger a infância e a adolescência, por outro, há o pecado do exagero em alguns tópicos no que diz respeito à educação, contribuindo para uma verdadeira perseguição aos profissionais do ensino. Ou seja, teorias e pitacos de muita gente que não é da área ou não está na lida direta com o processo ensino/aprendizagem.

Devemos formular leis que protegam nossas crianças e adolescentes, mas que o façamos com os grupos ligados diretamente à Educação e, principalmente, que esteja na lida diária com os problemas de sala de aula, com todos os saberes desses profissionais que lecionam: psicopedagogia, sociologia, tudo isto está incluíno na grade de ensino em sua formação, além da própria disciplina que leciona e do que aprende na experiência da docência.

LEMBRANDO A PARTE DA HISTÓRIA QUE INICIOU A DESORDEM

O período negro da ditadura militar no país destruiu, com prazer estratégico, a nossa Educação que era de primeira, principalmente a pública. Muitos queriam entrar para um Liceu Nilo Peçanha (Niterói), entre outros do mesmo nível. Em geral as escolas e colégios públicos eram os melhores. Realizava-se provas para acesso a um desses colégios super concorridos pela qualidade do ensino.

O crescente desejo de lucro e lobbistas infiltrados nos primeiros escalões desviou toda a nossa educação que já foi referência entre os Europeus.

O salário do professor era muito bom, o profissional estava livre para dedicar-se a somente um colégio e a preparar aulas com tempo e primor, estudar e se aprofundar. O professor também era respeitado em sua nobre e complexa atividade. Isto não é saudosismo, isto é consciência de uma política educacional voltada para exterminar o bom profissional, que tem talento e merece ser bem remunerado, assim como exterminar também o direito dos alunos a efetivamente terem aulas agradáveis e eficazes, o que significa dizer mais salas de aulas e menos lotadas, mais profissionais de apoio, e aulas, por exemplo, de música, arte, educação física, que, no primeiro segmento do fundamental não há mais. Fica tudo nas costas de um só professor,aquele que já leciona as tradicionais matérias.

Agravando tudo o que já se desconstruía, vieram a crescente população urbana e a igualmente crescente falta de planejamento urbano. Cresceram, pois, favelas e bairros periféricos sem infra-estrutura. O desemprego e a falta de estrutura familiar também criaram a química certa quando minturadas ao narcotráfico, à violência, e à falta de perspectivas dos mais novos.

SEGURANDO A BARRA?

Quem segura, hoje, como "BURRO DE CARGA", o resultado disso tudo, são os professores. Aliás, bom lembrar: segura, NÃO, pois cada vez mais há professores doentes, insatisfeitos, ameaçados, indignados com a falta de condições para atuar como professores e não como babás( em condições piores que as elas, pois estas cuidam de uma, duas crianças, não de 30 ou 40, e nem precisam se preocupar com orientaçãoes para um conhecimento novo, além de ter que avaliar). Pois é, são eles, os novos profissionais do ensino, os que pedirão exoneração e migrarão de carreira se tudo continuar como está.

No dia que faltarem professores de forma epidêmica, ou mesmo pandêmica, estaremos apenas vendo a tragédia anunciada a qual a sociedade não quis dar conta de forma adequada.

Não seria tão difícil diminuir este caos, se a verba para a educação fosse mais realista, levando em consideração o valor do objetivo: para contratação de mais profissionais, docentes e de apoio, e melhores salários. Mais professores, mais salas de aula = turmas menores. Pessoal de apoio, orientadores educacionais, inspetores = mais ordem e mais tempo de aula aproveitável. Com esta matemática utópica, no momento, só dizer que este artigo continua, não se esgora assim.

By Tânia B.

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clara arruda
 

E há também a falta de amor na criação dos filhos,o respeito que deveríamos ensinar.Uma classe que me orgulha e me dá uma desesperança.A educação morrendo não por falta de bons professores,mas por falta de investimento e reconhecimento.
Um texto exelente.Parabéns!

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 8/4/2008 16:08
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Alice Poltronieri
 

Tania, cheguei para abrir a votação.
Beijos

Alice Poltronieri · Porto Velho, RO 9/4/2008 23:32
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ayruman
 

Ah, a Educação... Muito bem exposto seu pensamento. Apesar da indiferença de nossos governantes e de nossa sociedade, não podemos ficar omissos vendo este "carnaval" acontecer.

Nossos adolescentes não têm onde se espelhar e que nem rebanhos sem pastor assumem caminhos onde o “canto da sereia, o brilho tentador da mídia global, porém falso mais o seduzem”.
Abraço fraterno.jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 11/4/2008 11:16
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Tãnia Barros
 

Obrigada, Clara, Alice e Ayruman, estou escrevendo e lendo, pesquisando muito. Autores que falam sobre o tema. Além do mais, quem pesquisa, e vive este dia a dia sabe como está ficando insustentável a educação. Nossas crianças e nós, professores merecemos um ambiente melhor. Nossos jovens merecem mais atenção desses governos. Nós, profissionais merecemos igualmente investimentos e respeito. Obrigada a todas que sabem e entenderam minhas palavras. Em breve espero trazer um novo texto, na verdade a parte III, com estatísticas etc.

Tãnia Barros · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2008 15:44
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