O andante controverso

Sérgio de Sousa
Cemitério São João Batista, o cenário
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Sérgio de Sousa · Fortaleza, CE
12/4/2007 · 112 · 7
 

Talvez um ambiente-limite. Ou de encontro entre opostos. Entre a vida e a morte, o tétrico e o belo, a ostentação e a simplicidade. Assim, ele se tomba, entre a Jacarecanga e o Centro. Ao adentrar, sente-se imergir no passado, na História, mas também em subjetividades, superstições, crenças. Logo de entrada, eles recepcionam, e acompanham por todo o caminho. Eles, os anjos, ali surgem, às vezes contritos, ou redentores. Também existem os santos e, claro, os crucifixos, aos tantos, que dominam o local.

As esculturas, o mármore, impressionam com a beleza e grandiosidade que ostentam. E, percorrendo todo o espaço, formando uma alameda, as árvores, antigas, que dão um tom bucólico ao ambiente. O olhar curioso se deixa atrair pelos textos nas pedras gravados, perenizados. São frases que lembram, falam de memória, de imorredouras saudades do passado.

O ambiente, hoje afastado do cotidiano das pessoas, normalmente só se torna presente em momento de dor, tristeza. Desta forma, por mais que belo, não parece ser o mais conveniente para uma caminhada diária. Pelo menos, não o mais convencional. Caminhar por lá todos os dias poderia parecer algo, no mínimo, excêntrico. Mas de excentricidades, isso é apenas o começo...

Chego há vinte antes das nove. Nove é o horário convencionado, por mais que não havíamos marcado. “Ele já passou por aqui?”, pergunto ao guarda da entrada. “Não, ainda não. Tem dias que chega mais cedo, outros que chega mais tarde”. “Mas será que ele vem?”, continuo. “Bom, ele veio ontem. É raro um dia que não venha”, responde o guarda. Espero, então.

Pouco depois, ele adentra. Religiosamente, por mais que sem crença, ele cumpre o ritual diário que já percorre 17 anos: caminhada pelo Cemitério São João Batista. A obrigação do exercício veio do médico, como tratamento para a diabetes que já perturba. Mas a escolha pelo cenário é dele, e sem mistério, sem superstição, sem medo.

O seu nome? Este, já registrado no “campo santo”, encontro ao percorrer a alameda. Vejo-o numa placa, sigo a sua orientação e chego ao túmulo, onde se inscreve: Joaquim de Sousa Míteri. Sim, no túmulo, na laje que também porta o seu retrato. Sem nada de sobrenatural, ele caminha ali, vivo e em carne e osso. É que, há seis anos, quando reconstruía o túmulo de seu pai, aproveitou para deixar o seu pronto, que, junto ao retrato, traz o epitáfio: “Filho do mundo. Não deixou nem levou. Saudades”. Uma tentativa de auto-definição.

Definição essa que, para Seu Sousa, como é conhecido, é bastante difícil. “Minha mãe dizia assim: ‘o Sousa não gosta de ninguém’. Outro dizia que eu era pirata, que não tenho amor nem pátria. Meus próprios filhos às vezes dizem isso”, lembra. Isso ele vai dizendo, relembrando, desabafando ao percorrer a alameda. São três voltas, hoje. Já foram mais, depois passaram para quatro, mas então a dificuldade pediu que reduzisse mais uma.

No caminho, muitas pausas: “Olá, como vai?”. É a popularidade que acaba ganhando um habitué de infância do local. “Eu toda vida me sentia bem aqui. É silencio, não atravessava a rua, não tinha trânsito de carro. Aí eu fui tornando o mundo amistoso com os funcionários. E ficou tão bom que eu criei uma espécie de colônia de amizade”, comenta ele, que, quando criança, já percorria o local, a caminho da praia.

Mas relação com pessoas, reflito, é feita sempre de encontros e despedidas. E despedida parece ser aqui uma palavra bem cabível, que caracteriza satisfatoriamente o local. Mas que, para ele, que convive diariamente com a morte, esta é encarada de forma diferente. “Realmente eu sou assim. Converso com todos, brinco, mas quando dizem assim: 'Morreu!', Morreu. Não vou me desesperar. Morreu, acabou-se. É o fim e é pra todos nós, ninguém pode escapar. Eu me acostumei”, esclarece.

A caminhada para ele, mesmo que sempre interrompida por conhecidos, acaba sendo um mergulho em si mesmo, em pensamento e reflexões. Os epitáfios sempre despertam estes momentos absortos. “Tem uns que são comuns, mas tem uns que são bonitos e você faz uma grande análise. Fico pensando quem foram essas pessoas, como viveram. Eu sou louco pelo passado”, conta. E, assim, ele pensa na vida, na morte, nas superstições.

“Eu tenho medo de morte sofrida. Quero uma morte rápida”, sentencia. A vida, pra ele, se mistura a seu oposto: “A vida já é um câncer, a pessoa está condenada na hora que nasce”.

O andante, que afirma não ter crença, não escapa da reflexão sobre o sobrenatural: “Se você chegar pra mim e perguntar se eu acredito em alma, eu digo que não. Mas se perguntar se eu tenho medo de alma, eu digo: tenho!”. A contradição, ele justifica: “O medo vem adiante de uma crença. Se você a tem, ela impõe um medo em você. Eu, quando era pequeno, minha família fazia muito medo. Dizia assim: ‘Olhe, ali aparece visagem’. E a gente vai ficando com aquilo. Quando a gente vai ficando grande, o subconsciente da gente acusa”.

Conviver com a morte faz pensar sobre a vida, e isso ele faz, diariamente. Apesar de lamentar a idade e a doença, e de afirmar não perseguir mais nenhum sonho, ele se considera feliz. “Descendentes, deixei uma porrada; passear, passeei bastante. Conheci todos os estados do país e treze países da Europa. Se fosse voltar tempo, faria a mesma coisa. Eu iria pela mesma estrada”, conclui.


A polêmica admiração


Ser freqüentador assíduo do cemitério faz com que Seu Sousa já seja visto pelo outros de maneira, no mínimo, curiosa. Ter o seu túmulo já pronto, com seu nome e epitáfio, torna-o ainda mais excêntrico ao olhar alheio. Mas, observando o seu monumento sepulcral, percebe-se que este ainda traz outras curiosidades, chocantes, até. E que ainda despertam mais interesse sobre sua controversa personalidade.

Ao lado da foto de Seu Sousa, encontram-se gravadas duas suásticas, símbolos do regime nazista. E isso ele deixa claro. Logo abaixo de seu nome, define-se para a posteridade: neo-nazista. O admirador de Hitler explica que tudo começou ainda criança, quando conheceu um alemão que participara da Guerra. Este era seguidor do Führer, e passou esse sentimento a Seu Sousa.

“Eu admiro a ascensão dele [Hitler], que era pobre e conseguiu todo aquele poder. Isso me lembra meu pai, que também pobre, surdo e mudo, cresceu na vida e deixou-me grande herança”, justifica. “Mas, claro, não concordo com as atitudes que Hitler tomou. Como posso concordar com alguém que matou crianças em câmaras de gás?”, pondera.

E a admiração continuou e ficou gravada, não só em sua história, mas na de seus descendentes, como na de Adolph Hitler Bastos Míteri, seu filho. Não satisfeito, ele ainda batizou outros de seus treze com o nome dos principais personagens do regime alemão na Segunda Guerra Mundial: Adolfo Eichmann, chefe da polícia secreta alemã, a Gestapo, e responsável direto pela deportação de milhares de judeus durante o conflito; Herman Goering, braço direito de Hitler e criador da Gestapo, e, por fim, Heinrich Himmler, o nome do criador dos campos de concentração, onde foram executados os judeus. No meio deles, como que para fazer o contraste, ainda batizou um de João Evangelista de Sousa Neto.

Seu Sousa, pode-se afirmar, é um homem sem precedentes. O próprio nome já indica. Míteri vem de seu avô paterno, cujo sobrenome era, na verdade, Mittri, e que era português. “Quando fui tirar a certidão de nascimento, no lugar do “T”, ele colocou um “E”, e eu fui reclamar, Só que uma pessoa disse: ‘Rapaz, deixa isso aí. Você é o criador de uma família. Daqui pra frente, quem nascer é seu descendente’. E aí eu deixei”.

E assim, o andante vai escrevendo sua história, em linhas, nota-se, bem fora das convencionais.

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Andreh Jonathas
 

"Sem nada de sobrenatural, ele caminha ali, vivo e em carne e osso."

"A vida já é um câncer, a pessoa está condenada na hora que nasce”

o jornalismo está precisando de textos assim, humanizados. vc consegue fazer isso perfeitamente. um personagem anônimo, acaba de ganhar uma fama saudável. Além de falar de um assunto tabu q é a morte. tocar em crenças e admirações, no mínimo, estranhas é corajoso tbm.

poderia dar o espaço de um linha entre os parágrafos

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 8/4/2007 15:01
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Aterlane Martins
 

Sérgio,

Já conheço e aprecio seu trabalho... duro e prazeiroso trabalho. E vejo que a divulgação do mesmo é uma necessidade que se deva saciar. Este texto, certamente, contibui para tal fim. Ademais, creio, como já dito, que pensar a morte é pensar também a vida, daí porque um possível epitáfio pessoal seria este verso colhido de um poeta italiano: "A morte expia-se vivendo". Epitáfio, que a mim, mais parece um lema vital.

Aterlane Martins · Fortaleza, CE 10/4/2007 14:11
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente reportagem. Legal um personagem como esse. Você explorou muito bem a história e o texto está muito bem escrito. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 12/4/2007 10:48
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Sérgio de Sousa
 

Quero agradecer aos comentários. Este personagem, pra mim, que pesquiso os temas relacionados à morte e seus ritos, foi um grande achado. E tinha que repassar essa experiência.

Sérgio de Sousa · Fortaleza, CE 12/4/2007 11:07
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Roberto Barros
 

Sou um grande admirador de seus textos. Além do cuidado com a escrita, o Sérgio consegue particularizar seus temas de uma maneira tão bela, que um escêntrico como o Seu Sousa, que se exercita num cemitério, e admira Hitler de tal forma que deu aos seus filhos nomes de expoentes do nazismo, parece uma pessoa tão comum quanto qualquer outra. Um cidadão de opinião própria, que apenas busca seu bem estar.
Valeu Serjão (desculpa pelo "J", com "G" não fica muito legal)...
Vamos combinar de gastar aquelas 4 fichas do Órbita.
A gente se vê!!!

Roberto Barros · Fortaleza, CE 12/4/2007 12:31
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Claudiene Costa
 

Esse texto é bem envolvente! O personagem cativa, apesar de estranhar todos os gostos dele. Sérgio, você tirou o proveito máximo de uma ótima "viagem". Parabéns!

Claudiene Costa · Sobral, CE 12/4/2007 22:46
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markoslev
 

Meu caro, lembro-me de você contando sua história: "Marcos hoje eu fiz uma entrevista com um cara muito excêntrico, foi muito massa". Agora entendo sua felicidade. Seu texto é maravilho, instigante e delicioso de ler!!! Parabéns!! Ah!!! vai ter outros, né???

markoslev · Fortaleza, CE 15/4/2007 11:27
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