É difícil ter um contato com ele e não compartilhar o mínimo possível da sua personalidade. Difícil também é, após o contato, perceber o mundo da mesma forma que antes. Mais difícil ainda é não sair da conversa sem ser provocado por aquela figura que faz parte da história da Cidade de Ipiaú. Depois que tive o contato com ele, não fui mais o mesmo, disso eu tenho certeza. Uma hora de conversa (talvez o último registro áudio-visual do maior bom vivant que a cidade já teve), foi o suficiente para se apaixonar pela história de vida dele e nunca mais esquecê-lo. Até porque o vídeo possibilita ressuscitar mortos assim como no cristianismo.
Considerava-se “pernambaiano”, pois era natural de Sertânia-Pe, porém criou-se em Salgueiro, mas foi em Ipiaú-Ba, após rodar boa parte do mundo, onde ele alçou vôo. Também já tinha perdido tudo, ou melhor, gastado tudo, porque “dinheiro não foi feito para se perder. Dinheiro foi feito para se gastar”, dizia ele. “Eu escolhia as pessoas mais tristes para se divertir comigo”, complementa. Foi PQD (sigla de pára-quedista), morou em vários países da Europa, morou nos EUA, construiu a boate Anjo Azul, local de fermentação cultural da capital baiana, e depois de gastar todo o seu dinheiro, parou no “Beco dos dez quartos”, antigo brega, localizado na cidade de Ipiaú-Ba.
Uma figura excêntrica e atípica, principalmente para aquela cidade conservadora, onde as pessoas não o entendiam, principalmente pelo fato de ter sido bi-sexual. Sobre isso, ele conta que foi casado com a mulher mais linda que já viu. Conheceu-a naquela boate por meio de um amigo. E conta ainda que conheceu um americano por quem foi apaixonado e por isso foi morar nos EUA com ele. “Ele disse: quer ir trabalhar comigo. Eu digo: vou. Fazer o quê? Eu não sei trabalhar. Ele disse nada, fazer companhia. Era um gay. Me tornei marido. Tem alguma coisa contra? Ai vim, amando a pessoa”. Ainda brincando com esta questão e sendo totalmente provocador ao ser questionado sobre sua preferência sexual ele responde. “Eu gosto de mulheres burras, homens inteligentes. Porque a mulher quando não é burra, domina. Mulheres inteligentes todas são minhas amigas. As burras minhas amantes”.
Amigo de pessoas ilustres como Pelé, Fernanda Montenegro, Janis Joplin, Amália Rodrigues (se emociona ao falar dela no vídeo e diz que pessoas como ela não deveriam morrer nunca), Sônia Braga, Carlos Bastos, Michael Douglas e inúmeras outras pessoas famosas. Freqüentava o alto ciclo da sociedade quando tinha dinheiro e drogas para distribuir. Chegou a fretar aviões para trazer pessoas para sua fazenda no município de Barra do Rocha e fazer festas de arromba. Mas diz que em seus últimos dias, ninguém dava mais importância para ele porque era um alcoólatra e “ninguém gosta de alcoólatras”. Não perdia o humor nunca. Disse: “se tiver um fumo aí, ó o bico. Se tiver um pó aí, o nariz tá pronto”. Não tinha medo de dizer o que pensava, nem de fazer o que queria. Odiava falsos moralistas.
Filosofava em seu quartinho, com aquele silêncio todo e isso o levava à grandes reflexões. Chega a falar no vídeo que só está esperando sua hora, porque não agüenta mais. Era através do silêncio que ele buscava suas respostas e não se perguntava mais nada. E tinha muito medo quando a esposa do silêncio (segundo ele), a barulhenta chegava, porque bagunçava tudo. O poeta toma vez em alguns momentos, onde ele cita alguns de seus poemas que estão na Editora Corrupio em Salvador, em posse de Arlete Sales para editar o livro e lançá-lo, porém até hoje não conseguiu verbas o suficiente para isso. Prova de que a Bahia tem dado a mínima para a literatura e para eventos culturais que não acontecem na capital. Não posso nem citar a prefeitura de Ipiaú, pois a cultura tem passado a léguas de distância da mesma. Sobre o livro ele disse que não queria que publicassem, pois queria ter suas poesias do seu lado para assim trocar por cachaça. Era o mesmo que faria com o dinheiro que iria ganhar se o livro fosse lançado. Eis um de seus poemas:
“Habita em mim um ser que veste hábito. Que prometeu sempre me levar em direção ao puro e sacrossanto, quando o meu eu pensa que não há. Espero sempre o meu, eu, velho monge, adormecer para o meu eu jovem na vida, se atirar. Se arriscando as ilusões da vida que o meu eu, velho monge, sabe que há.”
A notícia de sua morte chegou como uma bomba, principalmente porque, mais do que nunca, tenho agora uma obrigação de finalizar o vídeo, por vários motivos que não cabem citar aqui, mas o principal é mostrar que mesmo diante do abandono ele não perdeu o rebolado e viveu seus últimos dias da melhor forma possível. Sem pudores, tristeza ou falso-moralismo.
Esta figura merece um capítulo à parte na história de Ipiaú. De vez em quando me pego falando palavras ou provocações que ele disse na entrevista que me cedeu. Amália Rodrigues e sua música nostálgica tocam vez por outra no aparelho de cd. Mas a sua imagem é bastante recorrente à minha mente. Principalmente por me mostrar o quanto sou fútil e bobo, mas melhor ainda, por caracterizar o meu riso como “um riso cretino”.
Resta a dúvida: será que ele descansa em paz ou já sacudiu o lugar que agora está?
Deveras, ele nunca morrerá, assim como tantas outras figuras que residem em minha memória. Citando Rubem Alves, é eterno tudo aquilo que reside na memória. O audiovisual está aí pra isso. Ele poderá ser visto em breve novamente. O vídeo está em fase de finalização. Quem quiser revê-lo aguarde, será provocador.
Uma homenagem a Divaldo Angelin Veras, mais conhecido como Veras. Nasceu em 20 de abril de 1940 e morreu aos 67 anos de vida. Muita vida.
* Título retirado da matéria sobre a morte de Veras, publicada no Jornal Agora, pelo jornalista José Américo Castro.
Edson Bastos
edsonoliveirajunior@hotmail.com
quero muito ver o vídeo!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 27/4/2008 13:30
Edson,
belos texto e homenagem a esse Anjo Azul nordestino que, decerto, poderia ter inspirado o Professor Unrat da obra genial de Heinrich Mann pela personalidade trágica e dúbia. Como aquele - pelo que você diz - este também passou pelos mais tristes infortúnios. Se não nos braços de uma cantora de cabaré na decadente Berlim do início do século XX, como o Prof. Unrat, de Mann, certamente misturado ao bas-fond das boates e "beco dos dez quartos" nos braços de lindas mulheres e do seu americano gay. Sem dúvida, uma personalidade tanto rica quanto contraditória, que ora se levanta contra falsos moralistas, ora julga com moralismo extremamente chauvinista as mulheres. Parabéns pelo texto e fico também no agurado do filme para conhecer melhor a figura que o inspirou.
Abraços.
Digo: e fico também no aguardo do filme...
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 28/4/2008 16:45Ah...e tem mais e o documentario de Dona Nena, a rezadeira? Pode disponibilizar? Onde? ab
Cintia Thome · São Paulo, SP 29/4/2008 13:56
Nossa muito legal!! Quero ver o vídeo tb!
beijos
Pois é...Mandei este texto para alguém que viveu pertinho deste homem grande, grandioso em seus pensamentos, mas a prática não é tão fácil na vida de sonhadores...Os sonhadores são iscas para àqueles que não tê dó, piedade. Usufruem até largar...
Ele me disse que a história deste homem é mais triste do que a tristeza...
São as drogas que alguns escolhem para suportar a mentira velada de achar que se tem amigos...e o amor existe.
Caros,
agradeço pelos comentários. Tenho o material bruto de 1 hora de duração com imagens de Veras, e devido a um Festival de Vídeo realizado aqui em Salvador-Ba, intitulado Festival de Vídeo - Imagem em 05 minutos, fiz uma pequena versão do que pretendo fazer posteriormente com as imagens.
O vídeo ganhou a Menção Honrosa neste mesmo festival e foi uma felicidade enorme.
Não prometo no momento enviar-lhes uma cópia, mas em breve entro em contato com cada um de vocês para providenciar isso.
Caso queiram ler outros textos meus: www.edsonbastos.blogspot.com aqui há inclusive um texto que fiz sobre a menção honrosa conquistada pelo vídeo.
Abs.
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