Em visita que o antropólogo Hermano Vianna fez à minha faculdade, aqui em Curitiba, no dia dois de outubro, disse algo bastante interessante. O encontro era para falar sobre o site Overmundo, do qual é um dos fundadores.
Hermano contou que entre as diversas formas de interação dos participantes do Overmundo estão as produções culturais em conjunto. Houve, por exemplo, uma pessoa que escreveu o primeiro capítulo de um livro e publicou no site. Em seguida, outras pessoas passaram a escrever mais capítulos para o mesmo livro fazendo, assim, um livro virtual em grupo. Em outra ocasião, um usuário disponibilizou uma melodia para que alguém compusesse a letra; houve várias letras para a mesma música.
Outro ponto mencionado pelo antropólogo foi o de usuários que trocam informações pela internet sobre interesses culturais em comum e acabam criando acesso a produtos que não estão na mídia tradicional. O caso que usou para ilustrar isso foi o de jovens que gostam de trilhas de animes e se encontram para ver bandas especializadas no gênero, que muitas vezes tocam músicas de desenhos que nem passam no Brasil, tanto na TV aberta quanto a cabo.
Hermano sugeriu que essa pode ser uma tendência de produção dos próximos anos que, com o fortalecimento da internet colaborativa, aponta para a construção coletiva de peças culturais, idealizadas dessa vez por pessoas que podem estar bem distantes umas das outras. Ele comparou esse processo às festas populares, como as de São João, em que as pessoas se dedicam todas aos preparativos, sendo na confecção de suas próprias roupas, na preparação da comida, da decoração, da música etc.
O apelo ao neo-arcaico
Obviamente, é uma hipótese, mas aqui comparo isso ao conceito elaborado pelo sociólogo francês Edgar Morin, o apelo ao neo-arcaico, que indica uma tendência pós-moderna de busca por elementos rústicos, ligados à vida das populações camponesas, como forma de fugir do mundo artificial das cidades. Essa busca, no entanto, não abandona o conforto e o prazer proporcionados pelo avanço técnico, digamos, representado pelos grandes centros urbanos. Mas alia os dois elementos e cria, por exemplo, a preocupação ecológica, a busca por uma vida saudável feita de exercícios e alimentação natural, pelo artesanato, pelos fins de semana na casa de campo (um intervalo para o estresse das cidades), pelas moradias de madeira com vigas aparentes, entre outros.
Na minha concepção entraria nessa lista também a moda baseada em tecidos simples (como a chita), sementes, cocos, madeira e palha, ou com elementos africanos – por representarem uma região de riquezas naturais, de comunidades tribais, simbolicamente de ligação tênue com a Natureza.
No Brasil, a valorização da cultura popular (como folclore) também poderia ser vista de acordo com o apelo ao neo-arcaico. O surgimento praticamente despercebido da expressão "de raiz" para referir-se a gêneros musicais que retornam às suas origens tradicionais, que provavelmente tinham perdido na sua massificação – por exemplo, samba de raiz, reggae de raiz, sertanejo de raiz – é um exemplo. As leis de incentivo à cultura como o patrimônio imaterial, que registra e valoriza manifestações consideradas tipicamente brasileiras, é outro. O Ano do Brasil na França, também, por ter levado dezenas de representações do folclore brasileiro para o "coração" dos franceses. Assim como a criação de uma publicação especializada em cultura popular brasileira, sugestivamente batizada de Revista Raiz.
O cidadão universal
O que Hermano Vianna sugeriu, ao comparar a produção cultural em conjunto proporcionada em especial pela internet colaborativa, pode também ser um elemento do que o sociólogo Octávio Ianni mencionou em uma entrevista ao programa de televisão Roda Viva, em 2001, a respeito do cidadão universal – proporcionado pela globalização.
O intercâmbio cultural promovido principalmente pelos meios de comunicação contribuiria para o fortalecimento de uma universalização do sujeito. A troca de informações atingiria tamanha freqüência ou amplitude que criaria, por exemplo, um brasileiro-espanhol-chinês, ou seja, um sujeito com tanta carga cultural estrangeira capaz de igualá-lo aos cidadãos de origem dos demais países.
A produção cultural em conjunto seria resultado dessa universalização, assim como os jovens que são fissurados pela simbologia de um desenho que nem é conhecido no seu país.
É entre essas e outras que ainda não sei como a maioria dos meus amigos ainda não usufrui todas as possibilidades que a internet oferece. Ok, nem todo mundo é obrigado a filosofar sobre intercâmbio cultural, universalização do sujeito ou sei-lá-o-quê, mas não é bacana pelo menos saber o que acontece?
Texto originalmente publicado no meu blog: www.cumbuca-blog.blogspot.com
Cara Alina.. sou neo-arcaico e não sabia.. Considerei muito coerente a sua abordagem e pretendo conhecer mais as propostas de pensamento do sociólogo Edgar Morin. Entendo a sua preocupação quanto aos jovens e seus interesses quando enfatizam muitas vezes as questões "tribais superficiais" em detrimento da profundidade do conhecimento... este que desenvolve à metacultura necessária ao indivíduo universal ..
Israel Prochmann
A verdade é que o "futuro" não é tão fantástico como muitos haviam previsto. O apelo ao neo-arcaico reflete isto.
E outro problema surge quando o "cidadão universal" e sua rede de relações com os outros existentes passam a ser tratados cada vez mais na era comercial, onde grandes corporações transcontinentais dominam, envolvendo aglomerados internacionais de software ou de entretenimento movimentados exclusivamente por questões financeiras. Nesta visão, aumenta ainda mais o abismo entre os ricos e os pobres, criando agora uma nova classe, a dos excluídos digitais.
Em contrapartida, as redes de comunicações funcionam como agente de libertação, ao permitir a miscigenação cultural da sociedade e universalização do conhecimento.
Enfim, cabe a nós explorarmos as potencialidades desta ferramenta e fomentarmos os aspectos positivos deste espaço.
Angelo,
o "futuro" não é tão fantástico como também assusta, acredito. Por isso buscamos coisas do passado. No Brasil, os primeiros estudos sobre cultura popular (a tal busca por elementos rurais, arcaicos, nativos) têm bastante de fuga do fortalecimento industrial no mundo e das influências estrangeiras (de Portugal, por exemplo) sobre a então colônia.
Ou seja, uma busca pelo arcaico já existiu em outros momentos.
Acredito que o "neo", do conceito de Morin, seja em relação ao que - nos anos 70, época que publicou o assunto - estava em discussão: a pós-modernidade.
Por falar nisso, na verdade começamos a escrever DOIS livros em conjunto aqui no Overmundo e nenhum chegou ao fim. Precisamos fazer alguma coisa a respeito urgentemente...
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 21/10/2006 12:16
Olá, Alina.
Excelente texto! Acredito que essa busca pelo arcaico permeia toda a nossa história. Basta lembrar da primeira geração romântica (aqui me referindo à literatura brasileira), quando os autores se remetiam à epoca medieval e seus ídolos que, no caso brasileiro, não havia história relatada. Então faziam menções ao índio como 1º herói brasileiro. Ou mesmo na segunda geração, com as saudades da infância de Casimiro de Abreu.
Pulando para outra fase da literatura, encontramos o Arcadismo que, de fato, tinha o bucolismo como uma das principais características. Apesar dos autores serem todos eles intectuais e viverem nos centros urbanos da época, se remetiam sempre à vida simples do campo, dos pastores, etc...
E encontraremos isso sempre. Quanto mais se avança, num determinado momento encontraremos resistência à modernidade e num espécie de nostalgia sentiremos saudade do que se passou. É óbvia a superioridade da qualidade do áudio em CD sobre as bolachas em vinil. Entretanto, existem comunidades de vários adeptos e colecionadores amantes do vinil e seus chiados característicos. Recentemente vivenciamos a moda 80's, um movimento saudosista pela música dos anos 80, que marcou boa parte da adolescência dos jovens que hoje estão na casa dos 30 anos de idade. Nesse caso particular, creio que seja mais saudade da adolescência do que da produção musical propriamente dita.
O retorno ao samba de raiz, com Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, etc, ganhou mais força no exato momento em que tentam destruir o samba com essa bandinhas melosas que estão no auge. O forró universitário (estilo que tenta se aproximar do forró de raiz, com ênfase ao trio zabumba, sanfona e triângulo) surgiu no momento em que se destruia o forró com as bandas bregas do tipo calcinha preta e etc.
Por fim, creio que essa fuga ao arcaico esteve e estará sempre presente na história da humanidade, em todos os aspectos. A sensação de evolução, de modernidade, de tecnologia de ponta, causa nas pessoas, de forma paralela, uma sensação oposta: a da saudade do que passou e da simplicidade anterior, além de um certo temor ou receio. Talvez isso se deva a uma tese que afirma que a vida é cíclica. Tudo que vai, volta. Assim é na moda, na música, no cinema, tudo. Isso fecha um ciclo!
Parabéns pelo texto.
Essa garota é 10! Além de tudo o conhecimento dela me ajuda muito a entender esse mundo cultural. Nosso intercâmbio cultural tem sido de grande valia para mim, e espero que para ela também! Vou procurar ler um pouco sobre o sociólogo Octávio Ianni que vc citou no seu texto, acredito que a idéia dele de cidadão universal pode contribuir muito para mim. Obrigada por tudo! E parabéns pelo texto e pelo trabalho que vc está desenvolvendo!
Fabi Ferreira · Curitiba, PR 10/11/2006 11:21Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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