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O artista/intelectual

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ieda.bis · Londrina, PR
12/11/2008 · 78 · 3
 

Estava lendo “Cidade Partida” de Zuenir Ventura. O capítulo que fala da amizade de alguns bandidos com intelectuais do Rio de Janeiro no final da década de 50 e início da de 60, e o fascínio de artistas pelo banditismo. Alguns como Clarice Lispector e Helio Oiticica chegaram a lhes dedicar obras.

Parêntese: quem tem um artigo – nada fácil de ler – sobre o culto à criminalidade por artistas britânicos é Theodore Dalrymple: “Trash, Violence, and Versace: But Is It Art?”.

Trechos do livro do Ventura:

A morte de Mineirinho sensibilizou a literatura de Clarice Lispector e de José Carlos (Carlinhos) Oliveira. Clarice dedicou-lhe uma sentida crônica na revista Senhor. “Suponho que é em mim [...] que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que seus crimes.”
Ela confessa na crônica que os dois primeiros tiros lhe deram alívio e segurança. O terceiro deixou-a alerta, o quarto, desassossegada. O quinto e o sexto a cobriram de vergonha; o sétimo e o oitavo a encheram de horror; no nono e no décimo a boca ficou trêmula; no décimo primeiro, ela chamou por Deus, no décimo segundo, pelo irmão. “O décimo terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Carlinhos Oliveira fez-lhe também um comovido necrológio, considerando-o a personificação da rebeldia: “Assaltava bem, matava com perícia, amotinava presidiários e se punha em fuga com extrema facilidade”. O cronista não escondia sua simpatia por um bandido que arriscava a vida “por um ideal” - o de querer “ser livre para ser criminoso, o louco!”.
Aquela execução despertou no cronista sombrias reflexões: “Fico eu agora pensando em inumeráveis adolescentes que amadurecem no mesmo cenário ignominioso que produziu Mineirinho e me pergunto: onde anda agora o espírito de rebeldia? Onde anda agora o espírito que se evolou de Mineirinho? Quem, com os olhos da demência, com o imenso ranger no coração descerá agora do morro para castigar e envergonhar a cidade?”.

(…)

Cara de Cavalo era um bandido chinfrim. Ladrão, não gostava de roubar. Diariamente cumpria uma rotina segura. À tarde, sempre acompanhado de uma das amantes, em geral a titular Lair Dias da Silva, pegava um táxi, sentava-se no banco de trás e percorria os pontos de jogo do bicho de Vila Isabel e arredores. Não saía do carro. Parava, Lair descia e ia recolher o pagamento compulsório do dia. Ele ficava esperando. Manoel Moreira levava a vida que um bandido preguiçoso pedira a Deus: pouco trabalho, muitas mulheres e um dinheiro certo, sem risco.
(…)
Um de seus grandes amigos, o artista plástico Hélio Oiticica, não se conformava com essa representação. “O que me deixava perplexo era o contraste entre o que eu conhecia dele como amigo e a imagem feita pela sociedade.” Um ano depois da sua morte, Oiticica imortalizou-o numa obra-prima: Homenagem a Cara de Cavalo. É um bólide, ou seja, uma caixa envolta por uma tela e cujas paredes internas estão cobertas com quatro reproduções da foto oficial do bandido assassinado: estirado no chão, perfurado de balas, com os braços estendidos em forma de cruz. No fundo da caixa, num saco com pigmentos vermelhos, aparece escrito como numa lápide: “Aqui está e aqui ficará. Contemplai o seu silêncio heróico”.
Fascinado pela marginalidade, passista da Mangueira, companheiro de malandros e bandidos, freqüentador de favelas, Oiticica “foi o maior inventor de arte brasileira, um dos maiores da arte contemporânea em todo o mundo”, segundo o crítico Frederico de Morais. Radical, ele considerava a arte como revolta e essa revolta era, na opinião de Morais, “semelhante à do bandido que rouba e mata, em busca de felicidade, mas também à do revolucionário político”.
(…)
Em 1968, Hélio Oiticica fez outra homenagem a Cara de Cavalo: a bandeira-poema “Seja marginal, seja herói”. Se o bólide foi parar no valioso acervo do colecionador Gilberto Chateaubriand, a bandeira virou emblema do Tropicalismo e estandarte da facção mais radical da geração de 68. Ambas se inscreveram na história da vanguarda artística brasileira.


Mas minha curiosidade sobre o texto do Ventura foi outra. Sempre ouço falar - com freqüência até – da representação “artística” do bandido na música popular. O que me deixou intrigada foi ver isso tão presente em outras artes.

O que me leva a concluir que a música popular, pela projeção que tem – por causa da exposição na mídia e pelo alcance a um público tão diverso – talvez seja a manifestação artística mais prontamente lembrada como articulando coisas que – hipocritamente – talvez preferíssemos ver fora do âmbito das artes: preferências políticas, escolhas ideológicas, preconceitos, defesa (ou crítica) de tradições religiosas, entre outras coisas.

Mas a música popular é uma vitrine (minha idéia de “música popular” aqui é bem abrangente, e estou pensando também em formas como rap). A literatura pode ser “secretamente” revolucionária porque o seu alcance é bem mais limitado. Mas não há como ignorar a música popular. Talvez por isso ela gere reações tão fortes; de alguns que a endossam sem questionar, e de outros que a odeiam - muitas vezes também sem crítica alguma.

E acho mesmo que é essa projeção que leva a alguns a atribuírem a função de “intelectual” a um sujeito que simplesmente escreveu algumas canções. E falam tanto do “discurso social” do sujeito que ele acaba acreditando que seu comentário é uma análise social aprofundada. Emprestando uma expressão usada por um destes mesmos intelectuais/artistas, o que acaba acontecendo é que “quem brinca de princesa, acaba acostumando na fantasia”.

Atribui-se um papel à música popular que ela originalmente não tem e reage-se com surpresa quando ela passa a ser um espaço para a discussão de temas que deveriam circular nos gabinetes do executivo, no congresso e nas universidades.

Culpa-se a música popular por se meter a comentar a realidade brasileira. Mas o problema talvez não esteja nas discussões em si, mas sim na tentativa de atribuir-lhes uma relevância que elas não têm.

É o problema causado pela projeção que a música tem. O sujeito assina embaixo do que diz o artista porque, muitas vezes, é a primeira vez que alguém lhe faz pensar sobre o assunto. Nunca leu nada sobre o problema da violência no Brasil e, de repente, aparece alguém falando, numa linguagem interessante, sobre assunto tão sério. “Ele deve saber o que diz” – conclui-se.

Na maioria das vezes, não sabe, não. Escrever um rap/canção é bem diferente de elaborar sobre os problemas de um país complexo como o Brasil. Essa diferença aparece, por exemplo, quando a imprensa empresta o microfone ao artista/intelectual - numa entrevista, por exemplo. Em tais situações (exemplos aqui e aqui), o intelectual mostra a que veio.

E a gente vê que queria mesmo era ouvir mais do que o artista tem a dizer, e que preferia que o intelectual calasse a boca.

* texto publicado originalmente no blog: http://euia.wordpress.com/

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Ilhandarilha
 

Ieda, acho que vc levanta um bola interessante, mas fiquei sem saber pra onde essa bola vai. Começa falando do fascínio da arte pelos bandidos. Até ai, tudo bem, embora eu acredite que 'a arte imita a vida' - como diria qualquer autor de novelas - e esse fascínio não é mais que a tradução do fascínio que a sociedade em geral sente pela figura do transgressor da norma.

Mas ai vc começa a falar da música popular e dos artistas intelectuais e eu perdi o fio da meada... que se embolou mais ainda quando vc lincou a entrevista do Chico e a crítica à entrevista do Mano Brown. Para mim, o Chico é exatamente um exemplo de que a arte é uma atividade intelectual, sim! Já o Mano Brown, a julgar pela crítica do estadão, não é (eu não vi a entrevista e não posso opinar sobre).

Gostaria que vc desenvolvesse mais essa sua questão do artista intelectual. Não vejo pq alguém não possa ser as duas coisas ao mesmo tempo. Na verdade, a maior parte dos artistas de gosto são intelectuais mesmo! No sentido de que são pessoas que têm uma reflexão profunda sobre as coisas da vida e uma busca constante do conhecimento.

abraços!

Ilhandarilha · Vitória, ES 12/11/2008 23:37
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Saramar
 

Confundir artista com intelectual é uma falácia constante, tão constante que parece ter deixado de ser falácia.
Confundir transgressão artística com marginalidade (para não dixer com criminalidade) também é coisa comum na sociedade e mais ainda na sociedade brasileira.
Imagino que este fascínio pelos criminosos seja efeito de um romantismo antigo, resquício do culto à malandragem (que é considerada "boa"), nascedouro do cenário violento a que também já nos acostumamos e contra o qual não reagimos.
Acredito que artistas que usam sua influência para fazer apologia do crime não é intelectual. É cúmplice.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 14/11/2008 02:38
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Saramar
 

Perdão, eu quis dizer "artista que usa sua influência".

Saramar · Goiânia, GO 14/11/2008 02:39
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