O avesso do avesso – Carnaval, Baile Funk e Metal

.joão xavi.
.os integrantes da banda usam máscaras para preservar suas identidades.
1
joao xavi · São João de Meriti, RJ
25/2/2009 · 213 · 39
 

Quem esteve no sábado de carnaval no boêmio bairro da Lapa (região central da cidade do Rio de Janeiro) pôde presenciar uma certa peculiaridade da experiência carnavalesca elevada à terceira potência.

A teoria que o antropólogo Roberto DaMatta elaborou (no clássico livro “Carnavais, heróis e malandros”) para explicar as relações sociais no Brasil a partir das inversões proporcionadas pela festividade do Carnaval, sofreu uma releitura amplificada e swingada pelos beats, baixo e guitarra do conjunto musical Miami Bros, nome que faz referência direta ao Miami Bass, estilo considerado "pai" do pancadão carioca.

Os cinco jovens de Volta Redonda (cidade do Norte Fluminense conhecida por abrigar a gigante CSN) executam em suas apresentações uma mistura do bom e velho Funk Carioca (fazendo uso de batidas clássicas como o Voltmix e o Tamborzão) com guitarras distorcidas e riffs referenciados em bandas como Metallica.

Na ocasião, a banda se apresentava no já tradicional Grito Rock. Um festival que acontece simultaneamente em diferentes cidades do Brasil e América Latina durante o carnaval. No Rio o local escolhido foi o Cine Lapa. A casa recebeu uma boa quantidade de fiéis roqueiros que manifestaram reações diversas quando foram expostos ao pancadão do Miami.

Uma menina mais animada, por exemplo, subiu no palco e encarou o desafio de acompanhar a coreografia da "Dança do Crucificado". Já ia esquecendo de avisar, além de misturar Rock e Funk, as letras da banda fazem irônicas referências as complexas relações do homem com diferentes religiões. Outros roqueiros, mais conservadores, não gostaram muito da piada, “O Grito do Rock virou Baile Funk? Que palhaçada!”, esbravejou o vocalista de uma das tradicionais bandas de rock que tocaram naquela noite.

“A gente quer ser dançante e pesado”, afirmou Djason, um dos vocalistas e idealizadores da banda, durante o show. Ame ou odeie, seja roqueiro ou funkeiro; religioso ou pagão, o fato é que ninguém passa impune pela experiência “multidisciplinar” que é escutar o som do Miami Bros. Ficou curioso? Basta acessar o myspace dessa galera e dar uma conferida no som que é, com certeza, uma trilha sonora inusitada para este carnaval.

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Hermano Vianna
 

achei ótima a mistura metal-pancadão e nome da banda - o visual da página do myspace também é bacana - pena que eu não sabia do show - eu estava na Lapa, fui ver o show demente dos suecos do Enema & Gejonte na Plano B - foi especialmente bom quando passou um bloco na rua, misturando o som da marchinha e de sirenes de polícia com uma versão electro alucinada de Anarchy in The UK... na platéia estavam Tantão, do Black Future com turbante fluorescente, o Cid ex-Grangrena Gasosa hoje Uísqueletos (que toca no Cachaça Cinema Clube de Quarta-Feira de Cinzas) vestido de Nero, o pessoal do Solange Tô Aberta, enfim, um off-carnaval-totalmente-in da pesada - depois fui ver Revelação (acho que Velocidade da Luz é um clássico do samba) no Terreirão do Samba, mas o som tava muito baixinho, não dava para animar da multidão - falando na multidão: incrível a quantidade de sobrancelhas feitas nos homens e a presença do rinoceronte da Ecko na maioria das camisetas - alguém sabe de onde veio essa moda Ecko na periferia? No site da marca diz: "Com sede em Nova Iorque, atinge um targer das classes A e B. São homens e mulheres, de 15 a 25, que estão na vanguarda dos acontecimentos." Aqui no Rio, virou uniforme até nas favelas! Essas apropriações culturais e traduções de símbolos de status são sempre interessantíssimas...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 22/2/2009 11:19
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Hermano Vianna
 

link para Velocidade da Luz

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 22/2/2009 11:23
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joao xavi
 

dividi por uma noite os vocais do gangrena gasosa com o cid, em uma festa completamente louca em realengo, mas isso rolou a alguns anos atrás e nãotem muito a ver com essa conversa...

essas apropriações já são caso de estudos dos departamentos de marketing de várias marcas e também de pessoas ligadas a comunicação e o debate da influência das grandes companhias na cultura popular (e também do caminho inverso, claro). o "sem logo" da naomi klein traz coisas interessantes sobre isso, mas a gente não precisa ir tão longe pra achar outros exemplos. existem inumeros bondes no funk carioca que usam e citam os nomes de marcas (osklen, nike, redley).
esta última, inclusive, esconde no site a existência da loja de madureira (que parece não estar de acordo com a linha de consumidores que o departamento de marketing da marca tenta cunhar). mas, por ironia do destino, a loja cravada em uma das mais movimentadas ruas do subúrbio carioca é a que dá mais rentabilidade (porque, além de ser a flilial que mais vende, é a loja onde as pessoas costumam pagar mais à vista e com dinheiro vivo).

joao xavi · São João de Meriti, RJ 22/2/2009 17:53
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Mansur
 

A mistura é interessante, bem humorada e soa orgânica...de quebra fui no teu myspace e curti muito..."Meu compasso" minha preferida...suingadaça! Essa tua escrita desapegada, como quem vê o mundo de camarote, é ouro!

Os links que o Hermano disponibiliza são, como quase sempre, improváveis...O que é Solange tô aberta? Hilário e indescritível. Essa experimentação eletrônica sueca têm uns sons engraçados, os trechos instrumentais, gosto mais. Velocidade da luz remete à Alcione, o Revelação é aprumado desde sempre, né não? A canção poderia ser descrita como um samba-fossa-intergaláctico , que tal?

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2009 02:09
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joao xavi
 

fala mansur, beleza?
o solange tô aberta é bem bacana. tive a chance de tocar com el@s no carnaval revolução do ano passado, em são paulo. e parece que a dupla, que é da bahia, decidiu mudar pro rio e encarar a cena do funk carioca. sorte nossa!

joao xavi · São João de Meriti, RJ 23/2/2009 02:20
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Hermano Vianna
 

joao: essa história de apropriação de marcas dá uma série ótima de textos: o caso da calça da Gang também foi bem interessante...

mas pedindo licença e continuando o relato do meu transcarnaval 2009: a estréia do bloco cru foi maravilhosa: a combinação rock, pop e marchinhas deu totalmente certo - a banda ficava em cima de um trio, a bateria na frente - o som do trio não era dos melhores, mas gostei: dava mais potência à distorção da guitarra (o sax, eu não ouvi nada) - o povo indie e simpatizantes (prepare-se: no ano que vem vai ser uma explosão de gente - se fosse empresário cultural eu colaria nesse bloco) pulava enlouquecidamente - mas também a seleção musical só tinha filé, começando com o hino do bloco já cantado por todos (pelo que deu para entender fala de Quebec, Canadá!) mas passando por Nirvana, Lobão, Radiohead, Jumpin' Jack Flash, I Want to Break Free do Queen, Mutantes (todo mundo gritando Sabotagem!), Grooves in The Heart, Sociedade Alternativa (Viva!), Rocks do Cê do Caetano e - entre muitas outras pérolas do cancioneiro mundial - talvez minha preferida: uma versão de Can't Take My Eyes Off You que ficou excelente como marchinha - a banda ainda tem muito que aprender com o Chiclete com Banana, principalmente os truques para emendar uma música na outra, pois intervalos esfriam a folia - mas não tem erro: o negócio é bom mesmo e tudo vai se ajeitar rapidinho

momento Caras: celebridades da música pós-popular brasileira que encontrei por lá: Lois Lancaster, do Zumbi do Mato (a mais sensacional banda do Brasil? tem disco novo - Toma, Figurão - para ser baixado aqui); Fábio Bola, agora com os Reciclóides, novamente o pessoal do Solange Tô Aberta etc. etc.

tive que sair mais cedo para garantir meu lugar no tradicional bolão do Oscar na Cavideo - muito boa a invasão de Bollywood em Hollywood, via Inglaterra (ano que vem teremos Nollywood?) - mas essa é também outra história de outros carnavais...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2009 12:07
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Hermano Vianna
 

Mansur: muito bom o samba-fossa-intergalático!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2009 13:10
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ronaldo lemos
 

Muito bom o relato do Hermano sobre o carnaval, alias, valia fazer um remix desses posts para transformar em artigo, nao? Sobre o terreirao, so' tenho a acrescentar outra tendencia notavel, que e' de usar sempre sempre sempre cabelo curto ou raspado. Ninguem de cabelo grande por la', no maximo um fake mohawk e olhe la'...

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2009 19:25
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Mansur
 

Beleza Hermano,
Bom carnaval off-trans-pancadão-in-eletro-punk-hip-samba-hop-tropical-axé-pop-periférico-intergalático pra você!
(essas nomenclaturas são do Mautner, né?)
um grande abraço

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 23/2/2009 20:03
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joao xavi
 

dando seqüência nos relatos de carnaval. estive ontem na av. rio branco, em uma rápida olhada nos blocos que desfilam por lá foi fácil constatar que, se ainda não derrubaram de vez, ao menos abriram uns bons buracos na barreira entre o funk e o samba/carnaval.

a "dança do verão", como já havia previsto há alguns meses, é o passinho do jacaré. o passinho foi executado antes, durante e depois de cada bloco que desfilava pelo centrão, com direito a diversos pequenos dance contest que atraiam pequenas multidões de olho na habilidade dos dançarinos. o passinho do jacaré, uma releitura carioca-suburbana do frevo?, ainda carrega o mérito de ter trazido de volta o direito dos funkeiros (homens héteros) rebolarem sem pudor.

o hit do carnaval é o bufallo bil, com sampler de sons do MSN messenger e referência ao tal rinoceronte comentado aqui pelo hermano.

ah, pra fechar a série, pelo menos por enquanto, a rainha da bateria da porto da pedra é valesca, vocalista da gaiola das popozudas.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 24/2/2009 16:19
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Hermano Vianna
 

oi joao: realmente incrível a dança do jacaré! viu que o vídeo do buffalo bill que você linkou tem mais de 1 milhão e 700 mil views no youtube?!!! e a conversa nos comentários merece uma tese!

mais sobre o transcarnaval 2009: ontem havia um texto na fila de edição do Overblog sobre o carnaval de Belém - hoje desapareceu - ainda bem que eu tomei nota de várias coisas: havia a notícia sensacional que a escola Tradição Guamaense desfilou com o enredo "Tecno-samba: a união das galeras", uma homenagem às aparelhagens do tecno-brega paraenses" - enncontrei esta descrição na Agência Pará de Notícias:

O samba-enredo "Tecno-Samba - a união das galeras", referência a um dos maiores fenômenos atuais do Brasil, o tecnobrega, agitou a plateia, que foi contagiada pelo ritmo e se levantou nas arquibancadas para dançar e fazer o "T", de Tradição Guamaense. Para Fábio Moreno, intérprete da escola de samba, a mistura entre o samba e o tecnobrega deu certo. "A prova maior de que essa mistura dá certo está aqui; afinal, é a união do samba, que é um genero tradicionalmente brasileiro, com um ritmo tipicamente paraense", explicou.

Pena que não encontrei ainda nenhum vídeo ou MP3 para ver o desfile ou ouvir a música - mas consegui a letra:

Pegador leve a schin e ta na mão
Pai d'égua é maniçoba, peixe assado com limão
No Mangueirão vejo o RE X PA, com meu paizão
Tá ligado, fala sério, que é Tradição

Mudou com led, skywalker e robocop (E o Carlos aí)
Vetron, Ciborg, Brasilândia e Super Pop (Olhaí o Ademar)
Minha galera é tipo assim, maior astral e tá legal
Toda APASEPA, com seu balde, é carnaval

O povo canta com emoção
Faz o T, faz o T, faz o T, que é Tradição
O Guamá faz um S pra mim
Príncipe Negro hoje brilha como a pedra do Rubi

Aparelhagem é Tradição no meu Pará
Passarimbó, Tecno-Samba, cultura popular
O guamaense vem pra ter fazer dançar
O sofrimento do meu povo deixa pra lá


Incrível, dá uma tese também (patrocinadores, tecnologia etc.: tudo entendido como tradição e cultura popular) - tem alguém por aqui do Pará para nos informar mais sobre o desfile?

E já que estamos falando de tradições: ontem, atravessando o carnaval de Ipanema, dei de cara com um bloco que tinha um batuque diferente: era o desfile dos Mariocas, que toca no Rio o ritmos dos blocos tradicionais do carnaval maranhense - esta é uma das variações do samba que mais gosto: um groove pesadão, mais lento, totalmente sedutor - deveria ser mais conhecido Brasil afora

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 11:54
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Bender Arruda
 

Mano minha mãe ao escuta a música perguntou: é a mesma música, textificando tamanho diversidade. Esses caras, juntaram os opostos - "opostos se atraem". É muito diferente. Não acreditei!!! Muito b@m!!! Parabéns pelo texto.

Bender Arruda · Duque de Caxias, RJ 25/2/2009 12:02
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Mansur
 

Hermano,
gostaria de entender em que sentido essas apropriações culturais e traduções de símbolos de status são interessantes, na sua opinião.

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 14:24
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Mansur
 

Xavi,
qual é sua opinião sobre essas apropriações?

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 14:27
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Hermano Vianna
 

oi Mansur: quando uma coisa é criada num contexto e passa a ser usada em outro, completamente diferente, ela ganha novos significados, que não estavam nada previstos nos planos e propósitos de seus criadores originais - observar essas mudanças é para mim interessante (ao dizer interessante, não estou julgando como bom ou ruim - peguei essa mania lendo Roland Barthes... é simples: só é algo que atrai meu interesse...) - gosto de observar onde isso tudo vai dar: geralmente sou surpreendido pelos próximos movimentos

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 14:41
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Thiago Camelo
 

Já eu, que gosto de samba mas não gosto de multidão (e tenho dificuldade com dia e horário marcado para a felicidade, o que acontece muito nessa época do ano), abri um sorrisão quando vi na esquina da minha casa, numa pracinha na Muniz Barreto, em Botafogo, um bloco improvisado. Um cara pegou a caixa de som do carro, colocou um microfone e começou a cantar músicas clássicas de carnaval. Teve a versão de Máscara Negra mais surreal que já vi, meio funk fuleiro, meio gritada de modo desafinado - uma coisa terrível, mas muito alegre. Foi juntando gente e mais gente e no final tinha até pipoqueiro. Foi o bloco mais improvisado que já vi, maior felicidade espontânea. Adorei. Mas quem é de Carnaval aqui no Rio está dizendo que o bloco Exalta Rei, outro fenômeno meio espontâneo, foi o grande hit de 2009. Já tem texto no Overmundo - Exalta Rei. Gritaram agora aqui na rua, "roubaram a Portela!". Vou lá na TV ver o que houve... O clima de Carnaval ainda continua, nem parece quarta-feira, não dá pra fugir :) E a cobertura informal do carnaval nos canais colaborativos como Twitter e Youtube (e o Overmundo, né?). Já testaram? É incrível.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 18:29
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joao xavi
 

mansur, é uma questão complexa.
particularmente eu acho bem chato esse processo de mercantilização de tudo. como "artista" gosto de pensar na possibilidade e na viabilidade da música sem a presença das vírgulas, dos rinoceirontes, do petróleo, das cervejas e afins... sei que esse pensamento é, de certa forma, retrógrado, que vai contra toda essa nova discussão da economia criativa. mas é um ranço da minha veia punk que, por enquanto, faço questão de manter.

voltando as apropriações, acho que elas acontecem em um outro esquema, geralmente de forma expontânea. as pessoas simplesmente associam suas músicas, seus grupos ao nome de uma marca que tem “valor” no corpo social em que elas se incerem. ironicamente, acredito que estas apropriações não geram grana direta pras marcas referenciadas. 99,9% das camisas rinoceironte que o hermano viu no terreirão provavelmente foram compradas na uruguaiana e em outros camelôs pela cidade. é um esquema quase paralelo, quase porque as retas que seguem no paralelo nunca se cruzam, já estas retas evidenciam o diálogo entre a música e as marcas, seja o produto final consumido original ou não.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 25/2/2009 20:05
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joao xavi
 

opa, "no corpo social em que elas se inSerem".

de novo sobre o carnaval, meu parceiro blequimobiu comentou sobre um trio eletrico rap no carnaval de salvador. talvez ele possa dar as caras por aqui e contar um pouco de como foi essa experiência.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 25/2/2009 20:22
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Juscelino Mendes
 

Excelente a sua viagem "modal"...

Juscelino Mendes · Campinas, SP 25/2/2009 20:39
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Mansur
 

Hermano e Xavi,
Realmente é importante para a observação de qualquer fenômeno social certo alheamento que permita observá-lo em si mesmo, sem juízo de valor ou moral. O elemento observador alheado, via de regra, está “solto” para perceber a realidade objetiva do fenômeno sem cair na armadilha preconceituosa. E a partir disso?

A apropriação do rinoceronte me aponta duas vias: é redentor o fato de que humanos segregados criminosamente da sociedade, usem e abusem de uma marca criada para o segmento social que os segrega. Maravilha! É subversão pura e pertinente. A outra via: é desagradável pensar que os segregados estão desejosos dos símbolos ostentados por quem os segrega. “Soa aos meus ouvidos” como resignação impotente. Qual seria o posicionamento político razoável de quem nutre profunda indignação com as condições impostas por uma sociedade que segrega milhares de pessoas à desproteção social em favor de meia dúzia de abastados?

Fato é que o rinoceronte foi incorporado, mas isso muda ou está ajudando a mudar as distorções sociais a que estamos submetidos? Não sei.

Numa certa perspectiva, o samba se apropriou completamente da festa denominada carnaval e hoje em dia, no Brasil, carnaval sem samba é uma impossibilidade. Tanto que a denominação off-carnaval, utilizada nesse post por nós, aponta para diferentes manifestações artísticas em contraposição ao samba. Tenho a impressão que o carnaval já nasceu trans (à propósito, me apropriando do conceito usado por Hermano) e, de fato, sempre “coube tudo” nessa festa, logo, o carnaval sempre foi in-off-above-below. Vale o que vier, vale o que quiser (à propósito, me apropriando do carnavalizante síndico Tim Maia).

No sentido original da festa importada da Europa cristã, o samba é totalmente off-carnaval. É apropriação pura. Mas a própria apropriação já é novamente desapropriada e hoje gera rios de dinheiro para o status-quo. Não faço aqui papel de defensor do samba ou qualquer coisa do gênero, pelo amor de Deus, não me entendam mal, são apenas observações.

Portanto, essas apropriações se dão em mão-dupla, né não? Me dá mesmo a impressão que a apropriação do rinoceronte é um tipo de resposta inocente a outras tantas e muito maiores apropriações que a população periférica é, foi e será submetida.

Como nos posicionamos diante desse embrólio de apropriações e desapropriações?

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 21:55
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Mansur
 

quando disse: "carnaval sem samba é uma impossibilidade" gostaria de ter dito: "carnaval é sinônimo de samba".

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 22:14
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Hermano Vianna
 

você tem total razão Mansur: carnaval sempre foi trans! o samba se apropriou do carnaval - os clubes quiseram se apropriar do carnaval, mas não conseguiram: as ruas venceram - mesmo o teatro municipal tentou (ou foi ao contrário: o carnaval tentando se apropriar do teatro municipal? agora também no desfile de escolas de samba via Vila Isabel...) é sempre assim: um grupo tenta se apropriar daqui, o outro de lá - a briga é sempre política e muito complexa... bandidos e mocinhos se misturam em todos os grupos, todos os lados... isso torna tudo muito interessante!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2009 22:32
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Vladimir Cunha
 

Em Belém a apropriação das marcas, dos logotipos e das logomarcas se deu, primeiro, através da pirataria. Como o que chega à cidade vem de fora, basicamente da China, que produz ilegalmente a partir de tendências européias e norte-americanas, a cidade se conformou à essa influência. Foi quando surgiu a "Galera da Nike", "Galera da Puma" e, mais recentemente, a "Galera da Kenner", cuja música-tema é uma versão em português de No More Lonely Nights, de Paul McCartney.

Ao mesmo tempo Belém viu o surgimento de um sem-número de lan houses na periferia da cidade, o que facilitou o acesso das populações dessas áreas a outros ícones da cultura pop além daqueles importados através da pirataria. Foi quando a iconografia da periferia passou a incorporar personagens de mangá e anime, figuras de histórias em quadrinhos e qualquer outro ícone que agradasse aos olhos, parecesse visualmente interessante e que remetesse a alguma idéia de futuro, tecnologia ou atitude de rua, do Thor de Jack Kirby (que eu já vi grafitado no bairro do Paar, um dos mais pobres de Belém) e do Wolverine aos personagens de Naruto, Street Fighter ou Metal Gear Solid.

A verdade é que o imaginário das regiões que estão à margem dos grandes centros está cada vez mais pop e menos regionalizado devido a essa saturação de imputs de informação visual. Em alguns casos, criando uma nova cultura regionalizada a partir de novos paradigmas. É o que gera coisas como o funk ou mesmo tecnobrega. Infelizmente, em alguns casos, sepultado as tradições. Mas a História prova que sempre foi assim. E dificilmente uma geração ou um movimento cultural surgem sem a necessidade de conflito. Agora, se esta geração é capaz de produzir coisas mais interessantes do que as geração passadas só o tempo dirá.

Vladimir Cunha · Belém, PA 26/2/2009 01:29
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joao xavi
 

e esse menino de moicano assistindo aos desfiles na sapucaí?

joao xavi · São João de Meriti, RJ 26/2/2009 02:07
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Ivette G.M.
 

Não entendo do riscado, mas textos como este vão nos introduzindo no assunto.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 26/2/2009 09:31
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Hermano Vianna
 

moicano já é tradição popular... já peguei até taxista moicano! rsrsrsrs

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 10:46
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Evandro Bonfim
 

ha ha ha o robert de niro?

Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 11:40
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blequimobiu
 

Então Xavi, Hermano, e toda a galera do Overmundo!

Salvador sempre teve Carnavais paralelos, mesmo longe dos Circuitos Oficiais, mesmo lá na Chapada Diamantina onde os "alternativos" de Salvador dizem se refigiar da folia, acontece outro aval para a carne.

Salvador vem vivendo um bom momento cultural com o desvio de foco propocionado pela Secretária de Cultura do Governo do Estado, que antes nos tempos "carlistas" demandava toda sua grana a "elite cultural" e hoje com influência do "modelo" Lula o seu "fiel" Jacques Wagner e seu Secretário Márcio Meireles vem atráves da democratização do Editais Públicos viabilizando a manifestação realmente popular.

O Bahia Sound System projeto de 3 das manifestações de maiores atuações na cena underground da cidade foi realmente uma celebrações da "Nova Música Baiana". Tive oportunidade de estar em cima do trio e sentir a resposta de um público que se mostrou, primeiramente surpreso, e logo depois representado por uma rapaziada que vivem e sobrevivem no mesmo gueto que elas.

Não sei se fora daqui de Salvador é de conhecimento geral que o Carnaval anda migrando, do antigo circuito do centro para orla, e "grande artistas" vem reduzindo sua atuação no tradicional percuso Campo Grande - Castro Alves. Então para a rapaziada, maioria "pipoca" o Trio do Bahia Sound System foi um grande presente, e pros artistas que se apresentaram nem se fala, pois receram neste Edital uma bao grana para tocar outros projetos independentes.

Acho que é isto...

Sobre as apropriações das marcas, queria comentar sobre um caso específico que é a da marca Fico, que reinou por muitos anos nos corpos do surfistas filho de papai, e ao cair na graça da periferia e logo após da pirataria, teve que se recolher por anos até poder voltar com valores absurdos procurando assim se posicionar junto as classe A B.

Grande abs a todos e vamos nesta.

blequimobiu · Salvador, BA 26/2/2009 14:32
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blequimobiu
 

Foi mal, segue ai o link do projeto...

blequimobiu · Salvador, BA 26/2/2009 14:34
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joao xavi
 

boa, rangel!
fico pensando quando poderia rolar uma situação destas no carnaval aqui do rio. seria bom demais ver equipes como a digital dubs ou a interferência sistema de som, galera que já fez parcerias com o ministereo público aí de salvador, botando o povo pra sacudir num esquema diferente do que sempre rola.

há alguns bons anos (quando ainda me aventurava em cima do skate) aproveitava o metro 24horas pra curtir o carnaval-in-off da lapa, que sempre proporcionava uma mistureba boa. naquela época, 9, 10 anos atrás, tive a chance de assitir shows dos sambas clássicos até bizarrices como o funk fuckers (alguém lembra deles?) e o rap core do squaws.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 26/2/2009 15:33
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joao xavi
 

...e por falar em dub, essa história toda das apropriação é tudo culpa dele, o dub :)

joao xavi · São João de Meriti, RJ 26/2/2009 15:37
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blequimobiu
 

Tanto lembro quanto acho que em alguma caixa velha deve ter as demos (k7) das duas a FF fez um show muito foda, pra quem num sabe era uma projeto paralelo do B.Negão e do Jimmy Luv. já a Squaws eu lembro que era na mesma linha Rage Against The Machine e todo mundo queria parecer assim.

blequimobiu · Salvador, BA 26/2/2009 18:55
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Helena Aragão
 

Pegando carona no último comentário do João e fazendo um link com o começo de conversa que está rolando aqui, acho que seria superinteressante o aproveitamento do metrô 24 horas para iniciativas novas se espalharem para além de Centro e Zona Sul. Quem sabe vai ser esse o movimento dos próximos anos por aqui...

Blequimobiu, adorei saber de toda essa movimentação off-abadá no carnaval baiano!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/2/2009 19:19
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blequimobiu
 

Valeu Helena, avesso aos avessos vamos nós tentando vestir o lado direito da roupa. Quem sabe um dia as pessoas possam escolher outros abadás!

blequimobiu · Salvador, BA 26/2/2009 19:21
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Ilhandarilha
 

Metal no carnaval? Me soa como rap russo...
Aqui me incomodou bastante o carro funkeiro que acompanhava o trio do bloco Gaylinhas, tradicional aqui no bairro: o som era tão alto que esse ano nem consegui ouvir e acompanhar a letra do samba enredo do bloco, sempre divertidíssimo. Mas, tem gosto pra tudo. E viva a democracia musical!

Ilhandarilha · Vitória, ES 26/2/2009 23:49
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Daniel Sinis
 

mais um retrato da cultura de massa brasileira: dançar, mexer a bundinha afins .. affff ...

Daniel Sinis · Angra dos Reis, RJ 27/2/2009 06:27
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joao xavi
 

melhor do que rap russo, só mesmo rap straight-edge russo!
não sei como eles me encontraram, mas uma galera de lá me adicionou no myspace certa vez, não consegui achar o link ainda, mas assim que encontrar jogo aqui na roda.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 27/2/2009 15:07
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Vladimir Cunha
 

Moicano no Brasil pegou por causa da novela Rebelde e do grupo RBD. Um dos personagens, o Giovanni, usava moicano vermelho e alarajando. Quando a novela comecou a dar audiencia no Brasil é que a molecada aderiu ao moicano. Com os "Rebeldes" afiancado o penteado ele virou moda e hoje em dia nao assusta mais ninguem.

Vladimir Cunha · Belém, PA 1/3/2009 02:42
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joao xavi
 

um lapso nessa conversa toda sobre a apropriação das marcas pelos funkeiros. o passinho do jacaré é referência direta a la coste, tão óbvia!, e o curioso é que a dança é geralmente dançada ao som da música do bufalo bill (referência a ecko). um mega-mix sinistro!

aproveitando a passagem por aqui pra anunciar que o miami bros acaba de gravar uma versão de "my money" para um tributo a clássica banda gaucha de falla. o cd deve sair ainda em 2009, só quem viver verá!

joao xavi · São João de Meriti, RJ 13/3/2009 15:05
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