O AZUL E O VERMELHO DE NINA BECKER

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romulo fróes · São Paulo, SP
2/9/2010 · 31 · 2
 

Artigo sobre os discos de estréia de Nina Becker: Azul e Vermelho

Azul e vermelho são cores primárias. São assim classificadas por serem cores puras, que não se podem decompor por não serem derivadas de outras cores. As cores que derivam do azul, por sua temperatura, são consideradas frias e estão associadas a sentimentos mais rebaixados. As cores derivadas do vermelho nos remetem ao calor, transmitem excitação. O disco que Nina Becker lança agora tem duas partes, duas faces estampadas no título de cada uma, Azul e Vermelho. Dessa mistura parte sua música.

Nina desenvolveu sua carreira à frente da Orquestra Imperial. Para quem espera o alto volume sonoro, o convite à dança e o clima de festa característico do grupo, irá se surpreender com seu primeiro disco solo. Ele é incrivelmente vazio. Há nele muitos e diversos instrumentos em arranjos inventivos, mas a intenção é outra. Mais rebaixada, mais íntima. A impressão é de que estamos diante de um ensaio, onde as idéias musicais estão ainda sendo avaliadas e discutidas por Nina e sua banda. Tamanha é a aproximação que se tem com o disco que parece possível sugerir algo, um instrumento de sopro, um piano quem sabe. Mas ao realizar na cabeça tal arranjo é que se percebe o quanto ele está pronto, sem arestas. Justo.

Longe de uma equalização pop, cada elemento da canção se singulariza: harmonia, ritmo, melodia, letra. Todos guiados por seu canto, que parece nunca cessar. Mesmo nos momentos sem letra, nos intermezzos instrumentais, Nina improvisa melodias. Seus lalalás e nãnãnãs são como acalantos que embalam as canções até seu fim, sem se desgrudar delas, talvez com medo de perdê-las. Não por acaso as canções em sua maioria adquirem andamentos muito lentos. Em Janela(Nina Becker/Domenico Lancelotti) na sua versão Azul(há uma outra versão no disco Vermelho) é amparada pela guitarra. Tocada em reverso, ela segura a melodia, que parece voltar ao início num moto contínuo. Desacelera a canção. Nina pode passar mais tempo com ela.

Este movimento que se repete ao longo do disco, se por um lado pode levar a um esvaziamento das canções, na medida em que provoca uma certa indiferenciação entre elas, por outro, uma sensação de vertigem provocada por ele captura nossa atenção. Em tempos de audição picotada, não é pouco nos vermos paralisado diante de um disco. Reflexo da enorme maturidade que Nina exibe em sua estréia. Sua interpretação de Lágrimas Negras(Jorge Mautner/Nelson Jacobina) no exato registro da antológica gravação de Gal Costa, por exemplo, ao mesmo tempo que denuncia uma origem, tem a ousadia de permitir a comparação com o mito. Nos lembramos e nos esquecemos de Gal.

O Azul e o Vermelho de Nina becker guardam a ambivalência de nossa música. Entre a propalada alegria e nossa profunda melancolia, propõem um meio tom. Matizado pela sombra, pelo silêncio e pela solidão.

Romulo Fróes


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Higgo Braga
 

Ouvi os discos da Nina e, tamanha a peculiaridade aqui representada por cada adjetivo acertadamente utilizado pelo Rômulo, ainda não fui muito capaz de compreendê-los, à exceção de alguma ou outra canção, belíssima, por acaso.
Ouvirei com mais calma e coração, pra entrar em sintonia com os albuns, que passam essas duas energias, sem dúvida.

obs: Rômulo fróes como sempre cheio de categoria, seja no tom, seja no estilo.

Higgo Braga · Jaboatão dos Guararapes, PE 3/9/2010 18:15
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Flávia Gabriela
 

Primário

Vermelho e azul
Cores puras
Não são as minhas prediletas
Gosto do rosa
Lilás
Puxam mais pro vermelho
Se bem que o lilás se aproxima do violeta
Que é mais pro azul
Prefiro vermelho a azul
Mas depende também
Meu quarto eu pintei de azul
Me acalma
Vermelho é a cor que gosto de ver no corpo da mulher bonita
Me atrai
De qualquer forma é cor
E nesses tons não combina
Com sombra, silêncio e solidão
Dos acinzentados
Ainda que eu adore as fotografias em preto-e-branco
Mas as que trazem poesia
Encanto no olhar
Que nos aquecem a alma

Se o vermelho é puro
E o azul é puro
Deve conter alguma integridade neles
Uma singularidade que remete à natureza
À pureza das fontes
O quente
O frio
Entre um e outro um espectro de gradações
Arco-íris
Como a pulseira de lã que um dia produzi na terapia
Alegria
As oposições são pra se somarem
Não se anularem
Como numa dança
Shiva
Essências e mutantes
Cada coisa em seu lugar é um aprendizado muito antigo
Que veio com a origem do mundo
Bicho bola pão
Como uma criança aprendendo a falar
É um aprendizado nomear as coisas
As crianças ouvem
As crianças vêem
As crianças falam
Primário
É belo esse estágio
Dos nomes, das coisas, dos sentimentos, dos aprendizados
As primeiras cores
As primárias
Assim como o azul e o vermelho

Flávia Gabriela · Itamogi, MG 6/9/2010 13:04
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