O barquinho vai, a tardinha cai...

Arquivo pessoal de Bebela
Quarteto musical "Enamorados do Ritmo" (década de 40)
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Luís Osete · Juazeiro, BA
9/7/2008 · 180 · 12
 

“Dia de luz, festa de sol/E o barquinho a deslizar/No macio azul do mar/Tudo é verão, o amor se faz/Num barquinho pelo mar/Desliza sem parar...”.

Sem intenção, Fred Pontes, ao ouvir esta canção no sussuro límpido de um certo João, tomou um susto. Foi como se um mundo novo saísse do mar ensolarado da TV e beijasse a luz incandecente do barco, este que nos carrega pelas veredas da vida. Era um dia tão azul...

Depois do susto, veio o desejo de dedilhar no violão a batida sincopada daquele juazeirense que num belo dia resolveu navegar por outras águas, muito além da margem direita do Velho Chico. Naquele momento, Fred teve certeza de que queria ir nas profundezas abissais do “barquinho”.

Atualmente, em Juazeiro, ele é um dos poucos artistas que ainda levam adiante um repertório essencialmente advindo da Bossa Nova, remando contra a maré da ausência de um retorno artístico, dada a falta de alcance popular, que o anime a continuar cultuando a chama imortal que animou muitos grupos em Juazeiro, no início da década de 60.

No tempo em que os carnavais eram feitos com composições de artistas locais e a Bossa Nova, sobretudo por ter seu precursor nascido na região, influenciava os músicos de Juazeiro e Petrolina, contribuindo inclusive para a formação de conjuntos que reproduziam o estilo. O “Bossa Quatro” e o “Sambossas”, por exemplo, foram os primeiros conjuntos criados em homenagem ao novo ritmo.

Decorridos 50 anos, Juazeiro continua ainda muito distante do que Fred chama de “corte epistemológico na música brasileira”, possibilitado pela batida diferente de João. Lamentavelmente, não há espaço nas emissoras de rádio locais destinado a veicular músicas referentes ao estilo musical brasileiro que alcançou maior projeção internacional. Na verdade, não há nem como quantificar o número de pedidos que os ouvintes fazem em relação à Bossa Nova, dada a quase inexistência deles.

Com o tempo, a impressão que se tem é que as lendas em torno da personalidade de João Gilberto e seu jeito recatado criaram uma barreira quase intransponível entre ele e o público-ouvinte. Uma espécie de bairrismo se formou em Juazeiro contra João, algo que trouxe em seu bojo uma rejeição às suas produções. Não é de modo algum raro ouvir frases do tipo: “João não gosta de Juazeiro” ou “João saiu magoado e, por isso, virou as costas para sua terra natal”.

Fred tem uma explicação para isto. Tomando como perspectiva conversas que teve “com os pseudo-intelectuais de Juazeiro, que estabelecem os preconceitos”, ele afirma: “O sujeito acha que é politicamente incorreto não gostar da Bossa Nova porque já disseram a ele que é um negócio bom, genial. Então, por vergonha disto, ele inventa subterfúgios para apaziguar sua própria incompetência de gosto”.

Estes subterfúgios fizeram com que Juazeiro não entrasse oficialmente no circuito de comemorações dos 50 anos da Bossa Nova. No início do ano, Mauriçola, reconhecido cantor juazeirense, lamentava numa entrevista concedida a estudantes de jornalismo da UNEB: “O Rio de Janeiro decretou o ano internacional da Bossa Nova. São Paulo também. Em Nova Iorque muitos concertos acontecerão durante este ano. E na cidade onde nasceu o criador da Bossa Nova não vai acontecer nada!”. Ele ainda tentou uma parceria com algumas empresas da região para realizar um grande show, no qual João Gilberto viria acompanhado de Bebel Gilberto, João Bosco e Caetano Veloso. Seria o show da vida de qualquer apaixonado pela moderna música popular brasileira.

“Volta do mar, desmaia o sol/E o barquinho a deslizar/E a vontade é de cantar/Céu tão azul, ilhas do sul/O barquinho é o coração/Deslizando na canção/Tudo isso é paz, tudo isso traz/Uma calma de verão”

Então, como o sonho de Mauriçola singrou o mar da realidade e se esvaiu como a solidão de uma tardinha de verão, Fred apresentou o projeto de um show comemorativo dos 50 anos da Bossa Nova à Secretaria Extraordinária de Desenvolvimento Social, Econômico e Cultural (SEDESC) da cidade de Juazeiro. Vendo um juazeirense nato à frente da SEDESC ele só aguardava o aval para ensaiar. O projeto não foi aprovado. Pouco tempo depois, uma gaúcha assumiu a Secretaria e se encantou: “Que coisa linda Fred! Um repertório deste cantado por um juazeirense...”.

No dia 15 de julho, ao lado da cantora paraense Letícia Seco, ele fará um show de importância internacional: “Há 10 anos eu comemorei aqui os 40 anos da Bossa Nova, só que este ano eu radicalizei: quero fazer um show de importância internacional, com as músicas de João Gilberto, na cidade de João Gilberto e no Centro de Cultura João Gilberto. Ninguém pode fazer isso no mundo inteiro”, afirma ele, sorridente.

Fred é filho da historiadora Maria Isabel Figueiredo, mais conhecida como Bebela. Hoje ela lembra saudosa do tempo em que ia brincar na sombra do tamarindeiro que ficava no meio da rua em que morava a mãe de João Gilberto, dona Martinha do Prado Pereira de Oliveira, a dona Patu. “João gostava muito de brincar ali. Cansei de ficar com ele, Iraci, Zequinha, Lourdes...”.

O pai de João Gilberto, seu Joviniano Domingos de Oliveira, era um próspero negociante da cidade. Tinha uma barca: a Lusitânia, que hoje navega em águas sergipanas. Como se vislumbrasse o futuro do filho, comercializava a matéria-prima de fabricação de discos, a cera de Carnaúba. Mas ele queria mesmo é que o filho estudasse.

Tanto assim que dona Patu resolveu matricular Joãozinho na Escola Operária, da Sociedade Beneficente dos Artistas Juazeirenses. Professora Lourdes Duarte, hoje com 91 anos, tinha terminado de se formar: “Um dia me levam dois meninos - Zé Eurico [irmão de João Gilberto] e João, que era um capeta em forma de guri! Era um menino muito irrequieto. Às vezes ele botava a cadeirinha assim, um pouco isolada, pra ver se eu podia trabalhar. Só que eu disse: - ‘Sabe dona Patu, num dá não! Joãozinho é diferente dos outros meninos! Arrume outro lugar pra ficar educando ele, que eu não vou enganar a senhora, ele num tá aprendendo nada comigo, porque ele é diferente! ’”.

Dona Patu, que já tinha inclusive comprado a farda de Joãozinho, não gostou nem um pouco de tirá-lo da escola. Muito tempo depois deste acontecimento, professora Lourdes diz ter ouvido de João Gilberto numa das famigeradas vindas dele a Juazeiro: “Eu dei muito trabalho pra senhora não foi professora?” O certo é que, todos sabiam, ele se sentia muito mais à vontade com um instrumento na mão. Ademais, “naquele tempo de Carmem Miranda, toda cidade queria ter um conjunto como o Bando da Lua”, afirma Bebela.

O espírito da época – com os famosos conjuntos musicais que embalavam as audiências das grandes rádios brasileiras, como os Demônios da Garoa, Os cariocas, Quatro ases e um Coringa, Anjos do Inferno, Namorados da Lua e tantos outros – foi decisivo para que quatro juazeirenses amantes da música se reunissem em torno do serviço de alto-falante da cidade.

Um violão, um tamborim, uma cabaça e muitos sonhos. Assim surgiu o quarteto “Enamorados do Ritmo”, integrado por Pedrito, Alberto, Walter Souza e João Gilberto. Por incrível que pareça, João Gilberto não era nem de perto o destaque do grupo. “O solo vocal e o violão eram espaços dominados por Walter Souza – a voz mais bonita do grupo e o único que dominava a magia do violão”, afirma Joselino de Oliveira, autor do livro “Do alto-falante à TV”. Walter Souza, que morreu em São Paulo no dia 29 de maio deste ano, participou do movimento básico que criou a Bossa Nova. Entrou para a história da música brasileira como Walter Santos.

Naqueles idos, segundo afirmam algumas pessoas, João Gilberto andava despojado e inclusive concedia entrevista. Joselino, com sua memória prolífica, lembra de ter visto João antes do lançamento das músicas da Bossa Nova. “Ele andava na rua de calça jeans, óculos de grau, cabelo baixinho. Chegou a dar entrevista ao serviço de alto-falante da cidade”.

Joselino ficou surpreso ao saber que João Gilberto fará quatro apresentações em comemoração aos 50 anos da Bossa Nova. “Vou dar um jeito de ir pelo menos para Salvador”, afirmou ele. Fred disse que irá para duas apresentações: São Paulo e Salvador. “Tem uma música que não pode faltar: você sabe qual é, né?”.

Com certeza Fred, todo mundo sabe...

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Nic NIlson
 

Luis, q bom saber, conhecer e tomar contato com esta história!
Se naum fosse por vc eu nunca saberia q o criador da bossa nova e este senhor de gigantescos valores. Mas diz p ele q eh asim mesmo. Nem sempre a mae da criança eh reconhecida pela historia, rsrsrs. Mas dá uma olhada no meu artigo: Tchaka, tchaka, na butchaka, e vai ver q a situação sempre foi e será assim.
Valew amigo

Nic NIlson · Campinas, SP 5/7/2008 22:37
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Luís Osete
 

fiquei curioso para ler este artigo... passa o link pra mim.

abraços,

Luís Osete · Juazeiro, BA 5/7/2008 22:50
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Cintia Thome
 

Maravilhoso falar do pai da Bossa, o primeiro da Bossa, cantando a música composta pelo Jayme Silva e Neusa Teixeira "O Pato" e de Boscoli, " O Barquinho"...Na Baixa do Sapateiro"...Saudade da Bahia...impecáveis...
João é som virgem, perfeito.
Parabens a você e a Bahia.

Cintia Thome · São Paulo, SP 8/7/2008 10:17
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Sigrid Spolzino
 

Quase pude escutar a música... rs
Trouxe-lhe meu voto! Baci in cuore

Sigrid Spolzino · Brasília, DF 8/7/2008 17:58
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Andre Pessego
 

Fantástica postagem. Descobri em mim um analfa em termo de artistas musicais e músicas. Não sabia que João Gilberto era de Juazeiro.
Parabéns.,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 8/7/2008 22:50
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JACK CORREIA
 

Um dos muitos baianos que enriqueceram a música brasileira, que fizeram e fazem história... Grande homenagem a João Gilberto, Luis. Mais um postado muito bom! Abraços.

JACK CORREIA · Crato, CE 9/7/2008 09:56
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Ise Meirelles
 

Luís, parabéns! Muito bom o texto. Sem dúvida, Juazeiro é obrigatória no circuito comemorativo de 50 Anos da Bossa Nova.
Mts bjs,

Ise Meirelles · Salvador, BA 9/7/2008 16:54
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Alexandre Grecco
 

Muito bom o texto. João Gilberto é um dos precurssores do movimento, a cidade merecia tal festa. O fato é que todo governo parece estar esquecido dessas ações que são extremamente relevantes, infelizmente, nossos políticos e movimentadores sociais acham que "cultura não agrega". Pena né? Abraços.

Alexandre Grecco · Fortaleza, CE 9/7/2008 17:46
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Duborges
 

Desculpem, mas não gosto de Bossa Nova. Não me agrada essa musiquinha que pretende fazer com que a gente sinta-se em Ipanema. Sorry, meus caros joaogilbertianos. Não é nada pessoal, não. Beijos.

Duborges · Santo Amaro, BA 9/7/2008 21:02
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Compulsão Diária
 

beleza. oportuno nas comemorações e pelo texto em si mesmo. só acrescenta!

Compulsão Diária · São Paulo, SP 12/7/2008 00:45
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Adroaldo Bauer
 

Há certas questões em música que não são suficiente o gosto para explicar.
A natureza da construção melódica, a execução e o arranjo, por exemplo, quando ultrapassam os plim-plins e as pancadas de primeira e segunda, começam a impor-se e a exigir respeito, no mínimo da ignorância, inda mais da inteligênica.
É assim com o artista João Gilberto.
Um brasileiro que o mundo conhece e aplaude.
Como eu sei nada de música, fui dar uma lida num artigo da Folha de São Paulo sobre o assunto, carreguei um pedaço pra cá, mas pode ser lido inteiro aqui no linque.

HARMONIA

Até os anos 40 e mesmo na década de 50, a harmonização de uma melodia no Brasil era quase sempre indicada de maneira bastante rudimentar. Eram as chamadas "primeira do tom" (um acorde perfeito de tônica), "segunda do tom" (acorde perfeito da dominante) e "terceira do tom com sétima" (acorde da subdominante acrescido da sétima). Só posteriormente a notação musical passou a ser a mesma do jazz, dos acordes cifrados com as letras identificadoras A, B, C, D, E, F e G, respectivamente para as notas lá, si, dó, ré, mi, fá e sol, chamadas tônicas do acorde.

Essa notação básica facilitou muito o ensino e a leitura de harmonia, beneficiando quem seguiu carreira de músico a partir de então. Mas, tanto num caso como no outro, ela não indica a disposição das notas do acorde, nem qual deve ser a nota mais grave, chamada fundamental. Pode ser a tônica, a do meio ou a mais aguda. Num acorde de dó maior perfeito, cuja cifra é C, o natural é que o dó, sendo a tônica, seja a fundamental. Mas nada impede que se faça uma inversão do acorde para mi-sol-dó, ou sol-dó-mi, em vez de dó-mi-sol. Essas inversões, que se tornaram mais freqüentes na música brasileira a partir da Bossa Nova, podem eventualmente dar uma sensação de dissonância, sobretudo se o executante usar a liberalidade, que lhe é concedida, de nem tocar a tônica, eliminando-a e deixando-a subentendida. Isso gera uma impressão de certa instabilidade, de leveza, como se a base harmônica estivesse pairando no ar e não repousando.

Além do ritmo, os acordes invertidos são outra marca no violão de João Gilberto. Seu conhecimento de harmonia teria se desenvolvido bastante em Porto Alegre, nas proveitosas horas de convívio musical com o avançado professor e maestro Armando Albuquerque, amigo de Radamés Gnattalli. No Rio, a aproximação com Tom Jobim colaborou para aprimorar o requinte de seus acordes no violão, aplicados aos arranjos dos primeiros discos, nos quais Tom foi o arranjador e estava envolvido totalmente. De fato, a atuação de Tom Jobim foi preponderante nos rumos da harmonia da Bossa Nova, pois, como ele vinha de uma experiência como arranjador, desenvolvera a técnica de vestir as músicas para o cantor, ou seja, criar novas harmonias que dessem coloridos diferentes a canções já gravadas.

Quando Sérgio Ricardo assumiu seu posto como pianista da boate Posto 5, foi Tom quem lhe mostrou o que era possível fazer com a harmonia, "sentou no piano e mostrou a mesma melodia - eu me lembro, era o 'Feitiço da Vila' [de Noel Rosa] - com uma harmonia que ele fazia. Com muita paciência, ele me mostrou como se encadeavam aqueles acordes de nonas e décimas primeiras. Fui vendo um mundo novo dentro da música".

Ainda assim, é justo reconhecer que o grande mestre de harmonia de João Gilberto foi ele mesmo, na sua disciplina férrea em tocar dezenas, centenas de vezes uma canção até atingir o ponto ideal, o equilíbrio. Ao esmiuçar obstinadamente a natureza de cada canção, ele acabava encontrando um só acorde de três ou quatro notas que simplificavam a seqüência original sem ferir a natureza da canção, embelezando-a como jamais se ouvira antes. Tinha-se a sensação de um novo caminho, que passava a ser definitivo, pois não havia nada que pudesse ser trocado, suprimido ou acrescentado.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 14/7/2008 22:01
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rozangela ribeiro
 

Osetinho,
Que belo texto!! Logo pelo título: o barquinho vai...
a tardinha cai. . . encanta, emociona e nos fascina.
Gostei muito também dos comentários especialmente do Adroaldo Bauer - demonstração de cultura, valores...
Parabéns! e Parabéns!
Valeu!
Extraordinário!
Bj...

rozangela ribeiro · Entre Rios, BA 25/7/2008 16:47
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