O BECO DA QUARENTENA

Projeto Memória Viva
O Beco da Quarentena
1
FILIPE MAMEDE · Natal, RN
16/8/2007 · 161 · 27
 

Um dia desses, lendo um dos jornais da cidade, me deparei com um texto muito interessante, enviado ao periódico por um sujeito chamado Elísio Augusto de Medeiros e Silva. O escrito, intitulado “Passeio noturno à Ribeira”, tratava, com um saliente saudosismo, dos compassos flutuantes do velho bairro da Ribeira; suas histórias, seus contextos, suas acontecências.

E nas saudosas andanças literárias e físicas, propriamente ditas, de Elísio, cheguei junto com ele “ao primeiro marco da antiga Ribeira: O Beco da Quarentena”, que por décadas, serviu como lugar de sexo barato, para os menos favorecidos. “A impressão que tive foi a de que o tempo tinha parado e o “Beco” era filho enjeitado da bela cidade Natal.” De frente ao beco, o “eu - lírico” de Elísio percebeu ali “pedras revoltas, que estão no mesmo lugar, há dezenas de anos, portas abertas, escancaradas, sem a menor decência em seus humildes prédios, em ruínas”.

O Beco da Quarentena, na Ribeira, não é um beco. Na verdade, o local se chama Travessa da Quarentena e é uma ruela de passagem entre as ruas Chile e Frei Miguelinho. No início do século a pequena via era conhecida como a Rua das Donzelas, um verdadeiro "marco social". Conta-se que ali, a poucos metros do cais do porto, ficavam de quarentena os marinheiros que chegavam com doenças contagiosas e as pessoas da cidade já contaminadas. Depois o local virou ponto de prostituição. Como toda sorte de gente perambulava pelo Beco, o lugar ficou como maldito. Reza a lenda que ninguém o cruza de uma ponta a outra.

Impressões do Beco

No livro "Breviário da Cidade do Natal", o escritor Manoel Onofre Júnior termina o trecho intitulado "A Zona" com o seguinte mote: "O velho beco, com seu 'claro mistério', continua maldito. As pessoas decentes o evitam, até mesmo durante o dia, como se o vissem ainda empestado”. Outro seduzido pelas histórias do Beco é o poeta Sanderson Negreiros. Nos versos “Aqui, arcos de sólido abandono / Restos da hora / Inúteis delíquios à luz dos círios de outrora”, o poeta faz uma ponte entre a poesia do passado e abandono atual do Beco da Quarentena.

O Cajá das Raparigas

‘Enjeitado’, o beco foi testemunha da vida boêmia da Ribeira. Ali, as risadas das mulheres da vida e dos boêmios deram lugar a um silente existir. As portas, antes abertas para a alegria dionisíaca, hoje estão serradas. O “Beco” se transformou num lugar evitado por quem passa pelos arredores.

O seu Elísio Augusto ainda arremata: “Todo este abandono, a um dos maiores sítios históricos de Natal, assistido, placidamente por um pé de cajá, que – (garantem!) – não foi plantado, nasceu, espontaneamente, naquele local e, na safra, os seus frutos são disputados na Ribeira, conhecidos como os ‘Cajás das Raparigas’ ”.

Crônicas do Beco

O jornalista e professor do curso de Comunicação Social da UFRN, Emanuel Barreto, num texto do seu livro “Crônicas para Natal”, registra o beco como o lugar onde “bêbados desvalidos faziam suas farras de desespero”. E os versos continuam...

“Na Ribeira há um caminho torto, feio, escuro.
É a Travessa da Quarentena, onde, há
muito, muito tempo, os deuses desvairados
do sexo barato faziam ali suas orgias.

O Beco da Quarentena, como ficou na
lembrança popular, é esse falido porão
da cachaça barata e das mulheres de todos
e de ninguém.

Ali, vez por outra, passantes cortam
caminho, num atalho sem futuro.
Ali, quem sabe, nas noites da velha Ribeira,
fantasmas de bêbados e marias se juntam.
E dançam sua dança de cachaça.”


Poesia no Beco

A poeta Civone Medeiros Tonig empresta os versos libidinosos do seu poema Bilhete na Ribeira para anunciar o desfecho do "Passeio" proposto pelo Seu Elísio:

"Quero comer teu riso
Não tema!
É instinto!
Insisto!
Se antena!
Na madruga...
Quero te comer no Beco da Quarentena"


O Beco da Quarentena permanece adormecido. Hoje faz parte do passado lascivo da velha Ribeira de guerra. "Beco da Quarentena, que seu heróis, santos, putas e bêbados orem por nós. Amém". (Moacy Cirne, com a devida citação)

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baduh
 

Filipe, nego véio!
Mais um texto fantasticamente bem-escrito! Marquei lá "avisar-me quando entrar em votação", porque, não por sermos amigos, escreves que é uma maravilha de se ler!

baduh · Rio de Janeiro, RJ 15/8/2007 15:03
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FILIPE MAMEDE
 

Fernando, fico feliz que tenha gostado de mais essa história da minha cidade. Percebo as realidades a minha volta e tento multiplicá-las na forma de textos. Acho que vem dando certo... Fazendo outras pesquisas de meu Deus, me deparei com o Beco, este que fica há poucos metros de onde trabalho... De todo modo, já disse aqui algumas vezes, me interesso muito nesse lance de resgate; recontar a história. Acho isso bacana. No mais Baduh, agradeço a você por ser o primeiro da fila.

Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 15/8/2007 15:43
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Tetê Oliveira
 

Muito interessante esse resgate poético e histórico da Travessa da Quarentena, Filipe. Parabéns!

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 15/8/2007 22:02
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jjLeandro
 

Belo texto, Filipe. O Beco, ou Travessa, saiu de moda, como é evidente, mesmo pelo exaurimento da atividade, mas continua vivo na memória da cidade. Isso é interessante. Tem apenas que extrapolar a memória e ganhar "vida" física, ou seja, pela importância, ser revitalizado, desmarginalizado.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 16/8/2007 07:40
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FILIPE MAMEDE
 

Pois é Leandro, o bairro da Ribeira vem sendo revitalizado. Mas sabe como é, a coisa vai rolando meio á "conta gotas". Várias fachadas foram refeitas; novas cores, novas utilidades... só tá faltando o Beco...

Obrigado pela leitura.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 16/8/2007 07:54
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baduh
 

"Se queres ser eterno, canta a tua aldeia!"

Pena é que, entre tantas leituras, esquece-me o autor da frase. Se algum overmano lembrar-se, que me avise, caridosamente.

Este é o caminho, jovem-homem Filipe. Você está nele, no caminho. Já és um profissional de mão-cheia, mesmo estando ainda em finalização de curso universitário. Vossos pais o geraram jornalista e escritor. Vai, agradece a eles o fenômeno!

O meu aplauso!

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 08:35
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FILIPE MAMEDE
 

Acredito ser essa frase de Tolstoi, salvo engano... Agradeço de novo pela motivação e pelas palavras tão abonadoras. Quanto aos meus pais, o dicurso na minha casa sempre foi um só: "Meu filho, seu pai não tem nada pra deixar pra você, só os estudos; estude muito meu filho, estude..." E assim eu tenho feito Baduh; tento me dedicar, fazer a minha parte. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 16/8/2007 08:53
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Roberta Tum
 

Filipe!!!
Adorei!
Na verdade tenho um fascínio por estes lugares emblemáticos,
cheios de histórias de vida, poesia, vida marginal... são tão ricos!
Parabéns por resgatar este beco!

Roberta Tum · Palmas, TO 16/8/2007 10:14
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Nivaldo Lemos
 

Filipe,
obrigado por seu convite para eu deitar meus olhos neste maravilhoso 'Beco da Quarentena" onde, pelo que li, muita gente boa já deitou mais que olhares em colos de marias e joanas da vida que nos salvam em pecados redentores, graças a Deus! Uma beleza de texto - como não poderia deixar de ser. Lembra-me muito João do Rio (A Alma Encantadora das Ruas), pela riqueza dos detalhes e a poesia. Fique cá comigo sonhando com o doce mel dos cajás das raparigas, nascido e amadurecido no beijo da propria vida, na boca suja das noites da Ribeira, no corpo nu da boemia. De tudo, contudo, ficou-me um senão: porque o nome “Quarentena”?

Parabéns, amigo, por mais esse texto maravilhoso.

Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 10:42
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Filipe:
Quanto aos temas, não tenho a mínima dúvida, aliás já sabia, você é overmano com o qual eu mais sintoa mais próximo

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 16/8/2007 11:08
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Benny Franklin
 

Grande Felipe, Salve!
Cara, só assim vamos conhecendo - sexo a sexo - o passado romântico de sua bela Natal. Ô bequinho tesudo que mantém Pedras Revoltas afiadas expor-nos suas fogosas donzelas de pernas entreabertas, a nos esperar, hein?
Texto brilhante, Felipe. Votado.
Abçs. Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 16/8/2007 11:22
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baduh
 

Querido amigo Filipe.
Então beije os teus pais por mim. E aceite cá o abraço e o voto deste seu admirador e leitor,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 17:03
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Saramar
 

Texto perfeito!
Gostei muito porque rico de informações, de história e de sensibilidade.
Dá gosto aprender assim!
Parabéns!

beijos

Saramar · Goiânia, GO 16/8/2007 17:40
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Andre Pessego
 

Felipe, se não fosse eu de muito reparos às entradas e bandeiras, lhe diria - ser um desbravador.
Ainda bem, que descobres, mostras, cultivas sem destruir, legalzão, condizente com essa firbra, um abraço andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 16/8/2007 17:43
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FILIPE MAMEDE
 

Nivaldo, Quarentena ficou, pois, "Conta-se que ali, a poucos metros do cais do porto, ficavam de quarentena os marinheiros que chegavam com doenças contagiosas e as pessoas da cidade já contaminadas". Roberta, obrigado pela leitura. Realmente, quantas e quantas histórias marginais como esta não existem por aí nos becos da vida, não é mesmo?
Joca meu velho, foste um andarilho no Beco da Quarentena. Agradeço. Benny, poeta beatnik obrigado pelo comentário lascivo (risos). Saramar e André, sua presença por aqui tiram o Beco da marginalidade. Um abraço a todos.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 16/8/2007 18:25
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Felipe:
Está na fila de edição um texto meu, ainda incompleto mas já plenamente esboçado, inspirado no seu texto sobre o beco da quarentena. Se puder, de uma espiada (Ainda precisa de algumas explicações complementares)
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Ah! Ia me esquecendo: está no overblog e se chama "uma história de amor na Munguba"

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 16/8/2007 18:51
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LAILTON ARAÚJO
 


FILIPE!

História interessante! Quantas estórias não rolaram ao cheiro de perfume barato, francês, viajante do tempo, mulheres e homens enciumados, amor livre, gonorréia e sífilis: embalados pela música da época!

É a crônica da vida nos "Becos do Submundo", à disposição dos poetas, músicos, historiadores e qualquer um que busque o romantismo do tempo...

Era a época das frutas maduras, cajás, umbus (imbus para os nordestinos), mulheres de vida fácil... Meretrizes por opção ou necessidade: contrastes sem luz! Os fantasmas dos casarões rodam a área - registrados pelas câmaras fotográficas: em preto e branco!

O texto é poesia social... Viva a história!

Parabéns!

Abraços.

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 17/8/2007 10:06
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Egeu Laus
 

Beleza de texto, Filipe!
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2007 10:11
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Spírito Santo
 

Estive aqui, no beco.

Grande abraço

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2007 12:33
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FILIPE MAMEDE
 

Obrigado pela visita grande Laílton, Egeu e mestre Spírito.
Um abraço e lembranças do Beco da Quarentena.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 17/8/2007 13:32
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analuizadapenha
 

oi... adoro o Beco e adjacências,eís um Ribeira limpa, linda,marginal bem ilustrada por esta p&b,banhada por um Potengí que está morrendo e pedindo sos. Abraços. Parabén.

analuizadapenha · Natal, RN 17/8/2007 13:39
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analuizadapenha
 

Parabéns.

analuizadapenha · Natal, RN 17/8/2007 13:40
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Marcos André Carvalho Lins
 

Filipe, o que dizer???
extraordinário o texto: conteúdo e estilo. Jóia de um jornalista de primeira grandeza, meus Parabéns!!!!
abraços,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 17/8/2007 18:17
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Filipe:
Não posso concordar com o adjetivo "grande" que o Marcos usou para te qualificar porque o jornalismo que você pratica deveria ser a regra, e não uma exceção! Pensar de outro modo, me desculpe o Marcos, é abdicar.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo asndarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 17/8/2007 21:04
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FILIPE MAMEDE
 

Joca meu querido, quanto á adjetivações, agredeço a todas, e concordo com você; o jornalismo deveria ser mais tratado com respeito. Finalizando, quanto aos adjetvos de novo, fico com uma das frases mais famosas do mestre Câmara Cascudo. Quando alguem o elogiava, o mestre dizia: "É mentira, mas é gostoso"...

Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 20/8/2007 07:26
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Aguiar Gama
 

... mas que rerflexão!!!

Aguiar Gama · Gurupi, TO 11/12/2007 16:58
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Haylene Dantas
 

Sou fã número 1.

Beijo Querido!

Haylene Dantas · Natal, RN 19/2/2008 11:35
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