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O bom e velho jornalismo não deve morrer

NACIM
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Roberta Tum · Palmas, TO
15/7/2007 · 407 · 34
 

Quando eu comecei ainda não havia computadores nas redações. Era a década de 80, eu tinha 16 anos e muitos sonhos na cabeça. Um deles era mudar o mundo. Outro era conhecer o mundo. Para mudar o primeiro, queria dar voz aos miseráveis inspirada em Cazuza e sua balada Blues da Piedade: “agora eu vou cantar pros miseráveis, que vagam pelo mundo derrotados/ essas sementes mal plantadas, que já nascem com cara de abortadas”.

Para conhecer o mundo que eu antevia nos livros devorados na velha Biblioteca Municipal de Jataí, só viajando. Assim, amante da leitura, da escrita e da aventura, ávida por lutar contra injustiças sociais, fui ser jornalista. Esta era a minha paixão, e achei que podia também ser profissão. Para tanto, coloquei meu pé pela primeira vez numa redação de jornal antes dos 18. Um mês no departamento comercial – que era a vaga disponível - me fez chegar onde eu queria: a redação. Ah, a mágica redação onde tudo acontecia. Onde o fato virava notícia, do crime à política, revelando histórias da vida das pessoas. Gente e mundos novos que eu não conhecia.

Na redação da Folha do Sudoeste tive meu primeiro professor: José Renato. Editor e meio dono(sócio) do jornal. Lá aprendi o básico: lead, pirâmide invertida (naquele tempo tinha isso). Foi ali também que aquele rapaz jovem, cheio de sonhos, jornalista dono de jornal me aguçou o faro, o correr atrás da informação completa, da história não contada por detrás de cada notícia. As velhas Remington não tinham ainda ouvido falar de Bill Gates. De ajudante a repórter, das notas da coluna social, até a sub-editoria foram dois anos. O tempo que levei para desistir do curso de Pedagogia e arrumar as malas para tomar o rumo da capital, Goiânia.

A trajetória toda me volta à cabeça após ler um artigo, muito bem redigido do overmano Deak, sobre as mudanças na notícia, na formação do jornalista, no avanço que as novas tecnologias estão provocando nos jornalistas e nos jornais. Bah! - como diria um colega jornalista gaúcho, ácido nas críticas - mas naquela época não tinha isso. Para trabalhar em redação de jornal tinha que ter mais que o dom, vocação ou um diploma. Tinha que ter ânimo, faro, saber escrever ou disposição para aprender. Tinha que se submeter a uma carga horária estressante. Mas que nada! Eu era jovem e estava disposta. Em Goiânia, uma vaga no caderno 2 do Diário da Manhã me recebeu depois de um teste disputado com um jornalista quase formado. Ele era estudante em fim de curso, mas eu consegui superá-lo, nos critérios todos que a editora, eterna Cejane di Guimarães exigia. E com ela aprendi mais uma lição: “não escreva coisas descartáveis. Escreva com paixão, dê todas as informações que puder. Faça a pessoa ter gosto pela leitura, a ponto de recortar a matéria e guardar”.

Grandes lições as do Diário da Manhã do fim da década de 80 e começo da década de 90. Lá migrei por várias editorias, liderando jovens e nem tão jovens repórteres, formados ou não. Foi lá que me toquei da necessidade de cursar a UFG e fazer jornalismo. Também nesta época fui apresentada, na década da transição, ao bichinho estranho e ágil chamado computador. Ele já estava nas grandes redações. Ele chegava com a promessa de tornar tudo mais fácil (ah, a autocorreção!), e muita gente resistia. Mas , bah! Eu era jovem, tinha o mundo pela frente, e podia fazer qualquer coisa: desde pular muro de hospital, acompanhada pelo meu fiel fotógrafo e escudeiro para flagrar lixo hospitalar em local inadequado, até furar a segurança e entrar pela porta da frente para entrevistar o primeiro caso de AIDS em Goiânia. Bons tempos, e novos professores. Com Batista Custódio, editor geral do diário, que rasgava laudas e lançava o papel amassado pela redação aprendi o que era notícia, e que tinha que ficar perfeita.

Já se vão duas décadas. Não que eu esteja envelhecendo, sorry! É que comecei cedo. Assim, neste artigo meio autobiográfico, busco entender onde foi que o bom e velho jornalismo, simples e bem feito se perdeu. Nos novos modos de fazer? Acredito que não.
Lá, no velho diário em transição, se ouvia muito uma frase: “pensem bem, e investiguem direito antes de publicar uma matéria. Cuidado com o nome e a honra dos outros. Espalhar uma notícia é o mesmo que sair pela cidade despejando um saco de penas de galinha. Depois não há como apanhar todas de volta”. E nós, um grupo de meia dúzia de jovens editores trabalhávamos das 11h da manhã às 11h da noite (naquele tempo tinha isso), buscando a excelência. Assim, aprendi de fotografia a diagramação, para riscar minhas páginas em folhas de papel com paicas e dizer ao Fu Manchú, como era exatamente que eu queria.

Furos, manchetes, tragédias se sucederam na minha vida de jornalista enquanto o computador era aperfeiçoado, o velho gravador dava lugar ao pen drive e ao mp3, as belas máquinas fotográficas e os mágicos laboratórios escuros eram sucedidos pelas potentes digitais. Mas aprendi tudo. Com a sede de quem tem tempo, e vontade. Já naquele tempo sabíamos de algumas coisas que nunca mudariam: que não se aprendia a fazer jornalismo nas escolas e que não se aprendia a ter caráter nas redações. Sobre isso ouvi e tive que concordar com mais um editor/ professor, José Sebastião Pinheiro, do Jornal do Tocantins: “caráter não se ensina, nem se aprende. Ou o sujeito nasce com, ou nasce sem”. E um mau caráter numa redação estraga a vida de muita gente.

Assim, com a evolução dos tempos e do jeito de fazer comunicação evolui pelos meus empregos, e sonhos que me levaram a outras fronteiras: as que escolhi. Daqui, do centro do país, coração do Brasil, assisto e me integro às novas tecnologias da informação às vezes com saudades do bom e velho jornalismo. Não por romantismo. Faz tempo que descobri que não seria o jornalismo a mudar o mundo. Talvez uma combinação entre educação e informação. Ainda não tenho a fórmula. Só sei que hoje, de volta à universidade posso perceber que muita coisa mudou, e muita coisa se perdeu na ânsia por dar muita informação em pouco tempo. O bom e velho jornalismo – percebo – resiste. Ele está nas boas e bem levantadas matérias, investigativas ou não. O bom caráter continua fundamental, e a abertura para aprender sempre também, mesmo que os patrões de hoje nas grandes empresas queiram que o jornalista vá além do seu papel. Tudo bem. Vamos nos equipar ainda mais e fazer tudo: filmar, fotografar, e escovar o cabelo em algum canto do mundo, para depois de enviar a notícia via lap top, aparecer com a cara boa na reportagem que vai ao ar. Mas será que isso é jornalismo?

Sinceramente, quero manter a capacidade de aprender tudo sempre. Bah! Afinal ainda sou jovem, e o espírito de aventura nunca morre. Anos depois de ter pisado na primeira redação de jornal, sou mais jornalista do que nunca, antenada em tudo que acontece neste começo de século. E independente do rumo para o qual as novas tecnologias nos levarão, acredito, piamente, que o bom e velho jornalismo vá sobreviver. Para, quem sabe,ajudar o mundo a se ver no espelho, e aí talvez querer mudar.

Estas notas curtas sobre coisas bizarras, a espetacularização da notícia em blogs ou na TV, vão continuar. Há mercado e demanda para isto. Mas por favor, não me digam que os jornais vão morrer. Que os bons e belos textos do cadernos de cultura vão morrer. Que o espírito jornalístico vai morrer e que vamos todos produzir pequenas mercadorias descartáveis de oito ou 10 linhas. Me recuso a acreditar nisto. Mesmo que para alguns possa parecer jurássica. Que o bom e velho jornalismo sobreviva, e conviva com o novo. Este novo em mutação que tem tanto a aprender.

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Leandróide
 

Brilhante matéria, Roberta. O texto está excelente. Gostei. Depois volto pra votar.
Abr.,
Leandroide.

Leandróide · Florianópolis, SC 11/7/2007 18:17
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Priscila Silva
 

Parabéns, excelente artigo. Foi de extrema importância para mim (sou estudante de jornalismo). Digo que foi importante porquê o que realmente vale à pena não é mostrar o rosto, o tipo de maquiagem, se a escova foi progressiva ou não. O que importa é a notícia e não como o repórter irá aparecer ou como ele está vestido, quem faz a notícia é ele, mas ele tem que estar por trás disso tudo, não precisa ser a estrela. Quando as pessoas compravam jornais e revistas nos tempos de antigamente eram pra se informar de fatos importantes, mortes de pessoas que marcaram a política, cultura e sociedade, mudanças sócio-econômicas e etc. Hoje infelizmente o que vira notícia nesse "novo jornalismo" é se fulana de tal estava ou não com calcinha, se beltrano traiu fulana...E por aí vai.
Encantei-me com sua trajetória, garota! Que brilhante viu? Já admirava você, agora então...nem se fala! Rsrs Obrigada por trazer esse histórico do que realmente é o jornalismo. Com certeza Beta farei de tudo para entrar nesse seu time, vou batalhar e me esforçar o tanto ou pelo menos chegar perto do que chegou. Parabéns por ser esta excelente jornalista e servir de exemplo para muitos que se dizem jornalistas.

Um beijo,
Priscila.

Priscila Silva · Serra, ES 11/7/2007 19:01
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Tacilda Aquino
 

Nossa Tum, adorei seu texto. Me vi nele em muitos, muitos momentos, com a diferença de ter começado a viver essas histórias alguns anos antes de você. Até o Fu Manchu e o José Renato passaram pela minha vida. O Batista Custódio, a Consuelo Nasser, com quem convivi no Cinco de Março e no Diário da Manhã. Aprendi muito com a Consuelo Nasser no Cinco de Março. Apesar de doidona e temperamental, ela tinha paciência de ensinar quando via que a pessoa estava realmente interessada. E o Sebastião Pinheiro hein? Com ele aprendi muito na redação de O Popular e também nas mesas dos bares de Goiânia pelas madrugadas, quando a gente saia para curtir o som ao vivo dos frutos da terra de Ludovico.
Também acho que o bom e velho jornalismo nunca vai morrer. Pelo menos enquanto houver pessoas que fazem jornalismo com paixão e garra como a gente. Costumo dizer que a única coisa que o jornalismo me deu foi uma bruta LER/DORT, mas na verdade só reclamo da doença quando as dores (como agora) me impedem de escrever (pelo menos tanto quanto eu gostaria). Vou voltar para votar. Parabéns.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 11/7/2007 21:45
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Roberta Tum
 

Leandro, agradecida pelo "brilhante". Vindo de vc, vale muito!
Pri, os tempos mudaram e as trajetórias de hj acontecem por vias diferentes daquelas que percorri, mas acho que no fundo, os elementos necessários para "fazer" um bom jornalista continuam os mesmos. Obrigada pelo carinho, pelos elogios. Fico feliz se puder inspirar alguma coisa boa em quem está começando! Bjo!
Tacilda, vc fez história em "O Popular", e deixou seu nome escrito para sempre não só nos artigos, e textos inspiradíssimos do Caderno 2, mas no jornalismo goiano. Não pare nunca de escrever, seja onde for. Aqui, no seu blog,
nos veículos que tiverem portas abertas para seu trabalho.
Realmente, temos muitas referências em comum. Como esquecer
a Consuelo, não é? os bons loucos sempre têm muito a ensinar.
Bjo e obrigada pelo comentário!

Roberta Tum · Palmas, TO 12/7/2007 14:36
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Nivaldo Lemos
 

Roberta Tum,

sabia que sobrenome tão onomatopaico (lembra a batida do coração) não podia ser casual, mas destino: como se sua alma tivesse sido impressa no próprio nome para lembrá-la de que o jornalismo em essência é isso: paixão. Matéria excelente, bem escrita e uma prova de que o velho e bom jornalismo nunca morrerá, pelo menos enquanto bater o coração da notícia: Tum, Tum, Tum. E tiver alguém disposto a contar o que viu. Parabéns, Roberta, pelo belíssimo texto. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2007 16:23
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José
 

Olá, Roberta!
Tem certeza que você quer minha opinião?? rsss Sou muito chato, deve ser neurose de poeta. rsss
Escrever com o coração é ir ao âmago... Mas, será que o dono do jornal deixa publicar?
Eu em particular dificilmente chego ao final de uma noticia, pois na atualidade as matérias são muito previsíveis... No primeiro parágrafo já se sabe o final...
O teu texto tudo eu li e gostei.
Um abraço agradecido.

José · Criciúma, SC 12/7/2007 17:01
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Robert Portoquá
 

Olá Roberta!
Seu belíssimo texto nos dá uma idéia bem real do que é seguir uma carreira com fé, prazer e profissionalismo, posto que em todas as profissões (infelizmente) há os canastrões (para usar de eufemismo) de plantão.
Quanto ao jornalismo, eu como leigo, entendo que enquanto houver leitores exigentes e ávidos por noticiários “verdadeiros”, reflexivos culturais, históricos, teoricamente embasados... Haverá textos jornalísticos sérios e profundos. Claro que a vida nos reserva também, momentos leves, fúteis e de entretenimento, sendo assim, viva o jornalismo e parabéns aos heróis e heroínas que, como você, fazem desta uma profissão que ainda nos dá muito orgulho de sermos brasileiros.
Parabéns pelo texto!
Abçs.

Robert Portoquá · Adamantina, SP 12/7/2007 20:10
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Andre Pessego
 

- E eu que não sabia que tu tinhas este cabedal todo. Me lembrei dumas tiradas de quando tinha tribunas e tribunos.
- De quando David Nasser, Daton Jobim, Carlos Lacerda, Hélio Fernandes... cada um se alternavam ora numa ora noutra posição, cada qual defendendo com tal convição, o seu ponto de vita - "Pois que vamos proibir o cego de ser cego"; e outro,
"pois que decretem-se a obrigatoriedade de nascer só homens virtuosos... ".
Nem tudo é obvio, e em tudo carece uma pitada de esclarecimento. Letal, mas
- Vê MESTRE BIMBA, ele está no OVER, no banco, leva-lhe esse ar de quem sabe inspirar confiança.

Andre Pessego · São Paulo, SP 13/7/2007 12:09
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Roberta Tum
 

Nivaldo, obrigada por um comentário tão generoso. Já dizia Rainer Maria Rilke: Nada de grande se fez sem paixão. Acho que é ela que move o mundo em todos os campos. Grande Abraço!
Robert, também tenho imensa fé nos leitores.
Concordo com vc. Obrigada pela passagem e pelo comentário.
Abraço!
José, José... rs... quanta honra por vc ter lido tudo, e ainda ter gostado. Obrigada eu! Abraço!
Camarada A. Pessego...rs.. vou lá ver Mestre Bimba. Obrigada pela visita. Belo elenco este que vc chamou da memória.
Abraço!

Roberta Tum · Palmas, TO 13/7/2007 16:17
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Rafael Campos
 

Nossa! Excelente texto e caiu como uma luva pra mim, que sou estudante de jornalismo. Acredito que o jornalismo não vá morrer, mesmo com todas essas mudanças. Esta profissão é apaixonante e não dá para executa-la sem o amor que resiste a todos os perigos e crises inerentes a ela.
Um abraço!

Rafael Campos · Belo Horizonte, MG 15/7/2007 13:41
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DaniCast
 

Roberta, adorei o artigo, excelente.
Mas queria fazer uma notinha: estamos todos envelhecendo, todos os dias. É parte da vida. Tenha orgulho de ter 20 anos de profissão e tenha orgulho do que já viveu. É mérito! Se não tivesse vivido tudo isso, esse artigo provavelmente não seria tão maduro, reflexivo e interessante. ;-)

DaniCast · São Paulo, SP 15/7/2007 14:21
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Pedro de Oliveira
 

também (como o Rafael e a Priscila) sou estudante de jornalismo. concordo com você quando diz que o bom jornalismo não vai acabar. é de criatividade que precisamos, eu acho, e ìsso não deve faltar.

excelente o texto, parabéns!

Pedro de Oliveira · Brasília, DF 15/7/2007 22:01
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Hermano Vianna
 

que bom ver este debate sobre o bom jornalismo e seus novos ciberdesafios sendo aprofundado em várias colaborações aqui no Overmundo

no ano passado, viajei por várias regiões brasileiras fazendo palestras - principalmente em faculdades de comunicação - sobre o Overmundo e a produção colaborativa de conhecimento na internet

ficava sempre impressionado com o desconhecimento sobre o tema por parte dos alunos... eu pensava: "muito mais jovens do que eu, com muito mais tempo e energia para pesquisar as novidades, mas mesmo assim eu sou bem mais curioso e informado - vim aqui aprender também, mas vejo que não dá para sair do bê-a-bá..."

uma vez participei de uma tarde de debates - antes de mim falaram editores de revistas bacanas "de papel" - a platéia estava lotada, mas antes de começar a minha fala, houve uma debandada geral - tudo bem, pode ser problema comigo - mas mesmo que fosse, o esvaziamento parecia indicar que os estudantes ainda imaginam seu futuro numa redação tradicional, e que não estavam interessados em conversar sobre a web...

o que estamos fazendo aqui no Overmundo é uma grande experiência, que pode ser vista também como uma escola - estamos todos aprendendo juntos - "velhos" e "novos", em pé de igualdade - e isso me parece MUITO interessante - bom ver gente com tanta experiência na redações (como a Roberta, como a Tacilda) conversando com estudantes (como o Pedro, o Rafael, a Priscila) - acho que um espaço como o Overmundo pode fortalecer muito esse diálogo, de pessoas com bagagens bem diversas, vindas de todos os cantos do país - mas sinto que os estudantes geralmente ainda são muito tímidos, participam pouco - o pessoal da "antiga" (como eu, sem nenhum preconceito) continua mais aberto diante das novidades? é um problema brasileiro?

outra coisa: devemos sim reclamar da espetacularização das notícias etc. - mas uma coisa parece certa para mim: a indústria cultural "oficial" está também perdidinha diante da nova situação - a indústria fonográfica tradicional, por exemplo, praticamente acabou com a digitalização da música (não estou exagerando, basta ver os discursos recentes de todos seus principais executivos...) - as novidades que estão mudando o mundo da produção/distribuição cultural surgiram da cabeça de estudantes ou "outsiders" (Google, Yahoo, Napster, YouTube, Digg, del.icio.us, RSS etc. etc.) - posso estar sendo otimista ou ingênuo, mas tudo isso me leva a concluir o seguinte: não vale a pena ficar reclamando da decadência do velho mundo; temos sim é que ter as boas idéias que vão produzir o que vai ser bom no novo mundo - o ambiente atual é tão instável, que há muito mais chance para que as boas idéias (se forem realmente originais e ousadas) conquistem o mundo...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2007 03:59
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Higor Assis
 

Olá Roberta.

Sou estudante de jornalismo e recebo seu texto como uma reflexão e dica. Ainda antes de entrar na faculdade eu ja tinha um engajamento quanto a muitas coisas que o bom jornalista deve ter e pelos mesmos motivos que os teus resolvi fazer jornalismo ao invés de Ed. Física.

Tem um artigo que escrevi que está no Overmundo e chama-se A Crise do quarto poder, gostaria de uma opinião sua, pois divido a mesma preoculpação e opinião.

Concordo também com o que o Hermano colocou "estamos muito tímidos em nossas colocações" - digo os estudantes de jornalismo onde me enquadro.

Concordo também com a opinião do amigo José, não gosto desta forma de escrever lead, estás regras que mantém a pessoa em 5 linhas e depois enche línguiça o texto, matéria na minha humilde opinião pode ser bem escrito e lido sem problema algum sem ter estas tais regras e que infelizmente na universidade onde estudo é assim. Não sei se é porque eu adoro literatura e poesia, mas sinto um pudor incontestável em ser obrigado a seguir estás regras.

Claro, deve ter uma hierarquia. Enfim, na minha opinião o jornalismo impresso bom ou velho romantico ou não com o passar dos tempos será artigo de luxoi e para poucos, voltára ao seu ínicio como era antes.

Um abraço e ta votado!

Higor Assis · São Paulo, SP 16/7/2007 11:07
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Adroaldo Bauer
 

Mas bah, guria!
Que belo texto, recheado de coisas que um editor de tablóide mandaria pra sexta gaveta, e com um lidão lindo de revista grande e das boas, tipo os louros tempo da Realidade.
Querida Roberta,
Reivindico aqui antigüidade, senão primazia no tum, tum, tum bate coração, mas dividido empolgação com tantos mais o queiram assim sentir-se.

Do conteúdo, que comecei em rádio em 1975, formado que saí da Fabico da Ufrgs sem editar um jornal, que o deretor capacho da ditadura empastelava na gráfica da escola, concordo com o que dizes de uma redação grande e menos, mas muito menos silenciosa que as atuais.
Era telefone tocando, teclada batendo no ato de escrever e, eu e outros, ainda fazíamos bater o ficador de maiúsculas no ato de pensar a frase, tipo surdo de sgunda pra segurar o andamento das verdadeiras caixas de guerra que eram as pretinhas da era mecânica.

O que teria mudado a partir de 1980 com o fim da censura direta dos milicos e seus capachos direto nas redações em relação ao jornalismo?

Aqui no Rio Grande os chefes da quartelada convocaram os donos grandes, médios e alguns pequenos de jornal, rádio e tevê, reuniram, mostraram a programação de uma emissora e pessaram a última ordem-do-dia assim:
A censura à imprensa acabou, agora é com vocês, mas não dá pra ser rádio albânia como acabaram de ouvir.
Eu trabalhava naquela emissora.
A programação era só notícia e reportagem sobre tudo da vida, 24 horas no ar, investigação, denúncia, arroubos juvenis e cultura, além de esportes, muito menos quantidade quel qualquer emissora de hoje dá a badminton e taequendô.
Não duramos mais 90 dias.
Os milicos entrados em 64 pelas mãos lacerdistas, magalhanistase outras golpistas deixariam o proscênio dando a tesoura de solange aos proprietários.
Como rádio, jornal e televisão é a voz do dono
(mesmo que seja dono de um reles concessãozinha pública
- que ninguém toma, é minha ou te derrubo daí seu merdinha frouxo!,
trata-se de fazermos nós a propriedade democrática dos meios, sob pena do jornalismo que pelaí anda continuar achando que é bom.
Se é único...

Parabéns, Roberta!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 16/7/2007 12:42
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Deak
 

Roberta, muito bom o teu texto, que dá continuidade ao debate. Acho que esse ponto de vista é unânime: o bom jornalismo não pode morrer. E não creio que vá, pois sempre haverão os devotos de Aloysio Biondi e Marcos Faerman por aí (e me incluo entre eles). [Talvez tenha conhecido o Biondi na passagem pelo Diário da Manhã – inclusive, publicamos um livro em Creative Commons sobre essa experiência, o Vozes da Democracia, que sugiro o download].

Mas concordo totalmente com o Hermano Vianna: vivemos tempos instáveis, e eu diria até revolucionários. Mais do que nunca, os jovens jornalistas – e os velhos também, por que não? - têm a chance de mudar o jornalismo. Tirar ele das mãos das velhas famílias que estão aí desde o Gutemberg. Aliás, nem mesmo jornalistas precisam ser esses novos revolucionários da comunicação. Que dizer do OhMyNews? Da Wikipedia?

O Overmundo, inclusive, é uma revista de cultura muito melhor do a maioria – pra não dizer todas – as que estão nas bancas.

Ainda tenho um fetiche que peguei na faculdade, o fetiche do impresso. Legal, o texto impresso lá no papel, uma ilustração bonita, seis, oito páginas. Mas me forço a ver que existem outras formas de contar histórias, cada vez mais utilizadas e apropriadas pelos meninos e meninas que já vem com um chip multimídia instalado de fábrica. Nós, que se temos mais do que 20 anos, já somos dinaussauros, temos que ter em mente que o alcance de uma história multimídia terá infinitamente mais alcance – e será menos efêmero – do que o texto do jornal.

E esse sim, não muda: vai embrulhar peixe no dia seguinte.

Deak · Brasília, DF 16/7/2007 12:50
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Karina Francis
 

Ro parabéns, belíssimo texto...saiba que é muito bom ter a oportunidade de mesmo que seja em poucos momentos aprender com você...
karina francis

Karina Francis · Palmas, TO 16/7/2007 16:02
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Savazoni
 

Oi Roberta,

Fazendo coro aqui com o Hermano e com o Deak, na minha avaliação, esse debate não deve ser feito com base em nossos desejos. O "bom e velho jornalismo", expressão usada por 10 entre 10 jornalistas que insistem em exercer o monopólio da fala e que reagem de forma "convervadora" aos avanços propiciados pela internet (encastelados em redações cada vez mais distantes da realidade brasileira), está em decomposição.

Isso não significa que o jornalismo, a primeira das profissionais políticas remuneradas, ou esse filho das luzes, não será reprocessado no caldeirão multicultural do mundo novo. O jornalismo, como diz o Dan Gilmour, deixou de ser uma palestra, para se tornar um diálogo. Já está no caldeirão, trazendo para quem quer construir um mundo muito melhor que este noções básicas de comportamento ético que, ao fim e ao cabo, devem reger o comportamento de qualquer indivíduo quando este vive em um coletivo.

Palestras são enfadonhas, mesmo quando aquele que as profere é alguém com vasto conhecimento sobre o tema. Porque há, geralmente, em qualquer evento, muito mais vida inteligente e diversa na platéia do que no palco.

É isso que a internet permite: a vitória da platéia sobre o palco, do diálogo sobre o monólogo. da multidão sobre as corporações familiares. Com o benefício da liberdade, porque quem está na platéia, quem quer fazer monólogo e as grandes corporações também estão na internet.

Esse novo jornalismo dialógico e multimídia (que eu chamaria de jornalismo livre) é uma realidade. No mês de abril, segundo dados do Ibope Net Ratings, a Wikipedia atingiu cerca de 1 milhão de visitantes únicos mais do que o G1 da Globo. Essa é a força da colaboração.

Por fim, pergunto a você, Roberta, quantos textos, dos que você escreveu nos jornais pelos quais passou, lhe propiciaram um debate público franco, construtivo e aberto como este? Espero que muitos. Mas eu tenho certeza que o retorno foi bem menor.

Savazoni · Brasília, DF 16/7/2007 16:19
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Andre  Intruso
 

Seu texto me fez ler com o coraçao na boca!

Andre Intruso · Jaboatão dos Guararapes, PE 16/7/2007 17:19
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FILIPE MAMEDE
 

Poxa Roberta, que texto bacana. Parabéns pela trajetória. Espero trilhar um caminha parecido com o seu. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 17/7/2007 09:57
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jujuba
 

"Quando eu comecei (....) tinha 16 anos e muitos sonhos na cabeça. Um deles era mudar o mundo."

Isso é tão típico... mas incontestávelemnte verdadeiro. Às vezes penso: não é muita arrogância da nossa parte querer mudar o mundo? Quer dizer... se o mundo não quer mudar, o que podemos fazer?

Acho que precisamos começar mudando nós mesmos.

No mais, ótimo texto! Eu, que tô no terceiro ano de jornalismo, fico meio comovida! Putz, será que vou aproveitar essa facul?

jujuba · Santo André, SP 17/7/2007 10:12
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Marcos Paulo
 

Quem deve mudar: o jornalismo ou jornalista?

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 17/7/2007 11:10
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TerryKay
 

Eu tenho 33 anos, e ainda tento mudar de vez em quando, mesmo dando cabeçadas...quem tem isso na veia geralmente não descansa mesmo

TerryKay · São Paulo, SP 17/7/2007 11:33
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Egeu Laus
 

Belas reflexões, Roberta.
Só não sei onde foram parar os bons e belos textos dos cadernos de cultura. Aqui no Rio isso só existe ocasionalmente. Aliás os cadernos de cultura também não sei onde foram parar...
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 17/7/2007 12:54
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Higor Assis
 

Boa Egeu : ).

Jujuba, também tenho esta sensação.

Higor Assis · São Paulo, SP 17/7/2007 13:30
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Sérgio Franck
 

Oi, Roberta. Parabéns pela trajetória no jornalismo, parabéns pela paixão demonstrada pela sua profissão no texto. Gostaria de dizer algo bonito que sempre ouvi dizer alguém muito especial: As pessoas não envelhessem, metamorfoseam. Porque velhice é coisa para os objetos.
Gostaria de pedir perdão por um comentário preconceituoso meu postado naquela matéria do Deak. As pessoas têm o livre direito de se declararem o que quizerem, pois, paixões são paixões e escolhas idem.
Como vc mesma disse: Que o bom e velho jornalismo sobreviva, e conviva com o novo. Este novo em mutação que tem tanto a aprender.
Tolerância é um dos preceitos básicos para a boa democracia. E se algo existe, é porque tem quem goste. Sei do peso do peconceito porque sou tetraplégico, sei onde o mesmo dói.

Parabéns, Patrícia. Um abraço.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 17/7/2007 15:17
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jujuba
 

Pozé, Higor!

No meu caso eu tenho 22 anos (neste mundo de mudanças a todo instante, já tô velha!) e já meio que tô quase desistindo de jornalismo sem nem efetivamente ter começado - se me dessem a chance de começar. Mas vamos ver... sempre há esperança, certo?

jujuba · Santo André, SP 17/7/2007 15:18
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Roberta Tum
 

Bem, depois de alguns dias sem acessar, vejo que o debate pegou fogo!Ótimo!
Esta pluralidade de opiniões é muito rica. Principalmente quando há respeito pelas diferenças.
Quero agradecer a tantos comentários positivos, elogiosos, de gente que compartilha do mesmo sentimento sobre o bom...e
velho (rs) jornalismo.
Quero só deixar claro aos que desgostam do velho, que também amo o novo, e BOM jornalismo. desde que seja bom.
Adoro a internet, mantive nela uma versão do meu jornal impresso, o Alô Galera, que saiu do ar há um ano.
mas os projetos continuam, e acredito muito na rede como forma de encontro, comunicação, troca de informações, relacionamento.... na verdade a discussão nem era essa.
Acho que as duas vias não se contrapõe, mas respeito as opiniões diversas.
Quanto ao fato de que o jornal do dia seguinte serve para enrolar peixe: que bom! pelo menos para isso....rs.
Com certeza o que sobra dele depois de recortado.
No mais, o debate continua.
A internet, pelo menos neste formato, permite que a gente conheça as opiniões de quem lê.
Nos tantos anos de jornal, a reação vinha na rua, na volta aos locais de cobertura, e dependendo da polêmica, em cartas e artigos de volta para redação.
É assim mesmo, os tempos mudam, mas o âmago das coisas, continua...
Abraços e obrigada pelos comentários e votos!

Roberta Tum · Palmas, TO 17/7/2007 16:00
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Noelio Mello
 

Roberta.
Na minha juventude trabalhei durante alguns num jornal que o tempo já levou. Sua matéria é fascinante, muito bem escrita, brilhante.
Mesus textos eram escritos em velhas maquinas de escrever. Mas a redação tinha cheiro de papel, de jornal. De tinta que escrevia manchetes rubras como o nossos coração.
Parabéns.
Noélio mello

Noelio Mello · Belém, PA 17/7/2007 18:57
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Roberta Tum
 

Obrigada Noélio, vc é sempre tão generoso neste olhar sobre as coisas. Nosso rubros corações têm muito em comum.
Bj

Roberta Tum · Palmas, TO 18/7/2007 19:08
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BETHA
 

Isso mesmo, o novo em mutação, mas jamais abandonar o velho.
Com o exercício da boa convivência.
Parabéns...

BETHA · Carnaíba, PE 19/7/2007 13:28
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marcio rufino
 

Bravo, Roberta, bravo,

querida amiga, se antes eu já te admirava depois desse admirado e amirável, grande e grandioso artigo, a admiração passou a ser absoluta. Você acabou de contar boa parte da história da nossa geração e é muito bonito saber que apesar de sermos chamados de individualistas, alienados e bitolados pelo computador e a internet, temos histórias para contar, não importa se boa ou ruim, mas história reais, concretas, verdadeiras.
Isso aí, amada, parabéns.

Bjs!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 20/7/2007 01:48
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clara arruda
 

Exelente texto,não esperava menos de uma pessoa como você.Me avisa sempre para que eu possa ver e votar.
Tenho uma grande paixão,coleciono várias manchetes.
Ler seu txto me devolveu um pouco da memória....
Obrigada.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 14/3/2008 05:37
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Matias Alvez
 

Eu particularmente adoro escrever, adorei a matéria, parabéns muito bem redigida, e você tem toda razão, o bom caráter continua fundamental.

Matias Alvez · São Paulo, SP 17/5/2013 13:04
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