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O Brasil dos argentinos

Pedro Santos
Brasil x Argentina - a disputa no bar brasileiro de Córdoba acaba em caipirinha.
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Pedro Santos · Florianópolis, SC
7/8/2009 · 37 · 11
 

Na casa da rua Ituzaingó, 1480, na cidade de Córdoba, Argentina, costuma-se ouvir, todas as tardes, o ruído característico da enceradeira da empregada Graciela Villalba, conhecida como Graci. O barulho da limpeza se confunde com as vozes artificialmente dubladas na televisão, onde está passando a novela Páginas da Vida.

Graci não conhece o Brasil - ou melhor, nunca veio para cá. Sua relação com brasileiros foi construída de duas formas. Primeiro, pelas novelas, que conquistaram o interesse dela há treze anos, quando Pantanal foi exibida na tevê aberta argentina.

“Eu lembro que se passava na floresta, as imagens eram muito boas e as canções também”, lembra Graci, que tem 56 anos. “Todo mundo assistia. Eu subia no ônibus e escutava as pessoas falando ‘tenho que ir rápido para casa ver Pantanal.” Depois disso, ela virou uma admiradora de nossas novelas. “Eu gosto das imagens das cidades brasileiras e das mensagens que elas transmitem.”

Além das novelas, Graci construiu uma visão do Brasil a partir dos contatos com brasileiros que vão morar ali. Por um convênio entre a Universidade Nacional de Córdoba e universidades brasileiras, a casa da rua Ituzaingó sempre abriga mais brasileiros que estudantes de outras nacionalidades. Até julho deste ano, viviam dezesseis intercambistas - oito brasileiros, três argentinos, uma equatoriana, uma uruguaia, um paraguaio, um colombiano e um mexicano. Há dois anos, Graci trabalha na residência em que o número de habitantes brasileiros sempre supera a quantidade de outros estudantes. Ela conta, entusiasmada:

- Estou todo o tempo com pessoas do Brasil. São garotos que chegam aqui, ficam um semestre, se vão e logo vêm outros. Eles me contam sobre o clima, sobre seus costumes, às vezes fazem almoço e eu provo as comidas, como a feijoada (risos). Muito boa!

Mas quando Graci começa a estabelecer uma relação com os intercambistas, conhecendo - como só uma empregada doméstica pode conhecer - os hábitos, os costumes e a forma de pensar deles, chega o fim do intercâmbio e os estudantes são substituídos por outros, com hábitos, costumes e pensamentos diferentes.

Mesmo assim, Graci imagina que as pessoas no Brasil são, de alguma forma, mais liberais. “Não conheço muito da cultura brasileira. O que sei é da parte linda, que vejo na televisão, e o que eu vejo de vocês. Vocês não têm preconceitos”, opina. “Vejo os casamentos nas novelas. Ali se permite que um casal que se divorcie continue sendo amigo, tendo uma boa relação, inclusive, com os novos namorados. Não sei se é porque são novelas, mas vocês são mais liberais. No Brasil se pode viver com mais liberdade.”

“Na casa de um brasileiro, sempre há livros brasileiros”
A capital da Argentina está a dez horas de ônibus de Córdoba. Na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires 2008, que aconteceu em maio, o Brasil estava representado por um estande da Embaixada Brasileira. A estudante de Letras Julia Tomasini, uma jovem argentina de cabelo vermelho-vivo, era uma da cinco atendentes que sugeriam literatura brasileira para as pessoas que chegavam, atraídas pelas cores vivas do estande, pelas aulas de português que eram dadas todos os dias ou por qualquer outro motivo.

Não é à toa que Julia foi trabalhar ali. Há muito ela admira a Literatura Brasileira, desde que começou, como grande parte dos argentinos quando querem conhecer nossa literatura, pelo escritor baiano Jorge Amado. Em seguida, vieram Rubem Fonseca, Daniel Galera e Caio Fernando Abreu. “Agora estou buscando uma versão de Grande Sertão: Veredas, mas me assustei com o que as pessoas diziam sobre o livro”, confessa ela, entre um e outro cliente que vem procurar obras brasileiras. “Me deram de presente o Primeiras Histórias e disseram: ‘comece com esse para acostumar com o vocabulário de Guimarães Rosa’”, completa.

Por isso, a visão que ela faz sobre a cultura brasileira está baseada nos livros brasileiros que leu, sejam eles escritos em espanhol ou mesmo em português. “Somos todos latino-americanos, mas vocês têm uma visão mais positiva que a gente e levam com muito orgulho seu país, têm orgulho de serem brasileiros. Sempre há livros brasileiros na casa de um brasileiro. E música brasileira!. Vocês têm um conhecimento mais profundo da América Latina.”

Ao contrário de Julia, Darío Aguillar vê a cultura brasileira de um modo mais ambíguo. No Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, também conhecido como MALBA, ele trabalha como guardador de salas, e tem a função de tomar conta dos amplos salões do museu e, também, de conversar com os visitantes, tirando dúvidas e explicando os quadros que estão ali. Como em Abapuru, da artista brasileira Tarsila do Amaral, comprado pelo MALBA em 1995.

Quando viu Abapuru, Darío não entendia porque o corpo pintado é tão grande e sempre se perguntou o motivo do sol em forma de laranja. Então, ele começou a ler coisas sobre o Modernismo Brasileiro e o Movimento Antropofágico e ficou muito interessado por outros quadros brasileiros. “A obra é meio enigmática. Eu não entendia porque o corpo era tão grande, a deformação. Depois comecei a ler as coisas da Antropofagia e me despertou grande curiosidade. A pintura é muito característica do Brasil, há muita cor, simbologia com a cultura brasileira”, explica, com autoridade de quem também pinta quadros nas horas vagas.
Darío nunca foi ao Brasil. Mesmo assim, tem certeza de que somos um pouco contraditórios: a alegria característica, mostrada nas cores de nossos quadros, em contraposição com uma melancolia, segundo ele, presente nos acordes de violão da Bossa-Nova.
“Tem uma ambigüidade. Alegria, muito colorido, muito ritmo. E a Bossa-Nova é uma tristeza dramática, desesperada da vida. Vocês como que aceitam que a vida pode ser triste, mas tentam viver de maneira alegre, com gosto pelas mulheres, pelas praias.” E confirma, pronunciando as palavras calmamente: “Vocês sabem que o remédio para a tristeza é ser alegre.”

Mais rivalidade por parte dos brasileiros
Na casa da rua Ituzaingó, 1480, mora um rapaz que não está de intercâmbio. Rinaldo Affaticatti nasceu no sul da Patagônia e veio a Córdoba para estudar Psicologia. No começo, ele não sabia que a pensão em que ia ficar era destinada para intercambistas. Mas logo ele foi se acostumando com a mistura de hábitos de gente tão diversa como um norte-americano que fumava maconha dentro de uma maçã e uma brasileira com transtorno bipolar.

- A idéia que eu tinha do brasileiro antes de conhecer se confirmou completamente depois que eu comecei a morar aqui. Brasileiro é pura festa. Nunca está triste. Vocês são mais abertos, muito mais extrovertidos, mas são pouco desconfiados. O brasileiro conta coisas que a gente só conta depois de conhecer muito bem a pessoa. Vocês confiam demais e muito facilmente.

Rinaldo sempre teoriza sobre as coisas a seu redor, atitude característica de um psicólogo forense, profissão que pretende seguir. Para comprovar sua tese, ele conta o que aconteceu com a turma do ano passado:

- Os brasileiros do semestre anterior não viam perigo em nada, achavam que podiam confiar em todo mundo e fizeram uma festa em que cobravam dois pesos na porta. Entrava qualquer um. Tinha, fácil, fácil, 300 pessoas na casa. O resultado veio no dia seguinte: a maior bagunça e o roubo de uma câmera, dois i-pods e 500 pesos. E aí, a quem a gente podia reclamar? A ninguém.

Rinaldo ficou na casa até agosto, quando se mudou para um apartamento, cansado da troca semestral de habitantes da pensão. Antes disso, porém, ele dividiu a casa com várias pessoas, incluindo Rúbia Beraldo, estudante de Engenharia de Alimentos na Unicamp. Ela, como grande parte dos brasileiros que vêm morar na Argentina, não esperava ser bem recebida.

- A primeira coisa que as pessoas me perguntavam, no MSN, quando eu cheguei aqui era: ‘Eles estão te tratando bem?’ Não achei que eles iam me tratar mal, mas também não esperava tanto. As pessoas adoram a gente e falar que somos brasileiros é um cartão de visitas em qualquer lugar. No começo eu achava que tinha a tal rivalidade como a gente vê no Brasil. Mas foi totalmente diferente. Receberam a gente muito bem, ainda mais depois de saber que somos brasileiros. Eu acho que a rivalidade é mais dos brasileiros que dos argentinos.

Depois disso, ela até quis cortar o cabelo em estilo porteño, com as franjas curtas sobre a testa.

Coração argentino e sangue brasileiro
No único bar brasileiro de Córdoba, o barman que trabalha ali é um argentino apaixonado pela cultura brasileira. Andrés Correa tem uma paixão inexplicável pelas coisas daqui. Seu primeiro contato foi com a música de Roberto Carlos, que sua mãe lhe mostrou quando ele tinha oito anos. Em seguida, ele aprendeu a falar português assistindo a Xuxa e a Mara Maravilha, em uma época em que elas faziam sucesso na Argentina.

- Os argentinos pensam que falar português é falar tudo com “-inho” no final - cafezinho, coraçãozinho, como os jogadores de futebol que fazem sucesso, como Ronaldinho. E também em palavras com –ão: sensação, coração. Para mim o português tem um som nasal, um som muito sensual.

Na adolescência, o amor pelo Brasil foi se desenvolvendo. Andrés chega ou ao ponto de acordar de manhã e se imaginar no Brasil, ou ligar a televisão para ver o tempo que faz nas cidades brasileiras.

- Quando você gosta de alguma coisa, você gosta muito. Como diz Paulo Coelho, o universo conspira a seu favor. Eu estou conectado. Estou sempre vendo alguma coisa que se refere ao Brasil. Em um momento, eu me levantava, ligava a televisão e em vez de ver o tempo de Córdoba, via o tempo de São Paulo, Rio de Janeiro.

Até que foi ao Brasil em três viagens diferentes: em 2000 e 2006 para Florianópolis, e em 2008 para visitar São Paulo. A emoção ao cruzar a fronteira Argentina-Brasil só não foi igual à angústia que sentiu no momento de voltar a seu país. Quando viu a bandeira brasileira, ele se emocionou de chegar e ver tudo da forma como imaginava. “Voltar foi mais comovente, porque era como alguém tivesse me tirado algo. Senti muita angústia. Quando termina alguma coisa linda as pessoas ficam tristes.”

Todo esse contato com o Brasil faz com que Andrés estabeleça uma comparação entre brasileiros e argentinos. Para ele, os argentinos têm uma ligação mais próxima com a família, enquanto que os brasileiros são mais independentes. Eles preservariam mais um grupo de amigos fiéis, enquanto que nós vivemos de momentos.

- Vocês vivem o agora, o hoje. Saio contigo e amanhã talvez eu nem me lembre de você. Isso é uma coisa de que eu não gosto muito.

Os amigos argentinos de Andrés não entendem a paixão que ele tem pelo Brasil. Alguns tiram sarro, principalmente em relação ao futebol, mas, nesse tema, ele é cem por cento argentino. No futebol não tem discussão, mas, no geral, ele se define com a seguinte metáfora: o coração argentino e o sangue brasileiro. O coração como a parte que dá a vida e representa o lugar em que ele nasceu, e o sangue como aquilo que o deixa vivo: a paixão pelo Brasil faz o corpo de Andrés mover.

O carinho, o respeito e às vezes até a paixão pela cultura brasileira, são características que poucos brasileiros poderiam esperar dos argentinos. O Brasil está presente no imaginário argentino de muitas formas, por mais estranho que isso possa parecer...

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Viktor Chagas

Opa, Pedro,

Que relato bom! Temos tanto a falar sobre as relações entre a cultura brasileira e a cultura argentina (e também sobre as relações entre a nossa cultura e a latino-americana) que é sempre muito bom ver um texto como esse dando os ares da graça no Overmundo. Fica o convite para quem mais quiser tecer essas relações! :)

Lembro (e lembrei durante a leitura, é claro) deste também ótimo artigo do Sergio Rosa, sobre a Copa do Mundo assistida com o "inimigo". :)

E a dúvida final: qual a tua posição no texto? Você é também um intercambista? Senti falta (mas isso não atrapalha nem um pouco na qualidade do texto) de saber um pouco como é que foi construir esta pauta, de que lugar você fala e tudo o mais... Contaí.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2009 11:41
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Ilhandarilha

Li de cabo a rabo seu ótimo texto. Ele abre uma nova perspectiva na relação Brasil x Argentina, sempre confundida pela mediação da rivalidade no futebol. Eu acho que a gente, talvez por causa da língua, é isolado na América Latina e não sabe muito sobre nossos vizinhos. A gente sabe mais do que acontece na Europa, no continente africano e no oriente do que o que acontece aqui "do lado" nos países latino-americanos. Muito bom ter esse seu ponto de vista.
abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 8/8/2009 15:53
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Fábio Neves

Oi Pedro,


Muito interessante sua matéria.
Na minha opinião é sempre bom conhecer alguma referência externa sobre a nossa forma de viver..

Parabéns"

Fábio Neves · Rio de Janeiro, RJ 8/8/2009 16:53
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ayruman

Belo postado. Bem elaborado, dinâmico...
Abraços e Paz entre os Povos. jbconrado.

ayruman · Chapada dos Guimarães, MT 8/8/2009 20:32
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Charles Antonio

Pedro, ótimo conteúdo! É interessante este intercambio cultural entre Brasil e Argentina! Fica o meu voto e acompanho a espera de mais postagens tão boas quanto essa!

Charles Antonio · Magé, RJ 9/8/2009 01:51
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Paulo Campos

Pedro, seu texto é ótimo. Dá uma ideia sobre os preconceitos dos brasileiros em relação aos argentinos. Me sinto emocionado nesse instante pois também morei nessa casa. Conheço seus personagens, como o Rinaldo, a quem chamava de "Rinaldito Gaucho", e a Graci. Como foi bom recordar da Calle Ituzaingó, da amabilidade do povo argentino, do estranhamento brasileiro à receptividade, do carinho argentino, do jeito de levar a vida sem pressa, de se relacionar... Só trago boas recordações de lá. Por isso fiquei emocionado e muito, muito, feliz de ler logo de cara no overmundo. Sou músico e estive por lá durante 6 meses estudando, coisa que só foi possível pois fui pela minha universidade que é pública. Talvez nunca mais eu volte à Argentina ou vá ao exterior. Por isso, busco através das minhas práticas artísticas, tocando, compondo, manter acesso alguns dos ensinamentos que trago desta época, como o respeito à diversidade e diferença. Um abraço e obrigado pela emoção proporcionada. Seu texto dá a noção exata do que é ser Graci. Gracias.

Paulo Campos · Belo Horizonte, MG 9/8/2009 21:33
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Paulo Campos

Só acrescentando: sugiro a você fazer um texto sobre o ponto de vista dos intercambistas brasileiros que lá estiveram contrapondo ao dos intercambistas de outro países. Já teve de tudo... Por isso seria interessante. Dá pra rolar via net. Só sugestão, ok?

Paulo Campos · Belo Horizonte, MG 9/8/2009 21:37
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Helena Aragão

Também adorei. Ótima ideia essa de conversar com gente que só conhece o Brasil pela TV e pelos brasileiros que passam por lá. Muito engraçado o relato sobre a falta de medo dos brasileiros, que beira a ingenuidade. É verdade, quando viajamos para fora tendemos a achar que nada pode ser tão perigoso quanto as nossas ruas. O importante é o pessoal ir se conhecendo e desmontando certos estereótipos. Ainda assim, é bom saber que a maioria deles acha os brasileiros alegres por natureza.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 10/8/2009 15:06
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Francisco Arlindo Alves

gostei do texto. Interessante

Francisco Arlindo Alves · São Paulo, SP 10/8/2009 19:01
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Cláudia Campello

Somo todos manos!
Um texto inteligente e empolgante.
gostei mesmo.
bjssss

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 10/8/2009 23:49
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ella:maria

Hola! pedro, impressionante a precisão!eu sou estudante brasileira e estou em córdoba fazendointercambio de linguas,posso connfirmar que me sinto exatamente como Rúbia.Na verdade vim a seu bloog porque busquei no google registros de brasileiros em córdoba,estou querendo conhecer alguém por aqui com quem me identifique.Agora,graças a seu escrito vou até este endereço.obrigada, e parabéns!

ella:maria · Natal, RN 6/5/2010 20:30
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