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O Canto do Bode

Joana Mattei
1
Maurício Alcântara · São Paulo, SP
26/6/2007 · 127 · 6
 

Pegue três tragédias gregas (recomendamos Agamênon, Coéforas e Eumênides, de Ésquilo), tempere com a história dos países latino-americanos no século XX, um pouco de Brecht e enfeite com uma pitada da realidade do teatro paulistano. Bata tudo isso em um grande liquidificador (certifique-se de que está tampado, pois essa mistura é um tanto explosiva e pode fazer uma baita meleca). Beba tudo de uma única vez.

É esta a sensação que temos ao assistir Orestéia - O Canto do Bode, montagem que o grupo Folias escolheu para comemorar seu décimo aniversário. O projeto é ambicioso e perigoso (pra não dizer maluco mesmo...): os riscos de se enroscar em algum clichê são altíssimos, mas a companhia passa praticamente ilesa por este abismo. Entrar no galpão do grupo equivale a colocar o copo deste liquidificador na boca e abrir a goela para três horas de uma viagem absolutamente maluca.

A montagem, conduzida por um excelente palhaço-corifeu (ou seria um corifeu-palhaço?) interpretado por Dagoberto Feliz, conta a história do povo de Argos, desde a partida do rei Agamênon até o julgamento de seu filho Orestes pelo crime de matricídio. Entre esses dois acontecimentos, como já bem alertava o palhaço Dagoberto na bilheteria, "acontece a maior desgraceira", como em toda boa tragédia.

O paralelo entre o clássico grego e a realidade latina acontece muito graças à universalidade do texto de Ésquilo, mas não se pode negar a competência da encenação que utiliza todo o imenso espaço cênico com maestria, dos belos figurinos, da eficiente iluminação e sobretudo de um elenco muito bem entrosado. Mas apesar da ambientação histórica, o passado recente latino-americano acaba servindo muito mais como referência estética, pois a história grega ainda sobressai com muito mais força na montagem, e isso não quer dizer que a proposta se perca.

Longe disso: as imagens que se formam revelam um trabalho magnífico realizado por todos os atores, que embarcam fundo nas soluções (e pirações) cênicas propostas. E mesmo as idéias mais arriscadas acabam funcionando: quem diria que Orestes sendo recebido por um bando de hippies do qual faz parte sua irmã Electra ficaria bacana? Acreditem, esse visual Hair em temática grega funciona. Assim como uma divertida Clitemnestra interpretada pelo ator Danilo Grangheia, que beira a bizarrice de uma drag queen.

No fim das contas, o espetáculo é tão bem produzido e há tamanha entrega por parte dos atores, que há muito poucas ressalvas que podem ser apontadas. O tamanho do projeto confunde um pouco a platéia e certamente confundiu ainda mais os criadores, e após o intervalo há uma quebra considerável na linguagem da narrativa, sobretudo com uma projeção um tanto deslocada de imagens de outros grupos de teatro paulistanos. Mas nada disso consegue tirar o brilho desta montagem, embalada por uma trilha sonora que vai desde uma faixa obscura e experimental do produtor francês Laurent Garnier, passa por Beatles e chega a ter obviedades como Cazuza e Caetano e citações de Chico Buarque, que apesar de serem clichê, são altamente releváveis no contexto desta grande produção.

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Maurício Alcântara
 

Originalmente publicado na Revista Bacante.

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 22/6/2007 18:03
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Andre Pessego
 

Legal, quando... andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 24/6/2007 21:03
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Maurício Alcântara
 

Oi André!
Desculpe, mas não entendi direito seu comentário, hehehe...
Grande abraço!

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 24/6/2007 22:13
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marcio rufino
 

Por mais louca que uma montagem teatral pareça ser, sempre vale a pena lutar para levantá-la e dar a cara a tapa.
Belíssima matéria, Maurício e viva o teatro brasileiro!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 26/6/2007 18:33
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Maurício Alcântara
 

Márcio,
Eu diria mais: sou da opinião de que quanto mais louca a montagem, mais legal! Claro que é necessário haver um critério, e quanto mais loucura, maior o risco de cair na pretensão vazia e no hermetismo. Mas quando o grupo consegue ultrapassar esses obstáculos, em geral as propostas ficam fantásticas. E particularmente, são as que mais gosto. Chega de formalismos, de interpretações impostadas e do naturalismo estéril da novela das oito!
Abraços e obrigado pelo comentário. E viva o teatro brasileiro!!! Evoé!
Maurício

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 26/6/2007 18:42
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marcio rufino
 

Talvez Mauricio, a pretensão vazia e o hermetismo podem ser interessantes, dependendo da proposta.
Um grande abraço!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 28/6/2007 18:36
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