O Carnaval acabou?

(CC BY-SA) Fora do Eixo
Foliões ocupam as ruas de São Paulo em blocos e cordões
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Mariana Ghirello · São Paulo, SP
22/2/2013 · 5 · 2
 

Há quase cem anos nasceu o primeiro cordão de São Paulo organizado por Dionísio Barbosa, no bairro da Barra Funda. De lá pra cá, o carnaval de rua teve altos e baixos, mais baixos do que altos, devido a forte repressão contra os negros. Escravo livre veio para a cidade em busca de oportunidades e inspirado com as festas cariocas convidou a família e foi para a rua sambar. "São Paulo é o túmulo do samba", disse Vinícius de Morais ao criticar a reprimida noite paulistana, com razão, durante muitos anos a tradicional manifestação popular foi proibida ou diminuída.

Este ano a cidade resolveu contrariar o compositor carioca e colocou mais de 50 blocos e cordões nas ruas com animação, alegria, brilho, música e fantasias. A folia oficial mais esperada do ano acabou, mas sem deixar o clima de "fim de festa". Além de ter demonstrado que é possível ocupar culturalmente o espaço público, São Paulo reinaugura uma nova época e já articula saída de vários outros blocos ao longo do ano.

Confira as fotos da cobertura colaborativa dos blocos


Quem não estava acostumado com o carnaval de rua, se engana ao pensar que os blocos surgiram neste ano. Parte da tradicional cultura paulistana, eles sempre existiram, é o que explica o arte educador e pesquisador das culturas populares Leandro Medina. Ele também integra o cordão Kolombolo Diá Piratininga que tem o objetivo de resgatar a cultura e o samba típico paulista.

"Dionísio Barbosa pegou o auge desse movimento e em 1914 criou o primeiro cordão carnavalesco de São Paulo, o Cordão da Barra Funda, que depois virou o Camisa Verde, e posteriormente o Camisa Verde e Branco". Medina conta ainda, que essas manifestações aconteciam em bairros consideradas "pequenas Áfricas", como era na Barra Funda. A cidade cresceu pautada por uma ideia "higienista" e retirou os negros dessas regiões. "A Liberdade que era um bairro negro virou um bairro japonês e as coisas se transformaram com tanta crueldade que acabaram criminalizando as manifestações culturais dos negros", afirma.

Segundo o pesquisador, nas cidades de Bom Jesus de Pirapora e Santana do Parnaíba houve resistência e a cultura se manteve. Contudo, somente por volta de 60, quando Faria Lima era prefeito de São Paulo houve um movimento de legitimação e legalização dos blocos de rua. "E como não tínhamos nenhum modelo ele foi copiado do Rio e começou cariocalização do carnaval de São Paulo, mas o samba daqui tem característica do samba de bumbo, o que é diferente do samba do carioca".

Manifesto Carnavalista


Com o passar dos anos, por conta dos investimentos públicos focados nas escolas de samba, os recursos ficaram pequenos e a manifestação popular chegou a ser proibida pela prefeitura. Foram articulações de quem não se contenta com o que está posto que deram o colorido para a cidade e reavivaram o exercício cultural da cidadania.

A preparação começou no final do carnaval do ano passado, quando blocos que não estão vinculados a associações que regulamentam o carnaval se reuniram e decidiram fazer o Manifesto Carnavalista, após serem impedidos pela prefeitura de ocuparem as ruas. A falta de estrutura e a proibição não iam impedir, desta vez, que os blocos saíssem e alegrassem os foliões.

E foram muitos, animados, dançantes, criativos, coloridos que começaram a aquecer os tamborins várias semanas antes do carnaval oficial. O resultado foi uma festa livre da cobrança de ingressos caros e do simples espectador, que retomou seu papel de participante. Todo mundo pode viver uma fantasia, sem pagar caro por ela. "Esse apartheid não pode existir. Carnaval onde pessoas brancas ficam seguras nos blocos e acotovelam os negros que ficam fora do cordão", disse Medina.

Caiubi Mani, do Fora do Eixo e do Unidos Cambuci, também participou da organização do Manifesto. Ele afirma que os blocos têm papel importante na "vivencia intensa de uma atividade cultural e artística onde as pessoas interagem e se envolvem". Ele explica que o manifesto tem como foco a ocupação do espaço público compartilhado.

"O samba em são Paulo começou primeiro na rua e depois foi para as escolas de samba. Aqui a tradição de rua ficou reprimida, o que gerou a ansiedade nos blocos de criar esses movimentos", diz. Mani destaca que os espaços de convivência e produção cultural foram, aos poucos, foram sendo segregados e que o Manifesto vai contra essa separação. "E ele subverte porque pega o espaço que está à margem da dinâmica e coloca tudo isso no centro da produção simbólico cultural".

O resultado dessa articulação começou a ser vista no dia 15 de dezembro do ano passado quando o Manifesto Carnavalista deu o ponta pé inicial, com um ato na Vila Madalena. Como não poderia deixar de ser, vários blocos se reuniram e levaram animação para aquela tarde chuvosa. Que chuva?

Outra grande novidade foi o Carnaval de São Paulo durar mais de uma semana. O fim de semana que antecedeu o período oficial já estava animado. E todos os dias os foliões puderam encontrar onde sambar.

*Texto alterado 22/2/13, às 20h54 para correção de informações

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Pattoli
 

Muito bom o texto. Apenas duas pequenas correções: mais de 50 blocos foram às ruas neste ano (2013); Dionisio Barbosa fundou o Cordão Barra Funda, que se vestia com camisas listradas verde e branco. Ao ser fundada, a escola homenageou esses foliões, que foram perseguidos pelo governo de Getúlio.

Pattoli · São Paulo, SP 22/2/2013 14:54
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Mariana Ghirello
 

Valeu Pattoli!

Mariana Ghirello · São Paulo, SP 22/2/2013 20:57
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