O Charles Chaplin de Itararé

divulgação
Georgitos, personagem criado por George de Souza, o "Chaplin de Itararé"
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Ricardo Fela · Sorocaba, SP
15/3/2008 · 157 · 4
 

Nas cidades do interior de São Paulo, mesmo sendo o “Estado mais rico da federação”, o cinema ainda é coisa para poucos. Há poucas salas, em poucas cidades, geralmente, com a programação comercial hollywoodiana já conhecida.

Diante de um quadro como esse, fazer cinema então, nem se fala. O que se vê, com algum esforço, são produções de vídeo feitas com esforço por apaixonados pela sétima arte ou estudantes de cursos universitários e oficinas esporádicas que surgem de vez em quando.

E se a qualidade fica, em geral, aquém do cinema profissional – mais por falta de recursos que de idéias -, há por trás das produções histórias encantadoras. A que você vai ler agora é, a meu ver, uma delas.

Na cidade paulista de Itararé, vivem aproximadamente 50 mil habitantes que, para assistir a uma sessão de cinema, precisam viajar quarenta minutos de carro até a vizinha Itapeva. Ou seja, é possível que muitos deles nunca tenham visto um filme na tela grande. Assim como, com certeza, muitos nem imaginem que ali em sua terra natal já foram produzidos por um só morador, pelo menos, dez filmes que carregam uma peculiaridade extemporânea: são filmes mudos.

O autor dessa “façanha” é o itarareense George Souza, um jovem de 25 anos que mora com a mãe aposentada e o tio, estuda música erudita (violino e piano) e ganha um salário mínimo - ou menos - por mês com pequenos bicos: pintando, reformando e decorando casas ou, esporadicamente, tocando violino e piano em casamentos.

Com as dificuldades financeiras, George teve de optar pelo mais barato quando resolveu fazer “cinema”. Adquiriu uma câmera VHS por novecentos reais, em 1998, com o “patrocínio” da mãe, e fez um único curso de fotografia pelo Instituto Universal Brasileiro, pioneiro dos cursos à distância já antes da era digital.

“Por aqui (na região de Itararé) não há nem workshops na área, mas desde o começo eu tive uma visão profissional e um cuidado técnico”, conta. “A idéia, no começo, era ganhar dinheiro com os filmes, mas sem recursos tive de ser amador”.

Foi também na falta de recursos que esbarrou na hora de escolher a linguagem que usaria, o que acabou se transformando na marca de seu trabalho. “Eu queria fazer filmes falados, mas não tinha como. Quando conheci (os filmes) de Charles Chaplin, resolvi que faria daquele jeito, sem fala”, lembra.

Além de optar pela linguagem muda, Chaplin deu outra idéia a George: criar um personagem que estivesse em todos os seus filmes. Assim, surgiu “Georgitos”, que à maneira de Carlitos veste-se, geralmente, com um terno desengonçado e uma cartola. “Georgitos é uma coletânea de personagens, como se fosse neutro. Ele pode ser solitário e também sacana, tem várias facetas”.

Perseverança
Com o curso de fotografia feito, o equipamento em mãos, o personagem e as histórias criadas, o artista de Itararé ainda enfrentaria outros percalços. Sem tanto acesso à internet, na época, teve de pesquisar cinema em bibliotecas da região que nem sempre contavam com um acervo farto.

“Também recorri a locadoras e bancas de revista para locar e comprar filmes”.

O gosto pela arte ele não sabe como adquiriu. “Nem eu sei. Só lembro que gostava de filmes clássicos e, aos 16 anos, vi um do Gordo e o Magro. Ali, resolvi que queria fazer cinema”.

O talento, entretanto, extrapola a produção dos vídeos. George, que estuda música erudita há sete anos, toca violino e piano. Daí que as trilhas de seus filmes, em alguns casos, são compostas por ele. Também já fez teatro, o que o encorajou a encarar as câmeras e atuar como personagem principal de suas produções. George também é o figurinista e o cenógrafo de suas produções.

Construiu, nos fundos de sua casa, um palco ao ar livre com recursos para montar e desmontar a cada cena se necessário. “É um lugar pequeno, com 25 metros quadrados. A cobertura é um lençol para quando preciso de luz artificial. Também gravo bastante nas ruas”, conta.

Já as roupas ele busca em brechós e, às vezes, até as costura. “Me preocupo com a ambientação de época, mas nem sempre consigo resolver isso e ficam algumas discrepâncias. Procuro usar materiais recicláveis para o que preciso”.

Os outros atores, entretanto, ele é obrigado a “puxar pelo braço” para as participações. Ele trabalha com amigos e conhecidos que aceitam, com muito custo, participar. “Às vezes, uma produção que demoraria uma semana leva um mês porque alguns desistem, ficam com vergonha. Mesmo porque, muitas vezes, eu não tenho idéia do que vai acontecer ao final das gravações e tenho de convencê-los que aquilo será exibido em algum lugar”, conta.

Até hoje, entretanto, George conseguiu fazer apenas duas exibições de alguns de seus filmes. Uma delas foi no teatro de Itararé. Para tanto, teve de alugar um projetor, arcar com a divulgação em escolas e lojas. O resultado, segundo ele, foi desastroso. “Resolvi cobrar R$ 2,00 para ver o interesse real do público. Em dois dias, foram apenas cem pagantes. Fiquei frustrado”. A outra foi num festival de cinema de Itapeva.

A era digital, entretanto, começa a ajudá-lo. Ele já tem vídeos no Youtube (o mais acessado, porém, teve pouco mais de setecentas visitas) e, a partir de agora, terá aqui no Overmundo para que mais pessoas possam conhecer o “Chaplin de Itararé”.

Para começar, você pode ver uma esquete feita pelo artista em
http://www.overmundo.com.br/banco/georgitos-e-as-maozinhas Mas outros vídeos ainda virão. Fique de olho!

A comparação
Chamar George Souza de “Charles Chaplin de Itararé” pode parecer exagero. Mas a comparação deve-se a algumas semelhanças entre os dois, especialmente, a aspectos pessoais de suas vidas:

- Os dois nasceram em famílias pobres, mas apesar das dificuldades resolveram arriscar a vida artística;

- Chaplin iniciou a carreira no teatro; George também já esteve nos palcos;

- O gênio do cinema era também músico e compôs as trilhas sonoras de vários de seus filmes. George estuda música erudita há sete anos; toca piano e violino, assim como o artista inglês;

- O diretor viveu longe do pai desde pequeno; George mora com a mãe e o tio, também sem o pai.

- Chaplin fazia cinema mudo porque, na época, não havia tecnologia de áudio suficiente; George não tinha recursos técnicos e financeiros quando começou a produzir suas obras.

- Chaplin escrevia, produzia, dirigia, atuava, editava e fazias as trilhas sonoras de seus filmes; George também;

- Chaplin criou o personagem Carlitos, um vagabundo gentil e engraçado que usava um terno esgarçado, sapatos maiores que seus pés, bengala e cartola (ou chapéu-coco), que aparece em todos os seus filmes; George criou Georgitos, que carrega as mesmas características;

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Andre Pessego
 

Rapaz, pois sabe que foi muito boa a tua inserção. Boa mesmo.
Este tipo de coisa, notícia, acontecimento é de muita importância para se saber mesmo e para estimular a tantos que tem talento e desejo.
legal, um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 15/3/2008 21:06
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
FILIPE MAMEDE
 

Muito simpática essa história que você nos trouxe Ricardo. Esse Georgito é um exemplo de perseverança. Espero que ele possa ter dias melhores. Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/3/2008 09:34
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Ricardo Fela
 

Também espero que o George consiga um espaço melhor.

Ricardo Fela · Sorocaba, SP 19/3/2008 19:39
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Silas Correa Leite
 

A VIAGEM

Não adianta ser longa a Viagem
Ou muito distante o último horizonte a ser atingido
Um dia sempre voltamos para nós mesmos
E descobrimos que estamos em casa
Onde tudo um dia começou.

Podemos morrer na tempestade em alto mar
No deserto atrás de uma borboleta de ouro
Mas quando desfalece o corpo o espírito se liberta
E achamo-nos novamente no mesmo lugar
Em que demos o primeiro choro, o primeiro passo.

Se você for céu, haverá céu nessa hora
S você for relâmpago, haverá muita chuva
O lugar de início será o mesmo lugar onde deixaremos de existir
Porque longe pode ser também um lugar dentro da gente.

Quando rompemos a placenta da barriga gestora
Fundamos ali um marco historial
O céu ou o inferno desenvolveremos a partir dali e de nós
E seremos depositados no mesmo lugar
Em que demos o primeiro passo na existência desse plano dimensional.

Na hora final todos os nossos momentos
Passarão com um filme rápido em nossa mente atiçada
E a nossa última lágrima de dor
Ou a nossa alegria de libertação
Então se fará ouvir como se o último passo fosse também o primeiro
Agora de resgate, ou do recomeço.

Seremos recolhidos para sermos pesados no espírito
A evolução, a conquista do mérito
Ou o aumento do débito terrestre
Depois seremos remarcados para o horror de termos que voltar
(Tudo de nosso, até o pleno aprendizado devido)
Ou libertos para sempre do inferno da terra onde o tempo é algoz.

A Viagem, portanto, é sempre dentro de nós.

-0-

Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.com.br
Itararé, São Paulo, Brasil
Blogues: www.portas-lapsos.zip.net
Ou: www.campodetrigocomcorvos.zip.net

Silas Correa Leite · Itapeva, SP 14/10/2008 13:17
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Georgitos em zoom
Georgitos em "O Aventureiro", um dos vídeos de George Souza
O personagem em zoom
O personagem em "Ossos do Ofício"
Cartaz do Festival Georgitos, única experiência de exibição pública do artista zoom
Cartaz do Festival Georgitos, única experiência de exibição pública do artista

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