O Charme do Baile: Identidade, cultura popular e etnicidade em bailes black no Rio de Janeiro.
“Vai pro culto hoje?”
(comentário feito por um amigo sobre minha freqüência no baile charme do Cordão do Bola Preta).
Introdução
Apesar de uma considerável baixa nos bailes charme na cidade durante o período de carnaval, ainda há muitas pessoas procurando ouvir um repertório diferente do samba. Por isso vale a pena refletir sobre a importância dos bailes charme para os negros no Rio de Janeiro. A semana não acabou e muitas pessoas ainda estão procurando mais um Baile para freqüentar e dançar ao som da boa e velha black music.
Esta festa representa então um espaço de diversão e lazer, como também de inserção social, identificação e manutenção da cultura negra. É dia de baile, é dia de festa, é o momento de se prepararem para encontrar seus amigos, namorados, parentes, entre outros. É dia de deixar de lado os problemas e se divertir, dançar, curtir a música e conhecer gente nova. É assim, “fechar a semana com chave de ouro”, como dizem os freqüentadores.
Os negros encontram, em sua participação na sociedade, diferenças sociais, econômicas e culturais que muitas vezes lhes tornam invisíveis à sociedade. O negro não aparenta ser um padrão social. Dificilmente aparece nos livros, nas novelas, nos filmes e quando surge, sempre há toda uma temática negra, como se fosse uma justificativa para sua aparição.
Nei Lopes (1992), pesquisou a ocupação do Rio de Janeiro pelo negro vindo de diversos cantos do país, resultando no negro carioca. Segundo o autor, o declínio do café no Vale do Paraíba, o fim da guerra do Paraguai, a seca no sertão nordestino, a abolição da escravidão e o fim da campanha de Canudos direcionaram os deslocamentos para a cidade do Rio de Janeiro. Segundo o autor, todas essas migrações tiveram como conseqüência um caldeamento de valores, com expressivo reflexo no campo cultural.
Já no final do século XIX, “a composição da força de trabalho no Rio de Janeiro refletia claramente a ideologia do branqueamento e é o que assistimos até os dias de hoje: a luta dos jovens negros por inserção social e visibilidade na sociedade, marcando tais relações por grandes conflitos, explorações, desigualdade e discriminação (LOPES, 1992: 6).
O Baile charme então acaba se transformando num momento em que o negro não precisa de nenhuma justificativa à sociedade para estar ali. A não ser o fato de ser negro, como a grande maioria dos outros freqüentadores. Porque ali é o local onde não há a necessidade de justificar-se, sentir-se mal ou dar satisfações à sociedade.
A estratégia dos bailes
A primeira vez que entrei num baile charme, juntamente com outros amigos, freqüentadores há alguns anos foi inesquecível. Era uma quadra de esportes, com o chão sem piso, quadra coberta (um dos poucos bailes black cobertos na cidade), com espaço para mais de quatro mil pessoas, três ambientes, banheiros bem estruturados, cerveja barata e entrada grátis para as damas. Localizado num ponto estratégico da cidade, num bairro central para a grande maioria de jovens negros que moram nas Zonas Norte, Oeste e Baixada Fluminense. Nem por isso deixava de ser freqüentado por quem morava na Zona Sul, Niterói e São Gonçalo e Região dos Lagos.
Quando cheguei ao Disco Voador, em Marechal Hermes e participei de um momento que hoje entendo como uma “iniciação ao rito”. Ao chegar à fila de entrada fui apresentada a outros freqüentadores, que imediatamente nos fizeram companhia. Notei que o baile tem um aspecto de “cerimônia”. As pessoas muito bem vestidas, com um visual inspirado no movimento negro norte-americano, se aproximam dos novos freqüentadores e logo comunicavam as regras básicas de convivência no local. Assim, fui informada pelos homens sobre as músicas, sobre as pessoas que freqüentam e sobre o fato desta festa não ser violenta¹ . Já as mulheres me disseram como me comportar no baile, em qual lugar ficaríamos (aquele onde poderíamos paquerar melhor os rapazes), sobre determinados freqüentadores, dentre os quais aqueles que eu deveria me manter afastada, entre outros.
Ao entrarmos, fomos revistados, mostramos as bolsas, e passamos pelo primeiro ambiente, onde havia alguns rapazes, que ficavam ali esperando suas namoradas, amigos(as) e observando se havia “carne nova no pedaço”. Logo depois, entramos na quadra.
Neste momento senti que entramos em um lugar que era destinado ao negro. O DJ tocava uma música considerada um “hino do charme”² e os participantes, comemoravam, com gestos, gritos e pulos. Todos começaram a dançar um mesmo “passe”. Para mim, que até então não conhecia um ambiente freqüentado por negros em sua maioria, senti-me muito emocionada e espantada ao ver tantos jovens negros juntos. Ao mesmo tempo me senti “chocada”, termo que é utilizado pelos freqüentadores quando relatam sua primeira entrada num baile como esse. Afirmam que o “choque” consiste em entrar e se deparar com um espaço repleto de negros, como não se vê no dia-a-dia.
Em contato com os meus iguais, com os meus pares, num ambiente saudável de descontração, onde não há reprovação, nem olhares de mal agrado, muito menos discriminação por sermos negros, senti-me em casa, à vontade. Lá não havia a menor possibilidade de em ser menosprezada ou excluída.
Nesta noite, arrisquei alguns “passes” e fui apresentada a muitas pessoas, o que ressalta o aspecto de sociabilidade do baile. A sensação que se tem é que todos se conhecem. Todos parecem formar uma rede de conhecidos, em que os grupos se comunicam através de pessas-chaves ao longo da noite. Desta forma me enturmei e conheci melhor o ambiente.
Durante todo o baile, o que eu pude perceber era uma sucessão de “passes”, ou “passos” e músicas muito esperadas pelos freqüentadores dos bailes charme, os "charmeiros", num clima de integração e confraternização sem igual. Inicialmente o charme me remeteu ao ambiente de confraternização, gozo e regozijo das igrejas evangélicas, dos quais já participei.
Sagrado X Profano
Segundo Amaral, as festas são um tipo de manifestação cultural, que devem ser estudadas no campo dos ritos. Citando Durkheim, ela afirma que “toda festa, mesmo quando puramente laica em suas origens, tem certas características de cerimônia religiosa, pois, em todos os casos ela tem por efeito aproximar os indivíduos” (AMARAL, 2000).
A vibração por cada música tocada, a sintonia entre os “passes” e a comunhão entre os participantes durante as danças fazem refletir sobre uma possível analogia entre o charme e os cultos religiosos. Não era incomum ouvir dos jovens que todo domingo era dia de ir pro “culto”, referindo-se a assiduidade dos jovens ao baile, em comparação a freqüência dos evangélicos aos cultos de domingo. Sem contar que muitas músicas tocadas no baile, faziam parte do estilo “gospel” norte-americano, como por exemplo, o sucesso "Stomp" de Kirk Franklin.
No final do Baile podíamos perceber a grande quantidade de pessoas que freqüentavam o espaço. Bastava olhar para as filas nos pontos de ônibus, os bares e o estacionamento.
O baile charme é um espaço tão interessante, tão rico em informações, que é preciso ir mais de uma vez para poder compreendê-lo melhor e entender sua dinâmica. Não somente como como observador, mas como participante. Desta forma podemos identificar seus códigos, que o tempo todo denunciam os dramas sociais vividos pelos negros em nosso país.
Baile: corpo, territorialidade, casa e rua
O baile na verdade, começava em casa, antes mesmo do domingo, pois havia toda uma preparação para se chegar ao local, que começava pelas roupas e o cabelo. Os "charmeiros" tinham toda essa preocupação. Qual a melhor roupa, o melhor penteado e o melhor estilo para freqüentar o baile?
Todos buscavam a originalidade na cores e nas referências aos estilos afro. Havia todo um cuidado, porque o visual dizia muito sobre a pessoa e o grupo. Diversos grupos se identificavam pelas vestimentas, como uma marca, uma territorialização de um ou outro grupo e até hoje ainda é assim. Acredito que era uma forma de mostrar que naquele espaço o negro é igual aos demais e que as competições são sadias.
Sabemos que as roupas são um símbolo de status, como vários autores já destacaram e, que podem demarcar a região e a classe social a que pertencem seus usuários. Fato identificado nos trajes típicos de cada região brasileira, como as roupas das baianas que vendem acarajé, o terno para os pentecostais, as roupas brancas para os umbandistas, roupas caras para os ricos, tudo isto denotando que a roupa também compõe esse ritual. Aparentemente tirando o negro daquela situação indesejada e tornando-o mais aceitável, mais bonito, mais apreciável, como os freqüentadores se percebem.
Neste dia percebi que algumas pessoas vinham com uma bolsa, onde colocavam um sapato reserva, para calçar na porta do baile, e assim, esconder o sapato sujo de lama. Outros vinham em pé nos ônibus, para não amarrotar a roupa, ou traziam uma camisa reserva, para trocar quando suassem e assim estar sempre bem vestidos, “apresentáveis”, sempre “na estica”, “na beca”. Ali, o negro não usava avental nem uniforme. Ali todos eram lindos, bem vestidos e importantes. É interessante ouvir a história de Marcelo, um dos entrevistados, sobre quando foi ao baile charme pela primeira vez.
"Olha, a minha história no charme foi até engraçada. Eu tinha 16 anos, foi na época das férias escolares, que eu sempre passei na casa do meu tio, que morava em Coelho Neto. Trabalhava de manhã, e na sexta-feira, né, após o trabalho, eu fui de tarde pra casa dele e ele falou:
___Pô, nós vamos sair à noite para um baile. - Até então, eu... como só conhecia, entendia que baile era associado ao funk, falei:
___Ah... deve ser um baile comum... - Mas aí, como ele já era meio coroa, eu falei:
___Pô, ele no baile funk, acho que tem nada a ver, mas tudo bem! - Chegou a noite e tal, botei minha roupa normal, meu tênis... na época era modismo,né, tênis Redley. Botei uma calça jeans, uma camisa e boné, me arrumei e fiquei à espera. Aí nisso ele veio, todo arrumado, eu falei:
___Caramba! Será que ele vai pra alguma outra festa, casamento? - Eu entendi ele falar que ia pro baile. - E aí eu falei:
___E aí, Tio Jonas! Vambora?!? - E ele falou:
___Pô, tu vai pra onde? - E eu falei:
___Pô, tio, a gente vai pro baile, como você falou. - E ele falou:
___Não, assim você não vai comigo não, cara. A gente vai para o baile charme. - E eu:
___ Precisa se arrumar assim pra Baile Charme? Aí ele:
___ Vem cá, vamos trocar essa roupa aí, cara, quê isso? Tem nada a ver. - (...) Aí eu fui, me arrumei, ele me deu umas roupas dele(...). Aí ele me botou uma roupa que parecia que eu ia pra igreja no dia de domingo. Calça social, me deu um sapato (...), uma camisa dobrada. E eu falei:
__ Caramba! Nada a ver ir com uma roupa dessa pro baile(...) - Ele falou que era bom e que era assim que as pessoas se vestiam.(...) Aí fomos para o baile do Vera Cruz.
Me lembro como se fosse hoje, eu fico até meio emocionado em lembrar esses fatos da minha introdução ao charme. Aí chegamos, e eu fiquei observando que os ônibus estavam lotados de pessoas indo pro baile, mas todo mundo em pé! E eu falei:
___Bando de otário! Um montão de lugar vazio no ônibus e o pessoal em pé! E ele, sempre, né, com muita paciência,muita descontração me falando:
___ Não, cara. Isso aí o pessoal vem de casa, assim, em pé no ônibus para não amassar a roupa. Porque você chegar amassado no baile charme,é maior... não lembro o termo que ele usou na época ... algo como: 'Pagação de mico!' - Aí meu tio chegou, ficou conversando com os colegas, tomando uma cervejinha (...) depois fomos pra fila. Uma fila enorme! Só gente bonita, parecendo que era um baile de formatura. Aí entramos. Quando eu botei o pé na quadra... estava tocando uma música(...) a mais linda. Desde que eu ouvi essa música pela primeira vez no Vera Cruz, eu fiquei apaixonado, que era Anniversary. Quando tocou aquela batida contagiante, ele falou pra mim:
___Muito som! - Ele sempre falava pra mim assim, quando ele gostava de uma música: ___Caramba! Isso é muito som!
Aí eu fiquei ouvindo assim, cara. Realmente, eu fiquei parado! Foi uma situação assim, aquele impacto. Eu fiquei parado, só viajando na música que eu gostei, devido a batida e aquela coisa envolvente que nos dá. E a namorada dele dançando com as amigas um passo, que eu fiquei viajando (...). eu nunca tinha visto isso. Porque baile funk, até então na época, era aquela coisa mais de... fazer passinhos, e tal, mas não é como o charme que tem o lance envolvente e eu fiquei totalmente ali, pilhado, desnorteado, fiquei vendo as pessoas dançarem aquela música, que foi a primeira música que eu ouvi quando eu entrei (...) E isso, eu tinha 16 anos. Hoje eu tô com 29, de lá pra cá esse tá sendo meu segmento, de rodar os bailes charme do Rio de Janeiro (...) Depois que eu conheci o baile charme, não parei de freqüentar os bailes funk, mas ficou em segundo plano (...). Era uma integração muito grande, lá, todo mundo se respeitava.a maioria se conhecia. Era maior ou menos um baile no quintal de casa, que não era, porque vinham pessoas de todo local do Rio de Janeiro, pra curtir o mesmo som, as mesmas músicas, apreciar os mesmos passes.
Aquela época realmente foi... os anos dourados. Muita coisa aconteceu de bom ali. E daí veio o Bola Preta, Mackenzie, Magnatas... e muitos outros que surgiram daí".
Baile Charme - Marca de Lazer
A pesquisa sobre uma festa tão popular entre os jovens negros partiu da necessidade de compreender uma “marca de lazer”, como disse Magnani (2003:19), tão característica desse público e que ao mesmo tempo associada ao estilo de vida desses jovens, condiz com a realidade deste grupo. A partir desta pesquisa pude, inclusive perceber que esta prática não alcança somente aos jovens entre 18 a 24 anos, mas a adultos e até mesmo idosos e famílias inteiras, incluindo crianças. O Baile nos apresenta diversas histórias de juventude, em várias etapas da vida, em contextos diferenciados e em constante mudança.
Para Magnani, foi dada pouca atenção aos movimentos e movimentações oriundos da periferia, que num primeiro momento fogem ao “interesse político, imediato”. Mas que compõe toda uma realidade, baseada na experiência urbana. Talvez este seja o principal motivo de o charme ter dado tão certo: estava voltado para as classes populares. Neste espaço, as pessoas falam a mesma linguagem, buscando identificar-se com os demais.
Ao citar Durkheim, Amaral afirma que as festas têm três características fundamentais: “1) a superação das distâncias entre os indivíduos, 2) a produção de um estado de ‘efervescência’ coletiva e 3) a transgressão das normas coletivas” (AMARAL: 2000).
O ritual do baile: corpo, dança e música
Observando o baile no Cordão do Bola Preta, pude perceber que o que mais chama a atenção dos participantes é o fato de compartilhar com os demais participantes o gosto pela dança e pela música. Isso, somado a assiduidade, garante o fortalecimento dos laços de amizade.
Há certas músicas, que quando tocadas pelo DJ denotam um ambiente de grande comunhão entre o grupo: a pista fica lotada de pessoas dançando o mesmo passo. Praticamente todos os participantes dançam o mesmo passo durante a execução de uma música. Essas canções ilustram as relações de pertencimento e de comunhão entre os charmeiros, em músicas como West Indies – Guadalupe feat. Matt Houston, Love Sets you Free Kelly Price, Unusual Amore - Master of Funk, os passos executados nestas músicas são coreografados de forma que o público dá voltas pelo centro da pista e todos enfileirados dançam da mesma forma.
A importância que se dá ao centro da pista também é um exemplo da superação das distâncias entre os indivíduos. O “centro da pista”, ou o “meio”, é um espaço destinado aos que dançam. Este espaço é configurado da seguinte forma: os que dançam bem, posicionam-se ao centro e os aprendizes posicionam-se ao fundo. Conforme vão aprendendo os passos, os grupos vão se reconfigurando e novos aprendizes posicionam-se ao fundo. Ao errar um passo, os participantes abandonam seus lugares e posicionam-se no final da fila, ou seja, todos podemos em algum momento estar à frente ou atrás do grupo. O Centro da pista representa não somente um espaço onde se ilustra a comunhão, mas é também um espaço de reconhecimento dos grupos que ali dançam.
O que se espera de quem dança no centro da pista é que não haja erros nos passos, comandados pelos que estão a frente das fileiras. É como se aquele momento fosse o momento ideal, com o grupo ideal, cujo único objetivo é dançar o passo e criar sobre ele. É como um jogo. Ao aprendermos os passos bases de um lado da pista, podemos então passar para o outro lado, onde as danças são mais difíceis.
Conclusão
Nas “maratonas”³, a pista é ocupada por outros grupos oriundos de bailes distintos e que também ocupam este espaço. O centro da pista passa a ser palco de diversos grupos que buscam visibilidade e reconhecimento. É neste momento que percebemos que diversos grupos contam a história do charme na cidade e, mais do que isso, o charme é composto por diversas histórias de juventudes. Não restando dúvida de que as festas contribuem para reforçar os laços sociais (VIANNA, 15).
O Baile Charme constituiu-se então como um movimento popular cultural que propõe uma reinvenção da identidade cultural negra, expressa através das danças, da música, das roupas, da disseminação de valores de respeito a próximo, da cordialidade, da elegância do charmeiro e da charmeira para esses eventos e de algo que só poderei explicar mais profundamente em outras pesquisas, que é o “clima gostoso, aconchegante e familiar” que os bailes charme têm e que os entrevistados tanto citaram nas entrevistas. Mais do que isso, o Baile Charme propõe uma reflexão sobre a postura de seus freqüentadores frente à sociedade e o faz sugerindo a não violência, o orgulho negro e a cortesia. Esta é, segundo Steil, uma forma de “afirmação dos direitos sociais”. São uma “prática política”, como disse o autor. E o negro, ainda que inconscientemente, ao participar desse movimento, define seu posicionamento político(STEIL, 2001:204).
As afirmações positivas da identidade negra ocorrem a todo instante no baile e nos remetem a trajetória do negro em nossa sociedade. Além disso, denotam novas construções de identidades étnicas entre os freqüentadores, mostrando que nesses grupos, se vai além do lema “Black is Beautiful”, mas remete ao grande “barato” que é se assumir negro num espaço como este. Segundo Steil, o estigma, assumido de forma positiva, desfaz os significados negativos que se cristalizam no senso comum. A visão política, reforça o autor, possibilita realizar uma inversão de sentidos, transformando o negativo e o ilegítimo em algo embasado e legitimado pelo grupo (STEIL, 2001:209).
Notas
¹ Motivo de muito orgulho para os charmeiros e característica número 1 do baile: a cordialidade, a polidez e classe que não combinam com violência.
² Make it last forever – Keith Sweat
³ Baile realizado sempre às vésperas dos feriados, reunindo um grande grupo de pessoas que não costumam frequentar os bailes semanalmente.
Foto
Paulo Charmeiro
Referências Bibliográficas
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Que beleza de tabalho minha cara Ester! Um baile sem a mística do negro não tem alma! Eles são os pais da malevolência, do gingado, do gosto pelo salão, pelo suor, pela tesão. Exelente pesquisa, permita-me dar os parabéns! raphaelreys. Votei
raphaelreys · Montes Claros, MG 6/2/2008 09:36
Ester,
Sempre me surprendo por aqui, nos meandros da internet. Com a sua matéria as surpresas são muitas. A principal, é claro, é o gosto que tenho pelo assunto dos misteriosos meandros pelos quais a cultura popular em geral (e do negro brasileiro em particular) vai penetrando, por baixo dos ditames da mídia cultural 'oficial', um tema que, por mais estranho que pareça, não é comum aqui no Overmundo, as vezes tão 'certinho' e politicamente correto.
Agora veja que curiosa a minha maior surpresa: Tudo que você historiou aqui sobre o 'Charme', colocando como fenômeno cultural digno de tese de mestrado, já aconteceu nos anos 70 aqui no Rio de Janeiro, multiplicado por mil. Fiquei lendo e relendo o seu texto para encontrar uma referência sequer ao movimento Black Rio, salvo engano, não encontrei.
Não sei se você sabe mas o Black Rio congregava bailes semanais, nos subúrbios do Rio e na periferia de São Paulo com 5, 10 mil pessoas, fácil. O 'Charme' já estava lá na mesma onda, desde então, com a mesma força dos bailes Funk de hoje em dia (sem os traficantes, é claro).
Claro que sei do esforço que você teve nesta sua maravilhosa pesquisa. O meu espanto é não saber como pode um fenômeno tão importante, fundamental para o seu trabalho ( e para a compreensão da cultura urbana do Rio hoje em dia), estficar tão invisível, não ter uma bibliografia decente, fontes acessíveis de pesquisa que deveriam estar aí, a disposição de novos pesquisadores feito você.
Bem, a gente sabe mais ou menos porque isto ocorre, não é mesmo? Eu sei também que você e outras pessoas que estão entrando na universidade nestes novos tempos vão resolver esta parada, logo logo.
Ah...outra surpresa para mim: Nos anos 70, as roupas do pessoal do Charme e do Black Rio (ambas primando pela elegância sim, cada um a seu jeito) eram criticadas pelos de fora, não por serem 'caretas', 'conservadoras', muito pelo contrário, mas por serem rebeldes, agressivas, avançadas demais para a época. Sinto falta daquela rebeldia tão estimulante, devo confessar.
Parabens pela matéria, mesmo.
Abs,
Um
Ester,
primeiro, arquivei. Vou reler e reler.
segundo - só a fotografia já bastava.
terceiro - nada bastava sem a tua capacidade de contar.
abraços, andre.,
Ester, Ester, Ester, Ester, Ester
Olha eu ali de roupa limpinha e
bonita, feito uma digna mulher.
Oh, Ester, de fato existo e até,
vê só Ester, canto, danço, viva,
dum jeito nosso, com tanto asè
beijin, daruê malungo!
já tive a alegria de ver a Ester dançando no "culto" do Bola Preta - era para mim a melhor na pista, uma mistura de soul e samba que por si só já merece uma tese! bom conhecer seus textos agora!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2008 00:38
ah Ester: continuo esperando aquele convite para o Baile Soul do Tangará - ainda está acontecendo? Qual o próximo? Você poderia escrever também sobre esse baile aqui no Overmundo - beijos!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2008 00:38Eu sou branca e charmeira, e fico triste de ser excluída da sua festa. Mas a contundencia do seu relato me faz compreender perfeitamente, nao sem lamentar, que vc se sinta tão à vontade na segregação. Só espero que a lição do mundo, tal como ele está agora, seja suficiente para que a gente possa sempre, cada vez mais, desejar e promover a mistura, a única forma de o mundo ter paz, aceitando as diferenças entre os homens. abs afetuoso, andrea
andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2008 02:56
Oi Hermano!!!
Obrigada pelos elogios quanto à dança. Levei seis meses para aprender todos aqueles passos :)
É claro que este convite está de pé! Vamos marcar sim!!!
Preciso apenas me informar sobre a próxima data do evento.
Por falar em Tangará, já tenho uma etnografia pronta sobre ele! Logo, logo, publicarei aqui :)
Andrea, o Baile Charme não segrega, pelo contrário, é um espaço de comunhão entre negros e os brancos são convidados a irem a essa festa sim. Não nego que é um baile feito para negros, porém, encontramos muitos brancos lá. No meu perfil tem algumas fotos! Dê uma olhadinha!
Um grande abraço!
Meu voinho sulino José Alves Bitencourt, estivador aposentado, Mestre Lua, costuma dizer e não lhe tiro a razão que segregação e discriminação é ato de poder.
Se os de baixo, geralmente pobres, não têm poder, não poderiam estar assim agindo apenas por se reunirem seja em tendência, bando, grupo ou festa.
Em toda escola de samba que vou, aqui em Porto Alegre, essa linda capital sulina, a maioria é gente negra, mas tem entrada universal e sempre há muita gente branca nela também.
Chega ter g.r.e.s. que a maioria é de gente branca e tem até boa levada de tambores, mesmo.
Sem blague, que o assunto é sério.
Então, quando digo que me vi limpinha e bonita, o disse também ter-me visto mulher que é gênero, em que vai ainda um outro componente, que é mulher dando banda em baile, que a má língua sempre acha que quer-se mais do que a diversão da festa, já chegando com dengo e arreto, sem nem saber dançar bem.
Penso, Andrea, que te colocas a priori fora da possibilidade de integração porque ali serias minoria, antecipando uma possível discriminação que, pelo menos em lugares que freqüento, não há entre a maioria presente, embora sempre haja entre alguns, como há em toda a sociedade, em relação, vamos dizer assim, às minorias nos ambientes das maiorias.
Somos mulheres, somos gente.
É do que se trata no planeta Terra, sobre o que marciano algum se equivocaria.
Asè
Ester Charmeira · Rio de Janeiro (RJ) ·
Um Trabalho estraordinário.
Cheio de estilo e Dignidade.
Passa beleza e firmeza.
Tem todo Merecimento.
Grande contribuição cultural parao Overmundo.
Maior orgulho de votar
Parabéns e Abração
Ester e amigos,
Acho que me expressei mal. Eu disse que sou charmeira mesmo. Sempre fui a baile charme, no Disco Voador, no Vera Cruz, no Viaduto de Madureira, no Bola, na Cinelândia. Sei como é essa maravilha.
Já fui discriminada por ser branca, por ser da zona sul, por ser artista, por estar acima do peso, por cantar samba, por ser solteira, por ser casada, por ser brasileira, por falar inglês, por ser rica pra uns, pobre pra outros, por tantas coisas. Cada ambiente, cada grupo tem seus senões.
Quando falei de "ficar à vontade na segregação", me referi a esse trecho do seu texto: "...Em contato com os meus iguais, com os meus pares, num ambiente saudável de descontração, onde não há reprovação, nem olhares de mal agrado, muito menos discriminação por sermos negros, senti-me em casa, à vontade. Lá não havia a menor possibilidade de em ser menosprezada ou excluída..."
É esse seu bem-estar que entendo, pq entendo o que é ser discriminada. Qualquer um que esteja vivo entende. A discriminação não é um privilegio dos negros.
Mas quero reforçar o que eu disse: que acho que a saída é a mistura, gostoso é ter trânsito livre, em todos os bailes do mundo.
beijos em todos
Fecho com tu, Andréa.
Bem posto.
Eu já fui discriminada por ser terráquea, pode?
É verdade. Tenho até testemunhas aqui mesmo no Overmundo.
Humanas somos de um só planeta.
Valeu. Trile-legal.
É também assim com negros poetas, com brancos pobres, com todos os índios (menos os ladrões de madeira que vendem as filhas por cachaça), com japoneses, chineses, palestinos, judeus.
Todos da Terra somos, e não há outro mundo (Novos Baianos) pra nosostros paisanos.
Uma maravilha de texto, uma divina provocação para refletir...
Abraços
Moro em Madureira mas nunca tive a curiosidade de conhecer o Baile Charme do viaduto. Para mim era apenas mais um balie. Nossa! Agora vejo que não. O seu relato desportou o desenho de ir até o reduto. Gostei muito da sua matéria! Você descreveu com paixão. Parabéns!
Abs.
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