O Cinema Capixaba Existe

Ana Murta
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Ana Murta · Vitória, ES
10/5/2006 · 123 · 15
 

O Espírito Santo vive um efervescente momento de produção audiovisual. O crescente número de curtas-metragens produzidos por essas bandas são a prova concreta dessa evolução. A diversidade de assuntos, formas, realizadores e recursos também reforçam a afirmação. Só que ninguém sabe disso.

Mas essa vocação pro anonimato não vem de hoje. Por volta de 1920, no município de Castelo, um relojoeiro, usando sucatas, criou uma máquina que filmava, revelava e projetava. Ludovico Percise fundava o cinema capixaba. Documentou o dia a dia da região e também fez filmes de ficção. Utilizava atores e técnicos não profissionais, e produzia até faroestes.

Nosso precursor inventor registrou seu projeto na Biblioteca Nacional, mas sem condições de desenvolvê-lo, acabou esquecido, incompreendido e não reconhecido. Em 70, o cineasta, critico e historiador carioca, Alex Viany, dirigiu um curta-metragem sobre o Ludovico, chamado O Sonho e a Máquina. Ninguém sabe dos negativos desse filme, e a última cópia que se conhece está incompleta, e precisa urgentemente ser restaurada.

Existe e tem história

Na segunda metade dos anos 60, tempo de agitação cultural e política, alguns talentosos jovens elegeram o cinema como meio de expressão. Com recursos próprios, essa turma produziu uma série de curtas bem bacanas, como Kaput, de Paulo Torre e Ponto e Virgula de Luiz Tadeu Teixeira. Eles utilizavam uma câmera 16mm, e quase sempre enfocavam temas relacionados com a repressão política.

Com a chegada do Super 8, na década de 70, e do vídeo, em 80, o audiovisual tornou-se instrumento de registro. A maravilhosa e crescente facilidade de acesso à câmera trouxe a banalidade pra linguagem, através do registro de eventos familiares, cenas cotidianas e do exercício constante do olhar. E exercitar a linguagem era o objetivo de um grupo de realizadores ligados à Universidade Federal. Nascia a lendária turma do Balão Mágico, conhecida pelas experiências audiovisuais e pelo comportamento nada convencional.

Ainda em 70, rolou por aqui uma produção fértil de documentários. Festas religiosas, etnias e folclore faziam parte do repertório desses cineastas. Destaque para Orlando Bomfim Netto, que produziu uma série sobre a cultura popular do Espírito Santo, que nessa mesma década, tornou-se cenário de longas-metragens de ficção. A Vida de Cristo, com Fernanda Montenegro no papel de Samaritana, foi rodado em São Roque, então Santa Teresa, com total participação da população local.

O ator e produtor capixaba Jece Valadão filmou em Santa Leopoldina uma adaptação de Canaã, de Graça Aranha. Transformou o romance sociológico em um faroeste espaguete, bem em voga na época. Paulo Thiago também baixou por aqui pra filmar Sagarana, o Duelo, em São Mateus. E outro ator capixaba de sucesso, o Joel Barcellos, presença marcante em vários filmes do Cinema Novo, também veio filmar o seu Paraíso no Inferno.

Nos anos 80, o polêmico jornalista e crítico de cinema Amylton de Almeida foi sucessivamente premiado pelos bons documentários que dirigiu para a TV Gazeta, afiliada da TV Globo. Destaque para o excelente São Sebastião dos Boêmios e para Lugar de Toda Pobreza, esse último uma produção independente que mostrava a relação dos moradores do bairro de São Pedro com o lixão a céu aberto.

Na década seguinte, Luiz Trevisan mostrou em Cuba o documentário Cachoeiro em Três Tons, dedicado à família Sampaio, um autêntico clã de compositores cachoeirenses. O designer gráfico Ronaldo Barbosa levou pros Estados Unidos e Japão a vídeo-arte Graúna Barroca. Tempos depois, uniu-se a Arlindo Castro e Hans Donner e realizou TV Reciclada. Todos filmes premiados. Tinha ficção sendo produzida em Super 8, em vídeo, e tinha ainda a produção experimental do multimídia Nenna B, incluindo um documentário com o escultor Franz Krazjberg.

Coisas que ninguém entende

O presidente Fernando Collor de Mello extinguiu toda a legislação e os órgãos de apoio e fiscalização ao setor cinematográfico. A época ficou marcada como um período de obscuridade para o cinema brasileiro, e o Espírito Santo surgia como uma luz no fim do túnel. O Bandes criou uma carteira de financiamento destinada aos projetos culturais, que contemplou sobretudo a área cinematográfica.

Num momento em que a produção de longas no país praticamente zerou, a imprensa nacional voltou seus olhos para o estado, e atribui a alcunha Pólo de Cinema do Espírito Santo. Lamarca, Vagas Para Moças de Fino Trato, Fica Comigo e a primeira ficção do capixaba Amylton de Almeida, O Amor Está no Ar, foram produzidas através dessa linha de financiamento que, não importa o nome, deu certo. Mas que mesmo assim, hoje, está interrompida.

De qualquer forma, a produção não parou. Dois cursos de realização promovidos através de uma parceria estado/Minc, e a criação da lei de incentivo à cultura da cidade de Vitória, Rubem Braga, foram fundamentais pra nova cara que tomava o audiovisual capixaba. Os filmes diminuíram de tamanho, cresceram em quantidade, e acima de tudo se tornaram locais. Realizados aqui, por gente daqui e pro mundo.

Um dos primeiros foi Marcel Cordeiro e seu 16 mm Passo a Passo com as Estrelas, premiado no Rio e na Itália. Fizeram filmes e ganharam prêmios também Ricardo Sá, Luiza Lubiana e Glecy Coutinho. Na virada do século, surgiu uma nova geração produzindo curtas como Macabéia, Olhos Mortos, Mundo Cão e Céu de Anil. E também uma moçada experimentando em vídeo, como o pessoal da produtora Mirabólica.

Sincretismo audiovisual

O panorama atual é o seguinte : O Tião Xará, cineclubista nos anos 70, tá finalizando seu primeiro curta. Orlando Bonfim, documentarista, termina sua ficção. A Luiza Lubiana, oriunda dos 80, tá captando pra filmar o primeiro longa baseado em uma lenda local, e pré-concebido como um delírio visual. O Ricardo Sá, seu contemporâneo, monta seu último filme, de teor político.

Da galera que no começou nos 90, veio Saudosa, falso documentário de Erly Vieira Jr e o Fabrício Coradello. Carlos Augusto, capixaba radicado na Dinamarca, veio a Vitória pra filmar João, que fala da perda da inocência do garotinho de mesmo nome. E vêm por ai filmes que se passam no ônibus, no motel e no corredor. Têm ainda videomaker iniciante se destacando no Festival do Minuto, a rapaziada de Guarapari fazendo vídeos de terror, e o pessoal do Cine Falcatrua, que merece um capítulo a parte.

Isso sem falar no Seu Manoelzinho, de Mantenópolis, com seus badalados faroestes. E no agricultor Martin Boldt que dirige ficções faladas em pomerano (dialeto que hoje só existe nas montanhas do estado). Os dois fazem filmes em VHS, com atores e equipe não profissionais, que nem o Ludovico Percise quase 80 anos atrás.

O cinema da gente é assim. Independente, sofrido e mutante. Os realizadores passeiam pelos gêneros, as gerações se encontram e as linguagens se chocam, num sincretismo audiovisual, que não tem particularmente uma cara capixaba. Tem várias, as várias caras do Espírito Santo. A cara das várias etnias que compõe esse pedaço de terra. E a cara urbana da gente misturada e confusa com a busca de uma identidade que se modifica em moto perpétuo.

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Vânia Medeiros
 

Bacana Ana.

Recentemente vi um média-metragem muito bom de uma capixaba, Virgínia Jorge, chamado "No proncípio era o verbo", aqui em Salvador. O filme é muito legal. Se não me engano recebeu algum prêmio ai em Vitória...

Abraço!

Vânia Medeiros · Salvador, BA 11/5/2006 17:13
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Ana Murta
 

Ô Vânia !

É tão bom ouvir você falando desse filme. Eu mesma acho uma obra muito única, muito rara. Tive a honra de fazer o still desse filme tão rico. Pra quem não viu, ver: E No Princípio Era o Verbo, de Virgínia Jorge, 2005. curta-metragem. ES
Se não passar no festival mais próximo de você: logo logo estarei postando um link, ou contato.

Ana Murta · Vitória, ES 11/5/2006 20:33
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dudunews
 

Demais! Tô querendo ver logo esse da Luiza e o filme o Erly. Saudosa passou no Vitória Cine Vídeo de 2005?

dudunews · Vila Velha, ES 12/5/2006 11:10
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Ana Murta
 

Pra Dudu e quem mais possa interessar:

Sim. O Saudosa passou no Vitoria Cine Video de 2005. E voce vai poder vê-lo no Festival Florianopolis Audiovisual Mercosul.

"No princípio era o verbo" foi selecionado pro Festival Guarnicê, Maranhão.

"Pour Elise" tá rolando no Cine Esquema Novo, Porto Alegre.

o vídeo "A música da minha vida", resultado de uma oficina de documentário, foi selecionado pro Cine Ceará.

E se mais algum realizador nascido neste solo quiser divulgar ou disponibilizar seu trabalho aqui , seja bem-vindo.

Ana Murta · Vitória, ES 12/5/2006 11:48
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Ana Murta
 

NO PRINCÍPIO ERA O VERBO (curta maravilhoso sobre ser humano) vai passar no estival de curtas de BH.
quem puder, assista.
impossível não gostar.

Ana Murta · Vitória, ES 8/6/2006 12:17
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Ana Murta
 

o vídeo SAL GROSSO que eu inventei junto com meu amigo Andre Amparo também vai passar lá. Acabei de saber.

Ana Murta · Vitória, ES 8/6/2006 12:32
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Raquel Baiana
 

quero saber sobre izabela da rocha braga

Raquel Baiana · Teixeira de Freitas, BA 10/7/2006 11:08
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Ana Murta
 

Oi Raquel,
Seja bem vinda conterrânea ! Bom te ver por aqui.
MAs sinceramente, não sei quem é Izabela da Rocha Braga.
Você poderia me dizer ?

Ana Murta · Vitória, ES 10/7/2006 11:33
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Raquel Baiana
 

Nem eu sei... acho que isso foi alguma brincadeira de algum amigo (o pc fica logado com meu nome aqui em casa). Bem, não te conheço, mas usei o seu texto para fazer meu pre projeto final de curso. Curttis te conhece, disse que te orientou...

Raquel Baiana · Teixeira de Freitas, BA 12/7/2006 00:07
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Ana Murta
 

Sim, fui orientada pelo Alexandre Curtiss, grande figura.
E legal, que bom que o texto pode ajudar.
Sobre o que é seu trabalho ? Qual abordagem ? Que suporte ?
Num quer postar uma colaboração a respeito aqui não ?

Ana Murta · Vitória, ES 12/7/2006 01:05
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Raquel Baiana
 

"Em busca do filme – um guia de como fazer Cinema no Espírito Santo"
Objetivo... Escrever um livro-reportagem em cima de conceitos do jornalismo literário (new journalism), registrando o os filmes que foram feitos no Espírito Santo nos últimos dois anos.
Específicos... Através de entrevistas com profissionais da área, fazer reportagens narrando o modo que o cinema é filmado no Espírito Santo e com que objetivo.
Fazer uma análise das leis de incentivo existentes no Estado e de como as vertentes do cinema capixaba conseguem abocanhá-las.
Fiz o pré em uma noite, pois sabe como estudante é... Depois de realmente pronto (tenho que entregar no departamento em agosto), quero postar algo sim... O texto ajudou horrores.

Raquel Baiana · Teixeira de Freitas, BA 12/7/2006 01:47
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Ana Murta
 

Se precisar de ajuda na sua pesquisa Raquel, escreva para abdces@yahoogrupos.com.br. Temos todas as informacoes sobre a producao recente.

Ana Murta · Vitória, ES 12/7/2006 12:43
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Ana Murta
 

NO PRINCIPIO ERA O VERBO vai passar no festival do Maranhão e em Gramado. Quem puder assistir, não perca, o curta é muito lindo.

Ana Murta · Vitória, ES 12/7/2006 12:44
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Mikaella - Revista Cuca
 

Olá, Ana! Como vai? Meu nome é Mikaella,
sou aluna de jornalismo da Ufes. Li o seu texto e achei super interessante. Gostaria de saber se você pode me enviar materiais sobre o cinema capixaba? Eu estou produzindo uma revista de cultura, então, preciso de muitas informações. O e-mail é: revistacuca@yahoo.com.br. Obrigada!

Mikaella - Revista Cuca · Serra, ES 15/7/2006 21:00
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Raquel Baiana
 

Murta, já estou em fase de apuração do meu trabalho. Gostaria de agendar uma entrevista contigo. Conversei com a Saskia e tu foi um dos nomes indicados por ela. Meu e-mail é raquelmaga@uol.com.br. se for o caso, deixa o teu aí que eu entro em contato. Obrigada

Raquel Baiana · Teixeira de Freitas, BA 18/9/2006 12:41
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