Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

O contraste na maior periferia da Capital

J. Gomes
Mãos que constroem um futuro diferente aos jovens
1
Marcos Paulo · Porto Velho, RO
19/10/2007 · 120 · 3
 

Porto Velho cresceu à beça e, dizem, já está encostando em Candeias do Jamari (município a 30 quilômetros da Capital). A expansão acelerada deve-se à ocupação de uma grande região da cidade, a Zona Leste. Diversos bairros que surgiram – e continuam surgindo - por ocupações provocadas pelo desemprego e pela migração logo se transformaram em uma área discriminada. A violência não demorou a aparecer e gente boa passou a ser rotulada. Morar além da avenida Guaporé – uma espécie de linha divisória entre o Norte e o Leste da Capital - é quase sinônimo de ser marginal.

Paradigma preconceituoso que começou a ser quebrado com a chegada de um missionário, um quase salvador daquele povo discriminado. Em 1992, o padre italiano Enzo Mágano idealizou a Escola de Arte Profissionalizante Téos e, em meio a poucas oportunidades de educação e lazer, crianças e adolescentes conheceram o artesanato. A mente quase vazia, as mãos antes desocupadas, começaram a criar.

E foi assim que Rosinaldo Alves, 29 anos, morador do bairro JK I, que “não fazia nada da vida”, como ele mesmo diz, começou sua trajetória profissional. Há 13 anos, ele é o instrutor do curso de cerâmica da escola e já ensinou a arte de modelar argila a mais de 400 pessoas. “Comecei a fazer o curso assim que a escola abriu, com o instrutor Ramos, e fiquei lá como estudante até 1994”, lembra o agora profissional, que começou a ganhar uns trocados trabalhando ainda com o seu professor na confecção de peças.

Ele conta que se sente feliz ao ver a dedicação dos alunos no curso e acredita que em muitos casos o que falta é opção para os jovens. “É muito gratificante ver os alunos interessados em aprender a lidar com cerâmica, fazendo vasos e outras peças. Talvez se eles não tivessem aqui estariam praticando crimes, e é justamente esse o nosso objetivo: resgatá-los do caminho da criminalidade”.

Todas as tardes, das 14h às 17h, Rosinaldo dá aulas para 15 crianças e adolescentes que participam do curso de cerâmica, que é dividido em três etapas. Aprendem, na primeira etapa, em máquinas manuais, técnicas básicas de manusear a argila e desenvolver peças, como vasos e jarros. A segunda etapa do curso consiste em pinturas e estampas (modelagem). Finalmente, os aprendizes se dedicam à cerâmica porcelanizada e presépios. A Téos é a única escola na região Norte, segundo Rosinaldo, que trabalha com cerâmica porcelanizada e já recebeu convite para expor na embaixada italiana em Brasília.

Oportunidade para seguir novo caminho

O estudante da sétima série do Ensino Médio Arilton Ribeiro, 13 anos, mora no bairro São Francisco e sai de casa meia hora antes de começar o curso. É o mais “agitadinho” da classe e também um dos que mais se destacam, segundo ele próprio. “Já tenho dois diplomas do curso e sei fazer, até agora, vasos, pratos e jarros para flores”, diz o menino que sonha em ser advogado ou soldado do Exército.

Ele diz que não teme a violência que há no bairro onde mora, mas confessa que os pais pensam em se mudar para o Maranhão. “Perdi as contas de quantas vezes confundi barulho de foguete e tiroteio. Tem dias que começa cedo e prefiro não arriscar sair de casa. Fazer o quê, né?”.

As histórias são parecidas e servem de bom exemplo para os colegas. É o caso do porto-velhense Iuri Ribeiro Silva, 18 anos, que se inspirou no tio que trabalha com cerâmica e resolveu se matricular no curso. Ele diz que seus colegas começaram a vê-lo de forma diferente. Interessado nas aulas, passou por uma mudança quase que radical de comportamento.

Projetos

Iuri conta que já foi tentado várias vezes a entrar na vida do crime e acredita que pode servir de exemplo para seus colegas. “Tenho um colega que estava envolvido com drogas e resolveu largar o vício quando conversamos sobre projetos para o futuro. Foi aí que eu disse que estava fazendo um curso e ele resolveu começar a freqüentar o de culinária. É muito melhor que estar na rua”, acredita.

Iuri aprendeu, em quinze dias matriculado, a fazer vasos pequenos e recebe o apoio da família para continuar freqüentando as aulas. Ele sonha em ser policial militar, pois pretende garantir a segurança do bairro onde mora e defender a cidade onde nasceu.

O endereço da arte

Localizada na rua Mané Garrincha, no bairro Socialista, no centro da zona Leste, a Escola Profissionalizante Téos tem como principal objetivo dar oportunidades a crianças, jovens e adultos carentes de opções. Assim, ao invés de correr o risco de ser seduzido pelo dinheiro fácil da criminalidade, eles têm chances de se profissionalizar gratuitamente, ou ocupar o tempo de forma saudável e segura.

É um lugar onde os jovens, principalmente, passam grande parte do tempo estudando e aprendendo habilidades em cursos até então desconhecidos, como o de cerâmica, por exemplo. A instituição oferece também os de informática, pintura em tela e de corte e costura.

A escola sobrevive das colaborações feitas pelos associados, das vendas de peças e conta com o apoio de instituições italianas. As peças podem ser adquiridas na própria instituição e têm preços que variam entre R$ 5 e R$ 90. Segundo Rosinaldo, falta divulgação dos trabalhos realizados na escola. Quem quiser colaborar pode entrar em contato pelo telefone (69) 3214 7443.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Marcela Ximenes
 

Oi, Marcos.
Dá um jeitinho aqui: mente quase vazia, as mãos antes desocupadas, começou a criar.
Acho que é só.

Marcela Ximenes · Porto Velho, RO 16/10/2007 16:36
sua opinião: subir
Marcela Ximenes
 

Oi!
Tem que avisar o pessoal da escola. Imagina a alegria dos moleques!
(hein, agora editada parece que minha sugestão acima está dando a dica errada. rsrs)

Marcela Ximenes · Porto Velho, RO 17/10/2007 19:29
sua opinião: subir
Andre Pessego
 

OLá marcos,
Este tipo de iniciativa é louvável, sem dúvida. Mas fica como o lado "bom" da loteria. Só se fala do único que ganha,
ninguém fala dos milhões que perdem.
Este tipo de ação, deve continuar, mas o necessário são
ações de estado. Ações gerais, nada de sorteio.
um abraço, valeu pelo texto sim. andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 18/10/2007 18:38
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Arilton em plena atividade zoom
Arilton em plena atividade
Iuri: zoom
Iuri: "quero ser policial militar".
Rosinaldo repassando as técnicas que aprendeu há 13 anos zoom
Rosinaldo repassando as técnicas que aprendeu há 13 anos

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados