O curta, da tela à carrocinha

Ateliê Produções
Após boa carreira em festivais, "Do Morro?" ensaia nova estratégia
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André Dib · Recife, PE
15/6/2011 · 36 · 6
 

Esta reportagem busca paralelos e interseções entre novos modelos de distribuição na música e no cinema. Foco no curta-metragem pernambucano “Do Morro?”, de Mykaela Plotkin e Rafael Montenegro. Com pouco mais de 15 minutos de duração, ele investiga a ascensão do cantor popular João do Morro (matérias sobre ele aqui e aqui) e a maneira como sua música tem sido distribuída. O próprio filme procura estretégias alternativas para chegar ao público. Para balizar a discussão, além dos responsáveis pelo projeto e o cantor/objeto de estudo do filme, conversei com o crítico de cinema João Carlos Sampaio e o realizador Kleber Mendonça Filho, que nos últimos 15 anos acompanham de perto a produção nacional.

Em abril de 2010, durante o 14º Cine PE – Festival do Audiovisual, nascia “Do Morro?”. A princípio, seria mais um entre tantos curtas da competição, não fosse a identificação do público com o personagem, o cantor e compositor João do Morro. Dois anos antes, o artista recifense havia caído não só no gosto popular, mas também nas graças da mídia local – rádios, TVs, jornais e internet - que em consenso o elegeu como um dos poucos artistas aceitos tanto pela classe média da zona sul quanto pelas comunidades da zona norte, da qual ele faz seu retrato de costumes.

O fenômeno interessou Mykaela Plotkin e Rafael Montenegro, que o elegeram tema de projeto para conclusão do curso de comunicação da UFPE. “Ouvi falar de João no auge do “Papa-frango” (N.R.: música que levou a ONG Leões do Norte a entrar com ação pública contra o cantor, por suposta homofobia), que ouvi um dia no centro. Aí fui num show dele no Quintal do Lima e quando ele começou a tocar a gente se assustou com a reação do público”, diz Rafael. Mikaela também estava lá, conta, “pesquisando a maneira como a classe média se apropria da cultura periférica. Só tinha jornalista e cineasta”.

“Do Morro?” mostra o artista no palco e contando sua trajetória. Em paralelo, abre discussão sobre o que é João do Morro. Cronista da periferia? Moda passageira? Farsa construída pela mídia? Daí a interrogação evocada no título. “O que me chamou atenção é que esse fenômeno aconteceu no centro e no morro de formas diferentes”, conta Mykaela. “É um filme que fala dessa fronteira imaginária centro-periferia. Outro ponto forte foi a necessidade dele de fazer um trabalho autoral que usa mecanismos empíricos de divulgação como o MySpace, carrocinhas e rádios comunitárias”.

Aplaudida por quase três mil pessoas no Cineteatro Guararapes, a figura de João estampada na supertela do Cine PE foi talvez a maior demonstração de sua força. Assim como a do filme, que teve ali o início de uma carreira de 25 festivais, três premiações e uma menção honrosa. Nada mal para um trabalho de estreia.

Encerrado o circuito de festivais, não restam muitas opções para que o curta continue em atividade. A internet e a TV são caminhos, ainda que mais marcados por sombras do que luzes. Outras possibilidades são os projetos alternativos de exibição e a distribuição em DVD.

Quando começaram o projeto, nada disso preocupava Mykaela e Rafael. Como a grande maioria dos curtametragistas pernambucanos, captaram recursos no edital do Funcultura, mantido pelo Governo do Estado. Da mesma forma, agora que o curta completou a carreira de festivais, poderiam colocá-lo numa estante e pensar nos próximos projetos. No entanto, eles querem que o filme continue a circular.

Mas o que eles ganham com isso? Ou, refomulando a pergunta, há mercado para o curta-metragem no Brasil? “Não por uma linha direta”, diz o crítico baiano João Carlos Sampaio. “Passando pelo pressuposto de que cinema não é só indústria, é também arte, um curta-metragem pode ter potencial de interesse econômico por seu valor artístico. Mas somente uma fração segmentada do mercado quer tê-lo, como emissoras específicas e festivais”. Por isso, Sampaio afirma que “quem faz um curta não o faz – e nem deveria fazer - pensando em ganhar dinheiro. O curta é o espaço da experimentação por excelência”.

O fato é que, após carreira nos festivais, poucos curtas sobrevivem. Um deles é o recente “Recife frio”, de Kleber Mendonça Filho. Ano passado, o filme foi amplamente aceito por crítica e público: acumulou mais de 40 prêmios em onze países. Em estratégia incomum, o diretor usou R$ 5 mil recebidos como prêmio de um festival e aplicou na prensagem de 1.500 DVDs, vendidos em cafés e livrarias. Mesmo com uma versão disponível no Youtube, a tiragem está praticamente esgotada. “Ele teve uma aceitação incrível, maior do que alguns filmes que estão no mercado formal”, diz Kleber.

Um dos termômetros para produzir a versão em DVD foi o interesse do público de festivais em ter uma cópia para guardar, assistir de novo e mostrar para os amigos. “É uma segunda vida, em outro formato, longe do mundo limitado dos festivais”, diz Kleber. Mesmo assim, o lucro obtido pelo realizador diz respeito mais ao prestígio do que a retorno financeiro. “É como um cassino. Se você tem um filme bem sucedido, pode ganhar algum dinheiro. Mas não dá pra saber. As chances são mínimas. No Brasil não existe um sistema que viabilize a venda do curta pela internet ou DVD”.

Prestes a encerrar a primeira vida, “Do morro?” deve seguir em frente em via distribuição alternativa, semelhante ao utilizado pelo João do Morro para comercializar seus CDs. No Recife, esse "ecossistema" é formado por camelôs, idiossincráticas carrocinhas de CDs e anuncicletas (bicicletas com alto-falantes). “Ter estreado na mostra principal do Cine PE foi simbolicamente muito importante, mas o João do Morro é para a massa e a ideia é que ele chegue às pessoas através das carrocinhas. A gente quer colocar ele no mundo”, diz Mykaela.

Os quatro álbuns lançados por João do Morro – “Chupa que é de uva” (2007), “João do Morro no Espaço Aberto” (2008), “Do morro ao asfalto” (2009) e “João do Morro ao vivo no morro” (2010) seguiram o mesmo padrão de lançamento. Ao mesmo tempo em que trabalha junto das rádios comunitárias e carrocinhas, o dinheiro obtido nos shows e gravações de comerciais é usado para pagar o estúdio onde as músicas foram gravadas e os custos de prensagem. Geralmente, isso custa R$ 6 mil. Por mês, João faz cerca de 15 apresentações, ao cachê de R$ 3,5 mil por show, que pode ser contratado via pessoa jurídica, através de seu empresário.

“Na minha área, vender CDs é furada. A gente não quer ganhar dinheiro com isso, queremos que o público escute, entre em contato com a música”, diz João. “É uma maneira informal de divulgar meu trabalho”. Antes de gravar, ele conta que testa a popularidade da canção no palco. “Nosso DJ tem um notebook na mesa, ele coloca na internet e na mesma noite já tem gente baixando”. Seu novo videoclipe, “Ninguém merece”, alcançou mais de 50 mil acessos no Youtube desde que foi lançado, em março.

Diferentemente de João, que há alguns anos vive do ofício, Mykaela e Rafael estão dando os primeiros passos como realizadores. Atualmente, ela tem se destacado como assistente de direção e produtora. Está em temporada na Argentina, onde estuda cinema documental. O curso culmina com a realização de um curta e a formatação de um projeto de longa-metragem para participar de pitchings de mercado e festivais de Buenos Aires. Um dos planos é filmar ascensoristas de elevador da capital portenha.

Por sua vez, Rafael vive do jornalismo enquanto mantém um novo projeto na manga: um documentário sobre Lolita, homossexual que viveu no Recife dos anos 1960-70 e esteve envolvido com questões policiais. “Há um bordão, que diz, quem não conhece Lolita não conhece o Recife. Será um documentário de busca e reconstituição de uma história, a partir de várias versões”, diz.

Por enquanto, ambos trabalham sem firma juridicamente reconhecida. Para realizar o curta, se associaram à Ateliê Produções, parceria mais do que necessária: além do CNPJ, produtora entrou com o expertise, pessoal e equipamento. Agora que estão iniciados, tanto Mykaela quanto Rafael, individualmente, pretendem que seus próximos projetos sejam produzido de forma independente, diz Mykaela, “para ter um formato mais regido pelas necessidades do projeto”.

Para distribuir “Do Morro?”, Mykaela e Rafael pretendem algo parecido com o modelo utilizado pelo cantor. “A gente quer fazer uma prensagem do DVD e uma exibição no Morro para, na mesma ocasião, distribuir nas carrocinhas. Isso marcará uma nova fase do filme”, prevê a diretora. “Sabemos que isso vai gerar mais acessibilidade do que renda. A ideia é que o curta seja copiado sem a nossa interferência. Se for, será incrível”. Na internet, vale a mesma lógica: torrent, Vimeo, Youtube. “Não tem sentido em fazer um filme com fundo governamental e manter ele inacessível”. Rafael completa citando outros canais de exibição: a Programadora Brasil e o circuito de cineclubes - em Pernambuco, eles são mais de 30.

O método informal de distribuição tem vantagens e desvantagens. “É preciso se desprender da estética em prol da acessibilidade. Alguns festivais são em telões, na rua, na praça. Ao mesmo tempo em que é muito legal ver tanta gente assistindo ao filme, para um realizador é um choque constatar a perda da qualidade”, conta Mykaela.

Sobre a veiculação na TV, ela pondera: “há a Televisión America Latina onde podemos postar filmes e ela distribui gratuitamente para TVs e internet. É uma iniciativa louvável, mas um pouco questionável, pois quebra com as distribuidoras. A gente tem que tentar vender, mais por questão política, por que na realidade se ganha pouco. Cada vez mais o curta precisa ser visto como produto. Ele é muito bem resolvido, não é um formato menor. Por outro lado, a TV tem um grande alcance junto à sociedade, o que faz o filme ser visto por uma quantidade ainda maior de gente”.

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André Dib
 

Links para asssitir Recife Frio no Youtube: parte 1 e parte 2.

André Dib · Recife, PE 16/6/2011 10:06
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Olívia Bandeira
 

Oi, André, muito bacana o texto e as iniciativas que ele narra.

O curta "Do morro?" já está online tamém?

Sobre a distribuição de curtas, indico este texto aqui, que o Rafael Lage fez para o Open Business, falando da Distribuidora online do Circuito Fora do Eixo (a DF5).

A Programadora Brasil, citada no seu texto, também é uma alternativa. Os curtas "Do Morro?" e "Recife Frio" estão no catálogo? Seria legal que a Mykaela, o Rafael e o Kleber falassem sobre isso.

Também gostaria de saber mais sobre a TAL, de repente a Mykaela poderia explicar melhor como é essa relação. A TAL distribuiu curtas gratuitamente direto para as TVs? Ou os catálogos são dosponibilizados e as TVs entram em contato com os autores pedindo os curtas para serem distribuídos gratuitamente? Como acontece com os longas? "Do Morro?" já foi exibido em alguma TV?

Abraços!

Olívia Bandeira · Niterói, RJ 17/6/2011 09:17
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André Dib
 

Oi Olívia. No que me consta, Do Morro? ainda não está online. Não posso falar em nome do filme mas imagino que os diretores queiram mantê-lo inédito na internet até esgotar as possibilidades em festivais. E além da internet, Recife Frio está atualmente na programação do Canal Brasil.

André Dib · Recife, PE 18/6/2011 13:10
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Sambada
 

Do Morro? é um documentário que retrata um personagem muito carismático. É simples, tem falhas técnicas mas é muito bom... Tanto que vamos exibir pela terceira vez em Floresta, através di CineClube Florestano.

Sambada · Olinda, PE 17/7/2011 09:26
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Sambada
 

Sambada · Olinda, PE 17/7/2011 09:31
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André Dib
 

Do Morro? acaba de chegar à internet, na íntegra: http://www.vimeo.com/28746621

André Dib · Recife, PE 8/9/2011 21:19
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