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O desenvolvimento da moda brasileira

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Biquínis brasileiros fazem sucesso no exterior
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Revista Sintética · Osasco, SP
3/5/2007 · 209 · 3
 

Por: André Ricardo Robic*
6 de abril de 2007


Setembro de 1997: estava me preparando para defender a qualificação de minha dissertação de mestrado na Faculdade de Administração, empolgado com as novas tecnologias de bancos de dados, que permitiriam a volta ao relacionamento individual com o cliente. O tema, ainda provisório, era, “O uso do database marketing no relacionamento com o cliente no mercado de moda”. Depois da exposição de praxe, enquanto defendia junto com meu orientador alguns pontos de vista da ciência que estávamos nos propondo a estudar, observava os membros da banca, que por sua vez me observavam entre divertidos, curiosos e impacientes. Finalmente, veio a pergunta: porquê eu me propunha a estudar o setor de moda? Meus argumentos não foram capazes de convencer a banca, que decretou: se eu quisesse falar sobre Moda ,poderia atravessar a rua e ir para a Faculdade de Comunicação, do outro lado da rua. Na Faculdade de Administração só se falava sobre coisas sérias.

Minha dissertação acabou abordando o uso de bancos de dados no marketing de relacionamento, mas não especificamente na área de moda. E a reação de um dos membros da banca, se hoje pode ser considerada quase uma aberração, naquela época fazia um certo sentido: quando eu falava que dava aulas em faculdade de moda, ou então prestava consultoria em empresas de moda, aquele olhar divertido e curioso sempre me acompanhava. Em algumas vezes até, as pessoas achavam que eu estava brincando. A verdade é que nesses 10 anos a moda brasileira evoluiu muito, e hoje é considerada um dos mais importantes setores da economia, no Brasil e no mundo. Mesmo assim, muitas pessoas ainda ligam a moda apenas ao estilismo, sem se dar conta da imensa cadeia de produção que compõe o setor: fiação, tecelagem, química, lavanderias, confecção, eventos, marketing, pesquisa e uma série de outras atividades.

Como viemos parar aqui?

Essa relação direta da moda com o estilismo tem a sua razão de ser. Além de ser a atividade mais aparente e mais glamourosa do setor, o Brasil tem uma longa história na área de moda, e o principal pano de fundo é justamente a área de criação. Essa história é contada de forma completa, objetiva e muito interessante na pesquisa Moda e Identidade Brasileira, elaborada por Denise Pitta de Almeida em 2003. De acordo com a autora, na década de 1920, ao sabor do modernismo e do crescimento econômico dos barões do café, os gostos eram profundamente identificados com a corte européia e dela copiados. Em 1927 ocorreu o primeiro desfile promovido por uma loja, a Mappin Stores, que se destacava por vender mercadorias importadas para a elite paulistana.

A bonança da década de 1920 foi interrompida em seu final, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, que arrastou junto consigo os barões brasileiros do café. Mesmo assim, a moda brasileira continuou a crescer durante a década de 30: viu surgir Mena Fiala, a primeira estilista brasileira, que fazia adaptações dos modelos europeus ao clima brasileiro, e a loja de Madame Rosita, no centro de São Paulo. Ao mesmo tempo, as revistas européias ganhavam suas edições brasileiras. Na década seguinte, o look de Carmem Miranda apresentou ao mundo o charme latino-americano, e a 2ª Guerra Mundial provocou o desenvolvimento da indústria brasileira têxtil e de confecções. Nos anos 50, veio um grande avanço tecnológico com o governo JK e a implantação da TV Tupi, entre outros fatos marcantes. Na moda, surgiu Dener Pamplona de Abreu que, com seu trabalho e prestígio, favoreceu o desenvolvimento da primeira geração brasileira de costureiros: Clodovil Hernandez, Guilherme Guimarães e, futuramente, Markito e Ney Galvão, entre outros. Foi o início da alta costura brasileira e, nas palavras de Denner, “nossa moda é tropical, com tecidos leves e estamparias mais vivas”.

Dener acertou em cheio o diferencial por meio do qual a moda brasileira evoluiria. As grandes tecelagens passaram a promover a aceitação de seus produtos para um público que ainda desconfiava do produto nacional, e convidavam nomes da alta costura francesa e costureiros brasileiros reconhecidos para apresentarem à sociedades coleções com tecidos brasileiros. Surgiram os grandes desfiles de modas promovidos pela indústria que, com a realização da primeira Fenit, no final da década de 50, inseriram o Brasil no mapa mundial da moda. Foi muito importante a presença da Rhodia nesse cenário, reunindo artistas e costureiros em shows e eventos destinados a difundir a moda brasileira no Brasil.

Os anos 70 trouxeram o início da profissionalização no setor da moda, com a consolidação das butiques e o surgimento das primeiras grifes brasileiras Foram marcantes o Grupo Moda-Rio, primeiro núcleo organizado de estilistas, a marca Mr Wonderful e a estilista Zuzu Angel. Nos anos 80, o aprofundamento da profissionalização viria por meio do lançamento das primeiras escolas de moda, do surgimento de uma nova geração de estilistas e de grifes de jeanswear, verdadeira paixão na época. Os anos 90 começaram de uma forma bastante traumática para a moda brasileira, com a abertura comercial e a crise provocada pelo Plano Collor, que provocou o fechamento de mais de 800 empresas e o desemprego de um milhão de pessoas no setor. Mesmo assim, por mais paradoxal que possa parecer, esse foi o tempero para a finalização do prato que vinha sendo cozinhado há quase cem anos. A explosão dos eventos de moda, o Mercado Mundo Mix, as modelos brasileiras fazendo sucesso nas passarelas internacionais, a moda ganhando status de preferência nacional e o charme do Brasil, fizeram com que o New York Times considerasse 2000 o ano da moda brasileira. Os jornalistas estrangeiros, que finalmente concordaram em vir assistir aos desfiles da São Paulo Fashion Week, se declararam surpresos com a criatividade e a qualidade da moda brasileira.

Onde estamos?

O Brasil fatura anualmente US$ 32,9 bilhões, equivalentes a 4,1% do PIB total brasileiro, exporta em torno de US$ 2,2 bilhões e tem 1,5 milhão de trabalhadores no setor têxtil e de vestuário. Moda praia, roupas esportivas, lingeries e jeans são, de acordo com especialistas, os segmentos da confecção brasileira que mais encontram receptividade fora do Brasil. Há pólos têxteis em estados como São Paulo, Goiás, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Belo Horizonte, Paraná e Santa Catarina. A APEX-Brasil tem dois projetos em andamento para promover e divulgar mundialmente a moda brasileira. Um deles, com a Associação Brasileira de Estilistas (ABEST), destina de R$ 12 milhões para promover e incrementar as exportações da moda autoral de diversos criadores brasileiros para mercados da Europa, América do Norte e Oriente Médio. O segundo, de R$ 1,2 milhão, será realizado com o IN-MOD, ramificação institucional do SPFW, e visa fortalecer a divulgação do evento e o reconhecimento da Marca Brasil no circuito internacional da moda, auxiliando também no incremento das exportações nacionais.

Existem mais de 80 escolas de moda e cerca de 50 eventos de porte são realizados anualmente em todo o Brasil. De acordo com o site da Agência de Notícias Brasil Árabe, as coleções de estilistas brasileiros já fazem parte dos mais importantes desfiles internacionais de moda e ocupam araras de algumas das mais cobiçadas lojas de grife do mundo. As portas do globo estão abertas para a moda brasileira. As roupas fabricadas aqui chegam tanto em grandes redes da Europa quando em lojinhas da africana Gâmbia. Por outro lado, quando se fala da moda brasileira, é impossível deixar de mencionar os calçados. As sandálias Havaianas e Melissa são exportadas para diversos países, enquanto designers de calçados mais sofisticados, como Fernando Pires e Constança Bastos, têm suas criações exibidas pelos pés das principais estrelas do circuito fashion.

Mas aqui é aqui mesmo?

Os números e os conceitos acima levam muitas pessoas e empresas a acreditar que existe uma moda brasileira assombrando o mundo, que mal pode esperar pelas próximas tendências ditadas pelos estilistas brasileiros que, por outro lado, alimentam a visão de uma indústria pujante, aquecida e em crescimento. Pode não ser bem assim.

A questão da moda brasileira é bastante antiga, mas faz cada vez menos sentido num mundo globalizado. A condensação do estilo de vida de um determinado local dentro de um conceito de moda pode ser muito bem-vinda, mas o aprisionamento desse mesmo estilo dentro de um ou alguns estereótipos pode se tornar um imenso equívoco. Infelizmente, esse equívoco pode ser visto frequentemente em pequenos e grandes eventos internacionais destinados a promover a moda brasileiras, regados a mulatas, samba, caipirinhas, feijoadas e afins, num menu extremamente indigesto para o desenvolvimento de nossa indústria de moda. Em entrevista a Alcino Leite, da Folha de São Paulo, quando perguntado se quando cria pensa em fazer moda brasileira, Alexandre Herchcovitch respondeu que nunca: “A brasilidade do meu trabalho existe apenas pelo fato de eu ter nascido aqui. Tudo o que produzo já vem com a característica de ser o trabalho de um homem, judeu, descendente de poloneses e brasileiro, sem precisar que eu busque expressar isso ou aquilo”. Provocado pelo entrevistador a respeito da existência de uma moda brasileira, Alexandre responde: “Você acha que o Saint Laurent, ao criar, pensava em fazer moda francesa? Duvido. E ninguém olha a roupa dele ou do Lacroix e diz: nossa, que moda francesa”.

No que diz respeito à indústria rica e pujante, a questão é ainda mais complexa. De acordo com a ABIT, o setor não deve registrar crescimento em faturamento em 2006, ano em que será registrada queda na produção física da indústria de confecção no Brasil. Segundo a última pesquisa sobre Produção Física divulgada pelo IBGE, a produção de vestuário caiu 6,78% no acumulado do ano até setembro de 2006, comparado ao mesmo período de 2005, quando já havia sido registrada queda (-2,67%). Já o segmento têxtil teve um desempenho um pouco melhor (2%), mas ainda ficou abaixo da indústria de transformação, onde a produção cresceu 2,40% até setembro, comparado com o mesmo período do ano passado. O setor de vestuário também foi o que apresentou o maior número de demissões. O nível de pessoal ocupado caiu 5,35% entre janeiro e setembro, segundo pesquisa do IBGE que mede o emprego formal e informal nas seis regiões metropolitanas do País. Só neste segmento, houve eliminação de 96 mil postos de trabalho até setembro.

Glorinha Kalil, define bem a situação da indústria da moda brasileira: “Não há como negar: a moda brasileira tem por parte da mídia uma atenção que nenhum outro país dá a esta indústria. No entanto, essa visibilidade toda não resulta em benefício direto para o setor têxtil. Ou seja: a moda brilha, mas não vende. Ou melhor, vende muito menos do que se imagina pelo ruído que provoca. A razão principal para esse paradoxo é a falta de crescimento industrial do país e a redução do poder de compra do nosso povo embora alguns focos isolados já apresentem resultados melhores.”

Ah tá! Mas então, como eu faço para chegar lá?

Para o presidente da ABIT, Fernando Pimentel, um trabalho setorial, somado a mudanças macroeconômicas (redução da carga tributária sobre produção e investimento e realização de acordos internacionais com os principais mercados compradores de têxteis do mundo) podem fazer com que a cadeia têxtil brasileira saia da contramão e acompanhe o crescimento mundial. Só para comparar a atenção e os investimentos direcionados para o setor, em recente reunião do ITMF (International Textiles and Manufacturing Federation), a Índia informou que 12% do capital investido no país está no setor têxtil e de confecção, e até 2010 serão criados 25 parques têxteis que vão gerar mais de 12 milhões de empregos. O Paquistão também já divulgou que o governo irá investir US$ 7,8 bilhões para criar mais empregos na área têxtil. Dentre todos os grandes players presentes na última reunião do ITMF, o Brasil (sétimo maior produtor do mundo) foi o único que não apresentou investimentos ou subsídios do governo específicos para a área têxtil e nem estimativas de geração de emprego. Vale lembrar que, caso o Brasil conseguisse 0,5% do mercado americano, nossas exportações mais do que dobrariam, alcançando 5 bilhões de dólares anuais.

Os empresários brasileiros devem capacitar a si próprios e aos seus colaboradores, preparando-se para cobrar do governo as atitudes necessárias para o desenvolvimento do setor. Devem, ao mesmo tempo, investir em capacitação para gerir seus negócios de uma forma extremamente profissionalizada, para poder enfrentar a qualidade da concorrência na indústria da moda. A era glauberiana, na qual bastavam uma máquina na mão e uma idéia na cabeça, acabou. Pelo menos na indústria da moda.

André Ricardo Robic é diretor executivo do Instituto Brasileiro de Moda (IBModa). Especializado em Pesquisa do Consumidor, palestrante, consultor e professor de cursos MBA em Estratégia, Marketing, Varejo e Moda. Concluiu seu doutorado em 2003 na FEA/USP, dessa vez abordando os sistemas de informação no varejo – de moda.

Bibliografia:
www.revistasintetica.com.br; http://chic.ig.com.br; www.abit.org.br; www.anba.com.br; www.apexbrasil.com.br; www.fashionbubbles.com; www.mre.gov.br; www.revistadoseventos.com.br; www1.folha.uol.com.br

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maramarina
 

bacana.
texto rico para pesquisa.

axés

maramarina · Aracaju, SE 2/5/2007 11:24
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Revista Sintética
 

Valeu, querida.

Revista Sintética · Osasco, SP 3/5/2007 14:12
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Tê Jardim
 

me formando em design de produtos, minha monografia sobre cultura, semiótica e moda.

não podia ter "esbarrado" em texto tão adequado!!

Tê Jardim · Belém, PA 5/5/2007 00:14
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