Em meio a uma confusão, um personagem se resolve e, através da imaginação, se desenvolve
Maria Eduarda Borelli
Mariana Faria
“Acredita, bonita!”. Essa é uma das várias frases e gírias irônicas que o designer e artista contemporâneo Virgílio de Andrade lançou e consagrou na cena underground de Belo Horizonte. A expressão foi criada como uma brincadeira em resposta à atitude falsa e bajuladora das personalidades da noite urbana. Vivendo em um mundo de exibição e superficialidade, estas pessoas realmente acreditam em si mesmas e nos elogios afetados que trocam entre si. É aí que entra a piada inteligente de Virgílio. Mas o que um jovem estudante de 23 anos, nascido em Patos de Minas, tem de peculiar?
Virgílio é simples, e ao mesmo tempo complexo. Uma figura que leva tempo para se compreender, e que se esforça para compartilhar com o mundo os seus pensamentos, críticas e ironias. Até aí tudo bem, já que os jovens têm mesmo essa tendência a ser rebeldes e revolucionários. A diferença está no modo como isso é feito.
Esse mesmo homem do qual falamos, vindo de uma família tradicional e conhecida no interior, é tímido desde criança e sempre gostou de inventar personagens. Com a sua “criatividade à flor da pele”, inventou, já adulto, a personagem performática Dama Dorme e se tornou ícone em um universo noturno que ele mesmo critica, mas não hesita em dizer que adora. Virgílio é assim, uma figura paradoxal, de múltiplas facetas. Ao mesmo tempo em que se destaca simplesmente como sendo Virgílio, com seu visual incomum, ele também é capaz de encarnar características da personagem Dama Dorme, em uma relação de mão dupla que nem ele sabe explicar.
Virgílio Antônio Rodrigues de Andrade
Na cidade onde nasceu, na região do Alto Paranaíba, Virgílio não é conhecido como Dama Dorme e sim como filho do falecido “Antônio do judô”, já que seu pai, Antônio da Silva Andrade, foi o primeiro mestre da luta, em Patos de Minas. Apesar de hoje parecer improvável e talvez até impossível, Virgílio já foi campeão mineiro de judô, quando era criança e passava o dia na rua, brincando de subir em árvores. Uma atividade “bem interior”.
A tristeza da perda do pai, que faleceu de câncer em 2004, veio acompanhada de outro desgosto: seus parentes paternos não o vêem com bons olhos e o culpam pela morte de seu pai. Ele conta que, na época do falecimento, a sua homosexualidade ainda não era explícita, mas, no fundo, todos sabiam. Para Virgílio, esse preconceito da parte da família chega a ser uma irônica manifestação da mentalidade provinciana, já que existem pessoas de índole questionável em sua família. Ele acusa os parentes de serem “cabecinha”, e acrescenta: “tenho certeza que o meu pai me aceitava como sou, porque ele dizia que me amava”.
Virgílio é também conhecido como filho de Maristela, a vanguardista de Patos de Minas, que cursou Educação Física na capital mineira e foi a primeira mulher a usar calça jeans na pequena cidade. Hoje, ele mora em um apartamento com a mãe, de 59 anos, a quem se diz muito ligado, e uma de suas duas irmãs mais velhas. Segundo ele, elas o apóiam integralmente.
Muitas das roupas que usa em suas performances vêm do armário da mãe, considerado por ele, “extravagante”. Assim, ele busca a sua própria moda, que considera ser a sua atitude e busca constante de sua identidade.
Apesar de ter sido sempre bem aceito e amado por seus pais, Virgílio considera péssima a idéia de visitar o interior. É como se sentisse “um peixe fora d´água”. Mesmo assim, costuma visitar a família da mãe duas vezes por ano. Segundo ele, por ser uma cidade muito tradicional, um homossexual performático jamais será bem aceito. Lá, Virgílio conta que as pessoas o vêem como um travesti, e nem fazem perguntas sobre sua vida. Considera essa atitude uma conseqüência do tabu.
Porém, apesar de ser muito diferente de seus conterrâneos, ele também faz parte da tradição da cidade, já que seu avô Romeu Rodrigues se mudou para Patos em 1920 e ajudou a construir o município.
Aos 14 anos, Virgílio se mudou para a capital mineira para cursar Artes Cênicas. Fez teatro no NET, mas se decepcionou com os padrões “Globais”. Foi então que começou a se interessar pelo mundo da moda. Encantou-se pelo assunto, descobriu as performances e se empenhou. É, hoje, aluno de uma faculdade de Design de Moda, onde começou a seguir a linha da arte performática: começou a sair “louca”, se produzindo para as festas.
Quando questionado sobre a impressão que causa em seus colegas de curso, ele diz achar ser considerado “mais um bicha aluno de moda”. Segundo ele, essa é a pior das opiniões, de um povo “cabecinha”.
Vanguardista como a mãe e empreendedor como o avô, Virgílio pretende transformar Dama Dorme, que já tem logomarca própria, em uma marca de roupas, usando a personagem também como um grande marketing. Quando formar, pretende ter seu próprio atelier, para mostrar suas criações. Porém, acaba de lançar a marca Duotonee, com outras duas estilistas. Segundo ele, a marca "aposta no conceito de experimentação que une moda e artes visuais". Em julho, a nova coleção de bolsas e camisetas será apresentada no Encontro Nacional de Estudantes de Design (N Design).
Virgílio pretende dar passos mais largos: ele quer ser reconhecido e bem sucedido no que faz, e inclusive mostrar sua arte fora do Brasil. O projeto mais ambicioso, no qual se envolveu com Thiago Marini, é uma exposição de fotos, em um museu de Londres, que mostra diversas personagens da cultural brasileira, interpretadas por Dama Dorme.
Mesmo que, atualmente, seja ignorado pelos rapazes que foram seus antigos colegas e amigos de Patos, foi lá que encontrou o seu melhor amigo, primo por parte de pai e “eu interior”, Daniel Fonseca. Apesar de seu estilo de vida ter se afastado da pequena cidade mineira, ele ainda sente falta do “matão” e do sossego. É o que se costuma dizer: você pode tirar o menino de dentro do interior, mas nunca o interior de dentro do menino.
Dama Dorme
A personagem performática de Vírgílio é conhecida como Dama Dorme, e vive em um mundo alternativo regado a drogas e música eletrônica. É considerada por ele como “escrachada”, “podrona” e um “clown”, “palhaço total”, que atrai a curiosidade das pessoas.
A inspiração para o nome veio do remédio Dalmadorm, que tem a capacidade de diminuir o tempo necessário para início do sono e, ao mesmo tempo, de aumentar a sua duração. Apesar de a sua ingestão não poder ser feita juntamente com bebidas alcoólicas, uma vez que o álcool intensifica o efeito, podendo ser prejudicial, essa é a forma que Virgílio e seus amigos encontravam para se divertir. De acordo com ele, era tomar e “NÚ!”: o efeito vinha na hora.
Ele diz que o nome era algo que sempre esteve em seu subconsciente, e essa foi a forma de se manifestar. Segundo ele, este é um nome “péssimo” para um artista contemporâneo performático. Mas não pretende mudá-lo por ser um "um nome forte".
Depois de muitas aparições marcantes nas boates da cidade, Dama Dorme foi convidada a aparecer nas festas e a ganhar dinheiro com isso. Os pocket shows que começou a fazer não eram como os dos demais artistas e drag queens e, assim, ela começou a se destacar. Ela diz que não há nada de glamouroso nas suas apresentações, apesar de haver muito empenho na produção de cada show. Muitas das personagens, roupas e maquiagens são criadas na hora. O público deve ir preparado para demonstrações que, às vezes, são agressivas, nojentas e, até mesmo, epilépticas.
Cada noite, Dama Dorme encarna uma personagem diferente, em performances expressionistas que diz serem uma “explosão total”. Todas as aparições são embasadas em algum tipo de crítica, geralmente ligada ao que está na moda. Segundo ela, a intenção é “criar uma nova experiência estética nas pessoas”. Além de chocar, é claro.
O último evento que organizou com os amigos foi realizado no “inferninho” Mary in Hell, que fica na região da Savassi. O nome da festa, Se todo mundo toca, a gente também toca, foi uma maneira engraçada e simpática de criticar a profissão de DJ, que vem se multiplicando como uma forte tendência. Nesta mesma noite, além de ter fingido tocar nas picapes, Dama Dorme se apresentou como a personagem Cagada Di Paloma, coberta de chocolate e com uma pomba de isopor presa à cabeça. Foi mais uma crítica a outra personalidade da noite underground: a mulher que se acha muito moderna e gosta de chamar atenção nas festas, nomeada por Vírgilio como a "moderna de merda" das pistas.
A Dama Virgílio
Virgílio e Dama Dorme realmente parecem ser uma pessoa só. Mas qual a separação entre eles? Ele é um homem barbudo que se diz tímido desde a infância. Ela é uma mulher que, de tão impactante, chega a ser assustadora. “Sou muito Virgílio, e adoro a Dama Dorme. O Virgílio é meigo, a Dama Dorme é trasheira”. Dama Dorme é o alterego e a principal válvula de escape de Virgílio. Dama Dorme é “muito maior e mais famosa que Virgílio”.
Ele, que muitas vezes não sabe se é ele ou ela, tem uma vantagem: pode escolher qual personalidade quer ter, em diferentes momentos da semana. Como um homem que a noite vira lobisomem, ele vira a Dama Dorme. Durante a semana é ele, um rapaz sério e dedicado ao seu curso, aos seus negócios e às suas idéias. Nos fins de semana é ela quem se esbalda, aproveita cada festa como se fosse a última. Mas isso não quer dizer que ele não possa aproveitar, e nem que ela possa expor suas opiniões. O que se sabe é que, aos Domingos, é sempre ele quem tem que agüentar as conseqüências de tanta badalação. Ele diz que a Dama Dorme atrapalha o Virgílio, porque, depois de tudo, ele sente o que chama de “travamento, auto-flagelação”. Mas que, apesar disso, ela é mesmo um alívio. “Não sei mesmo explicar”, diz.
É difícil entender como um jovem com tantas tatuagens e enormes óculos de grau, que fala com simpática afetação e deboche, pode dizer que sente pânico ao ser observado. Virgílio pode, assim, ser considerado a personificação do ditado “quem vê cara não vê coração”. “Tento gostar de mim ‘no carão' e fingir que não estou importando com o que os outros pensam, mas no fundo estou sim”, confessa.
Enquanto isso, Dama Dorme é famosa, poderosa, segura de si e cheia de atitude. Talvez essa seja uma explicação: apesar de Virgílio e Dama Dorme partirem da mesma pessoa, são duas identidades quase independentes que se complementam e interagem, dando força um ao outro. O que se pode perceber é que, talvez, a essa altura, um não exista mais sem o outro.
Geeente! E o bigodinho Salvador Dali?? Valeu, meninas, por apresentá-lo e ilustrar tão bem o texto! Que loucura...
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2007 19:07
E essa sombrancelha toda?
A-D-O-R-E-I!
Parabéns pela reportagem. Gostei muito. Caio.
muzamba · Belo Horizonte, MG 6/6/2007 13:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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