O Deus que devasta mas também cura-Lucas Santtana

Daryan Dornelles
Lucas Santtana
1
Henry Burnett · São José dos Campos, SP
24/3/2012 · 1 · 2
 

Há bem pouco tempo foi decretada, subliminarmente, a morte do cancionista no Brasil. Para ser mais preciso, quem morria não era o autor, mas o estilo-canção. Como a sensação do tempo é cada vez mais difusa, e as sentenças cada vez mais frágeis, o mensageiro do aviso hoje sobe ao palco e, num “ponto alto” do seu show, é o que se sabe, cita um jovem compositor cujo estilo deveria nortear a música popular depois do ocaso da canção; tempos difíceis para a crítica musical: o rapper citado pelo velho mestre soa tão próximo do estilo em “fim de linha” que seria difícil imaginar como pode ter ocorrido o inverso do previsto, isto é, a tradição engoliu, triturou, subjugou e deu régua e compasso a quem deveria ser seu algoz.

Cabe a pergunta irônica: Criolo foi integrado à tradição por um Chico Buarque impassível, renovado e renovando as raízes mais estanques de nossa canção pela deglutição de um falso rebelde? Um espetáculo digno de muita reflexão, mas que esbarra numa crítica cultural perdida, que acaba achando tudo apenas uma troca de favores. O público grita “lindo!” para Chico, a crítica o incensa, enquanto os paulistanos cantam com o rapper em uníssono, sem perceber nem um nem outro; alheios tanto ao alcance da poesia quanto à degradação social e urbana enunciada em linguagem direta, sem necessidade de mediação para sua compreensão. Tudo lançado ao vento, aparentemente.

Enquanto isso, longe dos holofotes das colunas sociais, o compositor baiano Lucas Santtana subjuga todos os decretos e põe os rótulos no bolso. Sua obra pode ser acompanhada a partir de um conjunto de álbuns que ele produziu desde 2000, quando lançou Eletro bem Dodô, Parada de Lucas (2003), 3 sessions in a greenhouse (2006), Sem nostalgia (2009) e o recém lançado O deus que devasta mas também cura, de 2012. Com este último, podemos falar agora em uma obra. Não porque os anteriores não fossem igualmente íntegros e bem produzidos, mas porque O deus que devasta atinge um paradigma muito peculiar, como tentarei mostrar.

A recepção de seus trabalhos tem sido cada vez mais ampla, ainda que não seja exagero dizer que as publicações europeias sejam as que mais rigorosamente o compreendem e o criticam dentro da mais afiada percepção da música popular do mundo atual. Seu disco de 2009, Sem nostalgia, ganhou prêmios e ficou entre os mais bem cotados em listagens importantes de publicações especializadas. O próprio compositor, que trabalha diretamente na sua produção, disponibiliza as matérias lançadas fora do Brasil em seu blog Diginóis – ora em migração para o site definitivo do artista (lucassanttana.com.br).

Nesse caso, a crítica, em língua inglesa principalmente, reflete a abertura dos seus leitores-ouvintes ao novo, à experimentação; exercício tão em baixa no Brasil, mas que paulatinamente vem dando o tom do que se está fazendo de melhor por aqui. A crítica europeia parece conectada ao que os seus ouvintes assimilam, e não precisamos de muito para perceber que por aqui ainda nos debatemos sobre o que é profundo e superficial, enquanto as coisas vão acontecendo e às vezes passam sem sequer terem sido devidamente ouvidas. Vale dizer: há profundidade em Lucas Santtana.

Já não bastaria dizer que ele incorpora material eletrônico às suas canções; isso diz pouco sobre o caminho que vem construindo. Muito já foi dito sobre seus discos, principalmente sobre o Sem nostalgia, onde a partir do canônico voz/violão construiu um pequeno manifesto sobre as possibilidades de renovação e redimensionamento do formato. Nesse ponto o disco é um marco. Certamente o disco mais “World Music” que ele produziu, cujos efeitos podem ser sentidos com um mínimo de proximidade com a língua portuguesa.

Aqui, eu gostaria de tratar em primeiro plano seu disco mais recente. Não apenas porque é o mais novo, mas porque ele apresenta, pela primeira vez, uma equivalência entre duas esferas que até então me pareciam desiguais: as letras não acompanhavam a profusão sonora de cada nova experiência. Mas isso não significa um apequenamento dos discos anteriores, antes parece correto pensar que O deus que devasta mas também cura põe em cena algo que ao próprio compositor não era necessário investir até então. Ou que suas intenções eram outras.

Seus discos anteriores apontavam para uma dimensão pop-dançante nítida e bem definida. Ainda que algumas canções mais líricas se destacassem, como “Cira, Regina e Nana”, havia neles um conteúdo de festa – Sem nostalgia, não por acaso, representa uma guinada fundamental em direção ao disco mais recente.

Para entender esse novo elemento, que agora faz par com as experimentações sonoras, ou acreditamos num processo de maturação ou precisaríamos apelar para as notícias (ou libelos) sobre o compositor: o que lemos nas matérias de lançamento é que o compositor se separou e – por isso – fez seu melhor disco etc.; da mesma forma que Otto com seu Certa manhã acordei de sonhos intranquilos (2009), com o qual seu disco foi comparado. Digamos então que há uma passionalidade no disco. O que isso significa num disco pop?

Compreender o redimensionamento da canção no Brasil seria então admitir que a vida dos compositores vem à tona nos momentos mais intensos de criação? Uma fonte inesgotável, portanto? Não precisamos ir longe para saber, mesmo contra nossa vontade, que Chico é um dos melhores discos de seu autor porque foi composto para uma mulher.

Se a imprensa confirma, o disco também confirma. Mas como Chico Buarque pode mimetizar qualquer vivência, mesmo as que não viveu, talvez isso não pese tanto na avaliação do seu legado literário, porque em última instância ele poderia ter inventado o amor, pura e simplesmente.Não é caso de Lucas Santtana, ao que parece.

A primeira canção do disco, “O deus que devasta mas também cura”, homônima do título do álbum, foi gravada anteriormente num excelente lançamento de 2011, de Gui Amabis; no disco Memórias luso africanas o próprio Lucas Santtana interpretava a canção. Na nova gravação ganhou um pulso mais adiantado, uma bateria “na cara” e metais de muito bom gosto – outro diferencial em relação aos discos anteriores, cordas, metais e arranjos muito diferenciados. Trata-se de uma das melhores canções do disco e que dá o tom e a explicação para o título.

Nela, fundem-se a relação ascética com esse deus capaz de destroçar a cidade e ao mesmo tempo adentrar o espaço íntimo do casal para igualmente destruí-lo. Curiosa analogia.

A letra alterna um dia caótico com uma aparente desordem interna do casal, Carros sobre o alambrado/ Pista coberta de barro/ Bancos e escolas fechados/ Quando a cidade parou/ Por causa da fúria de um deus/ Que fez ainda pior/ Muito assustadoramente/ Revirou a casa, esvaziou o armário e levou a mala/ para sabe alguém aonde isso dá? O jogo bem construído encerra com um tipo de prece que se refere a um menino, que será protegido de ambas as intempéries, as naturais e essa que parece motivar a letra; quem vela o menino é um deus-sol, cuja luz retornará na penúltima faixa: ó sol! proteja o menino. Lucas não está apenas escrevendo em outro patamar, ele está cantando também melhor e com grande emotividade, como no desfecho profundamente triste com que interpreta o que parece ser o epílogo da canção, expondo seu temor com a possível distância que se abrirá entre ele e o menino da canção. É o que o ouvinte interessado apenas na música tende a interpretar.

A canção seguinte é uma parceria entre Tom Zé, Herbert Vianna e Bi Ribeiro, “Músico”, regravada agora com a função de relembrar a função aglutinadora do compositor, imagem com a qual Lucas Santtana se identifica completamente: Somos um trem/ Um trem que tem a ignição de ser pó-/lem porque além disso dó-/mina, insemina e se co-o-o-ze em/ Sêmen, semeiem/ Sêmen, semeiem.

Momento ideal para convidar outra figura-chave do ambiente musical recente, a cantora Céu, uma outra polinizadora que se firma como uma das grandes de sua geração. A cumplicidade pode ser conferida também no disco dela, recém-lançado.

A terceira faixa é a mais confessional de todas, “Jogos madrugais”, onde o compositor fala de si, de seus processos criativos e formas de trabalhar, Eu gosto de varar a madrugada/ Jogar até o corpo exaurido cessar resposta.

Se há na primeira parte da letra todo um feixe de ações explosivas que movimentam seu trabalho, há ainda numa estrofe em inglês o vínculo com todos os seus parceiros através dessa grande rede conectada: my thoughts are changing my brain/ my neurons are playing like in a game/ and connect together as friends/ within the electric machine.

Não há como pensar no trabalho de Lucas Santtana desconsiderando o que pode ser pensado como um anti-movimento, que não se iguala estilisticamente, mas que forma uma rede de contribuições que têm em seu trabalho uma das pontas mais fortes. O disco é um diálogo com tudo e com todos os cúmplices da música mais livre que se faz no mundo hoje.

Na faixa 4 volta o lirismo naquela que considero a melhor canção do disco, “É sempre bom lembrar”, O amor/ no começo é um alvoroço/ qualquer momento é um colosso/ nem o tempo cogita em agir/ O amor no decorrer fica confuso/ muitas vezes difuso/ e o tempo ralenta e nos diz/ que é sempre bom se lembrar. É de fato quando podemos notar que tudo o que entrou no disco foi escolhido a partir desse mote passional, que levou o músico ao texto puro, quase eclipsando a marca essencial do seu trabalho: o processo de experimentação com os recursos eletrônicos e digitais. Mas longe disso, o que houve foi uma fusão entre o eixo principal do seu trabalho e essa verve que vem à tona num momento tão importante para o seu estabelecimento no cenário da música brasileira recente: o letrista.

Curioso ouvir a faixa 5, dedicada a São Paulo, “Se pá Ska SP” e lembrar que ele falou certa vez da intenção de mudar para lá, justamente onde A solidão tem morada permanente. Ele diz então na letra: É só sair na rua e ter a sensação/ De que somos sós desde a barriga até o caixão/ Mas eu disse sós, não disse sozinho. Sua declaração de amor enviesado certamente se refere à recepção de seu trabalho na cidade.

Mas não só, é quase como se o acolhimento ainda que ligeiro fosse também um antídoto maior e talvez o único eficaz contra todos os males da solidão. Não sei se ele mudou, mas sua familiaridade é escancarada: De braços abertos essa mãe ossuda/ Te acolhe no teu colo mas ele machuca/ o Imã gigante, meca do dinheiro/ lixo no bueiro, cinza no cinzeiro/ Sentar –se pra comer alguma hora é diversão/ Parada obrigatória em qualquer programação/ Comida é cultura e vai ser consumida/ Enquanto rola solta a boa prosa desmedida/ Eu já disse sós, não disse sozinho. De fato, nunca se está só em São Paulo, mas sozinhos, sempre.

A próxima cidade homenageada é Belém. Garanto – por declaração de naturalidade – que é um bonito retrato da “mangueirosa”. Mas se por um lado sua letra evoca, à Manuel Bandeira, imagens como A cidade acorda/ Sinos à capela/ morena por quem eu me dobro/ Mesmo na distância/ Jambu traz lembrança/ na boca, a língua dormente/ Ela é Belém, um retrato filtrado por uma imagem um tanto quanto idílica, embora perene, ao final, a cidade é vista pela lente do chamado Tecnobrega, que ancorou há algum tempo em São Paulo, cidade que tudo acolhe: A cidade dança/ quando a noite adentra/ sedenta, a máquina vigora/ luz de aparelhagem/ abraço do grave/ no som, a onda estronda. São duas visões idílicas, afinal. E não menos verdadeiras por isso.

A faixa 7 é a instrumental do disco, sempre presente em todos os álbuns. Neste, como não poderia deixar de ser, se reduz a uma só – havia muito a dizer, afinal.

A enigmática faixa 8, “Para onde irá esta noite?”, para uma mulher não declarada, aparece como um duplo de É sempre bom lembrar, de mesma intensidade e com um dos melhores arranjos do disco, com as guitarras dando o tom. Ao ouvinte parece quase como se Lucas estivesse encontrando Nana, a terceira mulher da canção “Cira, Regina e Nana” do Sem nostalgia, mas se trata de uma quase saída, a fila quase anda.

Uma canção que tem tudo para se tornar um grande tema; é de longe a melodia mais bela do disco. A entrada das guitarras é surpreendente em seu vínculo com a intenção da letra. O arranjo conduz a compreensão da letra, algo que os Los Hermanos transformaram em um estilo de canção.

A faixa 9 é a única solar, só possível porque ele se cercou de crianças, para quem nunca os temores da vida são graves o bastante para estragar um domingo ensolarado no Rio de Janeiro: Veja, como o sol está tinindo/ O azul no céu que lindo/ É uma manhã de domingo/ Hoje, o seu pai não tem trabalho/ Sua mãe não tem horário/ O tempo é um menino/ Então, vamos passear/ Mateiro andar por entre o arvoredo/ Vamos buscar o equilíbrio ao pedalar/ Saber porque no mar tem tanta espuma/ Josué cadê Joaquim?/ Dia de furar onda no mar.

Composta com uma colagem de textos de Josué Santana (seu filho), o cavaco conduz a levada de um quase samba-rock, que poderá ser a única considerada diretamente “alegre” em todo o disco: “que almejar é beijar na boca”,/ “réveillon é o nome de uma empresa”/ “contemporâneo é alguém sem coração”/ “incidência é um incêndio bem pequeno”,/ “nunca será rei pois vítima sempre será”, festa, enfim. Mas a alegria é apenas de seu olhar, não de si mesmo. O disco deveria acabar aqui, ou poderia, se ele quisesse.

A última faixa é uma versão do próprio Lucas para “This is not the fire”, do quinteto londrino My Tyger My Timing, “O paladino e seu cavalo altar”.

É enfim o Lucas Santtana de sempre, cada vez mais conectado, mas também e definitivamente cada vez mais fincado em seu país e na história de sua música.

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Oficina CCMixter
 

linda resenha, belo texto, o disco realmente é fantástico!

Oficina CCMixter · São Paulo, SP 28/3/2012 23:08
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Oficina CCMixter
 

link para download do disco (facebook oficial de Lucas Santtana): https://www.facebook.com/lucas.santtana.official/app_2405167945

Oficina CCMixter · São Paulo, SP 28/3/2012 23:10
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