Adoro bandas polêmicas e essa é uma das minhas preferidas: Legião Urbana. Neste disco que mudou provavelmente muitas cabeças adolescentes da época (inclusive a minha) com questões existencialistas e profundas que, ainda que fossem questões pessoais do Renato, eram também parte da maioria dos que ouviam e se apaixonaram pela sua poesia.
Era o início de uma época de ouro no rock brasileiro e havia para todos os gostos: de "Garotos Podres" a "Ultraje a rigor"; "Barão vermelho" a "legião Urbana".
Em uma entrevista concedida à revista Biss (magazine musical que teve seu auge nos anos oitenta), Cazuza fala que uma dos seus combustíveis para escrever eram as letras de Renato Russo. O rock era poético, muitas vezes tosco, mas parecia que todos queriam falar coisas consistentes e muito se deve isso ao "Legião".
Então imagine, você com uma idéia boa na cabeça, cheio de vontade e um empresário lhe dando corda e dinheiro. Acreditem ou não, nos anos oitenta, a maioria dos discos não era feita desse jeito. Era uma época não muito romântica para o áudio e para a produção artística. O início da era dos “midiman”, verdadeiros samurais que limitavam o trabalho a uma só pessoa.
“Midiman” vem do termo midi (Musical Instrument Digital Interface), uma invenção que modificou todo o pensamento da época até os dias de hoje. O midi é uma coisa simples: sabem os teclados? Então, em vez de gravar o áudio, o midi somente adiciona informações para cada nota que você toca no dito cujo, ou seja, vamos supor que você pegue o seu dedinho e toque uma nota no teclado (um dó4, por exemplo). Então o protocolo midi grava em uma seqüência que você tocou um dó4 com intensidade x, duração y em determinado momento da seqüência. Uma vez feito isso, quando você reproduz a seqüência ele repete exatamente o que você tocou no teclado.
O incrível é que não havia polêmica ao redor do bendito e todos pareciam concordar que aquilo era revolucionário: O “midiman” programava a música inteirinha em casa, todos os instrumentos, com aqueles timbres horrorosos. Como o midi permitia você programar em um teclado e reproduzir em outro, você poderia mudar os timbres como quisesse. E lá vinham os midiman com trezentos teclados, baterias eletrônicas, one man bands dos anos oitenta. Então, 90% do que você ouvia nos artistas oitentistas, era feito por um homem só: o midiman. Uma pancada e tanto para tanta coisa que havia acontecido nos anos 70. A música assume o seu lado comercial toscamente, os produtores enlouquecem com a possibilidade de diminuir o trabalho e poder produzir cada vez mais. Era simples: o produtor escolhia as músicas, o midiman e esperava que ele trouxesse as músicas para o estúdio. Depois vinha o cantor colocar a voz no estúdio, alguns músicos ainda poderiam tocar adicionando guitarras ou baixo (mas nem sempre), o técnico mixava e tchanaaaan! O disco estava pronto. Fácil, fácil (tudo bem que muitas vezes o midi dava pau ou conflito quando era sincado entre vários teclados, e ai realmente era uma dor de cabeça... mas pensando bem, bem feito!).
E o rock, mais uma vez, salvava o mundo (nada de baterias eletrônicas!). Um tanto quanto deprê, admito, mas a rebeldia é assim mesmo, um cavalo indomável. E era desse jeito que o rock do legião dominava as cabeças adolescentes, dizendo a verdade sobre sentimentos que muitos não tinham coragem ou tato para falar.
Se não me engano, tempo perdido foi a primeira música de trabalho. A guitarra dessa música influenciou um monte de guitarristas, inclusive eu, que considero Dado Villa-lobos, uma das minhas maiores. E é um exercício bem interessante ouvir o disco focando a atenção a um instrumento. Uma música interessante para fazer isso é “Acrilic ou canvas”, com vários detalhes de guitarra.
Outra coisa importante para se destacar nas musicas é a grande criatividade melódica de Renato. Notem como a base se mantém a mesma e a voz vai costurando melodias diferentes... é bom isso, ne? Acabou sendo a sua marca registrada, além de ser incrível que com palavras tão simples, ele consiga definir coisas tão complexas e obtusas...
“Esse ar deixou minha vista cansada.
Nada demais”
Contam que a letra de índios foi feita em 15 minutos, enquanto ele ouvia a base gravada no estúdio. E outra marca registrada: letras longas e que você não cansa de ouvir e de querer aprender a cantar. Lembro que quando o Legião lançou a música "Faroeste caboclo", todos faziam concurso pra ver quem sabia a letra toda de cor. Deve ter sido a música mais cantada nas horas de recreio da história. Ahaha
Minha dica:
"ouça no volume máximo"
Oi, tirando essa questão técnica aó do midi que não entendo bulhufas... A sua escolha foi ótima e sua leitura da obra do Renato remete ao meu jeito de pensar; por você aqui, o Cazuza também pensou assim e muita gente por aí afora. Renato tem esse dom: fazer pensar em nós e no mundo. E digo assim no presente, por que ele ainda está aí e estará sempre. Desse disco, Andrea Doria me diz e diz por mim tudo...
Bj gde!!
Quem se interessa por musica brasileira deve ler este seu otimo texto! Votado.
Jorge Daher · Ribeirão Preto, SP 23/11/2008 13:10
Ah eu tenho um novo texto sobre cidadania, gostaria que vc lê-se. Abraço!
Jorge Daher · Ribeirão Preto, SP 23/11/2008 13:11
Que interessante essa história dos midiman hein?
Abraço.
Gostei... bateria na real, sem maquininha pra mimicar o som e a vibracao que so um toque humano pode fazer na gente sentir o prazer de viver, cantando, tocando.
Tempo bom leleu...
Sempre é um prazer, ler ouvir, falar de Legião!
Quem não teve em sua biografia, na década de 80, um fato, uma marco, uma pérola de nossa memória, ao fundo qqr múisca do Legião?
Um ícone de uma década!
WFB
Que saudades do CAZUZA!
Trazendo mil rosas roubadas...
E pedindo um pedaço amanhecido
Do nosso pão!
Adorei seu texto,
Sou louca pelo grupo "IRA"
E a ira de todos esses grupos...
Abraços!
PARABÉNS.
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