A arte do teatro de bonecos é abrangente. Eles ganham vida por meio de mãos, varas, fios, entre outros mecanismos. O que não pode faltar é a criatividade e o encanto de divertir através desta forma teatral tão, ou mais, antiga que o próprio teatro realizado por atores humanos.
Mas entre as várias formas de apresentação do teatro de bonecos, foi a manipulação através de fios, conhecida como marionetes, a escolhida por três jovens da cidade de Guarujá (SP): o grupo “Marionetes Guarujá” formado por Tarcísio, Ulisses e Thiago. Os dois primeiros, filhos de Tarcísio Borges, ventríloquo e mágico. Foi ele, o primeiro incentivador da arte desenvolvida pelos filhos.
Tarcísio, o pai, conheceu nas ruas o trabalho com marionetes de um hippye, Luiz Pina. Mas os bonecos apresentados por ele não eram muito bonitos. Artesão talentoso na produção dos ‘pequenos’ atores e, já apaixonado pela arte das marionetes, Tarcísio propôs uma troca a Pina: ele o ensinava a fazer bonecos mais trabalhados e Pina ensinava aos filhos de Tarcísio a arte de ‘dar vida’ às marionetes.
Assim cresceu a paixão de Ulisses e Tarcísio pela arte que hoje desenvolvem com tanto talento, encantando platéias de diversos lugares do país. Só que para ganharem destaque, resolveram criar um diferencial. No lugar de trabalhar utilizando os bonecos para contar ou encenar estórias, preferiram utilizar o palco criado por eles, com imensa gama de efeitos luminosos, para dá lugar a personagens do cotidiano dos brasileiros. Personalidades da música principalmente.
No show que fizeram no 3º Salão do Livro do Tocantins, no final do mês de maio, foi Roberto Carlos e sua orquestra os primeiros a entrar. Os bonecos dublaram a música e o som da orquestra do rei, com uma variedade incrível de detalhes, fazendo a platéia cantar junto com o pequeno Roberto.
No palco ainda desfilaram personagens como Kelly Key, Ivete Sangalo, Latino, Xuxa... Também personagens imaginários, os destaques maiores do show, como os cachorros The dog’s e a caveirinha Alcides Mancha, que fez o público cair na risada e entrar na magia proposta pelo trio. O personagem já ganhou prêmios, como o quadro "se vira nos 30" do programa do Faustão, na Globo.
A pequena Isabella Bianchi, 10 anos, saiu do show feliz da vida. “Amei a apresentação de marionetes e o melhor, na minha opinião, foram as apresentações da Kelly Key e do esqueleto” disse, ressaltando a admiração, em razão dos bonecos parecerem tanto com os artistas.
Na apresentação também não faltam as mágicas, antes realizadas pelo pai. O boneco inspirado no mágico “Mister M” faz um pombo e um coelho aparecerem no palco em meio a truques de magia. Ao todo, são 45 minutos de muita música, efeitos sonoros, luz e alegria.
Paixão
O prazer do contato visual com a platéia, os artistas preferem deixar para os bonecos. Escondidos atrás do palco, eles não gostam de aparecer, dando ainda mais magia ao show. Aos três, ficam os sons das palmas e dos risos... os sons de aprovação do público que, às vezes emociona tanto que obriga um deles a dar uma espiadinha.
Esta é a recompensa que recebem por um trabalho pelo qual se dizem apaixonados. Para Ulisses, os bonecos são como filhos. E como um pai, ele se emociona quando a platéia recebe tão bem o trabalho do filho. “O meu primeiro contato com as marionetes foi aos 13 anos e, nunca mais parei”, afirma.
Desde então sua vida está interligada à arte das marionetes. Os bonecos o ajudaram a superar problemas e fases difíceis na adolescência e, o tema é sempre tratado por ele com um amor intenso por seu trabalho, que já se tornou parte de sua vida.
Tão parte, que ele e o irmão deixaram a formação em manutenção de aeronaves de lado e, têm se dedicado apenas ao trabalho com os bonecos. Trabalho que consome, atualmente, quase todos os dias da semana, “mal sobra tempo pra gente, mas tudo bem”, explica Ulisses. De janeiro a junho deste ano, eles já realizaram mais de 150 shows, uma média de quase um por dia. O tempo que sobra eles utilizam para ensaio e para a construção de novos bonecos.
Mas nem o cansaço ou a vida sem paradas desanimam o trio. “Mesmo se ganhássemos na loteria, não largaríamos isso por nada” enfatizam e, assim continuam por aí percorrendo estradas com a missão de levar sorrisos a crianças e adultos....
O teatro de bonecos
Segundo informações do Cepetin - Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil, ao que tudo indica, o teatro de bonecos, ou títeres, existiu em quase todas as civilizações e em quase todas as épocas. Na Europa, por exemplo, há registros escritos desta arte que datam do século V a.C.
Em outras civilizações eles são menos antigos, mas na China, na Índia, em Java e em muitas outras partes do Oriente o teatro de bonecos tem uma tradição tão antiga que é impossível determinar quando começou. Há até quem afirme que o teatro de bonecos é a forma mais antiga de teatro e, que dele é que surgiu a arte dramática.
Uma afirmativa difícil de comprovar e, contestada por muitos, mas outras teorias também apontam um desenvolvimento paralelo, com uma influência direta ou indireta entre ambos. A certeza é apenas que ambos tiveram origem inspiradas na magia, nos rituais de fertilidade, no instinto humano de representar aquilo que se deseja que aconteça na realidade.
No entanto, é preciso apontar que o teatro de bonecos, apesar de ter a mesma origem do teatro humano, tem características especiais, que garantiram a sua sobrevivência ao longo de tantos séculos. O fascínio desta forma teatral é mais profunda e cobra mais da platéia. O espectador não pode ser mero espectador. Tem de usar a imaginação para projetar no boneco a emoção do que ele representa.
Um fascínio tão profundo que, em algumas formas de teatro de bonecos, como o mamulengo, onde os bonecos são feitos de forma bem rudimentar, às vezes nem boca têm, as pessoas enxergam mudanças de expressões, formas, sorrisos... Interagem e se comunicam com seres que ganham vida através da emoção projetada pela platéia.
Site
Mais informações sobre o trabalho do marionetes Guarujá podem ser acessadas no endereço www.marionetesguaruja.com.br. Alguns vídeos também estão disponíveis no you tube no link www.youtube.com/watch?v=nVjKSgiU6_I e www.youtube.com/watch?v=TF8Ls_IO3rc, entre outros
Beleza, Daianne.
Um trabalho que seduz, como vc mesma disse, há muitos séculos os homens.
abcs
Maravilha!
Adorei o lado factual do texto com o relato sensível retratando a emoção do espetáculo, mais do que ele mesmo. Como admirador do teatro de bonecos, isso me fez viajar na sensação do público.
Me interessou, e acho que valeria ver aqui no Overmundo um texto com esta discussão sobre a origem do teatro de bonecos X arte dramática.
No mais, só os parabéns Daianne!!!
Excelente colaboração. Aqui em Natal essa arte ainda permanece com a maestria de Augusto Bonequeiro e muitos outros. Infelizmente perdemos Chico Daniel, um mestra na arte do teatro de bonecos, mas a cultura sobrevive e isso é importante.
Excelente recorte, as fotografias têm muito valor. Um abraço.
Como eu lhe disse antes, Daianne, quando se escreve sobre arte o que conta no texto é passar a emoção do que está sendo feito e a reação do público. E você sabe que gostei do texto! E do Título!!!! rs
Rafaela Lobato · Palmas, TO 13/6/2007 17:30Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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