O DNA do Centro de Criatividade de Curitiba

Luiz Cequinel
Elvo Benito na noite de lançamento do livro, no ateliê de escultura
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Adriane · Curitiba, PR
17/6/2007 · 252 · 4
 

Escultura em bronze já foi uma das formas mais populares e valorizadas de artes plásticas, mas hoje em dia já não é a que mais recebe atenção dos artistas. A maioria das peças com esta matéria-prima eram feitas sob encomenda de instituições, para criação de bustos de personalidades históricas - o que agora é cada vez mais raro. Foi pra tentar corrigir este desvio e ajudar os escultores que gostam desse material que o catarinense, radicado em Curitiba desde 1969, Elvo Benito Damo, fez o livro Fundição Artística – Escultura em bronze pelo processo de cera perdida.

O lançamento da obra foi em abril no ateliê de escultura do Centro de Criatividade de Curitiba, uma antiga fábrica de cola transformada, nos anos 70, em espaço cultural. O lugar, um belo galpão com paredes de pedras, coordenado por Elvo desde os anos 80, recebe gente de todo o Brasil para pesquisar, aprender e ensinar no ateliê, instalado em um complexo cultural. O Centro de Criatividade está dentro de um parque, o São Lourenço, que tem também um lago, pistas para caminhada e para bike, além de outros ateliês de artes, o teatro Cleon Jacques e espaço para exposições.

Na noite de lançamento do livro, Elvo organizou a criação de algumas obras para demonstrar, passo a passo, como nasce uma escultura em bronze a partir do processo de cera perdida (a cera serve de molde, já que a peças em bronze são ocas e, depois, é descartada, daí o nome). Usa-se a cera de abelha, que vai para um bloco refratário, onde é queimada e o metal derretido, vertido dentro do bloco que ocupa o lugar da cera, explica Elvo. “Foi a que caracterizou as fundições gregas, da idade média, quando se faziam peças únicas. Depois, se passou a trabalhar com peças múltiplas, por isso agora é possível encontrar algumas obras de Brecheret e Rodin numeradas. Isso foi uma imposição de mercado”, observa.

“Desconheço a existência de outro livro brasileiro sobre o assunto. Pesquisei bastante e tudo que encontrei foi a história da fundição”, comenta o escultor. “Minha intenção foi tornar essa técnica conhecida, para que não morra, porque ela corre esse risco, já que a postura do poder público frente a praças e monumentos mudou radicalmente. Não se vê mais uma escultura de bronze sendo inaugurada. Até porque a própria arte, conceitualmente, mudou de direção”. Ele conta que no Paraná são pouquíssimas pessoas que ainda trabalham com esse processo comercialmente. “O custo é muito alto e as fundições grandes estão fechando. Muitos só trabalham por encomenda garantida”, comenta.

Para críticos
Diante das dificuldades é inevitável que até o próprio escultor busque outros caminhos e trabalhe com materiais que têm mais público, acredita Elvo. Ainda assim, garante, tem gente que faz questão do bronze. “Ele tem uma aura de nobreza, como o mármore. Não vão desaparecer por mais conceitual que a arte esteja hoje, vira coisa de colecionador, se valoriza com o tempo”, aposta.

Voltando ao livro, ele diz que não pensou só nos escultores. “Quem sabe alguém quer montar sua fundição de fundo do quintal. E também para os próprios críticos que não sabem bem como essas obras são realizadas. Tem que se conhecer o preço verdadeiro de uma obra de arte em bronze”. A publicação está pronta há 7 anos e quando um amigo decidiu inscrever um projeto na Lei Municipal de Incentivo a Cultura de Curitiba foi só dar uma atualizada. “Melhorei as técnicas, nesse tempo”, diz ele, que trabalha com isso desde 1975. Elvo estava na primeira turma do ateliê que agora coordena.

“No começo a gente errava mais do que acertava. Depois fomos modificando nossas percepções. Você é um artesão nessa hora. Não tem alta tecnologia, tem que reconhecer a temperatura pela cor, saber se o metal está pronto pela cor e isso se vai conseguindo com a constância da profissão. O padeiro olha dentro do forno e diz se tá bom, não precisa marcar tempo no relógio”, fala ele que também esculpe em pedra, mármore, madeira e metal. “Porque tenho necessidade, e porque sou responsável por um ateliê de escultura e tenho que ter informação técnica pra passar pro pessoal”.

Aprendizes
No “pessoal” tem gente simpática e alto astral como Consuelo Misurelli, que há 12 anos vai ao ateliê - e é leitora do Overmundo, contou. Ela tinha um namorado escultor e a convivência despertou a curiosidade. Vizinha do Parque, um dia foi conhecer o ateliê e... “Não é todo mundo que gosta de ficar aqui. Você fica com roupa suja, é um ambiente pesado, as mãos ficam feias. Mas eu aprendi tanta coisa aqui, espiritualmente falando, inclusive”, diz Consuelo, que já ganhou menção honrosa em salão de cerâmica. Ela esculpe mulheres e quando conversou comigo criava a primeira peça grande, da sua altura, algo em torno de 1m60. “É a Ana Rosa, uma heroína da Guerra do Contestado. Gosto de fazer mulheres guerreiras, vi falando dela na tevê e fui pesquisar. É tudo difícil, não é fácil, não. Às vezes fico até cinco horas aqui”, comenta. Ela diz ainda que o ateliê já foi mais valorizado pela cidade e seus administradores mas, mesmo nesta fase de um pouco mais carente, continua recebendo gente do Nordeste, por exemplo, que passa temporadas na cidade só para trabalhar um tempo no local.

Iandra Baggio vai ao ateliê desde 2003, de terça a sexta, todos os dias em que está aberto, como Consuelo. “Me sinto muito bem aqui, sou pedagoga e de escultura tudo que sei aprendi aqui dentro. Não sei se é difícil, é lento - porém recompensador. Fazer arte transforma a forma de ver e sentir o mundo, disso tenho certeza, aguça os sentidos”.

No ateliê, os alunos aprendem as técnicas básicas, explica Elvo, que está sempre por perto circulando, conversando, dando dicas, esclarecendo dúvidas – mas deixando seus alunos encontrarem um caminho próprio. Ao lado dele está Maria Helena Saparoli, uma artista plástica especializada em cerâmica que cuida desta parte desde 1998.

“É um espaço de criação, tem um conhecimento acumulado de técnicas e de procedimentos de longa data e tudo isso vai sendo passado individualmente”, pondera ela. Lá, os cursos não têm data para terminar, é um ateliê livre. “Já foi uma referência mais forte, hoje busca uma nova identidade. Costumo dizer que o ateliê de escultura é o DNA do que foi o Centro de Criatividade”, completa Elvo. Pelo que informam representantes da Fundação Cultural de Curitiba, Elvo e seus alunos podem ficar sossegados, que o espaço vai receber mais atenção ainda. Entre os tantos endereços de cultura que estão sendo restaurados pela FCC, está o Centro de Criatividade. Neste momento as atenções estão concentradas no teatro Cleon Jacques, mas a hora do ateliê de escultura também vai chegar.

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Fanny
 

Matéria excelente. O livro vai ser distribuído aqui no Rio de Janeiro também? Como faço para comprar um exemplar?

Fanny · Rio de Janeiro, RJ 19/6/2007 11:53
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Adriane
 

Puts, Fanny, é verdade.... faltou essa informação. como é um livro feito por lei de incentivo, a venda é um pouco mais restrita. Vou ver com o Elvo e te dou um retorno.

Adriane · Curitiba, PR 19/6/2007 13:16
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linney
 

Excelente seu texto.

linney · Canoas, RS 19/6/2007 13:28
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Vilorblue
 

Parabéns Adriane.
Texto cônscio e singular.
Abç e fica bem....

Vilorblue · Colombo, PR 22/10/2008 14:41
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