O doce pecado rodrigueano 57 anos depois

Vânia Jucá
PECADO ? Dorotéia e Dona Flávia no embate entre a beleza e a feiura
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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
25/4/2007 · 272 · 15
 

Eu não gosto do Nelson como pessoa, acho ele um puta de um hipócrita!’ A frase dita de pronto, como num fluxo de consciência, é pronunciada por uma atriz que acaba de interpretar uma hora e vinte minutos da peça mais teatral de Nelson Rodrigues. Na pele da Dona Flávia, personagem que é o fio condutor da história, Katiuska Azambuja mergulhou por meses na biografia e obra do autor. Junto com o elenco, conheceu dois filhos de Nelson e é claro... De perto ninguém é normal e Nelson não seria diferente. Mas ao mesmo tempo que causa repulsa, atrai como um imã. A atriz é a prova. Ela se destaca com uma interpretação contundente, metralhando a platéia com petardos rodrigueanos: ‘Os parentes têm o direito de exigir’, aplica na prima-libertina Dorotéia, a tal que dá nome a peça que Nelson escreveu em 1949 com apenas 37 anos. Ele havia comprado a sua casa própria um ano antes e estava digerindo o fato de ter censurada a peça Senhora dos Afogados. Sofria. De paixão inclusive! Dizem que Nelson fez Dorotéia para Eleonor Bruno, a Nonoca, mãe de Nicete Bruno, com quem o autor teve um tórrido romance, mas acabou voltando para a mãe de seus filhos, a Dona Elza. Ou seja, Nelson fez Dorotéia pensando na outra. É um dado importante. São estas ‘falhas de caráter’ que provocam a ira de gente como a atriz que assume que o autor que ela própria encena é um ‘hipócrita’. Na verdade, poucos autores são amados e odiados com a mesma intensidade. Com Dorotéia, Nelson colocava a sua dramaturgia em sintonia com o teatro do absurdo. A Cantora Careca, de Eugene Ionesco, é de 1950. Justamente o ano que Dorotéia estreou no Rio de Janeiro, em 7 de março. Metade da platéia aplaudiu e a outra foi embora calada.

Levou cinqüenta e sete anos para Dorotéia chegar em Campo Grande. Parece mentira, mas é verdade! A temporada atraiu aproximadamente 1.500 pessoas, um público excelente para uma peça de teatro da cidade. Jogada certeira da diretora Andréa Freire, comandante da Oficina de Criação Teatral. Para comemorar os 14 anos de atividades com o grupo, em vez de ir para um teatro ‘convencional’ com pouca garantia de público, preferiu armar o circo várias vezes no Armazém Cultural (ex-Estação Ferroviária) para apenas 120 espectadores por sessão. Andréa explica: ‘Queria fazer fora de teatro porque as pessoas não vão ao teatro local para ver artistas locais em Campo Grande. A idéia foi levar o teatro para onde as pessoas estão. Então concebi esta montagem para qualquer tipo de espaço coberto, escola, clube, associação... Desmistificar que o teatro é só o palco italiano. Na verdade a gente não tem este espaço tão comum em São Paulo e Rio de Janeiro. E outra coisa era fazer o espetáculo para poucas pessoas, até porque a gente queria fazer muitos. Não adianta fazer três dias no Palácio Popular de Cultura e ter 500 pessoas! E é fundamental ter o exercício do palco. Porque o interessante é passar por este processo de entender a peça, o autor e representar. Só melhora, fazendo. Para mim o espetáculo ficou bom na sétima apresentação com os atores mais dominando a situação.

Toda família chega o momento que começa a apodrecer

Antes de ter participado do seminário e ter visto a peça (duas vezes), tive um encontro com o primogênito de Nelson, o ‘furacão’ Joffre Rodrigues, que veio divulgar o filme Vestido de Noiva (escrito em 15 dias por Nelson) no Festival de Cinema de Campo Grande. Deu para sentir toda a carga paterna em cima daquele sujeito, que chora e ri e alterna estados de espíritos sombrios e melancólicos. Seu pai não podia o pegar no colo, por causa da tuberculose. Sei lá o que isso pode representar, mas não deve ter sido fácil ser filho mais velho de Nelson! O fato, no entanto, é que o filme Vestido de Noiva é ruim, correto, mas ruim. Depois veio ao seminário o Nelsinho, filho de Nelson conhecido por sua barba imensa e ser torcedor fanático do Fluminense como seu pai. ‘Eu entendo bem mais de futebol que meu pai, mas ele escrevia bem mais é claro’, compara Nelsinho. Todos já conhecem a sua história. Foi preso na ditadura militar e torturado. Dizem que a tortura do filho foi um dos maiores desgostos de Nelson. Depois de conhecer os dois filhos do autor e escutar as histórias, além de relembrar a biografia de Ruy Castro sobre o dramaturgo, você acaba impregnado de pensamentos rodrigueanos. E não dá para negar. Nelson era um grande escritor, acima de tudo um frasista de mão cheia. ‘Jovens, envelheçam!’. Com apenas duas palavras ele move um mundo de pensamentos.

E Dorotéia? Bem, é uma peça muito louca de Nelson e a versão da Oficina segue a rubrica do autor. As atrizes usam máscaras de verdade, como indica o original. A história é surreal, o que me surpreendeu por se tratar do tão realista Nelson Rodrigues. Foi ele que escreveu ‘nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais’. Não tem nada de surreal nisso. Mas em Dorotéia tem! E aí o dado de que Nelson escreveu a peça em sua fase de amor-secreto com a ‘amante’ talvez explique tantas metáforas. Um jarro e um par de botas são os personagens masculinos da peça. Não é à toa que muita gente, mesmo meio século depois de ser escrita, sai com a sensação que Dorotéia não diz coisa com coisa. Acho que nem tanto. Nem comparo, por exemplo, quando fui ver Mattogrosso, de Gerald Thomas e a Companhia Opera Seca, no Teatro Municipal de São Paulo. Muito lindo, mas realmente não entendi nada. Dorotéia é bem mais palatável. ‘Me sinto um pouco como os atores quando apresentaram Vestido de Noiva, com as devidas proporções claro. A gente está trazendo uma coisa q o campo-grandense nunca viu. O palco, posição do público, a iluminação, tema, o autor... Vira prazer porque é surpresa. Quem levanta e vai embora está no direito. Tem gente que vem falar comigo e diz que não entendeu nada e acho bom também. É um público virgem disso’, analisa Mariane Gutierrez, a Dorotéia. Nelson seria bem mais direto: 'Burro nasce que nem capim'.

Ser bonita é pecado

Eu confesso que preferia um nelson-rodrigues rasgado. Clássico, com maridos traídos e esposas fogosas em cena. Mas Dorotéia por ser mais sutil, provoca mais a imaginação. E aí está o segredo de Dorotéia. Ela te faz usar a imaginação. Basicamente a história é simples. A ex-prostituta e vergonha da família Dorotéia aparece na casa das primas-viúvas-vestidas-de-preto e pede para ficar. Mas Dorotéia é uma praga para a família em que as mulheres sentem náuseas na noite de núpcias e não enxergam homem em sua frente. Dorotéia vai ter que se tornar feia para ser aceita. E o peão gira neste embate entre a prima linda demais e o trio feioso, que se esconde atrás de seus leques e mora em uma casa sem móveis e sem quartos. Repressão e volúpia sexual o tempo todo. Um jarro aparece para assustar as personagens e um par de botas representa o noivo de Das Dores, a filha da Dona Flávia, que vai acabar não tendo a náusea. Muito pelo contrário.

Na segunda vez que fui assistir tinham vários estudantes da mesma classe na platéia. Foi engraçado ver o garoto prestar a atenção na peça tomando tereré. Com um público menos sisudo que na estréia, que teve uma grande quantidade de ‘vipes’, o lado cômico do texto de Nelson aparece forte. O resultado é a gargalhada de um rapaz que se diverte bastante com as pérolas ditas pelas personagens. O ambiente intimista gerado pela iluminação (um acerto da peça) e a economia no cenário (outro acerto), constituído apenas por algumas cadeiras e um altar, ajuda a concentrar a platéia no que está sendo feito no palco. E o texto de Nelson explode. ‘Não acredito em mulher de pele boa’. A música feita especialmente para a peça por Evandro Higa caiu bem também. Ele se inspirou no teatro japonês kabuki, que também tem uma tradição da ‘tragédia e farsa’. A música pontua bem o espetáculo.

Você tem um hálito muito bom para uma mulher honesta

A equipe da peça está envolvida com o universo de Nelson desde novembro de 2006. Com direito a ida em um prostíbulo para ver ‘a vida como ela é’ digamos. A diretora Andréa Freire garante que somente nos projetos futuros existe a possibilidade da equipe começar a ganhar algum dinheiro. ‘Depois desta temporada vamos tentar voltar no começo de junho. A gente tem que conseguir grana. O prêmio bancou tudo isso e ninguém ganhou nada. Gastamos o valor do prêmio a conta-gotas. E a idéia agora é vender o espetáculo. Já temos propostas de prefeituras do interior. Vamos oferecer para sindicato e escolas. Temos que viabilizar. O legal neste processo é revelar talentos. Estas meninas estão desde outubro em uma dedicação franciscana. E se não for assim não monta, porque é muito texto.

Depois de ter visto a peça e pensado bastante em Nelson, fico com a sensação que o autor é mais um dos gênios brasileiros que estão longe de receber as honrarias que merecem. Em solo carioca falar de Nelson é quase que um lugar-comum (será?). Mas garanto que o resto do Brasil, o Brasil-de-dentro-velho-de-guerra, precisa urgentemente de doses cavalares de Nelson. Levar 57 anos para Dorotéia chegar em Campo Grande é um pecado cultural digno de vergonha. O brasileiro que nunca viu uma peça de Nelson ou simplesmente não sabe do que se trata é um legítimo ignorante. Porque o pior ignorante é aquele que não conhece o legado cultural de seu próprio país. Isso sim a verdadeira tragédia nacional.

Tudo que não tem testemunha deixa de ser pecado

A ficha técnica do espetáculo Dorotéia é a seguinte:

Texto | Nelson Rodrigues
Direção | Andréa Freire
Elenco | Adelaine Lima, Ana Luiza Laurentino, Conceição Leite, Jurema de Castro, Katiuska Azambuja e Mariane Gutierrez
Cenários e figurinos | Telumi Hellen
Assistente de direção e administração | Belchior Cabral
Música de cena | Evandro Higa
Iluminação | Renato Machado
Preparação corporal | Miriam Gimenes
Preparação de voz | Inesila Montenegro
Produção | Andréa Freire e Belchior Cabral
Contra-regra | André Luiz
Assistente de cenários e figurinos | Márcia Gomes
Confecção de cenários | Professor Cláudio Lucchese e alunos do Curso de Arquitetura da Uniderp
Confecção de figurinos | Rosária Escobar Freire, Ladir Nantes de Melo e alunos do Curso Seqüencial de Moda da Uniderp
Assistentes de produção | Pedrina Gomes, Bianca Ribeiro, Mauricéia Leite, Haroldo Braga e Maycon Coene, Maria Alice, Paulo Bragantini, Rosária Escobar Freire, Thaís Capusso e Celso Ramos
Operador de luz | Cadu Fluhr
Projeto gráfico | Saulo Flores
Site | José Marques
Fotógrafos | Elis Regina, Eduardo Medeiros e Vânia Jucá

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Ariadwen
 

Oi, Rodrigo. Gosto de Nelson Rodrigues, talvez nem tanto assim, mas achei seu texto interessante, embora em alguns momentos um pouco superficial e preconceituoso. Mas é bacana isso de um público virgem ser penetrado por Nelson. Isso é importante.

Ariadwen · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2007 07:40
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Rodrigo Teixeira
 

Olá Ariadwen. Legal vc ter lido texto. Acharia bacana vc indicar qual foi a superfialidade e onde está o preconceito. Quem sabe abrimos um debate! abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 25/4/2007 09:46
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Cida Almeida
 

Meus caros, isso é Nelson Rodrigues, sempre polêmica... Atração e repulsa, sempre essa briga, esse fascínio e medo dos nossos escuros... Assisti a uma montagem de Nelson Rodrigues feita pelo coreógrafo e diretor teatral Hugo Rodas, uruguaio que vive em Brasília e faz tremer as bases do nosso olhar onde quer que ele mire. Há uns três anos fez O Olho da Fechadura, uma inquietante visão sobre a obra de Nelson...
Abraços.

Cida Almeida · Goiânia, GO 25/4/2007 11:06
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Roberta Tum
 

Também gosto muito de Nelson Rodrigues, não vejo nele a hipocrisia vista pela atriz. Quanto ao texto, gostei!

Roberta Tum · Palmas, TO 25/4/2007 14:55
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Rodrigo Teixeira
 

Legal Cida e Roberta. O Nelson é isto! Ou gosta muito ou detesta. A hipocrisia muitas vezes está na nossa própria cabeça e não na dos outros. A atriz teve contato com a história pessoal do Nelson, conversou com s os filhos, pode ter tirado conclusões mil... brigado pela leitura e em frente!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 25/4/2007 15:00
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Felipe Obrer
 

Lembrei e indico: texto de Pedro Vianna com o título Nelson Rodrigues: Os labirintos da alma, publicado neste Overmundo.

Abraços,

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 25/4/2007 15:00
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Jan Moura
 

Olá. Pertenço uma companhia de Teatro, também experimentamos Nelson aqui em Cuiabá, em uma montagem intimista também. A Peça é Boca de Ouro. Nelson pra mim é muito forte, não me importo muito com sua vida. Ele com certeza não era santo mesmo. Vejo muito dele na sua escrita. visitem nosso blog: conheçam um pouco de nosso trabalho tbem. www.confrariadosatores.zip.net

Jan Moura · Cuiabá, MT 25/4/2007 16:57
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Andréa  Freire
 

Gostei do texto Rodrigo, certamente provocará por aqui a polêmica qua acompanha o genial Nelson Rodrigues. Vida longa a Dorotéia nesse matão.

Andréa Freire · Campo Grande, MS 26/4/2007 01:44
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Belchior Cabral
 

Maravilha, Rodrigo, o Brasil inteiro opinando. Nelson Rodrigues viveu intensamente e foi um grande pensador. Seus textos e idéias vibram hoje e sempre. Foi muito bom ver a cidade buxixando Dorotéia e as frases dele, durante a temporada no Armazém Cultural. Queremos ir a Palmas, Cuiabá, Florianópolis, Rio, SP e outros lugares.
Belchior Cabral - Campo Grande (MS)

Belchior Cabral · Uruaçu, GO 26/4/2007 01:44
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raquel zangrandi
 

Rodrigo, parabéns pelo texto. Não vi a peça, mas tento imaginar o impacto que ela deve ter causado na platéia campo-grandense. Também queria estar lá pra ver como foi.
Raquel Freire Zangrandi - Rio de Janeiro/RJ

raquel zangrandi · Rio de Janeiro, RJ 26/4/2007 10:07
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André Gonçalves
 

Nélson Rodrigues é uma das coisas mais modernas da literatura, ainda hoje.
Imagine há 40 anos.

André Gonçalves · Teresina, PI 26/4/2007 13:20
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Bianca Ribeiro
 

Rodrigo..
o texto ficou muito bom..
você esta de parabéns!!

Bianca Ribeiro · Campo Grande, MS 30/4/2007 17:42
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Cintia Thome
 

Queria estar em Campo Grande...Nelson era hilário...Não acho Nelson hipócrita, apenas arrogante para dilacerar as mentiras do ser humano.Não envelhece...Ótimo texto.

Cintia Thome · São Paulo, SP 22/6/2007 21:10
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Tacilda Aquino
 

Como dizia Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. E nada mais normal que ele, ou textos sobre ele e sua obra serem amados ou odiados. Eu gostei.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 29/6/2007 16:38
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Natália Amorim
 

Sempre o Nelson!Penso que o Nelson por vezes era muito mais um preconizador, de preconizar fatos e ocorridos que estariam por vir, do que um "reacionário" como diziam.
As crônicas do Nelson serviram como uma prancha para mim durante algum tempo.
Abs!
Na agenda para ser votado também o espetáculo teatral o Império de São Benedito.
http://www.overmundo.com.br/agenda/o-imperio-de-sao-benedito

Natália Amorim · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2008 14:31
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