Quando era menor, sempre tive o grande sonho de escrever para sopro e cordas. Felizmente, esses sonhos viraram realidade e é sempre uma emoção incalculável e um sentimento gigante de realização ouvir o que vc pensou e passou noites acordado tentando colocar no papel. Muito mais quando você, além de ser o produtor e arranjador, é também o técnico de som. Tem todo o capricho da escolha dos microfones, de imaginar o timbre dos instrumentos, de pensar sobre o quadro geral, sobre a sensação que vc quer passar.
Nestes arranjos aos quais tenho me dedicado, optei por uma coisa pouco usada no Brasil. Sopros que participam mais como texturas do que com intervenções melódicas. Tem os velhos especiais (ou bridges para os íntimos), mas ainda assim fiz questão de que nada fosse tocado muito alto. Para isso abri mão do saxofone. Em minha opinião, sempre vi o sax como algo que destoa da família dos metais. O saxofone, apesar de ser um instrumento metálico, usa uma palheta de madeira para provocar, juntamente com o lábio e o sopro do instrumentista, o som do instrumento. Isso deixa o timbre um tanto áspero, justamente a diferença que eu, particularmente, sinto em relação aos metais como o trompete e o trombone. Dai a minha decisão de deixar de fora o saxofone e tentar timbres mais suaves.
Depois da decisão da escolha dos instrumentos e ter escrito as partes, decidi optar pela microfonação simples e direta. Logo quando cheguei no estúdio pensava diferente. Achei que apenas dois microfones em estéreo (conhecida como microfonação em X-Y pelo ângulo dos microfones em relação um ao outro) seria o suficiente. Mas a sala por ter muitas reflexões e não ter biombos para diminuí-las, acabei optando por microfonar diretamente cada uma das peças. Muitas vezes é agradável ouvir a sala na qual você grava seus instrumentos, já até falei sobre isso em alguns discos como o de Tom Waits. Mas eu precisava de algo mais intimista, queria ter a sensação do instrumento tocando ao pé do ouvido, com o mínimo de reflexões possíveis e tocados em intensidade "piano".
Ainda assim sinto alguma dificuldade em passar o que realmente quero aos instrumentistas. É um baita desafio você transferir informações que estão exclusivamente em sua cabeça para outro músico, que tem outro pensamento e que enxerga as coisas de uma outra forma.
Faz parte, talvez, da cultura do naipe de sopros ao qual 90% dos arranjos se destinam. Eu precisava de algo diferente. Normalmente, o naipe é escrito para aparecer como um elemento de peso na orquestra ou na banda. Muitas vezes fazem melodias introdutórias principais, para dar uma característica festiva e alegre. Nada contra, de fato eu não estou fazendo nada melancólico, nem triste, mas ainda assim queria que ele fizesse parte de instrumentos de base, colocar o naipe de forma mais coadjuvante. Quase como uma parte de cordas, harmonizando e tudo. Então o desafio era fazer o cavalo indomado tomar postura e seguir fielmente a trote curto até a linha de chegada. rs.
O outro desafio é saber que, por mais que você queira que soe como está na sua cabeça, é praticamente impossível isso acontecer na sua totalidade. Tem que haver uma adaptação sua, saber também que pode-se tirar proveito da infinidade de probabilidades que você terá a mais. O que fazer na hora, quando um empecilho ou outro se coloca a sua frente? Muitas vezes o próprio erro se transforma em acerto, só tem que saber aproveitá-lo e flexibilidade é tudo nessa hora. Já me aconteceu muito de estar gravando e no meio da gravação eu colocar um acorde estranho, um erro que quando você ouve, soa melhor do que você fazia originalmente. Outras vezes, algo muito certo e "definitivo", parece não estar acontecendo como você imaginava. Maleabilidade. É isso.
Que bacana, Solovera. É raro ver um arranjador descrever seu processo de criação assim (pelo menos desta forma pública, em texto). Achei bem interessante, apesar de nem tudo ser totalmente compreensível para os leigos (como eu).
Mas adoro "ouvir" os arranjos, entender as opções (por isso gostei do texto!). Acredito mesmo que um arranjo é parte fundamental da música, com capacidade de influenciá-la tanto quanto a melodia, a harmonia e a letra.
Verdade Solovera. Muito massa você compartilhar esse processo aqui no Overmundo.
Abraço!
hey, que bom que gostou. Como minha estréia, estou achando ótimo os pontos que o pessoal tem me dado.
:)
Prometo postar mais.
Solzinho: eu também gostei amigo, embora eu também ache muito do que você falou incompreensível (ah, os leigos!).
Vc é lindo e sua música e musicalidade são impressionantes.
amo muito
A música é como um vento assoprando no ouvido da gente, pode ser uma brisa, um vento forte que norteia a vida da gente. O meu voto de numero 80 para o seu artigo é em homenagem a música.
Regina Silva Kokama · Manaus, AM 20/11/2008 22:19
Como é bom brincar com os timbres, as cores, as texturas e os cheiros dos sons! Parabéns!!!
Jordanna Duarte · Goiânia, GO 20/11/2008 23:38
Votei, porque gostei muito.
Se puder, leia o meu novo artigo também!
Obrigado
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