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O Dono do Caprichoso: um elo esquecido

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
23/6/2006 · 86 · 5
 

Qualquer um que quiser pesquisar a história do boi-bumbá Caprichoso por meio dos livros existentes, vai conhecer de forma extremamente superficial a trajetória de Luis Pereira, 77, e sua relação de responsabilidade e abnegação construída por três décadas de sua vida com o boi azul e branco. Já profissionais de imprensa, que têm por obrigação mergulhar nos detalhes dos processos históricos que transformaram a simplicidade da brincadeira do boi de rua no espetáculo atual, são obrigados a passar na Rua Cordovil, onde Seu Luiz mora, para ouvir uma história desconcertante, não documentada nos ditos livros oficiais e raramente divulgada pela grande mídia. Seu Luiz Pereira é o oitavo e último dono do boi-bumbá Caprichoso.

Antes dos bois-bumbás estarem organizados em Associações Folclóricas, eram famílias que tinham a propriedade dos grupos, mais precisamente o chefe de família, com escritura de posse e tudo, tal qual um bem. Eram os Donos do Boi, e tinham a responsabilidade perante a comunidade de manter a tradição da brincadeira sair na rua. “Quando eu era o Dono do Boi, eu comprava as coisas, mandava fazer as roupas, os chapéus de crepom e era tudo dado para as pessoas brincarem”, explica seu Luiz.

Sua missão como Dono do Caprichoso começou em 1969, após a morte de seu sogro. “Quando recebi o boi ele tava no jirau - armação de madeira usada para esperar a caça ou dormir no mato - tava parado e todo desmontado. Nem saía mais na rua”, recorda. Sua posse marcou a saída do Caprichoso da então distante Comunidade do Aninga para a cidade de Parintins, onde voltou a sair e a brincadeira foi crescendo com cada vez mais adeptos. Seu Luiz conta que foi em sua época que uma roupa de marujo feita para os ritmistas do bumbá deu origem ao termo Marujada de Guerra, que até hoje serve para diferenciar a percussão do Caprichoso com a do boi contrário – modo parintinense de se referir ao bumbá oponente evitando pronunciar seu nome.

Com as brincadeiras realizadas no seu terreno por mais de 30 anos, Seu Luiz faz questão de lembrar que o nível de rivalidade era marcado por menos tolerância do que os dias atuais. “Quando os bois se encontravam na rua a trancada comia”, explica, se referindo às brigas que transformavam as ruas de Parintins em verdadeiros campos de batalha com mastros de bandeiras, tambores, baquetas ou qualquer outra coisa que estivesse na mão dos brincantes.

Lembrando de um episódio quando as apresentações entre os bumbás começaram a ser organizadas sobre tablados, no formato de disputa, ainda no início da década de 1970, Seu Luiz relata o episódio de uma apresentação no Urubuzal, uma área de seringal na época. “O governador era o João Bosco que resolveu dar o resultado na hora. O Caprichoso ganhou e o pessoal do contrário começou um quebra-quebra que não acabava mais”. Mostrando ótima memória e lucidez invejável, ele lembra que a fúria dos perdedores atravessou a cidade e foi parar em seu quintal. “Tentaram escangalhar o boi de todo jeito, mas quando cheguei, não sei como, o boi já tava lá dentro de casa sem um arranhão”.

O boi ficou protegido, mas não demorou para os enfurecidos torcedores chegarem ao seu quintal que foi destruído. “De manhã fui chamado na delegacia onde estava o dono do Garantido, João Batista Monteverde que já era o neto do fundador do boi vermelho e branco, Lindolfo Monteverde”. Acontece que os vândalos que tinham promovido a arruaça na cidade estavam acusando os brincantes do boi vencedor do ocorrido. “Perguntei ao delegado se ele realmente achava que quem está alegre faria aquilo, e se a gente destruiria nosso próprio curral”, comenta, mostrando como é chamado o local-sede do bumbá. “Mas o João Batista era nosso compadre, costumava brincar aqui na Cordovil. Ele ajudou a identificar os verdadeiros autores que estavam lá me acusando e o delegado mandou prender todo mundo”, afirma Seu Luiz, lembrando que entre os Donos dos Bois sempre havia uma relação de cordialidade.

Sacrifícios para manter a tradição

A saída do boi pelas ruas era aguardada com ansiedade pelos parintinenses, Seu Luiz relata que ele mesmo construía o boi. “A armação era feita com talas de inajá – madeira regional flexível - a gente colocava samambaias para fazer o enchimento e cobria com veludo preto, a cabeça era de um boi de verdade que a gente ia buscar lá no matadouro”. Mas as dificuldades eram maiores para organizar a roupa dos participantes, e quando o dinheiro faltava, ele se utilizava uma subscrição do prefeito que respaldava o pedido de doação dos comerciantes. “Todos queriam ver o boi, muita gente que era do contrário também contribuía”.

O Dono do Caprichoso transparece saudade ao lembrar a confecção dos tambores com latas de manteiga cobertas com couro de preguiça e dos cavalinhos da vaqueirada, que representam na alegoria os guardiões do boi. “Era assegurar o boi na rua e o resto era deixar a animação das pessoas com a cantoria, palmas, tudo alumiado pelas lamparinas”, recorda emocionado. Quando nem as contribuições eram suficientes, sua esposa, Luíza da Silva Santos, hoje com 75 anos, vendia algumas cabeças de gado que tinha herdado do pai para doar a fantasia aos brincantes. “Fazíamos o possível e o impossível, mas o boi saía, só de vaqueiros tinham uns 40”, diz Seu Luiz quando começou a perceber que o local já era pequeno para ensaiar com tanta gente.

Promessa não cumprida

Foi com este argumento que um de seus brincantes foi à sua casa com um grupo de amigos. Alcinelson Vieira, segundo Seu Luiz, era quem o ajudava principalmente com o transporte dos equipamentos de som. Na visita, ele propôs trocar a posse do boi Caprichoso, para a formação de uma Associação Folclórica, por uma casa de alvenaria. “Me disseram que ia levar o boi pra lá, mas me dariam uma casa que ficaria lá perto para eu fazer um bar”, comenta. Pensando no melhor para a brincadeira, a posse do bumbá foi transferida, mas até hoje o ex-dono espera pela contrapartida morando em uma casa onde somente frente é de alvenaria. “Todos os presidentes que já passaram só me enganaram, falam comigo com um certo receio e sempre prometem melhorar minha casa”, comenta.

Em troca, Luiz Pereira foi nomeado Sócio Fundador Número 1, recebendo a carteira com a privilegiada numeração que ele exibe entre um misto de mágoa e orgulho, enquanto na época Alcinécio era eleito o primeiro presidente. De lá pra cá, ele conta que o tempo passou e os dirigentes da Associação Folclórica Boi-bumbá Caprichoso resolveram apenas fazer média. “Me reconheceram com uma carteira, um diploma, mas não fazem uma única toada falando de mim no bumbódromo, não tenho camarote cativo como tantos que não fizeram nem metade do que eu fiz ou sequer cumprem com o que prometeram”, reclama.

No último dia 17, data do Boi de Rua do Caprichoso em 2006 - momento em que o folclore do boi azul e branco resgata a brincadeira no formato antigo - o ponto de partida para percorrer a cidade foi a casa de Seu Luiz Pereira. Reconhecido pela população parintinense como o legítimo Dono do Caprichoso, ele mesmo afirma: “Eu ainda me sinto o Dono do Boi”. Se ele continua sem receber o que lhe foi prometido pela troca, existe alguém que possa duvidar?

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daniel valentim

fala, yussef! cara, começou bem a série de matérias sobre os bumbás de Parintins. acho que pela primeira vez o festival terá uma cobertura diferenciada, porque se depender dos cadernos especiais que saem nos jornais daqui (tu sabe como é que é...).
parabéns, mano, e boa sorte SÓ NAS REPORTAGENS, porque sou mais GARANTIDO hehehe

daniel valentim · Manaus, AM 20/6/2006 17:33
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Yusseff Abrahim

Obrigado Daniel! Ainda bem que vc lembrou, já tá na hora de trocar essa camisa vermelha da minha foto. Já estava me sentindo incomodado e não sabia o que era.
Para quem não me ver mais na foto com uma camisa vermelha, é porque eu já troquei, e com certeza já estarei me sentindo bem melhor.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 20/6/2006 21:50
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Helena Aragão

Mas vem cá: o Amazonas inteiro se divide assim, é? É tipo gente de outras cidades e estados que torce pelo Flamengo? Tem graça torcer de longe? (pergunta sem nenhuma ironia, tá, é só para tentar entender a coisa...)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/6/2006 13:47
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Viktor Chagas

E tem segunda divisão???

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 23/6/2006 12:15
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Yusseff Abrahim

Oi Helena! A coisa é extremamente polarizada sim e o estado se divide. Quanto ao fato torcer de longe... bem, vou falar algo sem nenhum tipo de ufanismo: quem foi à Parintins pelo menos uma vez não suporta assistir o Festival pela TV, tanto é que pessoas chegam a abandonar o emprego, faltar, para ir até a ilha. Isso é a mais pura verdade.
Para vc Viktor: não tem segunda divisão, mas tem as divisões de base com os três bois-mirins da cidade.

Yusseff Abrahim · Manaus, AM 11/7/2006 18:07
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