o encontro encontra o museu encontra o encontro

Foto: Alex Forman (Divulgação)
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Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ
30/11/2010 · 34 · 11
 

Me dê um museu e eu o preencho, disse certa vez Pablo Picasso, numa daquelas citações que perdem seu contexto e viram objetossauros da memória. Preencher um museu, hoje se sabe (e Picasso já o compreendia), não é tarefa meramente material. Muito da magia desses prédios de antiquários reside justamente no espaço entre o objeto e sua recepção pelo visitante. Um espaço bastante curto e sutil chamado apropriação. A apropriação é nada menos que a instância particular de aproximação entre estes dois contextos históricos e identitários distintos, sujeito e objeto - e pode ser representada pelo instante fugaz do encontro. Todo museu é um lugar de encontros. Talvez por isso tenha sido tão apropriado ser apresentado ao projeto-em-construção de Regina Casé, Hermano Vianna e Gringo Cardia a partir da mediação de Heloísa Buarque de Hollanda, justo no Rio de Encontros, ciclo de seminários e mesas redondas, organizado pelO Instituto em parceria com o CESeC, na Casa do Saber.

O projeto em questão chama-se Museu do Encontro, e aponta para a tessitura de saberes trabalhados pelos seus três idealizadores, famosos (juntos e misturados ou em esforço solo) pelos trabalhos realizados em belos exemplos de cidadania. Regina, por exemplo, sempre falou da muvuca. Seu lugar de fala ficou mais claro quanto mais a faceta apresentadora se sobrepôs à atriz nacionalmente reconhecida. Grande comunicadora, ela já havia trabalhado (no Programa Legal e no Central da Periferia p.ex.) por várias e várias vezes com Hermano, antropólogo, pesquisador musical, sempre muito inteirado das novas tendências na internet e na vida social. Hermano estuda o funk carioca desde os anos 1980, tendo acompanhado uma (r)evolução histórica de perto. O samba também sempre esteve em sua mira. E, vale lembrar, o Overmundo é uma de suas crias nesse longo caminhar em busca do olhar sobre a diversidade cultural. Gringo é artista plástico, designer multimídia e cenógrafo. Já trabalhou com uma grande gama de projetos sociais, sempre em parceria com organizações como a Cufa, o AfroReggae, o Nós do Morro etc. Ele é ainda responsável pela escola Spetaculu, que atua na formação de jovens de periferia para o trabalho em produções artísticas. É curioso pensar que, como propuseram Gringo e Regina no último dia 27 de outubro (lá se vai um longínquo dia 27, desde quando este tema se tornou pauta, até o dia em que efetivamente o materializei por aqui), dentre todas as atividades que já desempenharam, o "encontro" é o que os une. De forma poética, não só o museu, mas toda a vida é mero palco para o desenrolar dos mais inusitados encontros. E um encontro desses três não poderia resultar em uma ideia menos instigante.

O Museu do Encontro, no entanto, no discurso de Hermano, vai além do museu. É também uma escola. Um espaço não só para a educação para o encontro mas também e principalmente para a formação, capacitação e abertura de horizontes para jovens de periferia e jovens de classe média que integrem turmas em cursos livres de comunicação e novas mídias, profissões cuja absorção pelo mercado tem representado uma oportunidade grande para... o encontro. O único adendo a isto que pode e deve ser feito, é claro, é a perspectiva de que assim como todo museu é um lugar de encontro, todo museu é um museu-escola. Pois que, como todo teatro que não existe sem uma coxia, o museu não se sustenta de pé sem pesquisa e formação de profissionais para funções a serem executadas na reserva técnica da instituição. Museu não é só exposição, afinal.

A ideia de um museu que se aproxima da dinâmica da economia criativa e que tem interesse de explorar à exaustão recursos tecnológicos para estimular a interação dos visitantes e entre os visitantes também encontra eco nas melhores expectativas que um encontro pode proporcionar. É um museu que se distancia da lógica tradicionalíssima do antiquário. E, eu completaria, se aproxima "perigosamente" da lógica do museu-espetáculo - aquela exibição de instalações de encher os olhos mas pouco trabalho efetivamente memorialístico. A trajetória de cada um desses personagens que o idealizam, entretanto, em alguma medida, tranquiliza o horror de que este venha a ser só mais um Museu do Futebol, ou da Língua Portuguesa, ou do Amanhã. O Museu do Encontro tem tudo para ser um museu de grandes novidades.

Museu, enfim, é espaço para encontros. E o que falta ao Museu do Encontro, como bem frisado por Regina, é justamente encontrar o seu espaço. Há o sonho, cultivado desde antes de ontem e antes da Rio 2016, de que o museu fosse sediado no Porto, Centro do Rio de Janeiro. O lugar chegou a ser escolhido um par de vezes, mas as complicações de se trabalhar em uma área em que os espaços foram quase que inteiramente loteados ao longo da História entre as três dimensões do poder público – municipalidade, estado e União – são tantas, que a busca ainda não chegou ao fim. O Museu do Encontro ainda não encontrou seu espaço na cidade. Mas há de fazê-lo.

Aliás, um museu antigueto, como diz Gringo Cardia, o que o credenciaria a diferenciar-se de outras experiências de museus comunitários, uma vez que, aqui, o objetivo não seria construir um discurso endêmico comum, mas abrir espaço para o encontro de novas identidades. Calafrio de quem estudou de perto uma experiência pioneira de museu em favela e sabe que, a despeito dos 60 ou 70% de visitantes que mantém alguma relação íntima com a localidade, a circulação em torno do museu comunitário torna-o tudo, menos um gueto. No entanto, reconheço as boas intenções e a experiência acumulada em torno justamente das disputas que envolvem a construção dos conceitos de centro e periferia. Bem notado: como apontaria Wacquant, o encontro é o antídoto do gueto. E, aí, a fala de Gringo é certeira.

Nesse sentido, o que me toca como algo de mais inovador no museu que capitaneiam é menos a sua proposta de aliar (ou encontrar) culto e exibição, escola e teatro da vida, exposição e capacitação, objetossauros e novas tecnologias, e mais a sua obstinada ideia de proporcionar e memorializar o discurso sobre o encontro. O encontro que pode ir da chegada dos colonizadores às praias indigenatas, ao surgimento do samba e da bossa nova. Frente a isso, todas as traquitanas discursivas soam mero deslumbramento. O encontro – que pode se dar no prédio de concreto ou no espaço aberto do ecomuseu – tem memória. E essa descoberta é a jazida de longe mais preciosa que o lapidário do projeto maneja. O encontro é, talvez, matéria-prima e principal tecnologia (social) do museu - historicizado, então, pode tornar-se identidade urbana particular do carioca. Afinal, diria Hélio Oiticica, museu é o mundo. E o que na vida não é feito de encontro... se até mesmo os desencontros não fazem mais do que nos colocar diante do novo?

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Cintia Thome
 

Parabens ao Grupo!!! Excelente post!

abs

Cintia Thome · São Paulo, SP 1/12/2010 08:39
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Denis Sen@
 

Política cultural séria em nosso Brasil.

Parabéns!

Denis Sen@ · Salvador, BA 1/12/2010 12:50
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Favela Comunicação
 

Belissímo texto!!

Favela Comunicação · Cuiabá, MT 2/12/2010 19:13
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Sinvaline
 

Bravo Viktor, temos orgulho do nosso Memorial Serra da Mesa ser um museu vivo e atuante!
Parabens aos idealizadores!

Sinvaline · Uruaçu, GO 4/12/2010 12:24
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sandra vi
 

amo museus de todo tipo...

sandra vi · Petrópolis, RJ 27/12/2010 15:14
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MOlimPia
 

Olha, esse artigo me emocionou e me deixou cheia de idéias...

MOlimPia · Lavras, MG 30/12/2010 06:05
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ilan waisberg
 

"tranquiliza o horror de que este venha a ser só mais um Museu do Futebol, ou da Língua Portuguesa, ou do Amanhã."
Achei um desencontro esse comentario, ainda mais a partir de uma idéia tão "humana" como parece ser esse museu do encontro. Nao sei o do futebol ou o do amanha, mas o museu da lingua portuguesa é um dos museus incríveis que já fui. Aprendi e vivi coisas por lá. O museu do encontro está apenas na idéia(até um pouco ideal demais...) e todos nós sabemos como é dificil ultrapassar esses limites.

ilan waisberg · Belo Horizonte, MG 31/12/2010 16:10
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Viktor Chagas
 

Olá, Ilan,
Há uma crítica clara neste comentário à ideia do museu glamurizado como algumas correntes reforçadas pela mídia (leia-se especialmente o papel da "Fundação Roberto Marinho" nos exemplos citados: Museu da Língua, do Futebol etc.) têm trabalhado nos últimos anos. Quando digo que a trajetória destes três personagens (Hermano, Regina e Gringo) tranquiliza o horror de que este venha a ser só mais um Museu da Língua, quero justamente crer como coerente que o trabalho dos três não dê margem a um daqueles museus -- que, por certo, são incríveis e magníficos, mas que, como instituições sociais deixam a desejar. Prefiro a ideia dos museus como afirmadores de memórias, como ferramentas de comunicação que são.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 1/1/2011 15:09
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ilan waisberg
 

Dizer que é um “horror” não é uma “crítica clara”.
Repito minha admiração pelo museu da língua portuguesa, pelo seu conteúdo e forma, independente de quem o tenha “glamurizado”. Eu próprio estive lá, vivenciei o museu, não precisei de ninguém para mediar o meu encontro (nem mesmo da “Fundação Roberto Marinho”...). O significado de glamour no dicionário Houaiss é: “Atração, charme pessoal; encanto, magnetismo…” Acho que o museu tem tudo isso(além de conteúdo!) e não vejo mal nenhum, pelo contrário. Qualquer lugar que pretenda se comunicar com o público, seja qual for o público, seja qual for o assunto ou instituição social, deve também ter charme, encanto, ser atraente… Isso só ajuda.

ilan waisberg · Belo Horizonte, MG 2/1/2011 19:17
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Viktor Chagas
 

Olá, Ilan,
Se não é uma crítica clara, não sei o que possa ser. De qualquer forma, o artigo, como toda peça escrita, é fruto de uma opinião crítica. Você tem todo o direito de discordar dela. Minha visão é de que os museus têm um papel social claro a cumprir: sua função é defender um argumento, trabalhar uma das memórias em disputa, e, a partir disso, trazer luz a uma perspectiva histórica enevoada.
Por muito tempo os museus foram entendidos como meros instrumentos de elite, "palácios" da memória. Não tenho absolutamente nada contra uma museografia atraente e charmosa, mas não tenho real interesse pela narrativa museológica que coloca a atratividade "tecnológico-cosmética" sobrepujando o texto memorialístico. Museus assim costumam deixar na memória as soluções expográficas, mais do que qualquer outra coisa. Mas é claro que são experiências muito interessantes e vivas. Portanto, sua opinião deve, obviamente, ser respeitada.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 2/1/2011 20:43
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
MERIREU
 

Viktor, certa vez os espíritos dançaram para a cosmurgia dos tempos. Acredito piamente que os Museus tem essas finalidades. O nosso Museu Rondon/UFMT, estando em Cuiabá, localizada no Centro Geodésico da América do Sul, tem uma finalidade profícua como a de poder comparar o seu acervo de Cultura Material Indígena começado nos idos de 1972, ano de sua fundação, com a produção de hoje, feita pelos descendentes dos velhos índios. Desconsiderando a impossibilidade de adquirir novamente as ricas plumárias pois, há séria proibição do abate de animais para fins comerciais e possível para os índios apenas para uso cerimônial, assim mesmo para substituir peças gastas pelo tempo. Assim, um Museu, como o Museu Rondon, voltado para a cultura indígena vem de encontro a essas magnitude cultural. Vi certa vez na Sala de Exposição Permanente uma índia Rikbaktsá recusar a usar um majestoso colar de conchas, plumas, e outras matérias-primas raras, pois ela identificou que essa peça foi confeccionada e usada pela sua avó e de jeito nenhum ela poderia incomodar seu espírito, esse adôrno poderia trazer um encontro que ela não gostaria de encontrar, pois só os grandes pajés de seu povo pode realizar esse encontro com os espíritos. O desencontro das pessoas presentes que esperava encontra no museu um encontro exótico para o clik das objetivas. Mas esse momento frustou o clik das máquinas fotograficas e das filmadoras, o encontro do clik das palpebras lacrimejando mostrou pra todos os presentes que um encontro dessa magnitude pode ser um desencontro de muito sofrimento para as culturas diferenciada dos povos indígenas e devem ser respeitados. Acredito que em todos os aspectos os Museus tem esse papel de possibilitar esses encontros para evitar desencontros tão desagradaveis e desrespeitoso, mesmo sendo praticado por momentos de grande ingenuidade.

MERIREU · Cuiabá, MT 19/10/2011 20:12
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