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O estranho aniversário de Zé do Caixão

Robson Fernandjes
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Jones Rossi · São Paulo, SP
4/7/2006 · 97 · 5
 

Indo pela Marginal Tietê, é a primeira rua à direita depois do Estádio do Canindé. Uns 50 metros adiante, entre um amontoado de bares e casas, uma viela vai dar direto no Galinhada do Bahia, tradicional restaurante nordestino comandado por Raimundo Soares, o 'Bahia' em pessoa. Ele, que já ensinou receitas na TV e até fez a Ana Maria Braga passar por baixo da mesa, prepara um almoço especial para o aniversariante. "Camarão na moranga, cozido baiano, galinhada com carneiro e buchada."

Não parece o cardápio ideal para quem está fazendo 70 anos, mas 'Bahia' conhece bem o freguês, tem até foto dele na parede. Do lado oposto, claro, da parede que abriga uma pequena estátua de Jesus com os braços abertos e uma imagem de Nossa Senhora. Afinal, o freguês da foto é o Diabo Tropical, é a Encarnação do Demônio, é o Zé do Caixão, que completou 70 anos no último sábado*.

Em plena forma, José Mojica Marins, o cineasta brasileiro que ficou famoso no mundo todo por filmes de terror como À Meia Noite Levarei sua Alma e O Estranho Mundo de Zé do Caixão, chega acompanhado da mulher, 47 anos mais jovem. É aplaudido por todo o pessoal da mesa, que veio a convite de André Barcinski e Ivan Finotti, autores da biografia Maldito - O Estranho Mundo de José Mojica Marins. Barcinski entrega o presente, uma camisa personalizada do Corinthians com o número 70 estampado nas costas, logo abaixo do nome Mojica. "O Carlitos Tevez está fora, tenho que aproveitar", brinca Zé do Caixão, segurando ao mesmo tempo, com dificuldade, por causa das longas unhas da mão esquerda, o presente e o cigarro.

Perto dali, no Canindé, jogariam mais tarde Portuguesa e Palmeiras. Alguém pergunta ao corintiano fanático Mojica qual é a praga que ele vai rogar no jogo. Nenhuma. "Infelizmente vai dar Palmeiras. A Portuguesa ataca, se abre, e o Palmeiras aproveita." Foi profético: 2 a 1 para o Palmeiras, de virada.

Vem o bolo, os parabéns - "É pique, é pique, é pique, é pique... é hora, é hora, é hora, é hora... Rá-Tim-Bum, Mojica, Mojica, Mojica" - e Zé do Caixão apaga a velinha com dois assoprões. "Não é uma data cabalística, nem um mês cabalístico. É uma data com uma mensagem. A gente vai voltar a se encontrar no ano que vem, com mais dinheiro no bolso e com saúde", discursa.

Mojica acomoda-se na cadeira de plástico, pede uma caipirinha, e começa a folhear um exemplar de uma revista cuja capa traz a chamada "Sob a Sombra do Diabo". Um dos textos diz que o personagem Zé do Caixão é o "Belzebu Tropical, uma mistura de Drácula de Bram Stoker com o Diabo".

"Não tenho nada contra", admite Mojica, passando a revista para sua filha, Mariliz Marins, autodenominada 'Liz Vamp'. Ao lado dela está Edineide Silva, a esposa - embora a união ainda não seja oficial - de 23 anos. "Vou fazer um casamento formal, na hora certa", diz o aniversariante, que já faz planos de aumentar a prole, estacionada em sete filhos. "Quero chegar a 13, que é um número cabalístico. Sete também é, mas se sair de sete tem que chegar a 13." Para os netos, que são 11 (nove meninos e duas meninas), só faltam dois.

O principal plano de Mojica no momento, porém, é terminar a trilogia iniciada em 1964 com o filme À Meia Noite Levarei Sua Alma e interrompida desde Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, o segundo filme, de 1967. Depois de receber pela primeira vez um financiamento oficial - cerca de R$ 1 milhão -, o cineasta prepara-se para seu mais ambicioso filme, A Encarnação do Diabo. As filmagens devem começar em junho ("no frio o trabalho rende mais") e terminar em dezembro, com lançamento previsto para março de 2007. "É a fita mais cara da minha vida e será a melhor fita do Brasil."

Mojica fala mais sobre a nova produção. A história começa de onde termina Esta Noite Encarnarei..., com Zé do Caixão afundando em um lago. Ele será salvo por um corcunda e se envolverá com a esposa de um coronel (Anselmo Duarte, diretor de O Pagador de Promessas, Palma de Ouro em Cannes, será convidado para viver o papel). Zé do Caixão formará um exército de marginais e indigentes, e continuará à procura da mulher perfeita: "fria, não deve odiar, nem amar." E vai engravidar sete mulheres de uma vez... um numero cabalístico.

Mojica planeja usar entre 350 e 500 figurantes em seu novo filme, cujo uso do computador será restrito aos créditos. Não há nenhum efeito especial. "Vou filmar em película, não em digital. Quero usar meu sistema artesanal. A diferença é que agora, com dinheiro, vai dar para pagar todos os artistas."

Mojica, no entanto, faz uma ressalva: o dinheiro da produção não está com ele, mas com sua produtora. "Tem gente que acha que ando com isso no bolso. Outro dia um drogado me parou na rua e me pediu R$ 100 mil emprestados."

Quase 17h, o filho de Mojica se despede. "Tchau, pai". "Vai com Deus, filho", abençoa Zé do Caixão. Um pouco emocionado, Mojica então começa a falar de morte. "Se eu morrer agora, deixo tudo no ar. Mas se eu morrer no ano que vem, depois de fazer o filme, fica tudo legal. Quero deixar uma herança para os meus netos."

* (matéria feita no dia 14 de março deste ano)

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Ana Murta

Zé do Caixão é um símbolo nacional e também um símbolo do verdadeiro cinema idependente. Sou fã do cara e tô ficando fã do seu texto também. Adorei essa matéria e a do Jamelão.

Ana Murta · Vitória, ES 4/7/2006 11:02
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Natacha Maranhão

Eu acho o Zé do Caixão fantástico! Morria de medo dele quando era criança, hehehe.
Parabéns pela matéria, Jones!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 4/7/2006 11:30
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Vânia Medeiros

Seu texto é muito gostoso de ler, Jones.
Nem sou tão fã de Zé do Caixão assim e li até o final. Ganhei até mais simpatia pelo figura depois.

abraço!

Vânia Medeiros · Salvador, BA 5/7/2006 10:13
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
rodrigo édipo

"vai com Deus, filho" - muito bom, nem imagino ele soltando tal sentença. parabéns pelo texto.

rodrigo édipo · Olinda, PE 5/7/2006 11:22
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Jones Rossi

Obrigado a todos. Mas o Zé do Caixão é um ótimo personagem, deixa fácil escrever qualquer matéria. Abraços.

Jones Rossi · São Paulo, SP 5/7/2006 18:27
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