O feminino nos cultos afro

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Marcelo Marchiori · São João del Rei, MG
30/1/2007 · 32 · 3
 

Ao falar de mulheres sagradas, logo se pensa em algumas palavras: castidade, pureza, obediência, clareza e doçura. Por isso, há de se imaginar que sagradas são só a Mãe de Cristo e a nossa Mãe, com raras exceções para algumas santas e nossas irmãs. Que qualquer outra figura, forte, combativa e sexualmente decidida de si, passa longe da santidade feminina e que deve receber outros adjetivos que me envergonho em citar na edição do Sagrado.

Ainda bem que a chatice Judaico-Cristã imposta para as mulheres ficou só entre as religiões de origem (claro) Judaico-Cristãs, e enquanto isso, os cultos como os de Orixás cumpriram seu dever e colocaram as mulheres em seus devidos lugares. Mas, que lugares são esses?

De acordo com a nossa cultura, ocidental, subjugada a alguns toques anglos-saxônios, a mulher é a criatura de doçura, de paciência, que vive para amar, respeitar e cuidar de seus homens (maridos, filhos). Bonito, né? Mas peraí, que mulher você conhece que é assim? A sua mãe? Será que as amigas delas vão concordar com você? Vai por mim, elas são muito mais que isso. Lamento informar que você foi enganado pela imagem que a Igreja Católica difundiu por todo o mundo.

Mas calma, ainda dá tempo pra você aprender algumas coisas com os cultos afro.

Na África, (até me assustei com o costume), quando uma criança nasce, perguntam se nasceu o ‘dono da casa’ ou ‘a estrangeira’. Entendem as mulheres como criaturas externas à paisagem civilizada, anteriores à humanização. Estranho, sem dúvida, mas muito lógico.

Para a cultura africana, a mulher está associada à Natureza. Ela possui o poder da Concepção, e durante um bom tempo, nos primeiros anos de vida, cabe a ela também a manutenção da vida, através de seus cuidados e do leite materno, nutrindo e fortalecendo a criança. Qualquer relação com a natureza não seria um devaneio.

A feminilidade é uma representação de todos os aspectos naturais, selvagens e inconscientes. Numa cultura indígena, em que a “civilização” ainda está por nascer e que a duros trancos tentam controlar a natureza, o feminino provoca muito medo, o medo do desconhecido que, apesar de desconhecido, volta e meia ataca e domina os conteúdos conscientes.

Para quem conhece um pouco dessa mitologia, já teve contato com algumas das principais representantes femininas. Vou me prender a duas delas, de meu maior interesse e fascinação: Oxum e Iansã. Mas aconselho aos leigos que busquem mais informações.

Oxum e Iansã representam aspectos mais socializados. Estão no limiar da civilização, embora isso não signifique estarem subjugadas, domesticadas. Quando contrariadas, são tão furiosas e destrutivas quanto a natureza. Seria um erro imaginar que tais entidades encontram-se dominadas e não apresentam qualquer risco.



OXUM


Oxum é o inverso da concepção ocidental de mulher. Ela une em si só dois aspectos, segundo a Católica, insociáveis. Oxum é bela, meiga, faceira... sensual, esperta e traiçoeira. Ela é Maria Madalena (não submetida ou escravizada) e a Virgem Maria em uma só cartada.

A deusa rege assuntos relacionados à beleza, ao amor e à concepção. Habita as águas doces, que é condição indispensável para a fertilidade da terra e produção dos frutos. É a Oxum que se pedem filhos, e é ela que protege a gestação destes. A proteção de Oxum é a garantia de filhos belos e perfeitos, além de uma união feliz no relacionamento.
Oxum é como as águas doces. De temperamento aparentemente dócil e meigo, mas de um fundo traiçoeiro e esperto. Deusa do amor, terceira esposa de Xangô. Vaidosa e sensual, utilizou todos seus gracejos e artimanhas a fim de prendê-lo junto a si. Chegou até a convencer sua rival a cortar a orelha e oferecer a Xangô, fazendo-a acreditar que isso o agradaria.

Oxum assusta e fascina. Iansã, sua inimiga na disputa por Xangô, também não fica atrás. Vejamos Iansã.




IANSÃ

Senhora do fogo, dos raios e da guerra, é ela quem traz as tempestades e a ventania para varrer a maldade humana da face da Terra. Iansã andava pelo mundo se aventurado, onde quer que ela soubesse haver algo impossível para se fazer, lá estava ela se propondo a obter mais uma conquista.

Esposa de Ogum e posteriormente uma das três mulheres de Xangô, Iansã é aquela que divide com o Senhor da Justiça o axé de soltar fogo pela boca e o acompanha nas batalhas, tendo alcançado ao seu lado grandes vitórias.

Guerreira, batalhadora e valente, Iansã possui como insígnias o cálice, a espada e o leque. Na umbanda, costuma vestir a cor amarela, enquanto no candomblé usa o vermelho, leva chifres de búfalo ou boi na cintura e utiliza o eruêxim, instrumento ritual feito de rabo de boi ou burro com o qual direciona os eguns, os espíritos dos mortos.

Não se subordina a nenhum homem ou força. Não trai seus próprios princípios ou desejos. Tanto que foi mulher de Ogum, Xangô e Oxossi, e em momento algum relutou em largar seu antigo companheiro por seu novo ‘interesse’. Iansã é a subversão feminina na sua forma mais sensual.

Suas filhas são como ela: temidas, respeitadas e amadas, sempre prontas a destruir os corações desavisados. Motivo de alerta em qualquer lugar que se apresentarem...



CONCLUSÃO MASCULINA


A mitologia negra não identifica os Orixás masculinos como menores que os femininos. O papel destes é tão importante quanto o das figuras que acabei de descrever, mas temos que reconhecer, em uma sociedade que o homem é visto como o poderoso, como aquele que leva a frente toda a história, a imagem de mulheres fortes é no mínimo muito interessante. Além disso, nós, homens, temos urgentemente que entender melhor as mulheres, a vida não é mais como era. Entendemos as mulheres, suas formas e conteúdos, ou elas nos devoram.

– Eu, pobre filho de Xangô, que o diga.




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Cida Almeida
 

Marcelo, gostei do texto e fiquei instigada a conhecer mais sobre o feminino nos cultos afro. Na Cidade de Goiás, antiga Capital de Goiás, hoje Patrimônio da Humanidade, o Sebrae-G0 promove o Encontro Afro Goiano, que já realizou a 3ª edição. Fui em duas e fiquei encantada com o que vi, principalmente em relação às mulheres. Por isso, gostei demais da trilha do seu texto.
Abraços.

Cida Almeida · Goiânia, GO 1/2/2007 11:27
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Alê Barreto
 

Texto muito legal mesmo.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 1/2/2007 12:18
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Marcelo Marchiori
 

uai, q bom q o texto agradou.

Marcelo Marchiori · São João del Rei, MG 1/2/2007 12:24
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