O festejo de aniversário da Ilha

Gilson Teixeira
Azulejos feios e belos, no Desterro, traduzem a aniversariante São Luís
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Zema Ribeiro · São Luís, MA
16/9/2006 · 164 · 9
 

Ao som da Família Lima, São Luís do Maranhão completa 394 anos. Com ou sem motivos pra comemorar.

A cidade de São Luís amanheceu de ressaca. E ressaca não no sentido geográfico, do encher e vazar da maré, que a gente vê da rampa Campos Melo. É duro aniversariar após um feriado nacional. Começou a encher a cara às 18h, fim do expediente, do dia 6 de setembro, em botecos espalhados pela Madre Deus, entre os paralelepípedos do calçamento da Praia Grande – que uns insistem em chamar “Reviver”, nome de um projeto de recuperação do Centro Histórico, ainda inconcluso, tantos anos depois –, em barzinhos da moda (ou nem tanto) ilha afora/adentro.

São Luís emendou a farra com o feriado da Independência. É sempre assim: meninos e meninas desfilam no Anel Viário, “orgulhosos” das escolas onde estudam e tiram boas notas. No Grito dos Excluídos, movimentos sociais reivindicam causas justas. E São Luís pedia mais uma dose de sua cota etílica, como o poeta, compositor e professor universitário Joãozinho Ribeiro, sobre Amália, sua mãe – São Luís, sua filha, irmã, cúmplice enfim –, em “Paisagem Feita de Tempo”, poema-livro-declaração de amor pela Ilha: “mamãe bebendo tiquira / na quitanda de Seu Biraci, / Após deixar / Dia-após-dia / Sua quota de mais-valia / Nos teares de Santa Isabel”, fábrica têxtil que já não existe. E, ao receber os convidados, São Luís estava de ressaca, quiçá ainda bêbada, e mais bebia, que era (seu) dia, e a Ilha-menina, hoje já nem tão rebelde quanto lhe apregoa a alcunha, merecia. Merece!

Jornais diários traziam cadernos coloridos, azulejos bonitos com mais cores que qualquer soma de arcos-íris pós-chuva ou sol, que o tempo doido (e às vezes doído) de São Luís do Maranhão nunca sabe (nos) dizer se é inverno ou verão (e mais estações não temos). Propagandas gritavam o amor de empresas, empresários, políticos e similares espécies pela Capital do Estado do Maranhão. Encartes contavam histórias da Atenas Brasileira, já rebatizada pelos regueiros que a povoam, de Jamaica Brasileira. E tantas vezes nos perguntamos: será, agora, São Luís, “Apenas” Brasileira? As propagandas da Prefeitura Municipal mostravam os feitos do grupo que gere a cidade há dezoito anos. São Luís, maior de idade, Ilha-moça – virgem, não mais –, completará 400, em 2012.

“O rato roeu a razão, roeu o rumo, o riso”

Com frases assim, acompanhando os roedores, a artista plástica Marlene Barros presenteou São Luís: doze bustos de ratos – animal asqueroso por natureza – ocuparam o lugar dos bustos de (em ordem alfabética, como manda o figurino) Arnaldo Ferreira, Arthur Azevedo, Bandeira Tribuzi, Clodoaldo Cardoso, Coelho Neto, Corrêa de Araújo, Dunshee de Abranches, Gomes de Castro, Gomes de Sousa, Henriques Leal, Humberto de Campos, Maria Firmina dos Reis, Nascimento de Morais, Raimundo Correia, Silva Maia e Urbano Santos, letrados que conferiram (conferem?) à Ilha de São Luís o epíteto (hoje contestado, como já dito) de Atenas Brasileira.

Os bustos dos intelectuais, de bronze, foram retirados da Praça do Pantheon (no Centro da capital maranhense) em agosto de 2005, a pedido do então presidente da Academia Maranhense de Letras, Jomar Moraes. A idéia era protegê-los da ação de vândalos, restaurá-los – o mau-trato pelo tempo já era grande – e devolvê-los à apreciação da sociedade. Marlene Barros criticou a falta de espaços para exposições em São Luís e fez um duplo protesto, com arte e inteligência.

Ludovicensidades (ou O que é ser ludovicense)

Upaon-Açu. Quem tem uma relação afetiva com São Luís, chama-a assim e sabe o que isso significa, é um autêntico ludovicense, “título” dado aos que nascem na Ilha. Quem já se emocionou ouvindo músicas como “Panaquatira”, de Sérgio Habibe, “Ilha Bela”, de Carlinhos Veloz, ou “Ilha Magnética”, de César Nascimento, declarações de amor à Ilha Grande (Upaon-Açu), idem. Quem já foi à Litorânea (o nome de um político vivo, dado à Avenida, nunca “pegou” para a população, que também só chama a ponte entre o Centro e o bairro do São Francisco de Ponte do São Francisco) para fazer caminhadas, andar de bicicleta, tomar cerveja e/ou comer arroz de cuxá (mistura de farinha seca, camarão e vinagreira, erva típica local). Quem conhece o sabor – e admira, além da estranheza da cor (de rosa) – do guaraná Jesus. Quem sabe o que é (e já dançou, mesmo que nas festinhas de escola no ensino fundamental) cacuriá, tambor de crioula, bumba-meu-boi, quadrilha. Quem sabe cada significado da (mesma) expressão “hein”. Quem, voltando de Alcântara, acha a vista de São Luís, da lancha, a oitava maravilha do mundo. Quem etc.

O poeta e jornalista Celso Borges, radicado em São Paulo desde 1989, confessa atualmente uma vontade de voltar à Ilha natal. Ele acaba de lançar “Música” livro-disco com 25 poemas-faixas e mais de cinqüenta participações especiais, entre maranhenses ou não. Há, ali, tanto elogios quanto críticas à Ilha que o pariu, na Rua da Paz, paralela à sua maior via comercial: a Rua Grande (ou Osvaldo Cruz) – outro símbolo de ludovicensidade.

“Vivi 30 anos em São Luís”, diz o poeta aos 47. “Minha alma é toda formada pela cidade: memórias, infância, pessoas, família, três filhos, tambores, amigos, becos, batuques, vento, claridade”. Prossegue, admitindo uma relação nada fácil com a cidade: “Ora profundamente próximo, ora muito distante. Recarrega e descarrega a bateria. Muitas vezes me sinto estrangeiro. Duas cidades dentro de mim. Tudo muda quando desembarco aí. O cheiro, o intestino, o coração, tudo vira pelo avesso. Dá muitas horas de conversa”.

Fiquemos, pois, por aqui. E, claro, com sua poesia, em “São Luís: segundo movimento”, poemúsica do livro-disco novo: “cidade dos azulejos / ilha minada de lodo por todos os lados / nos mirantes rachados / nos casarões desabados da Praça João Lisboa / nos condomínios fechados da cidade nova / nos outdoors da Avenida dos Holandeses / nas cadeiras, poltronas do Teatro Arthur Azevedo / na Litorânea que ri do mar à sua frente / nos olhos d’água da praia do Olho d’Água / na correnteza do Anil, o Tejo d’aldeia”. Prova inconteste de que o ludovicense, distância e tempo, não esquece/esqueceu os detalhes de uma São Luís ao mesmo tempo feia e bela.

O “festejo” oficial

A cidade de ar provinciano ouve, quando em vez quase sempre, a reclamação de sua jovial turma: nada há para se fazer. Embora borbulhem, para quem sabe procurar, atrações para todos os gostos. Ainda mais em se tratando de data festiva, São Luís, 394 anos.

Se Os Foliões – tradicional bloco carnavalesco – batucavam para um lado fazendo a festa para a Ilha, barzinhos fervilhavam como se aquela fosse uma noite comum. E não era? Ao menos havia a desculpa do envelhecimento da única capital brasileira fundada pelos franceses, como outrora gostava de apregoar um apresentador de televisão, hoje candidato a deputado.

A festa “oficial”, no entanto, aconteceria na Praça Maria Aragão, da bela arquitetura de Oscar Niemeyer, o homem que construiu “A Capital Federal”, título de peça teatral de ilhéu ilustre, Arthur Azevedo, que batiza um dos mais belos e antigos teatros brasileiros. Chiquinho França e Eliésio do Acordeom, não necessariamente nessa ordem, abririam a noite, representando a porção maranhense da festa para os ludovicenses. O guitarrista, a certa altura, parece alfinetar: “Temos que mostrar nossa música, pois aqui tem muita coisa boa”. Parecia uma provocação – não era – pelo fato da Prefeitura Municipal ter organizado, através da Fundação Municipal de Cultura, uma comemoração em que a atração principal era a Família Lima, grupo que comemora dez anos de carreira e aproveitava para pisar pela primeira vez o solo da cidade aniversariante.

O colunista social Bruno Leone, descendente de italianos, aprovou a idéia: “Eles são maravilhosos; ótima idéia tê-los trazido”, disse, sobre a vinda da família musical. Opinião diferente tinha o ator Urias Oliveira: “O Maranhão tem tanta gente boa... Dava pra ter feito uma festa só com valores nossos, inclusive para além da música, mesmo que trouxessem nomes nacionais, maranhenses que fazem sucesso lá fora, como ano passado”, lembrando o, à época criticado, Tecnomacumba, novo show apresentado por Rita Ribeiro; na ocasião, também apresentou-se em São Luís a paraibana Elba Ramalho.

Quantos poemas foram paridos naquela noite de oito de setembro, com, sem ou apesar da música? A lua cheia dividia o espaço com os postes que iluminavam o público: casais de namorados de mãos dadas, ambulantes aproveitando para ganhar um extra, barracas vendendo cervejas e comidas típicas, flanelinhas disputando carros e motoristas. O povo tomava conta da Praça Maria Aragão e do gramado que a separa da Gonçalves Dias, defronte à Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Indagada, ainda cedo, sobre ir ou não ir ao show pelo aniversário de São Luís, a radialista Jackeline Lima saiu-se com esta: “De família Lima, basta a minha”.

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jô
 

Gostei. Uma analise com recortes de carinho, amor por essa terra tão querida, mas sem perder o espírito crítico, fundamental, àqueles que amam e desejam o que o objeto do amor seja cada vez mais perfeito. Parabéns!

· São Luís, MA 16/9/2006 18:48
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Zema Ribeiro
 

obrigado, jô! não tive como não fazer uma "comparação" entre a ilha e minha namorada. sei lá, é por aí mesmo. grande abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 16/9/2006 22:25
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Tânia Brito
 

Zema! Que lindo teu texto...Parabéns! Passarei sempre por eles para me abastecer...
Abs

Tânia Brito · Campo Grande, MS 18/9/2006 21:14
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Zema Ribeiro
 

obrigado, tânia! ainda tou te devendo lá o questionário, mando hoje sem falta. abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 19/9/2006 08:20
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Gilda L
 

Zema, é brilhante!

Gilda L · São Luís, MA 19/9/2006 10:34
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Zema Ribeiro
 

obrigado, gilda! menos, menos. risos. abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 19/9/2006 10:41
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Natacha Maranhão
 

fico lendo e sentindo saudade, hahahahahaha
aqui nao tem cuxá, não tem guaraná Jesus (e eu sou tão viciada que faço minha mãe comprar litros e litros e mandar pra mim).
Todo ano eu lembro do aniversario de Sao Luis quando meu feriado acaba no dia 7!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 26/9/2006 17:07
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Zema Ribeiro
 

aqui temos essa vantagem, risos. como a são luís que eu retratei, podemos "encher a cara" prolongadamente. vens no final do ano? abraço!

Zema Ribeiro · São Luís, MA 26/9/2006 22:39
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janainaxD
 

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janainaxD · Brasília de Minas, MG 1/10/2012 21:45
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