O filme e o filme de João Moreira Salles

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Santiago em um plano à Ozu: muitas das cenas repetidas foram na cozinha da casa
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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
11/12/2006 · 394 · 35
 

"O tempo não tem consideração". Um argentino com nome de capital sul-americana escreveu isso certa vez. Foi Santiago. Santiago Badariotti Merlo (para ser mais preciso) era um ser absolutamente fascinante, detentor de um conhecimento único sobre dinastias e aristocracias de todo o mundo. Aliás, a sua paixão era justamente escrever sobre as grandes famílias, aquelas que, para ele, tinham algo de especial, um quê divino, uma fantasia de castelos, riqueza, luxo e cultura. Porque o que tinha de mais caro era a sua cultura. Não escondia isso, dizia-se inclusive assustado e se perguntava por que nascera tão interessado em línguas, em música, em cinema, em tudo, quase. Podia variar do erudito ao prosaico num minuto, sabia tocar Beethoven (o que fazia questão de fazer vestindo um fraque - "É Beethoven", dizia ele), mas não se furtava a apreciar com paixão uma luta de boxe. Santiago não falava português perfeitamente, mas também parecia já ter esquecido o espanhol. Dominava línguas praticamente mortas, que aprendera muito novo em suas leituras e viagens pelo mundo. Falava uma fala só dele. Dançava bem, rezava em latim, escrevia lindas poesias, enfim; claramente, um pessoa especial, um personagem digno de ser documentado.

Não à toa, João Moreira Salles ("Entreatos"), em 1992, decidiu filmar o mordomo de sua casa. O sujeito das memórias de sua infância, das brincadeiras das grandes festas, do piano noturno, das danças com castanholas. O diretor até então não era um dos mais conhecidos documentaristas nacionais. À época, era um jovem de 29 anos, que, de maior expressão, havia realizado apenas um programa de TV chamado "América", uma espécie de investigação sobre o imaginário cultural norte-americano. João chamou uma amiga para ajudá-lo nas entrevistas e levou, com eles, o experiente fotógrafo Walter Carvalho. Foram todos ao apartamento de Santiago, que já não trabalhava mais na "Casa da Gávea" (o atual Instituto Moreira Salles). O homem já beirava os 80 anos, embora não aparentasse. O enquadramento rigoroso qual Yasujiro Ozu e as imagens em preto e branco dariam um tom de austeridade e respeito à sua figura. Durante cinco dias, João filmou nove horas de conversa. Teve tempo de perguntar o que quis, filmar à maneira que quis, colher os depoimentos que quis. No entanto, alguma coisa deu errado.

- Até hoje, é o único filme que comecei e não terminei – diz o diretor.

João não montou o filme e as imagens de Santiago ficaram intocadas até o ano passado, quando, acometido por uma crise pessoal e profissional, resolveu retornar às suas memórias de infância, à família, à casa e, conseqüentemente, ao mordomo. Reviu todo o material que registrara. Dessa vez, com a ajuda dos montadores Eduardo Escorel e Lívia Serpa, pretendia achar um caminho para, finalmente, organizar as imagens de Santiago, fazê-las filme. João conta que o começo foi complicado.

- O Escorel tem um talento que eu não tenho, o de olhar imagens soltas e dizer se aquilo dá filme ou não dá. A primeira vez que ele viu o material, ficou na dúvida.

É claro que Escorel ficou na dúvida. E só três meses de ilha de edição foram capazes de mostrar a João o que, agora, lhe parece óbvio – o filme nunca fora sobre Santiago. O que ele notou, ao rever 13 anos depois aquelas velhas imagens, o fez repensar todo o formato do documentário. Os fotogramas não contavam a história do seu mordomo. Nunca contaram. O que o cineasta pode perceber hoje lhe fugia à compreensão em 1992: para o filme existir, João precisaria se expor.

- Não tinha a noção de que, na verdade, não fiz um filme sobre Santiago, mas sobre a minha relação com ele. Não havia ali uma relação de documentarista e de documentado. Havia uma relação de patrão e mordomo, de, em última instância, chefe e criado.

Se é difícil de visualizar isso, imagine um sujeito postado em uma cadeira, no umbral de uma porta, pronto para começar o depoimento acerca dos anos mais felizes de sua vida. Equipe pronta, som, câmera, ação! O sujeito levanta a cabeça e começa a falar. Corta! "Santiago, você pode voltar com a cabeça ali. Começe a falar ainda com a cabeça encostada". Ou, ainda: "Santiago, não reze desse jeito, reze com as mãos juntas"; "Santiago, antes de falar, pense na minha família".

Pois foram com esses imperativos que João se deparou na ilha de edição. Quando os percebeu, descobriu o norte para o seu documentário. "Santiago" não seria um filme sobre Santiago, e sim sobre como o cineasta não entendeu o mordomo durante aqueles cinco dias, usando-se de artifícios de montagem, som e repetição para dizer o que bem desejasse.

- Nas entrevistas, não queria ouvir o que Santiago tinha a me dizer. Queria que ele dissesse o que eu queria ouvir, que ele se parecesse com o Santiago da minha infância, com o meu Santiago. Daí as ordens, os planos repetidos. Essa relação de patrão e empregado é também uma alegoria do que acontece em todo filme, entre o documentarista e o seu objeto. É preciso ter consciência disso, mesmo quando se filma o presidente, a palavra final sempre será de quem está com a câmera na mão.

Filme para poucos (?)

E o filme saiu. Está pronto, mas sem data definida para lançamento. Na verdade, João nem sabe ainda se deseja lançá-lo, acredita que é um filme para poucos. No final de novembro, o longa passou no Festival Nacional de Documentários de Amsterdã, e isso o cineasta cogita:

- Acho que é um filme para passar em mostras e festivais de documentário, de preferência os não competitivos.

Ele alega que tudo o que é visto na tela é muito pessoal e lhe falta certeza para afirmar se mais alguém se interessaria pela história de Santiago, dele – João - e de sua família (que, inevitavelmente, se misturam na tela). Também parece acreditar que as divagações sobre a realização de um documentário não falam para muita gente. O temor de João se justifica? Pergunta ingrata esta, porque é só assistindo ao filme que se pode chegar a alguma conclusão. Nos quase 75 minutos, o que se vê na tela é uma "aula" sobre os bastidores de um documentário e as artimanhas que um diretor pode realizar para conseguir o que entende como certo. Tudo perpassado por um off escrito por João, mas lido por seu irmão, Fernando. Aqui, a pergunta faz-se inevitável: por que o próprio diretor não narrou o filme?

- É porque tem de se desconfiar. Desconfiar de tudo. Fui eu quem escreveu, mas foi meu irmão quem leu. E aí, o que é verdade? Existe verdade? Eu não acredito. Para mim, cada vez mais, um documentário é sobre o encontro de duas pessoas. De quem documenta e de quem é documentado. O off do meu irmão serve como um grau a mais nesta questão de o que é verdadeiro e o que não é.

Não faltam cenas que explicitam esta dicotomia. O filme já começa assim: imagem se aproximando de um retrato, lentamente, música emocionante tocando, câmera se aproximando.... Entra off: "Este seria o primeiro plano do meu filme...". O mais curioso é que o off surge quando – é o que diz quem estava na exibição - já se está envolvido com a cena. É um soco para fora da tela, como quem avisa: Viu como é fácil te emocionar? As autocríticas e auto-ironias continuam. Há a cena da folha caindo na piscina em sucessivos planos e o narrador entregando que por ali, provavelmente, havia uma mão ajudando o suposto vento e provocando aquele acaso. Afora, é claro, as imagens verdadeiramente constrangedoras de João dando ordens a Santiago, a ponto de o ex-empregado pedir "stop" quando o ex-chefe o pressiona demais.

- Eu tenho vergonha de muita coisa que falei no filme. Mas as coisas vergonhosas têm de estar lá para o filme valer – explica o documentarista.

Se o filme é uma "reflexão sobre o material bruto” (como é dito em um intertítulo), é também uma reflexão sobre o tempo, aquele da frase de Santiago que abre este texto, o tempo que "não tem consideração". Porque é do tempo que se vale Santiago nos seus estudos de meio século e 30 mil páginas, sobre um passado aristocrata ainda presente no relógio do seu apartamento. E, sim, é do tempo que se vale João para fazer o documentário, um tempo não muito bem perdido, mas transcorrido em 13 anos e muitas mudanças.

- Se 13 anos se passam, você tem de incorporar a passagem do tempo. Na verdade, o que deu liga para o filme foram os 13 anos que ele ficou parado. Estranho seria se eu fizesse o mesmo filme que queria realizar em 1992. O que mudou no tempo? Mudei eu.

Não precisa conhecer João a fundo para perceber que ele mudou. Basta assistir às suas obras. O que se via em sua filmografia até "Santiago" era uma crescente preocupação em depurar e aplicar à sua maneira algumas regras de documentário ensinadas por grandes cineastas e ídolos por confissão, como Jean Rouch, Robert Drew e, o seu grande mentor, Eduardo Coutinho. Em "Entreatos", seu último filme, João parece ter radicalizado na cartilha de dogmas de filmagem, daquilo que não se pode fazer em hipótese alguma enquanto a câmera roda e, mais tarde, na ilha de edição. No longa sobre a eleição de Lula em 2002, por exemplo, não havia imagens de cobertura, trilha, nada foi filmado duas vezes – tal ortodoxismo não era à toa – o diretor aprendeu com os anos que o documentário, além de tratar do objeto, deve pensar também o próprio fazer cinematográfico. Até aqui, ok, porque o que não falta a "Santiago" é preocupação com esse “pensar cinema”. Mas e quanto às outras regras? Off não era coisa do passado, de uma já ridicularizada escola inglesa de documentário, ancorada por Grieson e cia? E o que falar da trilha e das brincadeiras de edição?

- Quis fazer um filme sem ortodoxia. Quem realmente disse que não pode colocar trilha? Se acho uma música bonita, por que não posso colocar? O filme não tem imposição. Vale tudo! Acabaram as regras. Tudo o que eu tentei eliminar em "Entreatos" pus aqui. A única coisa que eu não queria era ser convencional. E isso, acho que consegui. Acho que o filme realmente apresenta alguma proposta nova.

Nova, não no sentido da espera que houve para o filme ficar pronto. Isso, o próprio Coutinho fizera no que João considera o melhor documentário brasileiro de todos os tempos, "Cabra marcado para morrer". Outros cineastas têm também esta prática, como o lituano Jonas Mekas, que deixa seus negativos "descansarem" por uma ou mais décadas para depois revisitar o material com o olhar completamente diferente da data em que registrara as imagens. O que parece ser original aqui é mais a entrega generosa da imagem de si mesmo que João oferece ao espectador. Autocrítica que faz compreender muito sobre a relação do homem com o tempo. Faz lembrar, inclusive, o que disse certa vez Mário Peixoto (“Limite”) a Walter Salles, irmão de João, em analogia ao ponteiro de um relógio, que não conta “mais um segundo, mais um segundo, e sim, menos um segundo, menos um segundo”. Walter ficou tão impressionado com a frase que, na primeira oportunidade, colou-a na tela, em "Abril despedaçado". Pois bem, Santiago, com o seu dizer dolorido – "o tempo não tem consideração" -, parece ser o Mário Peixoto de João.

- Sei que agora estou num beco sem saída. Fiz um filme diferente de tudo o que tinha feito. Mas, para o futuro, não posso fazer um outro “Santiago”. Não posso repetir a fórmula. Não sei o que fazer, mas tudo bem, mudei de profissão, agora faço jornalismo – afirma João, numa fala menos irônica do que pode aparentar, em referência ao seu mais novo projeto, a "Revista Piauí".

Sentimento universal

É possível que as imagens de Santiago dançando e tocando castanholas falem mais para João do que para qualquer outra pessoa. Bem como os trejeitos, o modo de se mexer e a língua peculiar do argentino sejam compreendidos mais pelos Salles do que por qualquer outra família. De certo modo, o próprio diretor afirma isso quando diz que este é o filme em que menos se importa com a opinião das pessoas:

- É muito pessoal. Era um filme necessário. Eu precisava fazer.

Sim, é de se compreender a posição do cineasta. Ele se expõe, abre seu lar de toda infância e adolescência (João saiu da casa no começo dos seus 20 anos) e fala muito do dia-a-dia da sua família. Mas o ambíguo é que, ao se expor, João, talvez menos racionalmente do que possa imaginar, acaba jogando luz sobre um sentimento universal: mais uma vez, o medo da finitude. No filme, João faz analogia entre uma cena de Fred Astaire e Cyd Charisse dançando fortuitamente (de modo “lindo e gratuito”) após uma caminhada, em “A Roda da Fortuna”, e a nova fase da sua vida ao sair da “Casa da Gávea”. “Lindo e gratuito” parece ser a resposta mais adequada contra um tempo que passa sempre e continuamente. “Santiago” é profundo e poético em vários aspectos e de diferentes maneiras, mas aparenta guardar em si uma função central: a tentativa do diretor de compreender, de fazer as pazes com o tempo. Na prova maior de que olhar para trás vale a pena, o documentário é refeito por um novo viés, uma observação póstuma, que espera os planos correrem até onde a imagem escapou, até onde a fala terminou e, finalmente, sem as ordens de João, Santiago pôde relaxar: as expressões mais naturais do mordomo pulam à tela justamente no final de cada take, quando a entrevista havia sido encerrada. No filme, João justifica-se, desnecessária (uma vez que aquilo já estava claro na tela) porém compreensivelmente (tudo ali é muito pessoal), com uma frase do cineasta Werner Herzog: “O mais bonito é o que acontece depois de o plano terminar”.

***

É difícil julgar, porque o plano sempre termina, por mais que ele se prolongue, alguma hora alguém aperta o botão e a câmera pára. Nestes momentos, o que fica à memória é um Santiago que não era só empregado, um João que não era só patrão, num exercício de imaginação que transcende a tela e sugere – depois de 13 anos do encontro e com o filme montado – uma reflexão: na relação de João e Santiago, ao menos, o tempo teve consideração.

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Helena Aragão
 

Bonito texto sobre o que parece ser um bonito filme. Duas coisas me intrigaram: a primeira é que não ficou muito claro para mim o porquê de ele não ter acabado o filme na época, já que, ao que parece, só agora ele teve a dimensão de sua intervenção nas falas do personagem. A outra é a questão de lançar ou não o filme. Respeito todos argumentos, se eles forem verdade: não lançar porque o João se expõe demais, porque expõe o Santiago demais, porque expõe a família demais (a matéria poderia se chamar "O mea-culpa de João Moreira Salles", e acho que a pessoa tem que ser muito corajosa para fazer esse mea-culpa). Agora, não lançar por ter dúvidas se alguém se interessaria... Sei não. Acho uma decisão injusta com quem acompanha seus trabalhos, quem acha que o cinema é universal e - agora - quem leu essa matéria e ficou morrendo de vontade de ver o filme. :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 10/12/2006 17:45
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Saulo Frauches
 


Terminei de ler com vontade de filmar meio mundo e guardar tudo por 10 anos hehehe

(calma, eu entendi que o filme não se resume a isso)

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 11/12/2006 12:22
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Daniel Cariello
 

"...e lhe falta certeza para afirmar se mais alguém se interessaria pela história..."

Eu me interessei. E muito. Excelente texto, Thiago.

Daniel Cariello · Brasília, DF 13/12/2006 13:57
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dudavalle
 

"Para mim, cada vez mais, um documentário é sobre o encontro de duas pessoas. De quem documenta e de quem é documentado."
As vezes os desencontros são tão elucidativos

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 13/12/2006 15:21
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Natacha Maranhão
 

Muito bom o texto, Thiago. Fiquei muito interessada em ver o filme agora...em conhecer o Santiago.

Natacha Maranhão · Teresina, PI 13/12/2006 15:33
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Roberto Maxwell
 

Thiago, foi o melhor texto sobre um filme que eu li no Overmundo. Um dos melhores que eu li na minha vida. Parabens pelo olhar generoso e pelo texto excelente. Espero que o Joao lance, sim, o Santiago. O que nos interessa nao eh a historia, eh a forma de ela ser contada.

Roberto Maxwell · Japão , WW 13/12/2006 18:22
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Fábio Fernandes
 

Excelente texto, Thiago. Fecho com o Roberto: foi um dos melhores que já li aqui no Overmundo. Lança uma nova luz sobre a questão biográfica no documentário - questão que até hoje se discute na antropologia, mesmo depois que Jean Rouch mostrou na prática que é impossível o documentarista não se "contaminar" pelo que está filmando e vice-versa. Aliás, para quem não viu ainda, recomendo Passaporte Húngaro, da Sandra Kogut. Um dos extras - um documentário curta que ela filmou na Europa Central e - levanta essa questão de maneira primorosa, e com bom humor, o que é fundamental.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 14/12/2006 18:02
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Thiago Camelo
 

Olá gente. Obrigado pelos elogios. Fico sinceramente envaidecido pelas palavras de gente que gosto tanto de ler e com as quais já aprendi muito por aqui. Abraços!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/12/2006 18:30
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Felipe Vaz
 

mais do que expor alguém o que fica exposto é o fazer documentários - me parece imprescindível exibi-lo, um documentário-verdade. :)

que tal se ele lançasse o filme no Overmundo? só o veria quem realmente quisesse - e o texto espetacular que você fez já desfaz qualquer possível mal-entendido...

Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 14/12/2006 21:12
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Ilhandarilha
 

Se filme for tão envolvente quanto seu artigo, valerá a pena garimpá-lo no cinema ou nas locadoras (se for lançado!).

Ilhandarilha · Vitória, ES 14/12/2006 23:38
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Claudiocareca
 

Parabéns Thiago!!! Maravilhoso o texto. Acho q todo o filme, documentário ou não, tem um tempo de maturação. Como canta o Gil "abacateiro acataremos teu ato...enquanto o tempo não trouxer teu abacate amanhã será tomate, anoitecer será melão". (acho q a letra é mais ou menos assim, o memória esfumaçada...)
Obrigado Thiago por nos ajudar a refletir sobre este fazer documental. É sempre um prazer lê-lo e refletir contigo.
Um grande abraço.

Claudiocareca · Cuiabá, MT 15/12/2006 12:59
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Alexandre Inagaki
 

Muitos versos que escrevo só verão a luz do dia daqui a alguns anos, exatamente porque penso como Jonas Mekas. Há coisas que me soam como vinho agora; mas só a maturação do tempo me dirá se na verdade não passavam de vinagre. Que assim seja com as imagens registradas por João Moreira Salles.

Alexandre Inagaki · São Paulo, SP 16/12/2006 12:18
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Alexandre Inagaki
 

Ops, comentário mal finalizado: que as imagens de Salles envelheçam bem como as melhores safras de vinho, e o documentário sobre Santiago possa estar à disposição de qualquer cinéfilo incitado por este ótimo artigo. :)

Alexandre Inagaki · São Paulo, SP 16/12/2006 12:19
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Ana Cullen
 

Fan-tás-ti-co!!! Me trouxe algumas reflexões que nunca haviam me passado pela mente, inclusive fazendo conexões com algumas teorias mais recentes da história...
Tou com o Fábio e o Roberto: é um dos melhores textos que já lí no Overmundo.
Escreva mais textos sobre cinema!
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 18/12/2006 16:21
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Thiago Camelo
 

Oi Ana! Obrigado :) Pretendo escrever mais sobre cinema sim... Uma coisa - vc teria como explicar estas conexões entre o filme e as teorias mais recentes da história. Fiquei curiosão.... Abraços!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 18/12/2006 16:44
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Ana Cullen
 

Hummm, é meio o que está acontecendo com vários campos do conhecimento, deixa-se de acreditar numa pré-existência de observador e objeto a priori e começa-se a pensar mais sobre o olhar; no estudo da história a gente costuma dizer que não há como relatar, apreender os fatos tal como ocorreram, não há o fato histórico em sí pronto para ser resgatado, o que fazemos é ler leituras sobre acontecimentos, são versões da história, são verdades... não há mais a busca por A verdade. Achei interessante ver no seu texto que o João Moreira Salles teve um processo de perceber que o documentário não vai alcançar essa verdade também, vai ser sempre uma das visões possíveis...
É mais ou menos isso Thiago, mas tem muita coisa bacana nas novas teorias da História, nem tão novas assim, esse movimento tá acontecendo desde a década de 60... eu sei que na geografia, na teoria literária, na sociologia e na antropologia também está ocorrendo esse movimento.
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 19/12/2006 12:15
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Roberto Maxwell
 

Inclusive, Ana, o documentario passa por essa discussao ha um bom tempo. E o JMS passou por um outro filme que vai ao outro lado da moeda, que eh o ENTREATOS. Nao que ele nao saiba que essA verdade nao possa ser "encontrada". Mas, tipo, ele estava buscando, creio, a forma de encontrar essa verdade particular, a dele, no fazer cinematografico. Por isso que eu nao consigo ver a diferenca entre ficcao e documentario mais. Para mim, essa barreira nao existe. O que existem sao formas de contar as historias.

Roberto Maxwell · Japão , WW 19/12/2006 13:04
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Thiago Camelo
 

Ei Ana, ei Roberto. Ana, entendi melhor agora a que teorias vc se refere. Na verdade, é uma corrente contra "verdades absolutas" que tocou todas as academias e artistas no mundo, né? Sobre cinema, que é um pouco mais minha praia, Roberto, posso especular que esse tipo de relativização começou já com o considerado primeiro documentarista - Robert Flaherty e o seu Nanook . Isso tudo já na década de 20. O primeiro (ou um dos primeiros, não me lembro) plano de Nanook é o esquimó olhando em direção a lente da câmera (uma das regras nº1 daquilo que não se deve fazer num documentário com pretensões de captar a "verdade"). Acho isso muito pontual sobre como, desde sempre, esse tipo de discussão ocorre no fazer documental. Tem um livro ótimo e fácil de achar lançado há pouco tempo que fala muito de todas essas questões - Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário. É isso :) Abração!!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 19/12/2006 14:04
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Fábio Fernandes
 

É por aí, Thiago. Na verdade, várias das cenas do documentário do Flaherty foram reencenadas por Nanook e os membros de sua tribo simplesmente porque em algum momento Flaherty não conseguiu pegar a cena. Não quer dizer que eles não fizessem aquilo que era filmado regularmente fora do alcance da câmera, mas é como diz o famoso postulado de Heisenberg: "o olhar do observador altera o observado". Ele se referia a partículas subatômicas, mas é a mesmíssima coisa entre nosostros humanos.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 19/12/2006 18:28
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Thiago Camelo
 

Fábio, o caso do Nanook é ainda mais incrível. O Flaherty, na verdade, filmou o documentário inteiro mas, ao voltar pra casa, fumando um cigarro queimou todos os negativos. Teve de voltar ao Alasca para refazer o filme. Chegando lá, Nanook (o esquimó) não vivia mais de pesca, não vivia mais em iglu, não fazia mais um monte de coisa. A maioria do filme foi encenado com Nanook representando, na verdade, o que ele fora naqueles negativos queimados. Adoro essa história :) Abraços!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 19/12/2006 18:37
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Roberto Maxwell
 

No caso do Nanook, a versao final foi toda representada mesmo, atuada. O interessante eh que, somente anos mais tarde, eh que essas questoes foram rediscutidas. De certa forma, o JMS fez de Santiago o seu Nanook. E eu ainda acho que nos documentaristas fazemos um Nanook a cada filma. No entanto, se nao ordenamos os planos aos nossos entrevistados, fazemos deles Nanook na entrevista, na escolha dos planos e, principalmente, na montagem. Mas, por incrivel que pareca, ainda ha artistas que falam em imparcialidade e tal. A discussao, na minha opiniao, eh etica e estetica, nao verdade ou parcialidade. Nisso, o JMS eh muito feliz pq ele conhece a teoria do documentario.

Roberto Maxwell · Japão , WW 19/12/2006 21:18
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Fábio Fernandes
 

Exatamente, Thiago e Roberto. Objetividade é uma coisa que colocaram na nossa cabeça. ;-)
Tudo é subjetivo - ainda mais numa mídia onde você vê o mundo através de uma lente, vale dizer, um buraco, um furo que foca em um ponto e isola todo o resto. Só isto (nos dizem à exaustão na faculdade e eu aos meus alunos de Roteiro) já constitui a subjetividade.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 20/12/2006 07:53
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Thiago Camelo
 

Legal. O filme vai passar no festival É Tudo Verdade, no dia 30/03 - 20h30 (CCBB) e no dia 25/03 - 15h30 (ODEON).

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 15:38
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Thiago Camelo
 

Uma crítica muito interessante sobre o filme - http://www.revistacinetica.com.br/sallespahn.htm

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2007 20:22
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Andréa Cals
 

OI, thiago. Já se passou muito tempo depois que vc escreveu esse texto, mas não pude deixar de comentar. Eu assisti a Santiago no Festival É tudo verdade, há um mês atrás e fiquei impressionada com a coragem do Joãoo. Tudo bem que eu tenho uma puta admiração por ele, mas achei que esse filme foi duca.

Andréa Cals · Rio de Janeiro, RJ 6/6/2007 00:08
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DaniCast
 

Magnífico texto, o filme é mesmo maravilhoso. Você escreveu um texto à altura do filme.

DaniCast · São Paulo, SP 5/7/2007 16:49
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Lanne
 

A vida é uma grande decepçao.Thiago seu texto é a exata percepçao que tive do filme, voce tirou as palavras da minha
boca, ou melhor, do meu coraçao.
Sai da sala de cinema com um sentimento incomodo, um sentimento de que algo nao havia
terminado, eu queria conhecer Santiago, eu queria ter podido estar com ele em
seu pequeno apto no Leblon ouvindo suas historias por horas, dias, ano; eu queria
ter podido dividir uma xicara de chá das 5 na mais perfeita representaçao
da nobreza de um cerebro cativante e ativo...eu nao pude. Eu nao conheci Santiago.
Eu somente presenciei uma co-direçao bruta da Marcia Ramalho que conduziu o personagem
com sua sensibilidade de um mamute.Joao se expos sim, isto é admiravel vá lá. No final
eu o agradeço, agradeço por me apresentar, nem que seja como coadjuvante de sua propria
historia, um ser humano lindo, inteligente, cativante que mesmo despedaçado por uma ediçao
de imagens,conseguiu se fazer existir.
Eu confesso: me apaixonei por Santiago, nao o do filme e sim o Santiago que
eu mesma criei para mim e que hoje faz parte de minha memoria.

Lanne · Gramado, RS 22/10/2007 19:08
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Lanne
 

Thiago seu texto é a exata percepçao que tive do filme, voce tirou as palavras da minha boca, ou melhor, do meu coraçao.Sai da sala de cinema com um sentimento incomodo, um sentimento de que algo nao havia terminado, eu queria conhecer Santiago, eu queria ter podido estar com ele em seu pequeno apto no Leblon ouvindo suas historias por horas, dias, ano; eu queriater podido dividir uma xicara de chá das 5 na mais perfeita representaçao da nobreza de um cerebro cativante e ativo...eu nao pude. Eu nao conheci Santiago.Eu somente presenciei uma co-direçao bruta da Marcia Ramalho que conduziu o personagem com sua sensibilidade de um mamute.Joao se expos sim, isto é admiravel vá lá. No final eu o agradeço, agradeço por me apresentar, nem que seja como coadjuvante de sua propria historia, um ser humano lindo, inteligente, cativante que mesmo despedaçado por uma ediçao de imagens,conseguiu se fazer existir.Eu confesso: me apaixonei por Santiago, nao o do filme e sim o Santiago que eu mesma criei para mim e que hoje f parte de minha memoria.
A vida é uma grande decepçao.

Lanne · Gramado, RS 22/10/2007 19:12
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Gyothobat
 

Thiago, seu texto só me acrescentou em emoção aquilo que o filme já havia me passado. Foi um dos documentários mais bonitos que já assiti e o João é um mestre da sensibilidade para este gênero. E soube reconhecer que a sua resistência a se expor pelo filme seria totalmente compensada pela revelação da extraordinária grandeza e beleza de Santiago. Aliás o que torna o filme verdadeiramente especial é este desnudamento mútuo do documentarista e do documentado.

Gyothobat · Brasília, DF 3/7/2008 19:16
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milu leite
 

Thiago, chego atrasadíssima a essa discussão, mas não posso deixar de opinar. †eu texto é impecável... não vou falar mais nada sobre ele, mas quero colocar uma questão sobre o filme. entendo que joão tenha precisado fazer esse filme, que seja um modo de expor sua relação de patrão até mesmo quando tentava se colocar apenas como um diretor. o que eu me pergunto é: por que, passados 13 anos e tendo a chance de montar um filme que mostrasse essa relação desigual e ainda a riqueza de um personagem como Santiago, ele optou apenas por mostrar a desigualdade, deixando de lado tantas outras horas de Santiago se expondo? quem vê o filme se ressente justamente disso; falta Santiago.
parabéns pela excelente crítica.
abraço

milu leite · Florianópolis, SC 4/7/2008 14:53
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Thiago Camelo
 

Oi Gyithobat, oi Milu, tudo bem? Obrigado pelos comentários :)

Milu, já linkei uma crítica aqui, mas vale a pena linkar de novo. Este texto - http://www.revistacinetica.com.br/sallespahn.htm - divide a mesma opinião que vc tem sobre o filme. E é bom que seja assim, né? Várias visões. Um abraço!!!!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 4/7/2008 16:53
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Alê Coelho
 

Thiago, lendo seu texto fiquei com vontade de assistir ao filme. Já procurei em diversos lugares mas não o encontro, você tem alguma dica de onde alugá-lo aqui em SP capital? parabéns pelo excelente texto!

Alê Coelho · São Paulo, SP 7/2/2009 15:35
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Selma Weissmann
 

Excelente texto sobre belíssimo filme.

Selma Weissmann · Belo Horizonte, MG 3/8/2009 17:52
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LizThompson
 

Eu conheci Santiago,
eu também sou argentina e tive o prazer de conhece-lo, é mais minha mãe de alguma forma tem um nexo nesta historia.. ela ensinou yoga ao seu pai e conheceu Santiago
comigo a historia vai além.. pois ele veio à Italia conhecer sua familia, por mim encontrada.. mas na realidade .. não era sua familia
Elizabeth

LizThompson · Rio de Janeiro, RJ 16/5/2010 13:45
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Rogéro Floripa
 

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Rogéro Floripa · Apiacás, MT 8/3/2013 10:28
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