O fim do drible ou o fim do mundo? [1]

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Júlio Canuto · São Paulo, SP
8/4/2007 · 113 · 5
 

ao Beto Tristão (palmeirense), Dri Azevedo (corintiana),
Jão (santista), Léo (tricolor) e Kuraudo (japonês!).


“O intelectual brasileiro que ignora o futebol é um alienado de babar na gravata”(Nelson Rodrigues. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. p.134)

Época estranha esta que estamos vivendo, não? Ou você já havia se imaginado discutindo nossa provável extinção por conta da destruição da natureza, em todos os sentidos? Nem os autores dos desenhos animados nem dos filmes que eu assistia na infância eram tão catastróficos. Mesmo na ficção geralmente achava-se o culpado (sempre único), e a humanidade – incluindo eu – podia respirar aliviada. Agora não, além da ameaça ser real, são seis bilhões de culpados – incluindo eu, mais uma vez.

Não me sentia tão culpado assim desde o dia 27 de março de 1993, quando entrei no Morumbi para ver o São Paulo Futebol Clube jogar contra o Maradona – claro, acompanhado de outros dez jogadores do Sevilha. Lembro que meu tio Miguel, um palmeirense que por volta de 2003 revelou ter visto o Di Stefano como eu vira o Maradona, me levou para assistir o amistoso. O São Paulo F.C., sob o comando do mestre Tele Santana, havia se consagrado campeão mundial pela primeira vez em 1992, e aquele era o melhor time do tricolor que até hoje (2007) eu vi jogar. Está claro: fui ver o São Paulo e o Maradona.

Acontece que quando o craque argentino entrou em campo saudando o público, eu – novamente eu! – berrava que a mãe dele era como uma dessas senhoritas que passam a noite na Rua Augusta, aqui em Sampa, convidando os rapazes a entrar em animados bares ali localizados (como pude verificar pessoalmente alguns anos depois). Meu tio, sensato, apenas aplaudiu o craque.

Juro que não era minha intenção xinga-lo. Acontece que, como bem observou Nelson Rodrigues (um profeta, como se verá adiante):

“o sujeito vai para a arquibancada, que além de ser a pátria do palavrão é uma pátria da piada, uma pátria das graças que vêm das profundezas de nosso querido povo. A pessoa fica criando, inventando até palavrões”. [2]

E ainda segundo o mesmo, sem a pornografia e o palavrão, não há a concretização plena do jogo. Ou seja, aquela era minha pátria, mas a situação era bastante desconfortável.

Mesmo xingando, queria ver uma jogada genial do craque argentino. Como as que eu tinha visto aos oito anos na Copa do Mundo de 1986. Seu toque de bola estava perfeito, só faltava o drible. E eis que de repente, não se sabe de onde, a bola sobra rolando lentamente próximo ao meio campo. Momento quase silencioso, onde ouvíamos apenas os batimentos cardíacos dos atletas: o craque argentino correndo de peito erguido e no momento em que ele estava a um milímetro da bola chegou, antes, num carrinho cortador de grama e expectativas, o meio-campista tricolor Pintado, ¼ de milésimo de segundo antes que Maradona conseguisse tocar a bola e dar-lhe um drible desconcertante. Foi o único momento desde a criação do Universo que torci contra o tricolor – que na ocasião ganhou por 2 x 1. Pintado matou o drible de forma limpa, providencial, com o bico da chuteira. Não estivesse ele com um número a mais no seu calçado e não teria alcançado a bola, e hoje seria um mero coadjuvante do lance. Sei dos detalhes porque estava na numerada inferior, próximo ao escudo do tricolor, rente ao gramado, praticamente cara-a-cara com os jogadores, quase disputando o lance.

Acontece que atualmente estão matando o drible ainda fora do campo. É só assistir a qualquer programa sobre futebol que o assunto vem à tona. Trata-se da maior contradição da História: o drible agora é o anti-jogo e já existem infinitas categorias para ele, com variadas penalidades para quem comete este novo crime hediondo. Dizem que só terá chance de absolvição quem o fizer com a finalidade comprovada de concluir para o gol. E quem ousar aplaudir a jogada-crime ou soltar o irresistível oooooolllééé!!! será preso, enquadrado na lei antiterrorismo e torturado com sessões intermináveis dos campeonatos português, alemão, inglês e japonês, bem ao estilo Stanley Kubrick no clássico Laranja Mecânica – claro, sem nenhuma referência ao escrete holandês. Está lá no Código Penal e todos estão empenhados em punir (exceto os gandulas, ainda subversivos): zagueiros, juízes, bandeirinhas, treinadores, torcedores, pipoqueiros, cambistas, policiais, cronistas etc, etc. Os cronistas principalmente. Recorro novamente ao profeta Nelson Rodrigues, em crônica de 1966:

“Amigos, há na Divina Comédia, um lapso indesculpável. É que no inferno dantesco não aparece um único e escasso cronista esportivo. (...) Mas se Dante o esqueceu, só nos resta esperar que o rapa ou a carrocinha de cachorros o lace na rua”. [3]

E mais:

“Estamos ameaçados por uma burrice (...) a burrice dos que querem que o jogador patrício jogue de quatro e também relinche com sotaque. (...) Pois há uma ‘gang’ de bobos querendo que o craque brasileiro troque a arte pelo relincho, o engenho pelo mugido, a beleza pelo coice”. [4]

Arrisco-me a dizer que nos dias atuais vivemos um aquecimento global e totalitário. O clima esquenta no globo e também no gramado e nas salas de imprensa se alguém tenta um drible, um mísero drible.

É a ânsia da produtividade, da meta, da massificação e do pensamento único que substituirá o espetáculo pela “docilidade de focas amestradas”, em detrimento da originalidade, da criatividade e das dessemelhanças. E “no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais – será a morte do próprio homem”. [5]

O fim do drible é o fim do mundo!

Notas:
[1] Todas as citações foram retiradas de MARQUES, José Carlos. O futebol em Nélson Rodrigues: o óbvio ululante, o Sobrenatural de Almeida e outros temas. São Paulo: Educ/Fapesp, 2003. Nas notas seguintes faço referência as obras de Nélson Rodrigues para facilitar eventuais consultas.
[2] RODRIGUES, Nélson. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. (Ruy Castro, org.). São Paulo, Companhia das Letras, 1993, p.17
[3] RODRIGUES, Nélson. Jornal dos Sports, 17/05/1966.
[4] Idem, 01/08/1966
[5] RODRIGUES, Nélson. A pátria em chuteiras: novas crônicas de futebol. (Ruy Castro, org.). São Paulo, 1994, p.130

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Julz Reb
 

Júlio, não sou fã e nem sei jogar futebol, mas li seu texto com prazer. Tem sido difícil (infelizmente) encontrar um texto no Overblog estruturado com as devidas referências e delimintando claramente a opinião (ou mesmo as especulações) do autor!
Fez meu dia!
Abs.

Julz Reb · Canadá , WW 7/4/2007 01:35
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Júlio Canuto
 

Valeu Julz Reb!

Júlio Canuto · São Paulo, SP 7/4/2007 19:47
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Adroaldo Bauer
 

O fim do drible é o fim do mundo, com a certeza dos preclaros.
Aqui em casa, só porque assisto o futebol do campeonato do meu estado, a copa do Brasil, o Brasileirão, a copa América (ou sulamericana, sei lá) o campeonato italiano, agora com a juve na segunda divisão, o campeonato inglês, um dois, três, o campeonato alemão, com certeza absoluta o Espanhol, onde estão os melhores dribladores brasileiros, fazendo a diferença, e o francês, com Juninho Pernambucano arrebentando rumo ao hexa, e também o alemão, agora com ?Diego elevando a bola pro Naldo por sobre o Lúcio e o Juan, fico sendo chamado de doido varrido, de fanático.
É que elas, sempre elas, que torcem pros das pernas bonitas, mesmo quando o leão não tá mais de calção (me perdoem as overminas, mas é que é verdade aqui neste meu cantinho), é que elas, dizia eu, não se dão conta que estou justo à cata do drible e, como fui goleiro - mesmo que de futebol de salão, com lambretinha e tudo - pelas defesas magistrais de pênaltis e vôos impossíveis de homens pássaros em busca quiçá da lua no rabo de um foguete do meio da rua.
Sem o drible, é o fim do mundo.
Então, pro mundo não se acabar de vez, vejo todos os jogos que consiga pra isso não acontecer antes do prazo fatal (que não há, com certeza, mas virá para alguns).
E muito antes, se alguém chegou até aqui, peço a gentileza de visitarem a Economia da Cadeia Produtiva do Livro e, se gostarem, votar pra que fique no Banco de Cultura para as consultas de quem se interessar.
Agradecido pelas boas lembranças de Nélson da Pátria de Chuteiras Rodrigues.
É óbvio que vejo também as seleções sub17, sub21 e a dos di maior de idade comercial, dos vovôs, de futsal e de areia.
Fico um tanto cansado, mas vale.
Só não concorda com as mulheres aqui da casa falando de que sou um louco por futebol: O Campeonato da Arábia Saudita eu não assisto (será que passa em algum canal?)

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 8/4/2007 11:04
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FILIPE MAMEDE
 

O estádio sempre foi um cenário, uma verdadeira representação da vida humana, lugar onde as tragédias do dia-dia do povo eram metáforas; o drilble, o gol... o drible nada mais era do que a sabedoria, a pujança do povo...sem o drible, o povo cai de costas... quanto ao texto, muito bacana. Vida longa ao drible (quando eu era pequeno falava "dibre")

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 9/4/2007 10:21
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Júlio Canuto
 

Pô Adroaldo... acho que não passa campeonato da Arábia Saudita..rs
mas essas "defesas magistrais de pênaltis e vôos impossíveis de homens pássaros em busca quiçá da lua no rabo de um foguete do meio da rua" me fez levantar da cadeira e soltar o uuuuuuuuuuhhhhhhhhh!!!!!!! rs.

Valeu pelo comentário! vou ler a economia da cadeia produtiva do livro.
ah... e perdoe as mulheres. se elas tivessem mesma visão do futebol como nós temos, as discussões em casa seriam mais frequentes...rs
(fazendo justiça: conheço algumas que entendem bastante!!!!)

Júlio Canuto · São Paulo, SP 10/4/2007 12:09
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